• Nenhum resultado encontrado

1 DIREITOS HUMANOS E MIGRAÇÕES NA PERSPECTIVA DAS LEIS

3.2 OS DILEMAS DOS MIGRANTES: VULNERABILIDADE, INCLUSÃO E

Ao se pensar em migração, não precisa ir muito longe do Brasil, pois, os preconceitos e exclusões começam dentro das próprias fronteiras, como é o caso dos nordestinos no país, em especial os oriundos da Bahia e Paraíba, que, corriqueiramente são hostilizados, principalmente nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Os nordestinos em si, comumente são chamados de retirantes, flagelados, pau-de-arara27, arigó28, entre outros. De acordo com Albuquerque Júnior (2012) o preconceito em relação ao nordestino está arraigado ainda pelo fato das próprias elites nordestinas, a partir do início do século XX, terem renegado a modernidade que estava sendo implementada nos Estados do Sul, considerando que deveriam ser mantidas vivas as tradições culturais, presas ao passado de grandes fortunas, relacionadas ao café, açúcar, etc., bem como, está associado aos preconceitos de classe e racial, eis que boa parte da população local se ocupa “com as atividades mais desqualificadas no mercado de trabalho” e “a maior parte da população da região é mestiça ou negra”. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012, p. 127).

Neste viés, afirma De Giorgi (2006, p. 28) que na atualidade são considerados como sendo representantes das novas classes perigosas, os pobres, mendigos, desempregados, nômades e imigrantes, considerados os condenados da metrópole, “contra quem se mobilizam os dispositivos de controle, [...] através de técnicas de prevenção do risco, que se articulam principalmente sob as formas de vigilância,

27 Paus-de-arara eram caminhões que levavam os migrantes nordestinos, que fugiam da seca, em busca de melhores condições de vida, até os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012)

28 Arigó é, de acordo com Borzacov (2012), uma ave de arribação, que vive pelas lagoas do sertão nordestino. Essa ave vive mudando de lagoa, sem ponto certo, sem jamais se fixar.

segregação urbana e contenção carcerária.” Ou seja, antes mesmo da morte biológica do imigrante por exemplo, fala-se em uma morte por meio da “experiência biográfica da força de trabalho contemporânea, que se materializa na biografia dos migrantes que morrem nos confins da fortaleza européia, na tentativa de exercitar um “direito de fuga” negado.” (DE GIORGI, 2006, p. 29).

Isto se dá, basicamente e, principalmente, por meio do Estado, que fomenta a mídia e, consequentemente manipula os cidadãos, pelo fato de que calando os imigrantes, privando-os das aptidões comunicativas, linguísticas e afetivas, mantendo- os encarcerados, seja em prisões, campos de concentração/refugiados, etc., lhes impedem “a construção de laços e formas de cooperação social e política que possam dar corpo à rebelião.” (DE GIORGI, 2006, p. 114). Pois eles, de acordo com De Giorgi (2006, p. 114), “constituem então uma imagem paradigmática da multidão pós-fordista e indicam, sobretudo, as formas de resistência a que ela pode dar vida, dentro do e contra o novo regime de governo do excesso.” Por si só, as medidas tomadas pelos estados a fim de combater os fluxos migratórios já é um ato de exclusão do imigrante. É possível notar desde o princípio as vulnerabilidades que os migrantes passam, primeiramente no país de origem e posteriormente no país de entrada. Eles necessitam migrar ou refugiar-se, nem sempre é uma questão de escolha, como se fosse um intercâmbio ou uma viagem para conhecer a Europa e depois retornar para casa com toda a sua comodidade, tendo em vista que as condições de vida oferecidas pelo seu país os obrigam a fugir e buscar abrigo em um lugar considerado melhor. Como pôde se verificar nas pesquisas apontadas no capítulo anterior, a maioria dos imigrantes e refugiados que partem à Europa são oriundos de países subdesenvolvidos (Continente Africano) ou países que vivem em constante conflito armado (Síria, Paquistão, Afeganistão, etc.). É muito fácil apontar o dedo para as pessoas, descriminalizá-las e dizer o que é certo e errado. Para Albuquerque Júnior (2012, p. 127) “O preconceito é uma maneira de desqualificar o oponente, de tentar vencê-lo através do rebaixamento social, de estigmatização.” Compreender os problemas vivenciados pelos outros, colocar-se no lugar do outro, parece mais difícil do que julgar e agir preconceituosamente.

Fonte: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2017/01/03/mala-painel-de-carro-e-estofamento- como-os-imigrantes-africanos-tentam-chegar-a-espanha.htm Fonte: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2017/01/03/mala-painel-de-carro-e-estofamento- como-os-imigrantes-africanos-tentam-chegar-a-espanha.htm Fonte: https://oglobo.globo.com/mundo/policia-espanhola-resgata-dois-imigrantes-escondidos-no- interior-de-um-carro-17355803

Imigrantes, na maioria de origem africana, se arriscam para chegarem aos países de destino/entrada, países europeus, não só pelo Mar Mediterrâneo, mas também por terra, como ilustrado nas imagens acima. No primeiro caso, foi flagrado pela polícia, um jovem africano, que seria do Gabão, oeste da África, que tentava entrar ilegalmente na cidade de Ceuta, enclave espanhol situada no norte da África, escondia-se dentro de uma mala, que pertencia a uma marroquina de 22 anos, no dia 30 de dezembro de 2016. O rapaz necessitou de cuidados médicos urgentes. (UOL, 2017, online).

Na segunda imagem, no dia 2 de janeiro de 2017, um homem oriundo da Guiné, oeste da África, também durante uma vistoria realizada pela polícia, foi encontrado dentro do painel de um veículo, e, na mesma circunstância, estava uma mulher, também da Guiné, escondida dentro do banco traseiro. Ambos foram retirados e receberam os primeiros socorros, pois encontravam-se sufocados. (UOL, 2017,

online).

Na última imagem, Policiais da Guarda Civil espanhola, na fronteira com o Marrocos, encontraram dois imigrantes africanos, procedentes da Guiné, no dia 28 de agosto de 2016, escondidos dentro de um veículo, com o intuito de entrar na cidade de Ceuta. Um dos imigrantes, como exposto na ilustração, escondia-se perto do motor do carro, o segundo estava dentro do assento traseiro. Ambos precisaram ser socorridos por falta de oxigenação. Ainda, na semana anterior, 71 corpos de imigrantes foram encontrados em um caminhão-frigorífico na Áustria. (O GLOBO, 2016, online).

Mas, o que levam essas pessoas a cometerem tais atos desesperados para saírem de seu país? Sabe-se que normalmente os indivíduos abandonam seus lares em busca de uma vida melhor, em decorrência normalmente de conflitos armados, catástrofes ambientais, etc., por este motivo, Greg Fischer, missionário americano, que chegou ao Brasil há cerca de seis anos com sua família, vinculado à Missão Paz29,

29 Missão Paz é o lema da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos – que é uma

comunidade internacional de religiosos, que, em 34 países (Argentina, Bolívia, Chile, França, Guatemala, Inglaterra, México, Peru, Espanha, Suíça, Venezuela, Austrália, Brasil, Colômbia, Alemanha, Haiti, Itália, Moçambique, Portugal, EUA, Taiwan, Vietnã, Bélgica, Canadá, Filipinas, Japão, Indonésia, Luxemburgo, Paraguai, República Dominicana, África do Sul e Uruguai) dos cinco continentes, acompanham os migrantes das mais diversas culturas, crenças e etnias. Foi fundada em 28 de novembro de 1887 pelo Bem-aventurado João Batista Scalabrini (1839-1905), Itália. A Congregação é composta por 700 religiosos. Tem o intuito de acolher os migrantes, imigrantes e refugiados. Entendendo suas histórias, respeitando suas identidades e celebrando a interculturalidade proporcionada pelo encontro entre as diversidades.

em São Paulo, busca compreender os motivos de imigrantes e refugiados, residentes em São Paulo, terem saído de seus países de origem. Fischer criou então o site Rostos da Migração30, onde os próprios imigrantes e refugiados podem revelar seus dramas, desafios e alegrias, anonimamente ou não (PASSOS, 2015, online). Em entrevista realizada à Clarissa Passos (2015, online), Fischer afirmou que normalmente as pessoas lidam com o assunto das migrações e refúgios como sendo um problema social, contudo, nunca tiveram a oportunidade de relacionar-se com eles de forma pessoal, interagir cara a cara. “Eu vivo isso todo dia e posso dizer que, apesar das diferenças, há muito pouco que nos separa como humanidade.” Um dos relatos realizados, pessoalmente, para o missionário Fischer, de acordo com Passos (2015, online) foi de um sírio que vive atualmente em São Paulo que contou que31:

Nunca esquecerei aquele dia em agosto de 2012. O exército entrou no meu bairro e começou uma briga com os civis. Começou à noite, 1h ou 2h, e continuou até a manhã seguinte. Um monte de gente morreu lá fora, a maioria deles eram jovens. O exército usou todo tipo de armas - tanques pesados, armas pesadas, helicópteros - contra os civis. Havia indivíduos vestidos com uniforme militar que paravam os cidadãos nas ruas e perguntavam se eles apoiavam o exército ou se apoiavam os rebeldes. Você nunca sabia se a pessoa que perguntava era um membro do exército sírio ou um soldado do grupo rebelde. Você poderia ser fuzilado por dar a resposta errada; era basicamente uma questão de vida ou de morte e você não tinha o direito de errar. Depois disso, eu fugi.

Exposições como esta é de se fazer pensar por que as pessoas não conseguem compreender e colocar-se no lugar do outro? Se você vivesse em uma situação destas o que faria? A frieza com que as pessoas falam dos imigrantes nas redes sociais, nos comentários das notícias jornalísticas da web, nas ruas, é de se surpreender, principalmente no Brasil, um país marcado pelas migrações desde os primórdios. Fortalecer a ideia de que os imigrantes devem ser expulsos ou barrados do país, é quase o mesmo que se negar as origens, afinal, são raros aqueles que não possuem um laço consanguíneo com sujeitos oriundos de outros países, avós, bisavós, tataravós, etc. Portanto, é preciso compreender, que mesmo um cidadão que sai de sua cidade de origem para viver em outra, também se trata de um ato migratório. Assim, para melhor compreensão da necessidade de migrar, muitos migrantes que

30 Disponível em: <http://gkfische.tumblr.com/> e <http://rostos.org/pt/>. Acesso em 30 jan 2018. 31 Normalmente, os relatos feitos junto ao site Rostos da Migração são feitos por imigrantes e refugiados que frequentam ou foram ajudados, apoiados, recepcionados e acolhidos pela Missão Paz.

vivem no Brasil, por meio do site Rostos da Migração (online), contam um pouco suas histórias de vida, normalmente eles não se identificam, mas postam uma foto sua:

Fonte: http://gkfische.tumblr.com/post/137828905554/os-partidos-pol%C3%ADticos-est%C3%A3o-

relacionados-%C3%A0-etnia

Fonte: <http://gkfische.tumblr.com/post/134473345304/terremoto-%C3%A9-a-pior-coisa-que-existe-

n%C3%A3o-d%C3%A1-pra>

Os partidos políticos estão relacionados à etnia no congo. Os Mussuaílis, que estão no poder hoje, têm muitas facilidades, acesso e muitas oportunidades, vivem bem. E nós, que somos de outra etnia, ficamos sempre a sofrer. Sou rapper, e na República Democrática do Congo, além de cantar, eu estudava. Fazia informática. Aí veio o mês de janeiro, quando aconteceu a ameaça por parte do governo de mudar a Constituição. Nós, os estudantes, protestamos. Saímos na rua dizendo que não queríamos a mudança na lei eleitoral, porque isso faria o presidente que estava naquele momento ficar além do seu mandato. E muitos de nós que saímos às ruas foram vítimas de assassinato naquele mesmo dia. Outros ficaram aleijados, outros foram presos. Muitas coisas aconteceram naquele protesto.

Relato de 2016.

Terremoto é a pior coisa que existe. Não dá para fugir, não dá para fazer nada, as coisas caem sobre a nossa cabeça e não podemos impedir. Quando passou o terremoto, todo mundo achou que fosse o fim do mundo. Eu morava no departamento de Porto Príncipe – o Haiti não tem estados – a 65 km da minha cidade. O tremor passou lá também. Prédios, faculdade, tudo caiu. Muita gente morreu, tanto empresários quanto

empregados morreram. Não

tínhamos mais eletricidade, não tínhamos nada.

Fonte: <http://gkfische.tumblr.com/post/133833481384/eu-acho-que-a-participa%C3%A7%C3%A3o- pol%C3%ADtica-%C3%A9-importante>

Eu acho que a participação política é importante. As pessoas aqui reclamam, mas isso não tem efeito (uma marcha, ou falar no Facebook). Tem que ir atrás. Sou imigrante, e eu sei o que passei, então se eu puder ajudar a evitar que outras pessoas passem por isso, eu sinto que estou fazendo algo. Um dos nossos objetivos é fazer uma luta no Brasil a favor do voto (do estrangeiro). Eu moro no Brasil há 15 anos, e não posso fazer minha decisão, minha escolha do que é bom pro meu futuro. Tenho que deixar os outros escolherem pra mim. As pessoas não gostam que eu critique o Brasil, mas se eu participo e critico, é porque gosto do país – estou exercendo cidadania. Relato de 2016.

Eu gostaria de tomar esse momento das postas regulares de “Rostos” para falar brevemente sobre uma polémica de fotografia de imigrantes. [...] Enquanto é necessário partilhar as suas realidades através das fotos (e palavras) de modo a fazer compreender o movimento da migração, existem limites. Esse limite é a dignidade humana e respeito a todos – algo que normalmente temos como dado... Até estarmos em situação vulnerável. Infelizmente, isso aconteceu aos haitianos que chegaram a São Paulo em maio; eles ficaram no abrigo de emergência fornecido pela Missão Paz. Um fotógrafo tirou uma foto de um haitiano nu tomando banho em um mictório, sob condições extremas. Enquanto, sem dúvida a imagem é poderosa, não é uma desculpa para a falta de solicitação de permissão do fotógrafo. O banheiro é um dos poucos lugares em que temos privacidade, e este indivíduo teve esse direito roubado dele [...] Se um estranho entrasse na sua casa e tirasse fotos de alguém no banheiro, isso seria um crime. Mas em vez

de receber advertências para seu

comportamento, o fotógrafo, o Sr. Ronny Santos, recebeu um prêmio por essa foto. [...] No futuro, que nós possamos praticar a compaixão dentro de nossos corações para dando comida a quem tem fome, vestindo o nu, visitando os encarcerados, e acolhendo o estrangeiro.

Fonte: <http://gkfische.tumblr.com/post/131775905924/httppeticaopublicacompviewaspxpi- repudiofoto>

Fonte: <http://rostos.org/pt/2017/06/habid/>

Neste compasso, considerando os relatos expostos, pode-se perceber que pouco se sabe sobre os imigrantes que procuram o Brasil como lugar para poder se estabelecer e que buscam melhores condições de vida. Os noticiários mostram apenas suas identidades e origens, sem exemplificar e questionar por que estão aqui, e, principalmente, por que saíram de seus países de origem. Pode-se compreender, a partir desta análise, que os imigrantes vivem tanto na sua origem quanto no seu destino questões de exclusão social. Estão expostos à vulnerabilidade por onde andam, nos banheiros públicos, nas calçadas, nas fronteiras, nas partidas e nas chegadas.

Ao pensar em como se pode compreender a dor e o sofrimento destas pessoas, nada melhor que poder conversar com elas e tentar colocar-se em seus lugares, ou, até mesmo observar uma obra de arte e ouvir uma música, tal como a música composta por Dominguinhos e Gilberto Gil, Lamento Sertanejo (LETRAS,

online):

Habid:

Sou paquistanês, mas me mudei para a região da Caxemira, da Índia – fica muito perto da fronteira do Paquistão. Há muita violência entre a Índia e o Paquistão, que já dura anos. [...] Não sei onde estava meu irmão mais velho quando ele foi morto. Após um ano, eu tive que sair de lá. O Paquistão não cuidava de mim e eu tive muitos problemas lá também. Não teria sido melhor se eu me mudasse ao interior do país. Eu só quero a liberdade; não queria nem o Paquistão nem a Índia porque eu sabia que a liberdade que eu queria não estava lá. Acredito que ficar no Brasil é uma opção muito melhor do que na Caxemira. Na verdade, há muita liberdade aqui. Há dificuldades, também… Não posso falar a língua, e ser vendedor nas ruas do Brás foi o único trabalho que encontrei. Estou estudando português nas aulas de uma organização que trabalha com imigrantes, chamado CAMI [...]

Por ser de lá; Do sertão, lá do cerrado; Lá do interior do mato; Da caatinga e do roçado; Eu quase não saio; Eu quase não tenho amigo; Eu quase que não consigo; Ficar na cidade sem viver contrariado; Por ser de lá; Na certa, por isso mesmo; Não gosto de cama mole; Não sei comer sem torresmo; Eu quase não falo; Eu quase não sei de nada; Sou como rês desgarrada; Nessa multidão, boiada caminhando a esmo.

A parte final da música, “Nessa multidão, boiada caminhando a esmo” demonstra muito a ideia de que os “eus” caminham para uma direção, no mesmo compasso, sem olhar ao redor, para os outros. Por este motivo, faz-se necessário um mundo mais empático e solidário, tanto pelos indivíduos quanto pelos Estados, ou seja, desprender-se da ideia de um Estado-nação, arraigado às fronteiras e aos limites territoriais, e conquistar um Estado-Cidadão, que visa ao bem-estar social de todos que vivem no país, buscando-se assim, de forma concreta e não mais ilusória, a efetivação dos direitos humanos, ponto que será abordado a seguir.

3.3 O ESTADO CIDADÃO: A PRÁTICA DA SOLIDARIEDADE E DA EMPATIA NO