Visto nos capítulos anteriores toda a gama de direitos fundamentais que são fomentados como necessários e dignos de proteção aos seres humanos que se encontrem na condição de migrante na situação de refúgio, e sobretudo balizados pelo valor e princípio fundamental que é a dignidade da pessoa humana, cabe enfrentar a questão se eles são alcançados ou não no Estado Brasileiro.
Para isso, primeiramente se mostra válida uma breve visitação histórica do refúgio efetivo no Brasil, como ocorreu e se os refugiados tiveram tais direitos plenamente atendidos ou não, de forma a se identificar os pontos que possam ensejar problemas a serem enfrentados e superados pelo Estado brasileiro, sobretudo com o apoio e desempenho das funções pertencentes ao CONARE.
Embora a legislação brasileira acerca do refúgio seja de 1997, é possível se constatar que os primeiros refugiados que puderam passar pelo programa brasileiro para refugiados, ocorreu somente em 2007, com o recebimento de palestinos no Brasil, o que se tornou uma experiência para o Brasil enquanto país receptivo.
No ano de 2007 com o apoio e desempenho do ACNUR o Brasil recebeu a título de reassentamento quase 100 palestinos, o que deveria ocorrer de forma a se atender integralmente os direitos constantes tanto na Lei dos Refugiados (9.474/97), como também da Convenção de Genebra de 1951 e o Estatuto dos Refugiados de 1967, e ainda todos os demais tratados internacionais que tratem de direitos humanos e, portanto, o Brasil se encontraria adstrito ao seu cumprimento, não ocorreu como se esperava, evidenciando os defeitos e necessidades de ajustes na estrutura para o recebimento de refugiados. (VEDOVATO, 2011, p. 302).
O que chama a atenção no caso dos refugiados palestinos recebidos a título de reassentamento no Brasil, é o fato de que eles foram chamados ao Brasil de forma espontânea por este Estado, sem que lhe fosse imposto o recebimento desses seres humanos em condição de extrema vulnerabilidade, tendo em vista que se encontravam em campo de refugiados denominado Rweished, situado na Jordânia, em fronteira com o
Iraque, e por conta do seu fechamento deveriam ser reassentados. Esse reassentamento contou com a negociação pelo ACNUR e lhes estariam garantidos direitos fundamentais como auxílio de moradia, emprego, assistência jurídica e aulas de português. No entanto, mesmo diante de todas as promessas feitas ao povo palestino que foram reassentados no Brasil, não se concretizou como deveria.
A situação narrada gerou uma representação pelo Comitê Autônomo de Solidariedade do Povo Palestino em outubro de 2009 e também houve uma manifestação realizada pelos palestinos em frente à sede do Alto Comissariado das Nações Unidas destinada aos Refugiados em Brasília30.
A situação dos palestinos refugiados reassentados pelo Brasil evidenciam um problema que tem se mostrado como crônico, qual seja, a ausência de concretização dos direitos fundamentais que deveriam ser protegidos e garantidos a todos os migrantes que se encontrem nessa situação.
Todo o movimento de crescimento no acolhimento de refugiados pelo Brasil, contou com um trabalho assíduo e constante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o que data desde a década de 70, sendo que em certos momentos sua presença foi mais efetiva e noutros de cunho mais político, mas que trabalhados por mais de três décadas mostra-se capaz de ser um modelo piloto a ser aplicado por toda a América Latina.
Não se questiona que a legislação brasileira de proteção e efetivação de direitos fundamentais aos refugiados seja uma lei de caráter inovador e que tem seus termos em perfeita harmonia com as normas internacionais e regionais, assim como o plano de reassentamento firmado pelo Brasil, no entanto, existem, pelas experiências vivenciadas até o momento, muitos pontos que precisam ser ajustados para que a norma programática seja efetivada no plano concreto, o que evidencia verdadeiro desafio a ser enfrentado pelo Brasil.
Uma das formas de se buscar a efetivação dos direitos fundamentais dos refugiados é a formação de políticas públicas migratórias para os refugiados que se voltem ao alcance das soluções duráveis a essas pessoas que já se encontram vitimizados
30 Histórico constante nas declarações do Ministério Público Federal nos autos da Ação Civil Pública
movida em face do Instituto Nacional de Seguridade Social, cujo objetivo era a garantia de benefícios assistenciais a esses palestinos. Proc. 0023528-28.2010.403.6100, distribuído à 5ª Vara Federal da Justiça Federal em São Paulo, cujo procurador foi o Doutor Jefferson Ap. Dias, e a data da distribuição foi 25/11/2010.
por terem que ter deixado seus países de origem em situação de completo descumprimento as normas internacionais de direitos humanos.
Essas soluções duráveis se encontram devidamente previstas pela Lei 9474/97 (Estatuto do Refugiado) no Brasil, sendo elas materializadas em três ações essenciais para que esses direitos sejam fielmente cumpridos: (i) repatriação; (ii) reassentamento; ou (iii) a integração local. Essas soluções efetivadas possuem o condão de se entender por atendidos os direitos fundamentais que são direitos dos refugiados e dever de proteção e garantia por parte do Estado.
A repatriação é uma forma de se possibilitar ao refugiado o retorno ao seu país originário, o que se torna possível quando o motivo que ensejou o refúgio tenha sido superado e normalizada a condição de risco do refugiado, não sendo mais necessária a proteção internacional contida no instituto do refúgio. Essa solução duradoura somente ocorre caso exista vontade do migrante refugiado, não podendo ser compelido a tal, sobretudo pelo fato de haver a previsão na legislação brasileira o princípio do non refoulement, mesmo havendo a previsão do art. 38, inciso V da Lei 9.474/9731, o Brasil por intervenção e orientação do ACNUR não a aplicou até o momento.
O Brasil, tem buscado uma forma de se efetivar tais soluções duráveis por meio de seu modelo tripartite de divisão de funções e competências, no qual estão inseridas entidades governamentais representadas pelo Ministério Justiça, entidades não governamentais como exemplo perfeito pode ser citadas as Cáritas Arquidiocesanas, principalmente dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo e por fim, com a participação de entes internacionais que é a presença do ACNUR no CONARE, ainda que sem direito a voto, possui direito a voz e dessa forma tem condições de articular políticas públicas com apoio internacional para atendimento dos direitos fundamentais dos migrantes em situação de refúgio.
Importante destacar que no caso de repatriamento, o governo Brasileiro não atua financeiramente para o retorno do refugiado ao seu país de origem, limitando sua atuação
31 Art. 38. Cessará a condição de refugiado nas hipóteses em que o estrangeiro:
I - voltar a valer-se da proteção do país de que é nacional; II - recuperar voluntariamente a nacionalidade outrora perdida;
III - adquirir nova nacionalidade e gozar da proteção do país cuja nacionalidade adquiriu;
IV - estabelecer-se novamente, de maneira voluntária, no país que abandonou ou fora do qual permaneceu por medo de ser perseguido;
V - não puder mais continuar a recusar a proteção do país de que é nacional por terem deixado de existir as circunstâncias em conseqüência das quais foi reconhecido como refugiado;
VI - sendo apátrida, estiver em condições de voltar ao país no qual tinha sua residência habitual, uma vez que tenham deixado de existir as circunstâncias em conseqüência das quais foi reconhecido como refugiado.
na emissão do passaporte, e o ACNUR do Brasil não tem verbas para este fim, devendo contar com o auxílio da sede do ACNUR em Genebra para possibilitar tal repatriação do refugiado ao seu país de origem, sendo que contará o ACNUR com o apoio do país de origem para acompanhamento por um período desse refugiado até que esteja totalmente reintegrado. (SOARES, 2012, p. 178)
O Reassentamento é a modificação da localização do refugiado de um país onde se encontre para um terceiro país, diverso do seu país de origem e também daquele que buscou refúgio num primeiro momento, é a situação dos palestinos reassentados no Brasil em 2007, vez que primeiramente foram sediados na Jordânia e posteriormente reassentados no Brasil, sendo que nesse caso de reassentamento, também é essencial que exista a vontade do refugiado, pois sem ela, não pode ser compelido a trocar de país no qual buscou proteção.
Até o ano de 2010 existiam apenas 24 países que estavam aptos a receber refugiados na espécie de reassentamento, como medida de solução duradoura para o refúgio, sendo os seguintes países aptos a esse procedimento: Argentina, Austrália, Brasil, Bulgária, Canadá, Chile, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Islândia, Irlanda, Japão, Noruega, Nova Zelândia, Paraguai, Portugal, Reino Unido, Romênia, Suécia, República Tcheca e Uruguai. (SAMPAIO, 2010, p. 29)
Embora o caso dos palestinos tenha se destacado por sua repercussão e também pelo fato de que a falta de efetividade do plano de reassentamento ter sido judicializada, não foi o primeiro caso de reassentamento ocorrido no Brasil.
O primeiro caso de reassentamento no Brasil, data de 2002, quando 23 refugiados afegãos foram recepcionados pelo Brasil advindos da Índia e Irã, países que foram o primeiro refúgio desses reassentados. Em 2003 foi a vez de 16 refugiados colombianos serem reassentados, com procedência da Costa Rica. Esses reassentamentos apresentaram problemas pontuais como um valor alto de assistência financeira, que desencorajava o engajamento num trabalho regular, a ausência de conhecimento sobre as questões culturais e linguísticas, dificultando a integração e comunicação desses refugiados reassentados. Outro problema vislumbrado foi a ausência de um plano a médio prazo para sua integração, e a ausência de um escritório do ACNUR no Brasil, que na época não existia. (SAMPAIO, 2010, p. 30)
No Brasil não existe nenhuma cota estabelecida para o recebimento de refugiados em sede de reassentamento, assim, para que exista condições de atendimento as suas necessidades, o reassentamento conta com uma entrevista que é realizada por meio de
uma delegação tripartite (membro do governo, de entidade não governamental e do ACNUR) para verificar a situação no local do primeiro asilo quanto a real necessidade do reassentamento, nessa mesma ocasião é apresentada aos pretensos reassentados o programa ofertado pelo Brasil para que se evite expectativas falsas. (SOARES, 2012, p. 180.
A integração local dos refugiados é a terceira forma de solução durável dada para os refugiados, sendo por meio dela admitido que o retorno do refugiado para seu país de origem envolve medos e traumas com relação aos motivos que ensejaram o seu refúgio, dessa forma, a integração local se mostra como uma medida amplamente utilizada, e nada mais é do que uma política específica para adaptar o refugiado ao país que o recebeu.
Essa integração se mostra possível e viável pelos próprios termos dos direitos fundamentais e garantias aos quais os refugiados tem direito, sendo, portanto, a sua dignidade o cerne da realização de qualquer das soluções duradouras e sobretudo da integração, vez que a própria Constituição Federal de 1988 prevê a necessidade de tratamento igual entre os brasileiros e os estrangeiros32, não cabendo de acordo com as diretrizes normativa qualquer forma de discriminação33.
Importante destacar que ao se falar em integração, os refugiados enfrentam muitas vezes as mesmas dificuldades enfrentadas pelos nacionais, ou seja, as dificuldades para uma colocação no mercado de trabalho, o acesso à serviços públicos básicos como saúde e educação despontam como prioritários, assim como a moradia. O que não desagrega o dever do Estado em minimizar as dificuldades tanto aos refugiados como aos seus nacionais, de forma a garantir a dignidade preceituada na Constituição Federal de 1988 e já mencionada neste estudo.
Cabe à sociedade civil o apoio na concretização da integração do refugiado, não sendo um dever único do Estado e nem mesmo dos organismos internacionais, mas evidenciando-se como algo a ser buscado por todos e principalmente de cumprimento por meio da iniciativa da sociedade civil que são as pessoas que terão o contato precípuo com o refugiado. (SOARES, 2012, p. 184).
32 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros
e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
33 Já se esclareceu no trabalho ora apresentado que não há distinção entre estrangeiros residentes e
estrangeiros para tratamento, vez que a doutrina estende tal proteção a qualquer estrangeiro em solo nacional, seja ele residente ou não.
É claro que de acordo com todos os argumentos e fatos já relatados que os refugiados em território brasileiro possuem pleno direito às garantias mínimas que zelam pela dignidade da pessoa humana, alimentação, moradia, saúde, educação, emprego, que possa lhe proporcionar uma vida com o mínimo de qualidade a qual faz jus, seja pela legislação pátria, seja pelos acordos internacionais de direitos humanos aos quais o Brasil é país signatário.
Quanto a efetividade dos direitos fundamentais dos refugiados não se pode perder de vista que o principal responsável por seu alcance são os governos, devendo haver uma proteção aos direitos humanos a todos aqueles que se encontrarem em solo nacional, assim, o refugiado no Brasil precisa ter atendido todos os direitos que os nacionais têm direito a serem atendidos, nem mais e nem menos, apenas condições dignas que lhe possibilitem uma vida digna e com autossuficiência.
Atualmente é essa busca pela possibilidade de propiciar ao refugiado uma vida digna e autossuficiente a maior preocupação do CONARE enquanto representante do governo brasileiro de composição tripartite.
Alguns direitos fundamentais merecem destaque na análise sobre o atendimento ou não por parte do Estado, razão pela qual uma breve exposição sobre cada um deles se mostra essencial, o que será feito a seguir. A educação (art. 22 da Convenção de 1951, e art. 22 da CF de 1988 e art. 44 da Lei 9.474/97) garante a educação como direito de todos e a facilitação ao reconhecimento de diplomas dos refugiados, e inclusão destes indivíduos em políticas públicas educacionais gratuitas, representando medida que se impõe para o cumprimento desse direito fundamental. (SOARES, 2012, pp. 188-190)
A convenção de 195134 prevê ainda o dever de concessão aos refugiados o mesmo tratamento dispensado aos nacionais e tal situação inclui também os direitos referentes à
34 Art. 24 -Legislação do trabalho e previdência social
1. Os Estados Contratantes darão aos refugiados que residam regularmente no seu território o mesmo tratamento dado aos nacionais no que concerne aos seguintes pontos:
a) Na medida em que estas questões são regulamentadas pela legislação ou dependem das autoridades administrativas: a remuneração, inclusive adicionais de família quando estes adicionais fazem parte da remuneração, a duração do trabalho, as horas suplementares, as férias pagas, as restrições ao trabalho doméstico, a idade mínima para o emprego, o aprendizado e a formação profissional, o trabalho das mulheres e dos adolescentes e o gozo de vantagens proporcionadas pelas convenções coletivas.
b) A previdência social (as disposições legais relativas aos acidentes do trabalho, às moléstias profissionais, à maternidade, à doença, à invalidez, à velhice e ao falecimento, ao desemprego, aos encargos de família, bem como a qualquer outro risco que, conforme a legislação nacional, esteja previsto em um sistema de previdência social), observadas as seguintes limitações:
i) pode haver medidas apropriadas visando à manutenção dos direitos adquiridos e dos direitos em curso de aquisição;
seguridade social, que no caso da Constituição Federal de 1988 está previsto pelo art. 19435 que garante um conjunto de direitos e ações governamentais destinadas à população no que tange à saúde, previdência social e assistência social. As mesmas dificuldades encontradas pelos nacionais no atendimento pleno do dispositivo constitucional mencionado, é a enfrentada pelos refugiados, com um agravante que não pode deixar de ser considerado, que é o fato da sua origem estar permeada por desrespeitos a esses direitos fundamentais, e que no país de refúgio continuam a ocorrer, deixando de ser efetiva a normativa da Convenção de 1951 e Protocolo de 1967, assim como a própria Constituição Federal que prevê a garantia ao direito, no entanto, não se efetiva na prática.
Muitas vezes esse dever do Estado de prestar e garantir o acesso à saúde vem sendo, no que se refere aos refugiados, realizado por entidades não governamentais, como é o caso das Cáritas Arquidiocesanas, que ao acolherem o refugiado providenciam seu encaminhamento à rede pública de saúde e conta com o auxílio financeiro do ACNUR para a aquisição de medicamentos essenciais a esses refugiados.
O tema da saúde aos refugiados em especial é um tema de grande importância, pelo fato de que ao chegarem em território nacional, geralmente já estão com sérios comprometimentos à sua saúde física e mental, sendo que o atendimento médico,
ii) disposições particulares prescritas pela legislação nacional do país de residência e concernentes aos benefícios ou frações de benefícios pagáveis exclusivamente dos fundos públicos, bem como às pensões pagas às pessoas que não preenchem as condições de contribuição exigidas para a concessão de uma pensão normal.
2.Os direitos a um benefício pela morte de um refugiado em virtude de um acidente de trabalho ou de uma doença profissional não serão afetados pelo fato de o beneficiário residir fora do território do Estado Contratante.
3. Os Estados Contratantes estenderão aos refugiados o benefício dos acordos que concluíram ou vierem a concluir entre si, relativamente à manutenção dos direitos adquiridos ou em curso de aquisição em matéria de previdência social, contanto que os refugiados preencham as condições previstas para os nacionais dos países signatários dos acordos em questão.
4. Os Estados Contratantes examinarão com benevolência a possibilidade de estender, na medida do possível, aos refugiados, obenefício de acordos semelhantes que estão ou estarão em vigor entre esses Estados Contratantes e Estados não contratantes.
35 Art. 194. A seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes
Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social.
Parágrafo único. Compete ao Poder Público, nos termos da lei, organizar a seguridade social, com base nos seguintes objetivos:
I - universalidade da cobertura e do atendimento;
II - uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais; III - seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços;
IV - irredutibilidade do valor dos benefícios; V - eqüidade na forma de participação no custeio; VI - diversidade da base de financiamento;
VII - caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados.
terapêutico e até mesmo hospitalar antecede a qualquer outro programa preventivo que possa existir destinado a esses imigrantes em situação de refúgio.
Muitas vezes não se consegue visualizar na rede pública de saúde um atendimento capaz de abarcar todos os males que atormentam esse refugiado, ainda mais ao se colocar sob análise a dificuldade de comunicação advinda da língua portuguesa que na grande maioria dos casos é desconhecida, e por outro lado, a ausência de funcionários devidamente capacitados para o acolhimento dessa pessoa em situação de extrema vulnerabilidade, seja pelos sofrimentos que já traz consigo, seja pelas próprias dificuldades de estar em país que lhe é desconhecido. Esses fatores agravam de forma preocupante a dificuldade no acesso à saúde por parte dos refugiados, revelando a ausência de efetividade da normativa internacional e nacional.
O fato da Constituição Federal prever o tratamento igualitário a nacionais e estrangeiros, possibilita também em conformidade com a Convenção de 1951, que os refugiados possam se tornar contribuintes na qualidade de segurado para o trabalho convencional ou ainda como segurado especial no caso de desenvolvimento de atividade rural, para que ao final do período de contribuição, e atendidas as disposições legais, possa contar com os benefícios de uma aposentadoria ou demais benefícios previstos pela Carta Magna36.
36 Art. 201. A previdência social será organizada sob a forma de regime geral, de caráter contributivo e de
filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e atenderá, nos termos da lei, a:
I - cobertura dos eventos de doença, invalidez, morte e idade avançada; II - proteção à maternidade, especialmente à gestante;
III - proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário;
IV - salário-família e auxílio-reclusão para os dependentes dos segurados de baixa renda;
V - pensão por morte do segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou companheiro e dependentes, observado o disposto no § 2º.
§ 1º É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados para a concessão de aposentadoria aos beneficiários do regime geral de previdência social, ressalvados os casos de atividades exercidas sob