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Nos debates que se travavam entre os socialistas revolucionários e as correntes reformistas européias no quarto final do século XIX, o cooperativismo era fonte de muita polêmica. Parcela desses grupos políticos de esquerda duvidava do potencial transformador das cooperativas. Apesar de seu apelo, o receio era que o cooperativismo fosse incapaz de resistir à cooptação capitalista. Com efeito, foi essa a visão que acabou predominando no seio dos partidos comunistas e dos movimentos políticos operários europeus da época. Assim, o cooperativismo passou a ser considerado importante apenas como correia de transmissão da luta proletária pelo tomada do poder (MACHADO, 2003, p. 110). Kautsky, por exemplo,

desconsiderava as cooperativas como ferramenta de transformação social, embora reconhecesse seu potencial para aumentar a escala e a produtividade agrícola. Fleury (1983) afirma que para Kautsky as cooperativas, além de se constituírem num poderoso instrumento de avanço da industrialização da agricultura, não impediam que os mais necessitados caíssem nas mãos do usurário. Oppenheimer, embora sendo um grande estudioso e praticante do cooperativismo alemão elaborou, em 1896, a “lei da transformação”:

O destino das cooperativas é o fracasso, seja através de sua bancarrota, seja do seu sucesso econômico. No caso do sucesso, os sócios fundadores “privatizarão” sucessivamente os lucros, quer dizer, a cooperativa vira uma sociedade de capital e os sócios, capitalista-coletivos. [...] Entre a bancarrota e o caminho capitalista só existem, segundo Oppenheimer, períodos de transição temporários, intermediados pela auto-exploração (STECHER, 1992, p.74).

Talvez baseado nas teses da lei da transformação é que a teoria cooperativa ganhou também pouco apelo nas ciências sociais, na chegada do século XX. Em certo sentido prevalecia a idéia de que as cooperativas viviam mesmo um dilema intrínseco a sua própria natureza, e por isso seriam sempre organizações instáveis. Como imaginava Oppenheimer, a necessidade crescente de investimentos – demanda constante para quem atua no mercado capitalista – era limitada pelo princípio cooperativista que prevê a participação igualitária nas assembléias (um sócio, um voto). Isso inibiria a capitalização das cooperativas, pois os possíveis investidores não aceitariam ter o mesmo nível de decisão dos demais associados. Além disso, o gerenciamento mais participativo retardaria as decisões estratégicas das cooperativas, o que acabaria prejudicando-as nas disputas com as empresas capitalistas.

Se no início do século passado o cooperativismo não representava uma prioridade para muitos segmentos da esquerda37 e da academia européia, por outro lado, ele acabou sendo

assumido por movimentos religiosos, que enxergaram nele uma maneira de atrair novos fiéis e dar solução às carências das populações pobres. Aliás, como se verá adiante, a criação das primeiras cooperativas de crédito no Brasil espelha bem essa postura.

2 OS DILEMAS TEÓRICOS E A DIFUSÃO DAS COOPERATIVAS NO SÉCULO XX

Embora não sendo dominantes no debate acadêmico, nas primeiras décadas do século XX reapareceram correntes procurando estabelecer uma visão teórica e ideológica ao fenômeno cooperativista. Naquele momento, formam-se basicamente duas grandes linhas: uma procurava seguir desenvolvendo a chamada “doutrina cooperativista”, e a outra passava a se preocupar com o impacto socioeconômico das cooperativas na sociedade.

37 É importante lembrar que após a Revolução Russa de 1917, Lênin procurou negociar uma aliança com as

cooperativas russas então existentes. Depois de terem sido nacionalizadas ou fechadas, em março de 1918 as cooperativas recuperaram parte de sua autonomia. Lênin desejava que elas ajudassem a combater a crise de alimentos, reconhecendo o erro que tinha sido o seu fechamento. Contudo, as cooperativas deveriam estar a serviços de todos os trabalhadores e não apenas nas mãos dos estratos médios da população, que as controlavam antes da Revolução: “Hasta ahora, el movimiento cooperativo compreendía solo a los sectores superiores y beneficiaba a aquellos que podían pagar sus cuotas” (LÊNIN, 1978, p.346). Lenin ressaltava igualmente a herança cultural que os primeiros cooperativistas deixaram na Europa. Estes se preocupavam em satisfazer as

necessidades dos trabalhadores e era essa a tarefa que as cooperativas russas deveriam assumir. Em algumas oportunidades, o autor ia mais longe e afirmava que desejava estruturar a República Soviética numa grande cooperativa de trabalhadores. Lembrava que o cooperativismo, embora estivesse se desenvolvido nos países capitalistas, era uma poderosa ferramenta para organizar a produção e o consumo. Não foi bem que se viu na URSS, anos depois.

Na primeira surgiu, por exemplo, a Escola de Nimes, coordenada por Charles Gide (1847-1932) e pela qual o fenômeno cooperativo ganhou, pela primeira vez, uma tentativa de explicação teórica global. Gide pregava que sucessivas reformas na atividade econômica desembocariam na criação da República Cooperativista, na qual os consumidores teriam primazia de iniciar o processo de transformação da sociedade. Mais tarde, Georges Fauquet contestou Gide defendendo que o cooperativismo aplicava-se apenas a determinado setor da economia. Posteriormente, Bernard Lavergne reafirmou as teses de Gide, apregoando o surgimento de uma nova ordem mundial sob bases cooperativistas (MINAS GERAIS, 1994, p.

25; BÚRIGO, 1999, p. 21). Lavergne ligou o cooperativismo ao Direito Público, defendendo a “Ordem Cooperativa” como uma terceira via, que se daria sob a hegemonia dos consumidores, se contrapondo ao coletivismo de Estado e ao capitalismo. Ernest Poisson foi quem buscou integrar as idéias de Gide com o socialismo, aliando a participação do trabalho produtivo com o papel dos consumidores. Merecem ainda destaque os trabalhos de George Lasserre, que, ao estudar as cooperativas escandinavas, viu nelas um contraponto diante dos trustes capitalistas. Contudo, mesmo com os esforços desses teóricos e de militantes cooperativistas, ao longo do século XX as linhas de pensamento criadas em torno das doutrinas cooperativistas perderam força política, principalmente como elementos norteadores de uma nova ordem mundial.

No Pós-Guerra, durante os anos de expansão da economia mundial, passaram a ganhar destaque no seio do movimento as chamadas “teorias cooperativistas”, representadas por idéias de cunho mais pragmático e inseridas na ordem capitalista vigente38. Nesse tempo, a

“utopia” cooperativista acabou sendo esquecida, reforçando a premissa de que o cooperativismo era mais uma das (tantas) variantes que o sistema capitalista cria, ou absorve, para se manter em posição hegemônica.

Enquanto linha de pensamento, as “teorias cooperativistas” não pretendia discutir as transformações sociais, como advogava a linha das doutrinas cooperativas. Era focada no conhecimento instrumental, que emergia nas escolas de Economia e de Administração, e se voltava essencialmente para o fortalecimento empresarial das cooperativas. Ganhou destaque nesse campo a Teoria de Münster, surgida na Universidade de mesmo nome. Suas concepções estão metodologicamente ancoradas no racionalismo crítico e na comprovação empírica dos

38 Na medida em que foram se disseminando, as experiências cooperativas foram objeto de diferentes tentativas

de ordená-las em tipologias, entre as quais aquela que divide as cooperativas em três ramos: consumo

(comercialização), produção e crédito. No início, essas divisões não eram muitas vezes o retrato fiel da realidade, pois a atuação das cooperativas acabava sobrepondo vários campos. Quando mais setores econômicos passaram a ser abarcados pelas organizações cooperativistas, essas divisões ficaram mais nítidas, como também

resultados, obtidos através do uso de instrumentos de controle de sucesso cooperativo. Esses controles são efetuados em termos de produtividade de suas atividades e de retorno (isento de discriminações) aos associados. Os defensores da Teoria rechaçam os princípios do cooperativismo de Rochdale, declarando que muitos deles são aplicáveis apenas em sociedades que operam em pequena escala. Discordam ainda da idéia de que através das cooperativas se pode eliminar a concorrência capitalista. Os teóricos de Münster afirmam que esse tipo de proposta (contida nos princípios) é incongruente com a realidade atual, e tem causado muitas frustrações nos cooperativistas, principalmente dos países do Terceiro Mundo (PINHO, 2004, p. 162-164, 292, 293, 301).

Mas a imagem de prevalência da esfera econômica sobre a social, que marcou a história recente do cooperativismo mundial, levou também a um lento processo de afastamento das parcelas menos capitalizadas de seu quadro social. Talvez por isso, já no quarto final do século XX, o trabalho das cooperativas de crédito foi questionado também pelos defensores dos programas de microcrédito e líderes mais radicais dos movimentos sociais, por elas não estarem alcançando “os mais pobres entre os pobres”.

Enquanto uma sociedade de pessoas, e não de capital, as organizações cooperativas não deveriam prescindir de um modelo participativo de administração. De fato, as cooperativas são um tipo particular de empresa cooperativa, pois os aspectos sociais e econômicos podem ser combinados de diferentes formas (PANZUTTI, 2001). Mas por que o

equilíbrio entre o social e o econômico não permanece em boa parte dos sistemas, principalmente depois que eles começam a ganhar maior expressão? A imagem que se cria é que a pobreza está quase sempre associada com as limitações educacionais (ou de conhecimento), o que estabelece um dilema recorrente em organizações cooperativas: como manter o controle na mão dos associados, quando estes são pessoas pobres e sem formação escolar suficiente para administrar um empreendimento, que cresce em complexidade na medida em que alcança resultados positivos? “[...] por isto é pouco comum que haja verdadeiras cooperativas que sejam propriedades exclusivamente dos pobres. Os pobres normalmente são sócios de cooperativas que são administradas por gente educada da classe média” (RUTHERFORD, 2002, p. 82, tradução nossa). Ocorre que os funcionários contratados

pelas cooperativas possuem, em vários casos, uma formação cultural muito diferente da dos associados. Geralmente carregam visão de mundo com significados, valores e motivações distintos das comunidades em que atuam. Esses contrastes, associado à falta de uma formação pedagógica adequada para atuar com os segmentos mais pobres levam as cooperativas a perder parte de sua identidade.

3 AS TRANSFORMAÇÕES DO COOPERATIVISMO BRASILEIRO

No final do século XIX, as cooperativas já eram bem conhecidas no continente europeu. No Brasil, as demonstrações formais do cooperativismo só puderam ser registradas com o advento da República, e da Lei Magna de 1891. Até então, o associativismo era tão mal visto pelas autoridades que a proibição das práticas cooperativas era oficial e estava inserida na Constituição monarquista de 1824. Com a abertura republicana, a primeira cooperativa brasileira – que era do ramo do consumo – foi organizada por empregados públicos de Ouro Preto - MG, ainda na forma de sociedade anônima (PINHO, 2004, p.18). Depois surgiram

outras cooperativas de consumo em Limeira - SP em 1891, no Rio de Janeiro - RJ em 1894, em Camaragibe - PE em 1895 e em Campinas - SP no ano de 1897. Em 1892 é fundada a primeira cooperativa de produtores rurais, na região gaúcha de Veranópolis e Antônio Prado. Além desses ramos, nas décadas seguintes são criadas cooperativas de eletrificação rural, de crédito rural e urbano, de habitação, de trabalho e de saúde (SCHMIDT;PERIUS, 2003, p. 64).

No Brasil, o compromisso do cooperativismo com as demandas sociais é um tema controverso. Apesar da história registrar relatos sobre os esforços dos pioneiros, em termos de solidariedade, para muitos pesquisadores a postura atual da maioria das cooperativas estaria dando seqüência a uma tradição, que marca o cooperativismo brasileiro39. Pois, “na Europa, o

cooperativismo surge como uma reação aos problemas socioeconômicos criados pelo capitalismo. No Brasil, ele nasce com a chancela das elites [...] numa economia predominante agro-exportadora” (RIOS, 1987, p.8). Se a falta de identificação política do cooperativismo

nacional com as demandas sociais já vem de longo tempo, ela ganhou novos contornos a partir do terço final do século XX, quando foi realizada uma profunda reestruturação jurídica e institucional do cooperativismo nacional.