• Nenhum resultado encontrado

Os contratos evaporam e a classe trabalhadora se desmancha?

Capitalismo, classe trabalhadora e luta política no início do século XXI Experiências no Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e França Parte 2 Transformaçoes na estrutura socioeconômica e nos alinhamentos políticos 47

Fonte: traduzido de Davis, 2016, figura 5.1.

1983 1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Gráfico 9

Estados Unidos: evolução das famílias com posse de ações e títulos financeiros entre 1983 e 2013

(em %)

2010 2013 60

50 40 30 20 10 0

propriedade direta e indireta propriedade direta

Capitalismo, classe trabalhadora e luta política no início do século XXI Experiências no Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e França 48

construção e reforma e reparo de aparelhos e assim por diante. Evidentemente já há aplicativos para sexo e, na chamada “internet profunda”, certamente existem

“plataformas” para mercadorias e “serviços” ainda mais ousados.

Essas inovações liberam as empresas de seus laços e compromissos com a força de trabalho. E as liberam, também, de compromissos com os indivíduos enquanto cidadãos detentores de direitos – aqueles direitos que são cobertos pelo Estado e pago por impostos. As corporações se transformam em redes de contratos – e es-colhem sua nova relação com esses estados, as nações. Eses-colhem onde hospedar sua produção para gerir os custos de trabalho. Mas também onde hospedar sua

“sede jurídica” e sua emissão de notas fiscais, conforme as taxas que pesam sobre vendas, royalties, direitos de propriedade intelectual e assim por diante. Aparen-temente, ninguém questiona que a Apple, a famosa empresa “americana”, tenha de fato outra nacionalidade. Está nas Ilhas Cayman, embora sua sede, ali, meça apenas 40 x 50. Atenção não se está falando de metros, mas de 40 x 50 centíme-tros - uma caixa postal para correspondência enviada por engano.

Assim, a empresa Tyco International, tradicionalmente sediada em New Hamp-shire, Estados Unidos, “reincorporou-se” nas ilhas Bermudas nos anos 1990, ao lado de Accenture, Cooper Industries, Ingersoll-Rand e muitas outras. Aproveita-ram-se de um sistema legal projetado por empresas americanas de seguros e con-sultoria, poucas décadas antes. E “recomendado” aos senhores congressistas por equipes de lobby bem nutridas. Países foram praticamente inventados para isso.

Uma “nação” inventada, a South Pacific Island (Ilha do Sul do Pacífico), criou um setor bancário da noite para o dia, para servir de entreposto para gangsters russos, que tinham enriquecido graças aos planos de privatização piratas. Es-ses planos foram desenhados, em grande medida, por economistas de Harvard gênios que ganharam, claro, boas comissões para esse trabalho intelectual. A Libéria teve seu sistema de registro de navios criado por empresas petroleiras americanas, para evitar as leis trabalhistas americanas. Daí a Libéria “diversi-ficou” sua oferta, acolhendo sedes “legais” de diferentes corporações, como a Royal Caribbean Cruises, de fato sediada em Miami. As empresas que “mudam de nacionalidade” têm sedes legais nesses refúgios, mas continuam operando no território americano. Evidentemente, beneficiam-se da infraestrutura paga pelo contribuinte – com uma carga cada vez mais pesada sobre os trabalhadores e a classe média, menos ‘móveis’ do que o capital.

Com esse novo desenho das empresas, a classe trabalhadora fica mais difícil de ser identificada (como classe em si) e, também, de reconhecer essa nova identi-dade (como classe para si). Ou seja, fica invisível também para si mesma, não se reconhece. Por isso, alguns estudos sobre essa classe precisam constantemente recuperar até mesmo sua existência. O título de um deles é sintomático: The

Capitalismo, classe trabalhadora e luta política no início do século XXI Experiências no Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e França Parte 2 Transformaçoes na estrutura socioeconômica e nos alinhamentos políticos 49

Working Class Majority: America’s Best Kept Secret25.

Em um desses estudos, Andrew Levinson começa por mostrar que, ao contrário da imagem corrente, essa white working class tem dimensões avantajadas – nos EUA, metade dos homens brancos e 40% das mulheres ainda trabalham em em-pregos manuais (blue-collar). Os trabalhadores blue-collar, insiste Levinson, não deixaram de existir, apenas se tornaram sociologicamente invisíveis, por quatro razões. A primeira delas é que muitos deles estão dispersos em unidades meno-res do que as antigas grandes fábricas. A segunda é porque hoje operam em con-tato direto com clientes e profissionais, adquirindo costumes, modos de falar e vestir cada vez menos distinguíveis. A terceira, porque muitos são formalmente

“pequenos empreendedores” ou “contratadores independentes” — chefes de si mesmos. Por fim, a quarta é porque os bairros e regiões operários foram seve-ramente alterados por fenômenos como a imigração e a suburbanização do país

— com os centros deteriorados das grandes cidades, ocupados por multidões de uma nova “subclasse” de excluídos.

Que importância tem essa invisibilidade ou essa forma oblíqua de nomear os trabalhadores? Se o acesso a bens — grau de pobreza ou afluência — é relevante, isso quer dizer que isso se torna decisivo para dar identidade a uma classe? O trabalhadores têm carro, casa e aparelhos domésticos. Mas isso os transforma em classe média? É algo esquisito, até porque alguns desses bens são impositivos, não tem como não ter. Em alguns lugares dos Estados Unidos, é quase impossí-vel trabalhar se você não tem automóimpossí-vel. A posse de alguns aparelhos é decisiva para a alimentação – dada a quase imposição da comida congelada e conservada.

Sem falar na substituição de qualquer tipo de lazer público pelo lazer privado da telinha, válvula de escape da maioria dos americanos, várias horas por dia.

Zweig comenta, de modo lapidar, os efeitos políticos dessa identidade ocultada:

Minha insistência na identificação de uma classe trabalhadora não é um jogo de palavras. Não é apenas uma questão de semântica afirmar que os trabalhadores constituem a classe trabalhadora, não a classe média. É uma questão de poder. Para exercer o poder, você precisa saber quem você é. Você também precisa saber quem é seu adversá-rio, o alvo do conflito. Quando a classe trabalhadora desaparece den-tro da classe média, os trabalhadores perdem uma parte vital da sua identidade. Em termos políticos, sociais e culturais, não sabem mais quem eles são. Para piorar a situação, eles também perdem o sentido

25 Vale a pena ver: The white working class today, de Andrew Levison, Democratic Strate-gist Press, 2013; e The working class majority: America’s best kept secret, de Michael Zweig, Ithaca, N.Y. ILR/Cornell University Press, 2000.

Capitalismo, classe trabalhadora e luta política no início do século XXI Experiências no Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e França 50

do inimigo, assim que a classe capitalista desaparece entre “os ricos”.

À medida que a classe capitalista desaparece de vista, o alvo da luta desaparece, também. (Zweing, 2000)