“A aprendizagem da leitura é uma aprendizagem como as outras: aprendemos a falar porque vivemos com pessoas que falam, porque temos coisas para dizer, porque falam connosco; aprendemos a ler porque estamos rodeados de pessoas que lêem, porque temos necessidade de ler para viver.” (Traça, 1992:120)
Armindo Mesquita (2006:18) também refere o facto de vivermos numa sociedade que todos os dias necessita de comunicar com os outros e com ele próprio, por isso, deve-se formar leitores desde pequeninos.
A criança deve de estar em contacto com os livros e com a boa leitura o mais cedo possível para que possa adquirir o gosto e o hábito de ler. A leitura em relação à criança “…também contribui para despertar a valorização exacta das coisas, para desenvolver as suas potencialidades, para estimular a sua curiosidade, para se inquietar por tudo o que é novo, para ampliar os seus horizontes e para crescer, isto é, para se tornar um verdadeiro cidadão.” (Mesquita, 2006:18)
De acordo com Traça (1992:119), são os contos que podem fazer nascer, nas crianças, o gosto pela leitura. Estes podem dirigir-se a “todos os níveis da personalidade humana” transmitindo mensagens e valores a todas as pessoas de várias faixas etárias sendo esta a novidade desta utilização pedagógica, ou seja, o conto passou também a ser interessante para jovens e adultos e não só para crianças de sete anos.
A mesma autora (1992:120) menciona, ainda, que o conto deve ser divertido para que a criança preste uma completa atenção no mesmo, deve também estimular a imaginação que irá, futuramente, ajudar a desenvolver a inteligência e a enriquecer a vida do ouvinte. Não esqueçamos de referir que, atualmente, quem sabe ler e escrever tem “acesso a um estatuto socialmente reconhecido; vejam-se os países onde quem não sabe ler nem escrever não tem direito ao voto.” (Traça, 1992:121).
Segundo Traça (1992:121), Bettelheim refere que o facto de os contos terem sido repetidos durante séculos, ajudou a que estes ficassem mais apurados ao nível das significações aparentes e ocultas, no entanto, diz também que o conteúdo destes livros é demasiado simples e irrealista, as frases dos textos são demasiado simples, o que leva a que a criança não se esforce mentalmente e “empobreça” o seu vocabulário. É, então,
necessário, que a criança tenha acesso a textos interessantes e não simplistas, que podem ser textos aproximados à vida real ou textos completamente imaginários. Assim, deve existir sempre, manuais com a intenção de ensinar a ler e não com passatempos divertidos.
1.5. Dimensão lúdica e pedagógica dos contos
Traça (1998:113) refere que “as crianças criadas sem canções, sem contos, sem poesia, são crianças espiritualmente mais pobres do que as outras.”. Para Armindo Mesquita (2010: s/p), os contos são um meio de transmissão de saber que vai passando de umas gerações para outras. No entanto, Traça (1992:114) diz que antropólogos e os folcloristas foram salvando alguns dos contos que atualmente devemos dar a conhecer às crianças, mas mesmo assim, hoje em dia, estes pequenos ouvintes não conhecem a maior parte das narrativas, das histórias que encantavam os nossos pais e avós.
É através do conto que a que existe um desenvolvimento da imaginação, este contém um fator muito relevante no desenvolvimento da criança, pois através da fantasia, a criança ou mesmo o adulto, pode adquirir um maior conhecimento dos seus próprios processos psíquicos que por sua vez aumenta a capacidade de captação do mundo à sua volta. Traça (1998: 116)
Para vislumbrar o valor pedagógico dos contos, segundo Mesquita (s/d: s/p), na história Os três porquinhos, existe uma lição transmitida à criança de “… que não devemos ser preguiçosos, nem tomar as coisas irreflectidamente, erro que nos pode levar a perder a própria vida. Uma previsão inteligente e de precaução, ligada a um árduo trabalho, permitir-nos-á vencer até o nosso pior inimigo, neste caso, o lobo”. Se a criança tiver em atenção os valores e os conhecimentos, que pode tirar de um conto, de uma história, saberá, posteriormente, utilizá-los na sua vida real.
Muito antes de a criança começar a aprender a ler, existe uma iniciação literária através da mediação oral que está presente nos contos. Como refere Traça (1992:117)
quer a temática dos contos, quer o carácter repetitivo das suas estruturas lógicas, quer os seus motivos específicos contribuem para instalar nas crianças um horizonte de espera perante os textos que as transformará mais tarde em leitores capazes de se interessar pela literatura tradicional e de se adaptar às modificações que a renovam.
Mas é necessário que se conte histórias, bem contadas, com boas condições, para que os ouvintes se tornem uns bons leitores. É por isso necessário que o conto seja contado em viva voz, que tenha
…uma fonética específica, determinadas expressões idiomáticas, unidades supra-segmentais que fazem referência directa ao mundo afectivo do narrador e dos ouvintes, uma segunda linguagem mímica que completa o que se diz com as palavras. O conto narrado por uma pessoa que pertence ao círculo cultural e que ocupa um determinado papel nessa unidade familiar de que também faz parte o auditório, constituí uma experiencia única e irrepetível, primordialmente socializadora.” Traça (1992:114)
No entanto, existem problemas referentes à utilização dos contos numa pedagogia escolar, isto devido ao facto de estarem ligados a uma sociedade tradicional e a uma cultura oral. Para além disso, os contos são considerados por muitos, “uma literatura infantil e infantilizante, encerrariam a criança num mundo à parte, seriam excessivamente optimistas dando uma visão “cor-de-rosa” do mundo, incitariam à passividade, encerrariam demasiadas referências a uma sociedade feudal, inspirariam nos seus leitores uma atitude conformista e reaccionária…” Traça (1992:117).
Assim, torna-se importante argumentar que se, por vezes, os contos são demasiados infantilizantes, dever-se-á ao facto de serem transmitidas versões demasiado infantis, e deve-se também ao desinteresse dos próprios adultos ao transmitirem às crianças por só conhecerem estas versões, é importante que os professores conheçam variadas versões de um mesmo conto, escolhendo sempre os mais cativantes.
Um outro problema que Traça (1992:117) refere, é o facto de os contos apenas se modificarem quando transmitidos oralmente, adaptando-se às situações, e não quando são escritos.
2. Os contadores de histórias
2.1. Origem dos contadores de histórias
“O contador de histórias surgiu da necessidade de perpetuar o imaginário individual ou coletivo e, nesse contexto desempenhou um papel especial. Ele é a ponte que liga o mundo de fora ao mundo de dentro.” (Busatto, s/d: s/p)
A informação existente sobre o surgimento da arte de contar histórias é bastante diminuta, mas do pouco que há, podemos afirmar que esta arte “… recebeu a influência cultural de diversos povos que relatavam os episódios de seu cotidiano ou que idealizavam narrativas que simplesmente desafiavam o imaginário e a criatividade de seus ouvintes, causando admiração, interesse e muita comoção.” (Busatto, s/d: s/p).
Segundo Sueli do Nascimento (2011:166), contar histórias é uma arte que já existe há muitos e muitos anos, é uma arte milenar. O homem sempre contou histórias. Antigamente era em volta de uma fogueira, onde as pessoas se reuniam ouvindo os mais velhos a partilhar aventuras, valores e conhecimentos.
Para Joseph Campbell (s/d: s/p), as pinturas rupestres são uma forma de vislumbrar que já os nossos ancestrais contavam histórias sobre o seu dia a dia e sobre o mundo sobrenatural.
De acordo com Torres e Tettamanzy (2008:2), antes de existir a escrita, os valores eram passados oralmente de geração em geração. Desta forma, povos davam muita importância à memória, pois só através desta existia a transmissão de conhecimentos.
No século XXI, o contador de histórias já aparece em “espetáculos de narração oral, performances artísticas elaboradas, com o domínio de técnicas corporais e vocais e critérios de seleção para a escolha de histórias.” (Fleck, 2007:220)
Hoje em dia, o contador de histórias é uma figura importante e presente na educação das crianças, podendo participar em feiras de livros, visitando bibliotecas e livrarias, uma posição diferente do contador de histórias no “antigamente” onde contar
“…o contador de histórias pode ser considerado contemporâneo – por propor o resgate dos contos e das fábulas, além de combiná-los aos fatos do cotidiano – e sobrevivente nesta era digital, por estar num constante processo de divisão de espaço com a tecnologia e a convergência das mídias.” (Nascimento, 2011:168)
2.2. Contadores de histórias e histórias da atualidade
Segundo Traça (1992:48), os contadores de histórias incutem a socialização e descrevem o mundo à criança.
De acordo com a mesma autora (1992:133), “Um contador não é só o que transmite os contos, é antes de mais o que os encontra, que é fulminado pela inspiração por um incidente sem significado para os outros, o que é capaz de transformar em epopeia a mínima aventura, um poeta, enfim, um homem de imaginação que não se deixa iludir pelas aparências e que não toma a realidade comum por dinheiro contado”.
A mesma autora (1992:133) refere ainda que “um bom contador, além do domínio das técnicas básicas, deveria familiarizar-se com o modo de vida de todas as classes sociais, conhecer bem os diferentes dialectos, conhecer os costumes e práticas das diversas regiões do país, recolher múltiplas informações, ser capaz de se colocar no lugar de cada uma das personagens, fossem elas homem, mulher, herói ou vilão, imitar os seus gestos, exprimir as suas emoções para levar o público a sentir-se no mundo do conto. ”
Hoje em dia, contar histórias não é algo apenas para as crianças mais pequenas. “Experiencias feitas em diversos graus de ensino provam que contar pode ser uma prática fascinante para todos.” Traça (1992:123). No entanto, apesar de ser algo para todos as idades, como já foi referido anteriormente, o contador de histórias deve conhecer o seu público muito bem, deve saber que idade tem o público, a que região pertence maioritariamente, entre outros aspetos importantes a que deve atenção.
Um bom contador de histórias deve também obedecer a algumas regras, como ter “…um bom conhecimento da história que se quer contar, um perfeito domínio das suas estruturas narrativas a fim de se tornar possível um certo grau de improvisação, real ou construída; ter o domínio do corpo e da voz, o que pressupõe uma preparação segura; ter um bom conhecimento do seu auditório.” Traça (1992:124).
De seguida, iremos fazer referências a alguns contadores de histórias ou contistas de histórias, assim como escritores e contos infantis.
Contadores de histórias portugueses:
Gonçalo Fernandes Trancoso;
António Fontinha.
Contador de histórias estrangeiro:
Machado de Assis.
Em Projecto Vercial 4, encontramos informação sobre Gonçalo Fernandes Trancoso em Armando Moreno (1988). Nasceu, por volta de 1529, em Trancoso e faleceu em 1596, sendo considerado um dos primeiros contistas portugueses. Em 1569, ficou sem a mulher, dois filhos e um neto devido à peste que surgiu em Lisboa. Foi professor de Humanidades, escreveu em 1575 Contos e Histórias de Proveito e Exemplo.
Em narração oral 5(s/d: s/p), António Fontinha, nasceu em Lisboa a 1966, vivendo em Angola até 1975. Em 1986, concluiu o primeiro ano do Curso de Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Até 1995, trabalhou como ator, mas três anos antes começou o seu percurso como contador de histórias no Centro educativo da Bela Vista, a partir daí, António Fontinha tem percorrido todo o país narrando temas de tradição oral portuguesa, para além disso, recolhe contos tradicionais que numa fase posterior são editadas.
Arnaldo Nogueira Jr (2014) refere que Joaquim Maria Machado de Assis foi um cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e, por fim, ensaísta. Nasceu em 1839, na cidade do Rio de Janeiro. Com 16 anos, publicou o seu primeiro trabalho literário “Ela”. Em 1859, começa a publicar obras românticas. Queda que as mulheres têm para os tolos é o seu primeiro livro impresso em 1861. Considerado um grande contista, em 1882 publica Papéis Avulsos, Histórias sem data em 1884, Vária Histórias em 1896, Páginas Recolhidas em 1889 e Relíquias da casa velha a 1906.
Como escritores de contos infantis falaremos, brevemente, em:
4
Projeto vercial. In http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/trancoso.htm, acedido em 26 de novembro de 2013.
5
http://narracaooral.blogspot.pt/2010/05/antonio-fontinha.html
Autores clássicos e universais como:
Charles Perrault;
Jacob e Wilhelm Grimm.
Hans Christian Andersen;
Autores portugueses clássicos e contemporâneos como:
António Torrado; Alexandre Parafita; Adolfo Coelho. Cristiene de Oliveira (2014) refere que Charles Perrault nasceu, em 1628, em Paris e faleceu com 75 anos a 1703. Além de se dedicar à literatura, foi advogado e superintendente de construções do Rei Sol Luís XIV. Com aproximadamente 50 anos, deixou o serviço ativo pela educação dos filhos, onde começou a registar as histórias de tradição oral que eram contadas. Aos 70 anos, publicou “Contos da mãe gansa”, uma coletânea de 8 histórias que falam de princesas, bruxas, fadas e que permanecem no imaginário das crianças.
Jacob e Wilhelm Grimm6 nasceram, na Alemanha, em 1785 e 1786 respetivamente. Estudaram direito, mas este foi trocado pela literatura. Foram professores numa universidade da Alemanha e são conhecidos, em todo mundo, pela grande quantidade de contos populares que obtiveram na Alemanha. Alguns dos seus contos mais conhecidos são: “Branca de Neve”, “A Cinderela”, “O Capuchinho Vermelho” e “Rapunzel”.
Hans Christian Andersen 7 passou por muitas dificuldades em criança, no entanto, aprendeu a ler desde muito cedo e foi esta infância que o inspirou nos livros que posteriormente escreveu. Entrou na Universidade de Copenhague em 1828 e em 1835 lançou ao mundo o romance O Improvisador. No entanto, foram os contos infantis que fizeram de Andersen um homem tão famoso. Lançou 6 volumes de Contos para
6
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/cinema/dossier/cinderela/grimm_biografia.h tm
crianças entre 1835 e 1842. Em 1872, chegou às 156 histórias infantis. Algumas das suas histórias mais conhecidas são: "O patinho feio", "O soldadinho de chumbo", "A pequena sereia" e "A Menina dos Fósforos".
Adolfo Coelho nasceu, em Coimbra, em 1847 e faleceu, em Carcavelos, a 1919. Frequentou o liceu de Coimbra, mas passados 2 anos abandonou os estudos. Foi professor no Curso Superior de Letras, diretor da Escola Primária Superior de Rodrigues Sampaio. Fez acreditar que a educação poderia mudar o país e combateu a dependência do ensino à religião. Algumas obras de Adolfo Coelho intitulam-se como “O trabalho manual da escola Primária”; “Os Elementos tradicionais da educação” e “Para a história da instrução popular”.8
António Torrado nasceu, em 1939, na cidade de Lisboa. Licenciou-se em Filosofia e começou a publicar livros aos 18 anos. Foi escritor, pedagogo, jornalista editor, produtor e argumentista. Hoje em dia, desempenha a função de coordenador do curso anual de Expressão Poética e Narrativa no Centro de Arte Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian, é professor da disciplina de Escrita Dramatúrgica na Escola Superior de Teatro e Cinema e é dramaturgo na Companhia de Teatro Comuna. Ultimamente, iniciou-se a trabalhar novelas e romances para a infância e para a
juventude.9
Sobre Alexandre Parafita10 e de acordo com a wikipedia, é possível dizer que é um escritor português que fez várias publicações sobre a tradição oral portuguesa e de literatura infantojuvenil. Tem obras que foram selecionadas para o Plano Nacional de Leitura: “Uma Andorinha no Alpendre”, “Branca Flor, o Príncipe e o Demónio”,
“Bruxas, feiticeiras e suas maroteiras”, “Contos ao vento com demónios dentro”, “O rei na barriga e Lobos, raposas, leões e outros figurões”, etc.
Finalmente faremos referência a alguns contos infantis que devemos ler e reler:
A Bela Adormecida, dos irmãos Grimm;
A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen;
8
http://educar.no.sapo.pt/pedagogos.htm
9
http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=23
10
A Pequena Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen;
Branca de Neve, dos irmãos Grimm;
Cinderela, dos irmãos Grimm;
O Capuchinho Vermelho, dos irmãos Grimm;
O Gato de Botas, Charles Perrault;
O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen;
O Soldadinho de Chumbo, de Hans Christian Andersen;
Os Três Porquinhos, de Joseph Jacobs;
Pinóquio, de Carlo Collodi;
O Vendedor de Sonhos, de Augusto Cury;