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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA – PUCSP 2005

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HENRIQUE VERGUEIRO LOUREIRO

DIREITO À IMAGEM

MESTRADO EM DIREITO

(2)

HENRIQUE VERGUEIRO LOUREIRO

DIREITO À IMAGEM

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE na área de Direito das Relações Sociais, sub-área de concentração de Direito Civil Comparado, sob a orientação do Professor Doutor Rogério Ferraz Donnini.

(3)

Banca Examinadora

______________________________________

______________________________________

(4)

Ao meu pai, Tarcísio, pelo exemplo de honestidade, dedicação ao trabalho e amor à vida.

(5)

RESUMO

A evolução tecnológica nos últimos dois séculos, aliada ao

desenvolvimento dos meios de comunicação em massa e da publicidade e propaganda,

despertaram a atenção do mundo jurídico para o estudo da imagem. Inicialmente, esse

bem jurídico foi inserido na tutela de outros direitos, tais como o direito à honra, o

direito à intimidade, o direito de autor e o direito ao próprio corpo. Vislumbrou-se,

com o passar do tempo, que se tratava de bem jurídico autônomo, merecedor de

proteção própria, sob pena de haver lacuna na tutela da personalidade. Tratada com

desdém pelo legislador infraconstitucional brasileiro, a imagem foi elevada pelo Poder

Constituinte Originário de 1988 a direito fundamental autônomo, integrante do rol das

cláusulas pétreas e essencial à dignidade da pessoa humana. A Constituição Federal

também concebeu uma nova acepção de imagem – além da conformação física do

indivíduo – que consubstancia os atributos apresentado por uma pessoa à sociedade.

Na contramão da Carta Maior, o Código Civil de 2002 reduziu o campo de proteção da

imagem, o que nos impõe reconhecer a inconstitucionalidade do seu art. 20 e invocar o

art. 5º, V e X, da Constituição Federal, normas de eficácia plena e aplicabilidade

imediata, e o art. 12 do Código Civil, cláusula geral de tutela da personalidade, para

proteger esse bem jurídico. Hodiernamente, observa-se em nossos Tribunais

Superiores decisões que determinam a reparação de dano moral pela mera violação do

direito à imagem, independentemente de lesão à honra ou a outros direitos,

(6)

ABSTRACT

The technological evolution in the last two centuries, allied to the

development of the large scale media, the advertising and propaganda, caught the

attention of the legal world for the study of the image. Initially, this legally protected

interest was inserted in the guardianship of other rights, such as the right to the honor,

the right to the privacy, the copyright and the right to the proper body. Afterwards it

was realized that it was an independent legally protected interest, deserving proper

protection, otherwise it could constitute a gap in the guardianship of the personality.

Treated with disdain for the Brazilian infraconstitutional legislator, the image was

raised independent by the Federal Constitution of 1988, integrant of the roll of the

stony clauses and essential basic right to the dignity of the person human being. The

Federal Constitution also conceived a new meaning of image - beyond the physical

conformation of the individual - that aggregate the attributes presented by a person to

the society. Not sharing the same view of the Federal Constitution, the Civil Code of

2002 reduced the field of protection of the image, what, in it, imposes the need to

recognize the unconstitutionality of its article 20 and to invoke article 5º, V and X, of

the Federal Constitution, norms of full effectiveness and immediate applicability, and

article 12 of the Civil Code, general clause of guardianship of the personality, to

protect this legal interest. Currently can be observed in our Superior Courts decisions

that determine the repairing of pain and suffering for the mere breaking of the right to

the image, independently of injury to the honor or other rights of the personality,

(7)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 09

PARTE I - A TUTELA DA PESSOA HUMANA 14

CAPÍTULO I

OS DIREITOS DA PERSONALIDADE 15

1.1 Pessoa 15

1.2 Personalidade e os direitos da personalidade 19

1.3 Características 30

1.4 Fontes 35

1.5 Os direitos da personalidade e a dignidade da pessoa humana 38 1.6 Os direitos da personalidade e os direitos fundamentais 45

PARTE II - A IMAGEM COMO BEM PARA O DIREITO 48

CAPÍTULO II

O DIREITO À IMAGEM 49

2.1 O conceito de imagem 50

2.2 A imagem-retrato e a imagem-atributo 51

2.3 O conteúdo do direito à imagem 56

2.4 Notícia histórica 65

2.5 O consentimento 69

2.6 O direito à imagem e o nascituro 75

2.7 A proteção da imagem após a morte 77

(8)

CAPÍTULO III

A AUTONOMIA DO DIREITO À IMAGEM 91

3.1 O direito à imagem e o direito à honra 93

3.2 O direito à imagem e o direito à intimidade 100

3.3 O direito à imagem e o direito de autor 104

3.4 O direito à imagem e o direito de arena 107

CAPÍTULO IV

OS LIMITES AO DIREITO À IMAGEM 119

CAPÍTULO V

O DIREITO À IMAGEM NO ORDENAMENTO JURÍDICO

BRASILEIRO 135

5.1 O direito à imagem na Constituição Federal de 1988 139 5.1.1 O artigo 5º, X, da Constituição Federal 145 5.1.2 O artigo 5º, XXVIII, "a", da Constituição Federal 146 5.1.3 O artigo 5º, V, da Constituição Federal 147

5.2 O direito à imagem no Código Civil de 2002 149

CAPÍTULO VI

O DIREITO À IMAGEM NO ORDENAMENTO JURÍDICO

ESTRANGEIRO 153

6.1 O direito à imagem nos Estados Unidos da América 153

6.2 O direito à imagem na Espanha 156

6.3 O direito à imagem na Itália 159

CAPÍTULO VII

A TUTELA E A VIOLAÇÃO DO DIREITO À IMAGEM 162

(9)

7.2 O dano moral 169

7.3 O dano à imagem 175

7.4 O dano estético 179

CONCLUSÕES 183

(10)

INTRODUÇÃO

A evolução tecnológica nos últimos dois séculos fez o mundo

jurídico voltar-se ao estudo da imagem.

Até a invenção da fotografia, em 1829, pelo físico francês

Nicéphore Niepce1, a imagem só podia ser captada por meio de retrato pintado,

desenhado ou esculpido. Havia, na grande maioria dos casos, o consenso do

retratado, expresso ou, ao menos, tácito, consubstanciado nas longas horas que deveria

permanecer diante do artista para a captação de sua imagem.

Poucos eram os casos de reprodução não autorizada da imagem,

como no exemplo clássico de um pintor escondido no ateliê de um outro que

aproveitava a exposição de modelo para não pagar uma sessão exclusiva2. Ou,

ainda, como ocorreu com a imagem de Maria Antonieta, captada às pressas por

David no momento em que era levada à guilhotina3.

1 A possibilidade da obtenção de imagens projetadas através de um orifício numa câmara escura já era conhecida de longuíssima data, bem como a existência de substâncias que se alteram pela ação da luz. Nicéphore Niepce combinou esses dois fenômenos e, juntamente com Luis Jacobo Mandé Daguerre, inventor do “diorama”, conseguiu fixar em placas revestidas de sais de prata imagens da câmara escura, em 1829. É, portanto, considerado o inventor da fotografia. Grande Enciclopédia Delta Larousse, p. 2852 e 4801.

(11)

O advento da fotografia mudou esse panorama. A imagem passou a

ser captada instantaneamente, até mesmo a longas distâncias. O consentimento do

retratado, antes expresso ou implícito por conta do longo período no qual deveria

permanecer estático para a captação de sua imagem, passou a ser questionado pelos

estudiosos do direito4. Assim como determinadas situações jurídicas que, a bem do

interesse da coletividade, reclamassem a utilização da imagem,

independentemente da autorização do titular.

A transmissão da imagem, antes feita apenas por meios mecânicos,

também experimentou notável avanço com os satélites, que passaram a viabilizar o

envio de imagens em segundos a todos os locais do mundo5.

Nos dias de hoje, merece destaque o processo de digitalização da

imagem, que possibilita a exibição e transmissão de fotografias e vídeos pela

Internet e a fixação dessas imagens em compact discs. A Internet, a propósito, é um campo fértil para violações desse bem da personalidade, pois qualquer um

pode acessá-la e transmitir imagens a bilhões de pessoas, em uma fração de

segundo.

Registre-se, ainda, a popularização de instrumentos poderosos de

captação e transmissão de imagens: câmeras fotográficas e filmadoras digitais,

4 CIFUENTES, Santos. Derechos personalísimos, p. 503.

(12)

muitas vezes embutidas em telefones celulares, micro-computadores portáteis, a

própria Internet etc.

Ademais, o desenvolvimento dos meios de comunicação em massa

e o advento da publicidade e propaganda aumentaram a importância jornalística e

econômica da imagem. Fez-se necessária, também por conta disso, uma atenção

da comunidade para a análise da tutela desse bem jurídico da personalidade,

objeto do presente estudo.

Mas não foram somente o avanço tecnológico e o desenvolvimento

dos meios de comunicação que impulsionaram o progresso do direito à imagem e dos

demais direitos da personalidade.

Os atentados à dignidade humana, a massificação social, a

globalização econômica e o progresso técnico e científico da biologia e da genética

também vulneraram, como um todo, a pessoa, reclamando a evolução da tutela dos

direitos que decorrem da personalidade humana. As Constituições, antes ocupadas

somente com o “fenômeno estatal”, passaram a intervir nas esferas econômica e social,

em especial a partir de meados do século XX, para resguardar a dignidade da pessoa

humana e o livre desenvolvimento da personalidade6.

(13)

Nesse contexto, o estudo dos direitos da personalidade como

integrantes estanques da seara civil perdeu o sentido.

No Brasil, o advento da Constituição Federal de 1988 e

posteriormente do Código Civil de 2002 impuseram aos operadores do direito um

reexame dos direitos da personalidade segundo a Constituição, superando a barreira

existente entre o direito público e o privado, de maneira a exaltar e concretizar a

dignidade da pessoa humana, o desenvolvimento de sua personalidade, a erradicação

da pobreza e a redução das desigualdades sociais, fundamentos e objetivos da

República Federativa do Brasil.

Gustavo Tepedino7 visualiza bem esse fenômeno:

“Trata-se, em uma palavra, de estabelecer novos parâmetros para a definição de ordem pública, relendo o direito civil à luz da Constituição, de maneira a privilegiar, insista-se ainda uma vez, os valores não-patrimoniais e, em particular, a dignidade da pessoa humana, o desenvolvimento da sua personalidade, os direitos sociais e a justiça distributiva, para cujo atendimento deve se voltar à iniciativa econômica privada e as situações jurídicas patrimoniais”.

Isso implicou, no campo do direito à imagem, na aceitação de uma

nova concepção de imagem, a imagem-atributo, decorrente da vida em sociedade. E

mais, na análise dos arts. 20, caput e parágrafo único, do Código Civil de 2002 e 42 da

(14)

Lei n. 8.615/98 (direito de arena) segundo a Constituição Federal, em especial os arts.

caput, V, X e XXVIII, “a”, e 1º, III.

Antes de se adentrar no estudo da imagem em si, será feita uma

(15)

PARTE I

(16)

CAPÍTULO I

OS DIREITOS DA PERSONALIDADE

1.1 Pessoa

A palavra pessoa, do latim persona, vem de per (por) e sono (som) e designava a máscara usada pelos atores, os dramatis personae, nas representações teatrais na Antiga Grécia e em Roma8. Os atores adaptavam ao

rosto essa máscara, provida de disposição especial, para dar eco às suas palavras.

Personare significava ecoar, fazer ressoar9. Por meio da máscara o som se propagava melhor.

Persona passou a significar o papel que cada ator representava e, mais tarde, a exprimir a própria pessoa, como representante de papéis no cenário jurídico 10.

“Pessoa” confundia-se com o papel social desempenhado (“representado”); com a

posição social e processual configurada pela ordem estabelecida. Não designava “ser

humano”.

8 DONNINI, Oduvaldo; DONNINI, Rogério Ferraz. Imprensa livre, dano moral, dano à imagem e sua quantificação à luz do novo Código Civil, p. 54 e 55; CIFUENTES, Santos. Derechos personalísimos, p. 140.

(17)

Essa concepção de pessoa vigorava no pensamento primitivo. O

indivíduo, enquanto tal, não era significativo. Nas palavras de Diogo Leite de

Campos11, “o ser exprime-se (é) através de papéis funcionais em situações

determinadas, ou por um lugar social que lhe é atribuído por nascimento ou pelo

funcionamento da sociedade”.

Esse entendimento de pessoa como representação, analisado por

Thomas Hobbes nos meados do século XVII, podia ser notado até pouco tempo

atrás em nosso país.

O Código Civil de 1916, até o advento da Lei n. 6.515/77, impunha à

mulher casada o nome do marido, “recobrindo-a com o mais significativo signo da sua

persona, um verdadeiro selo que fazia apagar até os traços denotativos da ascendência biológica dos seres humanos do sexo feminino”12. A mulher e o escravo não tinham

“pessoa”, no Código Comercial de 1850, para comerciar. Os não-proprietários, até

1932, não tinham “pessoa” para votar. A mulher, se casada fosse, no Código Civil de

1916, não tinha “pessoa” para inúmeras questões, dentre as quais a de se

autodeterminar13.

11 CAMPOS, Diogo Leite de. Lições de direitos da personalidade, p. 129/130.

12 MARTINS-COSTA, Judith. Pessoa, personalidade, dignidade (ensaio de uma qualificação), p. 26/27.

(18)

O homem só foi transformado em pessoa pelo humanismo

cristão14. Vislumbrou-se, nos seres humanos – feitos à imagem e semelhança de

Deus – um valor infinito. Qualquer homem passou a ser pessoa (homens,

mulheres, crianças, nascituros, escravos, estrangeiros, inimigos...), sob a ótica

cristã, por meio das idéias do amor fraterno e da igualdade perante Deus15.

Johannes Althusius, no início do século XVII, aduziu que pessoa é o

homem como co-partícipe do Direito (persona est homo iuris communionen habens). Dessa idéia central, que ficou congelada por muito tempo, passando pela Declaração

de 1789, visualizou-se a identidade entre pessoa e indivíduo, conferindo, a essa

entidade, o atributo de ser sujeito de direitos. Os seres humanos são todos iguais, não

mais se reconhecendo por estamentos, corporações profissionais ou famílias, ao menos

na Europa Ocidental. Perdeu-se, como conseqüência, a noção de comunidade pelo

predomínio absoluto do indivíduo, culminando no individualismo.

A pessoa, identificada no indivíduo16, era dotada de direitos

absolutos. Indivíduo que, entretanto, era tido como uma abstração social; “o

‘indivíduo-sempre-igual’, resultante do princípio da igualdade (formal), ao qual

correspondia, em termos hermenêuticos, o método de subsunção lógico-sistemática”17.

14 CAMPOS, Diogo Leite de. Lições de direitos da personalidade, p. 130. 15Ibidem, p. 134.

16 Sem ignorar a existência jurídica de pessoas que não sejam seres humanos, como as “pessoas jurídicas”.

(19)

Essa idéia de pessoa, consagrada pelo Código Civil francês de 1804 e

incorporada pelas codificações posteriores, inclusive pelo Código Civil de 1916 -

concepção que, transportada à realidade brasileira de forma simplista, sem o respeito

às peculiaridades locais, acabou por privilegiar a elite político-econômica18 -, evoluiu

e ganhou novas delimitações, dimensões e responsabilidades, no Brasil com o

advento da Constituição Federal de 1988 e do Código Civil de 2002. A pessoa

passou a ser vislumbrada como um indivíduo relacional, cidadão, socialmente

inserido e existencialmente definido por sua personalidade.

Nos dias atuais a “pessoa se define não apenas por sua abstrata

liberdade de firmar vínculos jurídicos patrimoniais, mas por suas dimensões relacional,

ética e existencial. Essas dimensões dizem com a concreta vivência num espaço que é,

concomitantemente, privado ou particular e público ou comum e em relação ao qual

temos a atribuição de certas responsabilidades sociais, no qual estamos inseridos em

nossa integralidade, não apenas como funcionalidades ou como entidades

econômicas”19.

(20)

1.2 Personalidade e os direitos da personalidade

Personalidade deriva da forma latina personalitas. Trata-se de neologismo, originado do termo persona, criado no final do século XVIII, que significava um título honorífico concedido aos partidários da filosofia ilustrada que se

distinguiam na sua época por suas idéias e feitos exemplares20. Curiosamente, é uma

acepção que ainda hoje sobrevive, especialmente no mundo do entretenimento,

com suas “personalidades” e “celebridades”.

Personalidade é o conjunto de caracteres próprios da pessoa21, que

apóia os direitos e deveres que dela irradiam, “é o primeiro bem da pessoa, que

lhe pertence como primeira utilidade, para que ela possa ser o que é, para

sobreviver e se adaptar às condições do ambiente em que se encontra,

servindo-lhe de critério para aferir, adquirir e ordenar outros bens”22.

A personalidade aqui tratada é a humana ou existencial23, relativa

ao conjunto de características e atributos da pessoa humana, objeto de proteção

por parte do ordenamento jurídico, não se perspectivando como elemento

20 MARTINS-COSTA, Judith. Pessoa, personalidade, dignidade (ensaio de uma qualificação),p. 108.

21 TELLES JUNIOR, Goffredo. Direito subjetivo – I. In: Enciclopédia Saraiva do Direito, v. 28, p. 315.

22 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro,v. 1, p. 119.

(21)

qualificador do sujeito da relação jurídica enquanto tal, “cuja qualificação nos é

dada antes pelas idéias de personalidade jurídica, ou seja, pelo reconhecimento de um centro autônomo de direitos e obrigações, e de capacidade jurídica, isto é, pela possibilidade jurídica inerente a esse centro de ser titular de direitos e

obrigações em concreto”24.

A tutela jurídica dos direitos da personalidade, para alguns

autores, tem origem remota na Antigüidade, com a actio iniuriarum, em Roma – adequada à defesa de atentados à pessoa física ou moral do cidadão – e com a

hybris, na Grécia – que trazia a idéia de punir injustiça, excesso, insolência e desequilíbrio25.

Para Judith Martins-Costa26, é anacronismo considerar esses

direitos como da personalidade, embora reconheça que fossem “direitos das

Pessoas”, na concepção de pessoa como representação. Afirma, ainda, que a

importância dos direitos da personalidade começa a ser reconhecida somente no

final do século XIX.

24 SOUZA, R. V. A. Capelo de. O direito geral de personalidade, p. 106.

25 SOUZA, R. V. A. Capelo de. Op. cit., p. 44, nota 55 e p. 52/54; DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, p. 118.

(22)

Diogo Leite de Campos27 afirma que a preocupação com os direitos

da personalidade tem raízes no Cristianismo. Refere-se aos bougoumiles, aos cátaros, aos Padres da Igreja e, mais especificamente, aos levellers ingleses do século XVII, que partiram da crença de que todos os cristãos nascem livres e iguais, para a

afirmação de que os homens nascem livres e iguais.

A idéia de direitos da personalidade, com efeito, somente ganhou

corpo com o advento do Cristianismo, quando houve um despertar do conceito de

valorização do homem, reconhecendo-se nele inerente um componente espiritual, cuja

significação está em sua dignidade, base da concepção dos direitos da personalidade.

Posteriormente, seguindo a linha evolutiva desses direitos, merece destaque a Carta

Magna (assinada no ano de 1215 pelo rei João I da Inglaterra), que passou a admitir

direitos próprios, individuais, dos seres humanos28.

Mas foram a Declaração dos Direitos de 1789 e diversas outras cartas

adaptadas a alguns Estados norte-americanos que a precederam (como a carta de

Carlos I à colônia de Rhode Island de 1643, a Constituição de Locke para a Carolina do Norte de 1669, a Bills of Rights de diversos Estados, particularmente a da Virgínia de 1776)29, que impulsionaram a tutela dos direitos individuais do homem.

(23)

Os direitos da personalidade até então consagrados eram individuais,

consubstanciados em liberdades, esferas de autonomia dos indivíduos em face

fundamentalmente do poder do Estado, a quem se exige que se abstenha, quanto

possível, de se intrometer na vida social30. Esses direitos individuais, ao lado dos

direitos políticos, são classificados pela doutrina como direitos fundamentais de

primeira geração.

A personalidade humana, contudo, desenvolve-se também

relacionalmente, nas alteridades que conformam a vida social. Em outras palavras, há

direitos “sociais” da personalidade, entendidos como aqueles que afirmam ou

possibilitam a expansão da personalidade na dimensão social, tais como o direito à

educação, ao trabalho, à moradia e ao lazer31. Visam à concretização da igualdade

social e, juntamente aos direitos culturais e econômicos, são denominados direitos

fundamentais de segunda geração.

A concepção de direitos sociais da personalidade - que reclamam

prestações positivas do Estado para sua realização - emergiu apenas na metade do

século XIX, com o Manifesto Comunista elaborado por Marx e Engels em 1848, e

com outros documentos, dentre os quais a encíclica papal de Leão XIII, Rerum

30 VIEIRA DE ANDRADE, José Carlos. Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de 1976, p. 43.

(24)

Novarum, de 1891. Esses direitos sociais debutaram32, em âmbito constitucional, na Carta mexicana de 1917 e, dois anos mais tarde, foram lançados na Constituição alemã

de Weimar. Destaque-se, ainda, a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e

Explorado, aprovada em janeiro de 1918 pelo Congresso Soviético que, além de ter

reconhecido os direitos sociais, inaugurou uma nova forma de sociedade e de Estado,

que buscava libertar o homem de qualquer forma de opressão33.

Em meados do século passado, em especial após a Segunda Guerra

Mundial, quando o mundo assistiu atônito às agressões provocadas por governos

totalitários à dignidade humana, retomou-se a preocupação com os direitos da

personalidade. Essa inquietação culminou na Assembléia Geral da ONU em 1948, na

Convenção Européia de 1950 e no Pacto Internacional das Nações Unidas34. Nesse

contexto, foi promulgada a Constituição alemã de 23 de maio de 1949 que, logo no seu

art. 1º, alínea 1, normatiza princípio superior, incondicional e indisponível da ordem

constitucional: a inviolabilidade da dignidade da pessoa humana35.

Infelizmente, esses esforços não surtiram o efeito esperado, pois o

novo século se iniciou com extrema violência à dignidade humana, consubstanciada

em injustiças sociais, guerras, invasões, torturas e atentados terroristas.

32 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo, p. 159. “Debutaram” de forma sistematizada, pois a Revolução de 1848 em Paris inscrevera, em sua Constituição de curta duração, o direito do trabalho.

33Ibidem, p. 160.

34 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, v. 1, p. 118.

(25)

Merece destaque, ainda, a preocupação atual da comunidade

internacional com a tutela dos direitos da personalidade em face do progresso técnico e

científico da biologia e da genética. A Conferência Geral da UNESCO, em sua 29ª

sessão (1997) adotou a Declaração Universal sobre Genoma Humano e Direitos

Humanos36 que enaltece a dignidade da pessoa humana nessa ainda nebulosa seara

científica.

Judith Martins-Costa37 define bens da personalidade como aqueles

bens da vida relacionados a uma proteção à pessoa enquanto tal, à singularidade de cada um, e às condições de existência e de expressão dessa singularidade que

constitui, existencial e juridicamente, a personalidade humana. A imagem, não

resta dúvida, é bem da personalidade38.

Direitos da personalidade, ensina Gustavo Tepedino39, são aqueles

atinentes à tutela da pessoa humana, considerados essenciais à sua dignidade e

integridade. Para Rubens Limongi França40, são “as faculdades jurídicas cujo

36 Por conta da velocidade sempre crescente do progresso técnico e científico da biologia e da genética e, conseqüentemente, da necessidade da implementação dessa Declaração, a Conferência Geral da UNESCO em sua 30° sessão (1999) adotou as “Diretrizes para a Implementação da Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos” elaboradas pelo Comitê Internacional de Bioética e aprovadas pelo Comitê Intergovernamental de Bioética. Disponível em: <www.unesco.com.br>. Acesso em: 20/06/05.

37 MARTINS-COSTA, Judith. Pessoa, personalidade, dignidade (ensaio de uma qualificação),p. 108.

38 Enalteça-se, contudo, que a imagem-atributo das pessoas jurídicas não tem natureza de direito da personalidade, mas sim de direito de propriedade.

39 TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil, p. 24.

(26)

objeto são os diversos aspectos da própria pessoa do sujeito, bem assim como

suas emanações e prolongamentos”. Na visão de Adriano De Culpis41, são aqueles

necessários e imprescindíveis ao conteúdo da própria personalidade, essenciais à

sua definição.

Walter Moraes42 critica a expressão “direitos da personalidade”, em

razão de os objetos desses direitos não estarem na pessoa, mas na “humanidade” de

cada um. Melhor seria, afirma, a denominação “direitos de humanidade”.

Os direitos da personalidade são considerados, por grande parte da

doutrina, subjetivos, registrando-se, todavia, a existência de teorias negativistas43

defendidas por Roubier, Unger, Dabin, Savigny, Thon, Von Tuhr, Enneccerus,

Zitelmann, Crome, Iellinek, Ravà, Simoncelli, dentre outros, fundadas, basicamente,

no argumento de que a personalidade, identificando-se como a titularidade de direitos,

não poderia, ao mesmo tempo, ser considerada objeto deles, por contradição lógica44.

Savigny, em famosa construção, afirma que a admissão dos direitos da

personalidade levaria à legitimação do suicídio e da automutilação.

41 DE CULPIS, Adriano. Os direitos da personalidade, p. 17.

42 MORAES, Walter. Concepção tomista de pessoa: um contributo para a teoria do direito da personalidade, p. 19/21.

43 Hoje refutadas pela maioria dos estudiosos. DE CULPIS, Adriano. Os direitos da personalidade, p. 23/25.

(27)

Pietro Perlingieri45 sustenta que a tutela da personalidade não cabe

em um conceito tradicional de direito subjetivo - inspirado na lógica do direito de

propriedade - mas em uma complexidade de situações, que se apresentam ora como

poder jurídico, ora como interesse legítimo, ora como direito subjetivo, ou como

faculdades ou como poderes.

Prossegue o eminente jurista italiano ao afirmar que a proteção da

personalidade se coaduna mais com a idéia de “situação jurídica existencial” - não

afastando os direitos subjetivos como um dos elementos que integram a situação

jurídica - pois dotada de complexidade, interioridade, dinamicidade e concretitude46.

Complexidade, porque abarca a rica variedade de situações existenciais, de poderes,

direitos, deveres, ônus e faculdades que se revelam na prática social e são merecedoras

de tutela jurídica; interioridade, pois a situação jurídica leva a um exame interno, e não

meramente externo ou descritivo da relação em causa; dinamicidade, porque as

situações se apresentam no curso do tempo e da atividade, não são atos isolados entre

si e, por fim, concretitude, pois a situação jurídica não pode ser vislumbrada em

termos abstratos ou “sempre-iguais”, mas concretamente, “já modelados e modulados

na teia de interesses que cabe ao direito, como ordenamento, ordenar, pôr em ordem”47.

45 PERLINGIERI, Pietro. Perfis do direito civil, p. 155. 46Ibidem, p. 155 e ss.

(28)

Os direitos da personalidade não se coadunam nem com uma

listagem taxativa48 - que seria insuficiente para atender às possíveis situações

subjetivas em que a personalidade humana reclamasse tutela jurídica - nem com o seu

aprisionamento em uma única disciplina jurídica, estanque.

Nesse sentido, as classificações dos direitos da personalidade

apresentadas pela doutrina têm pouca utilidade prática49. Todavia, para registro de

pesquisa, Rubens Limongi França50 oferece a seguinte classificação: I – Direito à integridade física: 1 – direito à vida e aos alimentos; 2 – direito sobre o próprio corpo, vivo; 3 – direito sobre o próprio corpo, morto; 4 – direito sobre o corpo alheio, vivo; 5

– direito sobre o corpo alheio, morto; 6 – direito sobre partes separadas do corpo, vivo;

7 – direitos sobre partes separadas do corpo, morto. II – Direito à integridade intelectual: 1 – direito à liberdade de pensamento; 2 – direito pessoal de autor científico; 3 – direito pessoal de autor artístico; 4 – direito pessoal de inventor. III –

Direito à integridade moral: 1 – direito à liberdade civil, política e religiosa; 2 – direito à honra; 3 – direito à honorificiência; 4 – direito ao recato; 5 – direito ao

segredo pessoal, doméstico e profissional; 6 – direito à imagem; 7 – direito à

identidade pessoal, familiar e social.

48 REALE, Miguel. Os direitos da personalidade. O Estado de São Paulo, 17/01/2004.

49 FERNANDES, Milton. Os direitos da personalidade, p. 145. Nesse sentido: TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil, p. 35.

(29)

Acrescente-se, a essa listagem exemplificativa, o direito à saúde,

no seu mais amplo espectro, físico, psíquico e emocional. Assim como outros

bens da personalidade que afirmam, ou possibilitam, a expansão da personalidade

humana na sua dimensão social, tais como: a) a educação, o acesso aos bens

culturais; b) o trabalho, sua remuneração e as condições de sua prestação (como a

salubridade); c) a moradia; d) o lazer; e) os bens especiais – ou seja, aqueles

detectados em situações merecedoras de tutela especial – como a infância, a

adolescência, a maternidade e a velhice e o desemprego (garantia à previdência

social ou, se o caso, aos seguros sociais, como o seguro-desemprego)51.

Asseverando o entendimento de que são numerus apertus e de que não estão limitados ao direito civil, Miguel Reale52 sustenta que o último direito

da personalidade adquirido pela espécie humana é o ecológico, direito

fundamental de terceira geração53, previsto no art. 225 da Constituição Federal de

1988.

A doutrina clássica limita o estudo dos direitos da personalidade ao

direito civil. A propósito, o Código Civil de 1916, assim como outros códigos de sua

época, eram tidos como Constituições do direito privado. No entanto, os direitos da

personalidade devem ser revisitados, redesenhando-se o seu conteúdo à luz da

51 MARTINS-COSTA, Judith. Pessoa, personalidade, dignidade (ensaio de uma qualificação), p. 207/209.

(30)

legalidade constitucional. Já há quem sustente a existência de direitos sociais da

personalidade. Miguel Reale54 classifica o direito ecológico como direito da

personalidade. Esses direitos, em que pesem sejam da personalidade, estão

capitulados fora do direito privado tradicional.

Nos dias de hoje, não se cogita mais em proteção da pessoa

humana pelo direito público e pelo direito privado55, mas em proteção da pessoa

humana pelo direito56.

Nas palavras de Judith-Martins Costa57:

“Em primeiro lugar, agora o modelo de incomunicabilidade que, por quase um século, operou entre Constituição e Código Civil, é substituído pelo modelo da conexão e complementaridade intertextual. Constatar esse modelo não significa simplesmente endossar a tese da ‘constitucionalização do Direito Civil’, fenômeno que – dado como suposto – tem sido abordado tanto por civilistas quanto por constitucionalistas, daqui e d’além mar. Significa tão somente considerar o novo Código Civil brasileiro como uma estrutura apta a operacionalizar o que chamamos de sistema geral de tutela à pessoa humana – expandindo nas situações jurídicas interprivadas os bens da personalidade. Significa não mais considerar o Código como um universo isolado, fechado sobre si mesmo, substancialmente oposto, até, ao universo constitucional”.

54 REALE, Miguel. Os direitos da personalidade. O Estado de São Paulo, 17/01/2004.

55 A distinção entre direito público e privado deixou de ser qualitativa e passou a ser meramente quantitativa, nem sempre se podendo definir qual exatamente é o território do direito público e qual é o território do direito privado. TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil, p. 19.

56 CORTIANO JUNIOR, Eroulths. Alguns apontamentos sobre os chamados direitos da personalidade, p. 38.

(31)

1.3 Características

Os direitos da personalidade são dotados de características próprias

para uma proteção eficaz à pessoa humana, em função de possuir, como objeto, os

bens mais elevados do homem 58.

O art. 11 do Código Civil estabelece que os direitos da

personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício

sofrer limitação voluntária.

Todavia, os direitos da personalidade apresentam, além daquelas

insculpidas no Código Civil, outras características.

Orlando Gomes59 aduz que os direitos da personalidade são

absolutos, extrapatrimoniais, intransmissíveis, imprescritíveis, impenhoráveis,

vitalícios e necessários. Carlos Alberto Bittar60 sustenta que são inatos

(originários), absolutos, extrapatrimoniais, intransmissíveis, imprescritíveis,

impenhoráveis, vitalícios, necessários e oponíveis erga omnes.

Os direitos da personalidade abarcam potencialidades sem as quais

a pessoa não alcança o pleno e saudável desenvolvimento das virtudes

58 BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos da personalidade, p. 11. 59 GOMES, Orlando. Direitos da personalidade, p. 7.

(32)

biopsíquicas61. Não pode a pessoa deles se privar, durante o seu ciclo de vida.

São, portanto, essenciais e vitalícios.

Pelo seu caráter de essencialidade, os direitos da personalidade

são, em regra, inatos. Mas há os que, apesar de essenciais à garantia dos valores

concretos da personalidade, surgem em momento posterior ao nascimento da

própria personalidade, como é o caso do direito moral de autor62.

O direito à imagem não se adquire, ele surge com a personalidade.

Aquele que se submete à cirurgia plástica, por mais transformadora que seja, não

adquire outra imagem, mas apenas modifica a que tem63.

Mais adiante será examinada a situação do nascituro, sujeito de

direitos da personalidade, inclusive do direito à imagem64.

São, também, ditos absolutos pela doutrina clássica porque exigíveis

em face de qualquer pessoa, impondo-se à coletividade o dever de respeitá-los.

Oponíveis erga omnes 65.

61 JABUR, Gilberto Haddad. Limitações ao direito à própria imagem no novo Código Civil, p. 14.

62 DE CULPIS, Adriano. Os direitos da personalidade, p. 20/21; NERY, Rosa Maria de Andrade. Noções preliminares de direito civil, p. 143/145.

63 MORAES, Walter. Direito à própria imagem (II), p. 11.

64 BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos da personalidade, p. 13; NERY, Rosa Maria de Andrade. Op. cit., p. 114; DINIZ, Maria Helena. Direito à imagem e sua tutela, p. 104; ALMEIDA, Silmara J. A. Chinelato e. Tutela civil do nascituro, p. 161 e ss.

(33)

Os direitos da personalidade obrigam o Estado e os particulares a

respeitá-los. Certos direitos da personalidade reclamam, ainda, prestações positivas do

Poder Público como, por exemplo, os direitos à saúde e à educação. No entanto, não

há direitos absolutos no sistema jurídico. Nem mesmo os direitos fundamentais - que

abrigam os direitos da personalidade - são ilimitados. O homem, ponto de partida e

titular desses direitos, é socialmente situado e inserido, vale dizer, os direitos da

personalidade são relativos, pois ligados a uma concepção de responsabilidade social e

inseridos no conjunto dos valores comunitários66. São dotados de função social.

Os direitos da personalidade, quer-se dizer, nascem já com certos

contornos sociais e podem sofrer outras limitações em casos concretos, a bem do

interesse público, de outros direitos fundamentais e, em última análise, da própria

dignidade da pessoa humana, valor máximo do ordenamento. Isso será tratado no

capítulo “os limites ao direito à imagem”.

São, ainda, inalienáveis, irrenunciáveis e imprescritíveis, o que se

compreende por conta da natureza dos bens jurídicos que constituem o seu objeto,

inerentes, essenciais, inseparáveis e necessários à pessoa do seu titular67. Por

conseguinte, são impenhoráveis.

66 VIEIRA DE ANDRADE, José Carlos. Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de 1976, p. 213.

(34)

No que tange à indisponibilidade, o direito à imagem se diferencia

de outros direitos da personalidade.

A imagem de um indivíduo pode ter o uso licenciado, por meio de

negócio jurídico, para, por exemplo, a veiculação em uma propaganda68. Mas isso não

retira do direito à imagem o status de direito da personalidade.

O direito à imagem, na verdade, é indisponível. A disponibilidade

refere-se ao seu exercício, pois o titular pode consentir na utilização de sua imagem

por terceiro numa determinada situação concreta ou durante certo lapso temporal69. O

direito à imagem permanece nas mãos do sujeito de direitos.

Os direitos da personalidade são extrapatrimoniais, prendendo-se ao

chamado “hemisfério pessoal”, dizendo diretamente à categoria do ser e não do ter da pessoa, muito embora possa influir nesta 70.

Todavia, por conta da relativa disponibilidade de seu exercício, há

quem sustente que o direito à imagem tem dupla natureza, material e moral.

68 O titular também pode dispor do exercício ao direito à intimidade quando, por exemplo, autorizar a divulgação de livro contendo relato de sua intimidade. Carlos Mário da Silva Velloso sustenta que o direito ao corpo e aos órgãos são disponíveis. VELLOSO, Carlos Mário da Silva. Os direitos da personalidade no Código Civil português e no novo Código Civil brasileiro, p. 117.

69 Nesse sentido: Enunciado “4” da Jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal, em 2002, sob a coordenação científica do Min. Ruy Rosado de Aguiar: “Art. 11: o exercício dos direitos da personalidade pode sofrer limitação voluntária, desde que não seja permanente nem geral”.

(35)

Doutrina francesa, composta especialmente por E. Gaillard, J.

Ghestin, G. Goubeaux e D. Acquarone, abraça o caráter dúplice do direito à

imagem, a exemplo do direito de autor71.

O Superior Tribunal de Justiça, em algumas oportunidades,

enalteceu o duplo conteúdo do direito à imagem: o moral, porque direito da

personalidade, e o patrimonial, pois a imagem pode ter o uso licenciado

onerosamente.

Nesses julgados72, esse Egrégio Tribunal Superior determinou a

reparação por dano moral pelo simples uso não autorizado da imagem, ainda que a

publicação estivesse despida de ofensividade. Isso será tratado no item “o dano

moral”, do capítulo “a tutela e a violação do direito à imagem”.

Os direitos da personalidade são, por fim, intransmissíveis, nos termos

do que dispõe o art. 11 do Código Civil. Exceção à regra da intransmissibilidade dos

direitos da personalidade é o direito moral de autor, transmissível pela morte do titular,

por força do § 1º do art. 24 da Lei n. 8.610/98. A propósito, apenas os aspectos do

direito moral de autor descritos nos incisos I a IV do art. 24 (direito de reivindicar a

autoria da obra; de exigir a indicação do nome do autor, quando utilizada a obra; de

71 SAHM, Regina. Direito à imagem no direito civil contemporâneo, p. 197.

(36)

conservar a obra inédita e de assegurar a integridade da obra) são transmissíveis aos

herdeiros, ao abrigo do próprio § 1º. Não se transmitem aos sucessores o direito moral

de autor de modificar (art. 24, V), de retirar de circulação (art. 24, VI) e de ter acesso a

exemplar único e raro da obra, quando se encontre legitimamente em poder de outrem

(art. 24, VII).

1.4 Fontes

Carlos Alberto Bittar73 afirma que os direitos da personalidade:

“existem antes e independentemente do direito positivo, como inerentes ao próprio homem, (...) cabendo ao Estado apenas reconhecê-los e sancioná-los em um ou outro plano do direito positivo – em nível constitucional ou em patamar de legislação ordinária – e dotando-os de proteção própria, conforme o tipo de relacionamento a que se volte, a saber: contra o arbítrio do poder público ou às incursões de particulares”.

Para o ilustre autor, os direitos da personalidade têm como fonte o

direito natural74.

Em posição oposta, Adriano De Culpis75 sustenta que os direitos

da personalidade tem como fonte o direito positivo, pois a suscetibilidade de ser

73 BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos da personalidade, p. 7.

74Nesse mesmo sentido: CAMPOS, Diogo Leite de. Lições de direitos da personalidade, p. 158; FRANÇA, Rubens Limongi. Manual de direito civil, v. 1, p. 406; MATTIA, Fábio Maria de. Direitos da personalidade: aspectos gerais, p. 83.

(37)

titular desses direitos não está menos vinculada ao ordenamento jurídico do que

estão os demais direitos e obrigações.

Defendendo a tese positivista – não por equiparar os direitos da

personalidade aos patrimoniais, mas por almejar proteção efetiva a esses direitos

– e, partindo de lições de Pietro Perlingieri76, Gustavo Tepedino77 afirma ser

impossível, fora de determinado contexto histórico, estabelecer um bem jurídico

superior, “já que a sua própria compreensão depende de condicionantes

multifacetados e complexos atinentes aos valores sociais historicamente

consagrados”. Afinal, bastaria lembrar que, em nome da vida e da liberdade,

inúmeros contingentes humanos já foram sacrificados, invariavelmente sob

fundamentos éticos, religiosos e políticos que, invocados pelos Estados,

pretendiam justificar guerras, genocídios, apartheid e outras formas de discriminação sexual, étnica e cultural.

No Estado de Direito, a ordem jurídica se presta justamente a impedir

abusos cometidos por quem, invocando valores supralegislativos, “ainda que em nome

de interesses aparentemente humanistas, viesse a violar garantias individuais e sociais

estabelecidas, através da representação popular, pelo direito positivo”78.

(38)

A mutilação genital, como forma do controle do desejo sexual

feminino, imposta às mulheres em países africanos de religião mulçumana; a pena de

morte acolhida por países cristãos; o regime da escravidão em sociedades consideradas

civilizadas e a prática de tortura e de linchamento como formas de sanção social

reconhecidas em diversos Estados brasileiros são exemplos de comportamentos sociais

que revelam a ausência de uma consciência universal e natural em torno dos direitos

da personalidade e dos direitos humanos79. Por conta disso, os direitos da

personalidade devem ter como fonte o direito positivo.

1.5 Os direitos da personalidade e a dignidade da pessoa humana

Há discussão na doutrina sobre a existência de diversos direitos da

personalidade (corrente pluralista) ou de um único direito da personalidade, originário

e geral, chamado de direito geral da personalidade (corrente monista).

Adriano De Culpis80, defensor da teoria pluralista, afirma que “a

individualização do bem resulta da individualização das necessidades; que a exigência

é distinta da liberdade, e que a necessidade de vivermos respeitados não se confunde

com a necessidade de nos distinguirmos das outras pessoas. De tudo isto deriva que

são também distintos os bens correspondentes, e bem assim os direitos sobre eles”.

79 TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil, p. 42.

(39)

Adeptos da teoria monista81 sustentam que a pessoa humana é um

valor unitário e que os seus interesses relativos ao ser, mesmo dotados de conceitos

próprios, apresentam-se substancialmente ligados.

As teorias tradicionais monista e dualista tratam os direitos da

personalidade como expressão de tutela meramente ressarcitória, conferindo a esses

direitos proteção aos moldes do direito de propriedade, insuficiente para resguardar as

múltiplas e renovadas situações nas quais possa o homem se encontrar82. A tutela da

personalidade não se encaixa num modelo - único ou múltiplo - de direito subjetivo

tradicional, mas num complexo de situações jurídicas 83.

Pois bem. Após a Segunda Guerra Mundial, a comunidade jurídica

ocidental voltou-se ao estudo de um conceito, elástico e versátil, de direito geral da

personalidade, emanação da condição humana, que é dotada de dignidade, do poder de

se autodeterminar e de se desenvolver84.

Nesse ambiente foi promulgada a Constituição alemã de 23 de maio

de 1949. Logo no seu art. 1º, alínea 1, o Poder Constituinte normatiza princípio

superior, incondicional e indisponível: a inviolabilidade da dignidade da pessoa

81 Como Giorgio Giampiccolo. In: TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil, p. 42. 82 PERLINGIERI, Pietro. Perfis do direito civil, p. 154/156.

83 COSTA-MARTINS, Judith. Pessoa, personalidade, dignidade (ensaio de uma qualificação), p. 187/189.

(40)

humana. O homem deve ser entendido como ‘pessoa’, de valor próprio indisponível,

destinado ao livre desenvolvimento e situado nas situações inter-humanas mais

diversas85.

O Tribunal Constitucional Federal alemão vislumbra, no art. 2º,

alínea 1, combinado com o 1º, alínea 1, e como decorrência da dignidade da

pessoa humana, a garantia jurídico-fundamental do direito de personalidade

geral86.

Capelo de Souza87 define direito geral da personalidade como:

“O direito de cada homem ao respeito e à promoção da globalidade dos elementos, potencialidades e expressões da sua personalidade humana bem como da unidade psico-físico-sócio-ambiental dessa mesma personalidade humana (v.g. da sua dignidade humana, da sua individualidade concreta e do seu poder de autodeterminação)”.

O objeto tutelado pelo direito geral da personalidade, prossegue o

ilustre jurista português, envolve a compreensão de uma cláusula geral, a

personalidade humana, ou seja, os bens inerentes à própria materialidade e

espiritualidade de cada homem, possibilitando aos sistemas jurisprudenciais

85 HESSE, Konrad. Elementos de direito constitucional da República Federal da Alemanha, p. 329.

86Ibidem, mesma página.

(41)

valorativos conferir, ao direito geral da personalidade, maleabilidade e

versatilidade de aplicação a situações novas e complexas.

Com essa idéia de direito geral da personalidade, desenvolvida a

partir de meados do século XX, buscava-se, socorrendo-se na versatilidade

valorativa de uma cláusula geral88 – a personalidade humana – tutelar e promover

a pessoa humana em qualquer situação na qual fosse colocada. Tem origem direta,

essa renovada concepção de direito geral da personalidade, na dignidade da

pessoa humana, valor-fonte e princípio de Direito.

O princípio da dignidade da pessoa humana, nesse contexto,

passou a ser expressamente garantido em Cartas Constitucionais ocidentais

justamente para assegurar a inviolabilidade dos direitos fundamentais, dentre eles

os direitos da personalidade.

Foi assim em Portugal (Constituição de 02 de abril de 1976, art.

1º)89, na Itália (Constituição de 27 de dezembro de 1947, art. 3º), na Espanha

88 Cláusulas gerais são normas jurídicas de caráter significativamente genérico e abstrato, cujos valores devem ser preenchidos pelo juiz, autorizado a, no caso concreto, buscar a solução que lhe parecer mais correta, segundo as diretrizes contidas na própria cláusula geral e nos princípios constitucionais. NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Novo Código Civil e legislação extravagante anotados, p. 6.

(42)

(Constituição de 27 de dezembro de 1978, art. 10) e, mais recentemente, nas

Repúblicas da Croácia (Constituição de 22 de dezembro de 1990, art. 25),

Bulgária (Constituição de 12 de julho de 1991, preâmbulo), Romênia

(Constituição de 08 de dezembro de 1991, art. 1º), Letônia (Lei Constitucional de

10 de dezembro de 1991, art. 1º), Eslovênia (Constituição de 23 de dezembro de

1991, art. 21), Estônia (Constituição de 28 de junho de 1992, art. 10), Lituânia

(Constituição de 25 de outubro de 1992, art. 21), Eslováquia (Constituição de 1º

de setembro de 1992, art. 12), Tcheca (Constituição de 16 de dezembro de 1992,

preâmbulo) e na Rússia (Constituição da Federação de 12 de dezembro de 1993,

art. 21)90.

No Brasil, a dignidade humana foi elevada a fundamento da

República Federativa pela Constituição Federal de 1988, em seu art. 1º, III.

Na lição de Paulo Bonavides91, a dignidade da pessoa é um

princípio de densidade máxima, aquele em que “todos os ângulos éticos da

personalidade se acham consubstanciados”. Para Canotilho92, a dignidade humana

tem significado amplo e engloba os direitos da personalidade, os demais direitos

fundamentais do indivíduo e consagra afirmação da integridade física e espiritual

90 MARTINS-COSTA, Judith. Pessoa, personalidade, dignidade (ensaio de uma qualificação), p. 136, nota 316.

91 BONAVIDES, Paulo. Prefácio ao livro ‘Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais’, de Ingo Wolfgang Sarlet.

(43)

do homem, a garantia do desenvolvimento de sua personalidade, a defesa de sua

autonomia individual e a igualdade de todos perante a lei.

Jorge Miranda93 afirma que a dignidade é a fonte ética dos direitos

da personalidade. Rosa Maria de Andrade Nery94 vai além. Sustenta que a

dignidade humana é a razão de ser do Direito, e bastaria sozinho para estruturar o

sistema jurídico.

Nas suas belas palavras:

“Uma ciência que não se presta para prover a sociedade de tudo o quanto é necessário para permitir o desenvolvimento integral do homem, que não se presta para colocar o sistema a favor da dignidade humana, que não se presta para servir ao homem, permitindo-lhe atingir seus anseios mais secretos, não se pode dizer Ciência do Direito”95.

Em nosso país, doutrina contemporânea vislumbra, no art. 1º, III,

da Constituição Federal, verdadeira cláusula geral de direito geral da

personalidade96, juntamente com o art. 12 do Código Civil, que possibilita a tutela

genérica dos bens da personalidade humana.

93 MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional, p. 167.

94 NERY, Rosa Maria de Andrade. Noções preliminares de direito civil, p. 114. 95Ibidem, mesma página.

(44)

Na lição de Cláudio Luiz Bueno de Godoy97:

“Enfim, a inserção da dignidade como princípio constitucional fundamental, contida em preceito introdutório do capítulo dos direitos fundamentais, significa, afinal, adoção mesmo de um direito geral da personalidade, cujo conteúdo é justamente a prerrogativa do ser humano de desenvolver a integralidade de sua personalidade, todos os seus desdobramentos e projeções, nada mais senão a garantia dessa sua própria dignidade”.

Gustavo Tepedino98, a esse respeito, leciona:

“A escolha da dignidade da pessoa humana como fundamento da República, associada ao objetivo fundamental de erradicação da pobreza e da marginalização, e de redução das desigualdades sociais, juntamente com a previsão do § 2º do art. 5º, no sentido da não exclusão de quaisquer direitos e garantias, mesmo que não expressos, desde que decorrentes dos princípios adotados pelo texto maior, configuram uma verdadeira cláusula geral de tutela e promoção da pessoa humana, tomada como valor máximo do ordenamento”.

O nosso ordenamento jurídico também tutela bens específicos da

personalidade. Protege, exemplificativamente, a vida (art. 5º, caput, Constituição Federal), a liberdade (art. 5º, caput, Constituição Federal), a vida privada (arts. 5º, X, Constituição Federal e 21, Código Civil), a honra (art. 5º, X, Constituição

Federal) e a imagem (arts. 5º, V e X, Constituição Federal e 20, Código Civil).

97 GODOY, Cláudio Luiz Bueno de. A liberdade de imprensa e os direitos da personalidade, p. 30.

(45)

A par da tutela específica de certos bens da personalidade, há em

nossa ordem jurídica uma cláusula geral de tutela e promoção da pessoa humana que se amolda às múltiplas, complexas e renovadas situações nas quais o homem

possa se encontrar a cada dia para garantir ao ser humano o integral desenvolvimento

de sua personalidade, de todos os seus desdobramentos e projeções, enfim, de sua

dignidade.

1.6 Os direitos da personalidade e os direitos fundamentais

Direitos fundamentais “são os direitos do homem,

jurídico-institucionalmente garantidos e limitados espaço-temporalmente”99. Todos os

direitos da personalidade são fundamentais, apesar de nem todos os direitos

fundamentais serem da personalidade. Entretanto, afirma Canotilho100, dada a

interdependência entre o estatuto positivo e o estatuto negativo do cidadão, e em

face da adoção de um direito geral de personalidade como “direito à pessoa ser e à

pessoa devir”, cada vez mais os direitos fundamentais tendem a ser direitos da

personalidade e vice-versa.

99 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional, p. 517. Canotilho define, ainda, “direitos do homem” como os “direitos válidos para todos os povos e em todos os tempos (dimensão jusnaturalista-universalista)”. Se os direitos do homem “arrancariam da própria natureza humana e daí o seu carácter inviolável, intemporal e universal”, os direitos fundamentais seriam os direitos objetivamente vigentes numa ordem jurídica concreta. Ibidem, mesma página.

(46)

Capelo de Souza101 distingue os direitos da personalidade dos

direitos fundamentais pelos planos jurídico-gnoseológicos no qual se situam: no

qual se situam: aqueles, no plano do direito civil; estes, no do direito constitucional.

Sustenta que os direitos fundamentais são mais amplos e abrigam todos os direitos,

liberdades e garantias de participação política do individuo, dos trabalhadores e de

direitos fundamentais econômicos, sociais e culturais. Afirma, ainda, que nem todos os

direitos da personalidade são fundamentais (como por exemplo, os direitos à imagem e

moral de autor), com o que não concordamos. Os direitos humanos, por seu turno,

diferenciar-se-iam dos direitos da personalidade por serem sempre essenciais e

universais e, ainda, por estarem situados também no plano político, aduz.

Gustavo Tepedino102 refuta a distinção entre direitos da

personalidade, direitos fundamentais e direitos humanos. Defendendo a

necessidade de superação das técnicas setoriais, afirma que a tutela da

personalidade:

“Não pode se conter em setores estanques, de um lado os direitos humanos e de outro as chamadas situações jurídicas de direito privado. A pessoa, à luz do sistema constitucional, requer proteção integrada, que supere a dicotomia do direito público e do direito privado e atenda à cláusula geral fixada pelo texto maior, de promoção da dignidade humana”.

(47)

Não devemos abrigar diferenciação estanque entre direitos

fundamentais e direitos da personalidade. Mas, tecnicamente, eles podem ser

discernidos, dentro do sistema geral de tutela à pessoa humana. Há relação de

parcial coincidência entre eles, pois todos os direitos fundamentais que estejam

fundados diretamente na autonomia e na singularidade humanas, voltando-se à

tutela da pessoa como ser autônomo e singular, serão direitos de personalidade103.

Estes, por seu turno, não encerram o rol dos direitos fundamentais.

No direito positivo, o Poder Constituinte pátrio estampou, como

espécies do gênero direitos e garantias fundamentais (Título II), os direitos

individuais e coletivos (Capítulo I, art. 5º), os direitos sociais (Capítulo II, arts. 6º

a 11), os direitos de nacionalidade (Capítulo III, arts. 12 e 13), os direitos

políticos (Capítulo IV, arts. 14 a 16) e os direitos relacionados à existência,

organização e participação em partidos políticos (Capítulo V, art. 17). Os direitos

da personalidade, conforme já examinado, podem ser individuais, sociais ou

mesmo de solidariedade ou fraternidade (que engloba o direito a um meio

ambiente equilibrado).

Analisados alguns aspectos dos direitos da personalidade,

passemos a tratar da imagem, bem jurídico da personalidade que representa a sua

própria exteriorização.

(48)

PARTE II

(49)

CAPÍTULO II

O DIREITO À IMAGEM

2.1 O conceito de imagem

Imagem104, palavra derivada do latim imago, na definição de Antônio Chaves105, “é a representação de um objeto pelo desenho, pintura,

escultura etc”.

Carlos Alberto Bittar106, ao examinar o direito à imagem, define-o

como:

“O direito que a pessoa tem sobre a sua forma plástica e seus respectivos componentes distintos (rosto, olhos, perfil, busto) que a individualizam no seio da coletividade. Incide, pois, sobre a conformação física da pessoa, compreendendo esse direito um conjunto de caracteres que a identifica no seio social. Por outras palavras, é o vínculo que une a pessoa a sua expressão externa, tomada no conjunto, ou em partes significativas (como a boca, os olhos, as pernas, como individualizadoras da pessoa)”.

A idéia inicial de imagem está ligada unicamente à reprodução

visual estática da pessoa ou da coisa. Ao retrato.

104 No francês, image; no inglês, image; no alemão, bild; no italiano, immagine. 105 CHAVES, Antônio. Direito à imagem e direito à fisionomia, p. 38.

(50)

Propôs Adriano De Culpis107 conceito de maior amplitude, ao

afirmar que, embora a proteção da imagem encontre a sua mais freqüente explicação

no campo fotográfico, estão também abrangidas pela tutela jurídica a reprodução

teatral e cinematográfica da pessoa, isto é, as hipóteses em que um artista, através da

figura, do gesto, da atitude, reproduz na cena ou na película a pessoa.

Mas foi Walter Moraes108 quem nos apresentou uma definição

verdadeiramente ampla de imagem, que vai além do caráter visual: “Toda expressão

formal e sensível da personalidade de um homem é imagem para o Direito”. A

imagem constitui um sinal sensível da personalidade: revela para o mundo exterior o

ser imaterial da personalidade interior, delineia-a, dá-lhe forma109.

A idéia de imagem, para o direito, pressupõe figura humana110.

Não se refere somente à sua reprodução visual, mas também à imagem sonora da

fonografia e da radiodifusão, às partes de corpo (boca, nariz, olhos etc., desde que

suficientes à identificação do indivíduo)111, aos gestos e expressões dinâmicas da

personalidade.

107 DE CULPIS, Adriano. Os direitos da personalidade, p. 133. 108 MORAES, Walter. Direito à própria imagem (I), p. 65. 109Ibidem, p. 80.

110 Estamos nos referindo à imagem-retrato. A imagem-atributo existe também para as pessoas jurídicas, conforme será tratado no item seguinte.

(51)

O DNA (ácido desoxirribonucléico) do ser humano é também

expressão formal e sensível da personalidade. Os genes que o circunscrevem são

os depositários e transmissores de todos os caracteres gerais e individuais do

homem112. É imagem para o direito. Celso Antonio Pacheco Fiorillo113 afirma que

o DNA traduz a “imagem científica dos seres humanos” e compõe o conceito

desse bem da personalidade.

2.2 Imagem-retrato e imagem-atributo

A evolução do estudo do tema inseriu no conceito desse bem jurídico

a imagem sonora da fonografia, da radiodifusão e todas as demais expressões formais

e sensíveis da personalidade, inclusive os componentes genéticos humanos,

perceptíveis graças ao avanço da engenharia genética.

Mas a significação do instituto não se exaure na exteriorização formal

e sensível da personalidade do homem.

A idéia de imagem para o direito, nos dias atuais, abarca também o

conjunto de características efetivamente cultivadas pelo indivíduo em seu meio social

112 DINIZ, Maria Helena. Direito à imagem e sua tutela, p. 104.

(52)

ou, em outras palavras, os atributos - positivos ou negativos - que uma pessoa

realmente apresenta aos olhos do corpo social114.

Nas palavras de Antônio Chaves115:

“Levamos nossa imagem conosco por toda a existência, selo, marca, timbre, reflexo indelével da nossa personalidade, com que nos chancelou a natureza, a revelar com olhos perscrutadores, tendências, qualidades, delicadeza de sentimentos, nobreza de espírito, ou, ao contrário, defeitos, cupidez, egoísmo, grosseria. Facilita a vida e prodigaliza uma cornucópia de venturas aos bem-aventurados de feições agradáveis, amaldiçoa, persegue, humilha os infelizes de semblante repulsivo”.

Essa “imagem” não diz, necessariamente, com os valores

favoráveis acolhidos pela sociedade, com os bons costumes. Refere-se aos

atributos efetivamente mantidos – bons ou maus – pelos quais a pessoa passa a

nutrir a fundada expectativa de reconhecimento no seu meio social.

Foi também incorporada essa nova significação de imagem pela

linguagem popular, em sentido amplo. Fala-se em “imagem de um político”,

“imagem de uma empresa”, “imagem de um profissional” para designar,

genericamente, a forma como são vistos pela sociedade.

(53)

David Araújo116, partindo de uma análise da Constituição Federal

de 1988, identifica duas espécies de “imagem” no ordenamento jurídico. A

“imagem-retrato”, decorrente da identidade física da pessoa (art. 5º, X), e uma

outra imagem, que corresponde ao conjunto de características efetivamente

apresentadas socialmente por determinado indivíduo, chamada de

“imagem-atributo” (art. 5º, V).

Com efeito. O homem, em seu ambiente familiar, profissional, ou em

suas relações de lazer, tende a ser visto, por conta do seu comportamento, de

determinada maneira pelo grupo social que o cerca117. Essas características que o

revelam podem ser boas ou más, positivas ou negativas. O profissional tem uma

imagem. O chefe de família tem uma imagem. O político tem uma imagem. O

advogado tem uma imagem, que não se confunde com a imagem-retrato, com a honra,

nem com os demais direitos da personalidade.

Regina Sahm118 chama esse novo conceito de imagem de

“imagem-qualificação”, que acompanha o direito de não ser qualificado sem

autorização ou de impedir que isso se dê de tal forma que não corresponda a sua

verdade pessoal.

116 ARAÚJO, Luiz Alberto David. A proteção constitucional da própria imagem, p. 31. 117Ibidem, mesma página.

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