• Nenhum resultado encontrado

Os direitos da personalidade e a dignidade da pessoa humana

Há discussão na doutrina sobre a existência de diversos direitos da personalidade (corrente pluralista) ou de um único direito da personalidade, originário e geral, chamado de direito geral da personalidade (corrente monista).

Adriano De Culpis80, defensor da teoria pluralista, afirma que “a individualização do bem resulta da individualização das necessidades; que a exigência é distinta da liberdade, e que a necessidade de vivermos respeitados não se confunde com a necessidade de nos distinguirmos das outras pessoas. De tudo isto deriva que são também distintos os bens correspondentes, e bem assim os direitos sobre eles”.

79 TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil, p. 42.

Adeptos da teoria monista81 sustentam que a pessoa humana é um valor unitário e que os seus interesses relativos ao ser, mesmo dotados de conceitos próprios, apresentam-se substancialmente ligados.

As teorias tradicionais monista e dualista tratam os direitos da personalidade como expressão de tutela meramente ressarcitória, conferindo a esses direitos proteção aos moldes do direito de propriedade, insuficiente para resguardar as múltiplas e renovadas situações nas quais possa o homem se encontrar82. A tutela da personalidade não se encaixa num modelo - único ou múltiplo - de direito subjetivo tradicional, mas num complexo de situações jurídicas 83.

Pois bem. Após a Segunda Guerra Mundial, a comunidade jurídica ocidental voltou-se ao estudo de um conceito, elástico e versátil, de direito geral da personalidade, emanação da condição humana, que é dotada de dignidade, do poder de se autodeterminar e de se desenvolver84.

Nesse ambiente foi promulgada a Constituição alemã de 23 de maio de 1949. Logo no seu art. 1º, alínea 1, o Poder Constituinte normatiza princípio superior, incondicional e indisponível: a inviolabilidade da dignidade da pessoa

81 Como Giorgio Giampiccolo. In: TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil, p. 42. 82 PERLINGIERI, Pietro. Perfis do direito civil, p. 154/156.

83 COSTA-MARTINS, Judith. Pessoa, personalidade, dignidade (ensaio de uma

qualificação), p. 187/189.

84 GODOY, Cláudio Luiz Bueno de. A liberdade de imprensa e os direitos da personalidade, p. 22.

humana. O homem deve ser entendido como ‘pessoa’, de valor próprio indisponível, destinado ao livre desenvolvimento e situado nas situações inter-humanas mais diversas85.

O Tribunal Constitucional Federal alemão vislumbra, no art. 2º, alínea 1, combinado com o 1º, alínea 1, e como decorrência da dignidade da pessoa humana, a garantia jurídico-fundamental do direito de personalidade geral86.

Capelo de Souza87 define direito geral da personalidade como: “O direito de cada homem ao respeito e à promoção da globalidade dos elementos, potencialidades e expressões da sua personalidade humana bem como da unidade psico-físico-sócio-ambiental dessa mesma personalidade humana (v.g. da sua dignidade humana, da sua individualidade concreta e do seu poder de autodeterminação)”.

O objeto tutelado pelo direito geral da personalidade, prossegue o ilustre jurista português, envolve a compreensão de uma cláusula geral, a personalidade humana, ou seja, os bens inerentes à própria materialidade e espiritualidade de cada homem, possibilitando aos sistemas jurisprudenciais

85 HESSE, Konrad. Elementos de direito constitucional da República Federal da Alemanha, p. 329.

86 Ibidem, mesma página.

valorativos conferir, ao direito geral da personalidade, maleabilidade e versatilidade de aplicação a situações novas e complexas.

Com essa idéia de direito geral da personalidade, desenvolvida a partir de meados do século XX, buscava-se, socorrendo-se na versatilidade valorativa de uma cláusula geral88 – a personalidade humana – tutelar e promover a pessoa humana em qualquer situação na qual fosse colocada. Tem origem direta, essa renovada concepção de direito geral da personalidade, na dignidade da pessoa humana, valor-fonte e princípio de Direito.

O princípio da dignidade da pessoa humana, nesse contexto, passou a ser expressamente garantido em Cartas Constitucionais ocidentais justamente para assegurar a inviolabilidade dos direitos fundamentais, dentre eles os direitos da personalidade.

Foi assim em Portugal (Constituição de 02 de abril de 1976, art. 1º)89, na Itália (Constituição de 27 de dezembro de 1947, art. 3º), na Espanha

88 Cláusulas gerais são normas jurídicas de caráter significativamente genérico e abstrato, cujos valores devem ser preenchidos pelo juiz, autorizado a, no caso concreto, buscar a solução que lhe parecer mais correta, segundo as diretrizes contidas na própria cláusula geral e nos princípios constitucionais. NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Novo Código Civil e legislação

extravagante anotados, p. 6.

89 “Art. 1º. Portugal é uma República soberana, baseada, entre outros valores, na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”.

(Constituição de 27 de dezembro de 1978, art. 10) e, mais recentemente, nas Repúblicas da Croácia (Constituição de 22 de dezembro de 1990, art. 25), Bulgária (Constituição de 12 de julho de 1991, preâmbulo), Romênia (Constituição de 08 de dezembro de 1991, art. 1º), Letônia (Lei Constitucional de 10 de dezembro de 1991, art. 1º), Eslovênia (Constituição de 23 de dezembro de 1991, art. 21), Estônia (Constituição de 28 de junho de 1992, art. 10), Lituânia (Constituição de 25 de outubro de 1992, art. 21), Eslováquia (Constituição de 1º de setembro de 1992, art. 12), Tcheca (Constituição de 16 de dezembro de 1992, preâmbulo) e na Rússia (Constituição da Federação de 12 de dezembro de 1993, art. 21)90.

No Brasil, a dignidade humana foi elevada a fundamento da República Federativa pela Constituição Federal de 1988, em seu art. 1º, III.

Na lição de Paulo Bonavides91, a dignidade da pessoa é um princípio de densidade máxima, aquele em que “todos os ângulos éticos da personalidade se acham consubstanciados”. Para Canotilho92, a dignidade humana tem significado amplo e engloba os direitos da personalidade, os demais direitos fundamentais do indivíduo e consagra afirmação da integridade física e espiritual

90 MARTINS-COSTA, Judith. Pessoa, personalidade, dignidade (ensaio de uma

qualificação), p. 136, nota 316.

91 BONAVIDES, Paulo. Prefácio ao livro ‘Dignidade da pessoa humana e direitos

fundamentais’, de Ingo Wolfgang Sarlet.

do homem, a garantia do desenvolvimento de sua personalidade, a defesa de sua autonomia individual e a igualdade de todos perante a lei.

Jorge Miranda93 afirma que a dignidade é a fonte ética dos direitos da personalidade. Rosa Maria de Andrade Nery94 vai além. Sustenta que a dignidade humana é a razão de ser do Direito, e bastaria sozinho para estruturar o sistema jurídico.

Nas suas belas palavras:

“Uma ciência que não se presta para prover a sociedade de tudo o quanto é necessário para permitir o desenvolvimento integral do homem, que não se presta para colocar o sistema a favor da dignidade humana, que não se presta para servir ao homem, permitindo-lhe atingir seus anseios mais secretos, não se pode dizer Ciência do Direito”95.

Em nosso país, doutrina contemporânea vislumbra, no art. 1º, III, da Constituição Federal, verdadeira cláusula geral de direito geral da personalidade96, juntamente com o art. 12 do Código Civil, que possibilita a tutela genérica dos bens da personalidade humana.

93 MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional, p. 167.

94 NERY, Rosa Maria de Andrade. Noções preliminares de direito civil, p. 114. 95 Ibidem, mesma página.

96 CORTIANO JUNIOR, Eroulths. Alguns apontamentos sobre os chamados direitos da

personalidade, p. 38; GODOY, Cláudio Luiz Bueno de. A liberdade de imprensa e os direitos da personalidade, p. 30.

Na lição de Cláudio Luiz Bueno de Godoy97:

“Enfim, a inserção da dignidade como princípio constitucional fundamental, contida em preceito introdutório do capítulo dos direitos fundamentais, significa, afinal, adoção mesmo de um direito geral da personalidade, cujo conteúdo é justamente a prerrogativa do ser humano de desenvolver a integralidade de sua personalidade, todos os seus desdobramentos e projeções, nada mais senão a garantia dessa sua própria dignidade”.

Gustavo Tepedino98, a esse respeito, leciona:

“A escolha da dignidade da pessoa humana como fundamento da República, associada ao objetivo fundamental de erradicação da pobreza e da marginalização, e de redução das desigualdades sociais, juntamente com a previsão do § 2º do art. 5º, no sentido da não exclusão de quaisquer direitos e garantias, mesmo que não expressos, desde que decorrentes dos princípios adotados pelo texto maior, configuram uma verdadeira cláusula geral de tutela e promoção da pessoa humana, tomada como valor máximo do ordenamento”.

O nosso ordenamento jurídico também tutela bens específicos da personalidade. Protege, exemplificativamente, a vida (art. 5º, caput, Constituição Federal), a liberdade (art. 5º, caput, Constituição Federal), a vida privada (arts. 5º, X, Constituição Federal e 21, Código Civil), a honra (art. 5º, X, Constituição Federal) e a imagem (arts. 5º, V e X, Constituição Federal e 20, Código Civil).

97 GODOY, Cláudio Luiz Bueno de. A liberdade de imprensa e os direitos da personalidade, p. 30.

A par da tutela específica de certos bens da personalidade, há em nossa ordem jurídica uma cláusula geral de tutela e promoção da pessoa humana que se amolda às múltiplas, complexas e renovadas situações nas quais o homem possa se encontrar a cada dia para garantir ao ser humano o integral desenvolvimento de sua personalidade, de todos os seus desdobramentos e projeções, enfim, de sua dignidade.