CAPÍTULO 3. TOMÁS DE AQUINO E A FUNDAMENTAÇÃO ÉTICA DOS
3.4 OS DIREITOS HUMANOS E O CLAMOR POR UNIVERSALIDADE
Umbilicalmente relacionada à naturalidade, uma das características dos direitos humanos é a universalidade. Isto é, tais direitos não estão condicionados a uma determinada comunidade, Estado, povo ou a uma específica cultura. São direitos que não estão limitados a um território ou contidos por fronteiras nacionais, pois são atribuídos a todas as pessoas, em razão de sua condição de pessoa humana698.
Esta característica é frequentemente questionada, em razão da preocupação de que os direitos humanos acabem por funcionar como um mecanismo de imposição dos valores ocidentais sobre os valores das demais regiões do mundo – uma nova forma de imperialismo cultural. Como se houvesse uma cultura que tem certos valores que devem ser reproduzidos nas demais. No entanto, ignorar uma noção de universalidade – seja ela qual for – dos direitos humanos é nulificar este conceito. Afinal, assim como não é possível afirmar que todos os valores ocidentais estão certos, não há como negar que muitos valores de outras culturas, ainda que regionais e tradicionais, precisam ser modificados – por exemplo, a mutilação feminina699.
Considerando a fundamentação dos direitos humanos a partir da condição de pessoa, alguma forma de universalidade torna-se uma consequência lógica. Diz respeito ao que é devido ou vedado em razão da dignidade constitutiva de todo e cada ser humano. Por isso, José Pascua escreve sobre a essencialidade da noção de universalidade:
[...] os direitos humanos ou são universais ou não são direitos humanos. Se se renuncia ao atributo da universalidade destrói-se a ideia dos direitos humanos, a ideia luminosa de uns direitos que se atribuem a todos os seres humanos independentemente de
qualquer exclusão e independentemente de qualquer discriminação700.
Se a condição de pessoa e a dignidade a ela inerente não forem universais, os direitos humanos tornam-se um simples nome. Nada implicaria afirmar alguém como pessoa humana, uma vez que as consequências disso dependeriam das particularidades e do convencionado pela sociedade – manifesto na cultura e na história701. No entanto, o conceito de direitos humanos
698 SARLET, op. cit., p. 210.
699 Embora Klautau Filho siga a via dialógica para defender uma forma de universalidade – que difere da via
tomista –, faz diversos apontamentos sobre atos culturais que são apenas uma reprodução tradicional de relações de poder e opressão e que indicam essa incompatibilidade entre o conceito de direitos humanos e a rejeição total à universalidade. Ver: KLAUTAU FILHO, Paulo de Tarso Dias. Igualdade e Liberdade: Ronald Dworkin e a Concepção Contemporânea de Direitos Humanos. Belém: CESUPA, 2004, p. 36-82.
700 Tradução livre de: “[…] los derechos humanos o son universales o no son derechos humanos. Si se renuncia al
rasgo de la universalidad se destruye la ideia de los derechos humanos, la luminosa ideia de unos derechos que se atribuyen a todos los seres humanos más allá de cualquier exclusión y más allá de cualquier discriminación”. Cf.: PASCUA, José A. Ramos. La Ética Interna del Derecho. 2. ed. Sevilha: Desclée, 2011, p. 74.
depende da possibilidade de reconhecimento de determinados deveres e direitos que não estão condicionados a fronteiras nacionais ou culturais – que independem de um Estado ou de uma sociedade. Assim como os direitos humanos representam limites ao Poder Político – e exatamente para que isso seja possível –, eles precisam ser um critério universal apto a julgar o particular – ao invés de ser fruto total das particularidades.
A questão central nesse ponto é encontrar um equilíbrio ou uma alternativa ao universalismo abstrato – contrário à condição do homem, que não é uma sabedoria e razão puras, capaz de legislar no abstrato sobre sua própria conduta – e à ênfase na particularidade – que elevada ao máximo enfatiza na distinção entre as pessoas e, assim, torna impossível qualquer solidariedade entre elas. Uma universalidade que reconheça as diferenças, sem considerar que a humanidade esteja limitada por essas particularidades – ao contrário, reconhecendo que a humanidade está presente nos semelhantes702.
Essa via pode ser encontrada por meio da condição de pessoa em Aquino, na universalidade analógica desse conceito. Sendo a pessoa humana a base dos direitos humanos, eles precisam estar vinculados à condição de pessoa. Como visto, essa condição está imbricada por particularidades. Cada pessoa possui uma história própria, o que faz com que a personalidade individual seja única. No entanto, ao mesmo tempo, por meio da epistemologia tomista, podemos superar as particularidades e encontrar um conceito analógico para a pessoa – com predicados que se manifestam de forma apenas semelhante e não idêntica. Somente dessa forma é possível compreender uma universalidade que respeita as particularidades, sem cair em um imperialismo e, ao mesmo tempo, podendo refutar determinadas práticas.
Por isso, a universalidade fundamentada a partir da analogia tomista não anula o contexto cultural ou as diferenças entre as pessoas e os povos. A universalidade dos direitos humanos a partir de uma perspectiva analógica não tem o objetivo de eliminar a diversidade historicamente existente – naquilo que não viola o padrão moral objetivamente conhecido – porque não está baseada em conceitos unívocos. Ao contrário, tal universalidade coexiste com um relativismo cultural não normativo. Isso significa que conceitos universais – como direitos humanos – possuem uma relação com a cultura, o que implica certas alterações, mas a cultura não relativiza totalmente o conceito. Aliás, autores como Grisez concluem que, embora existam diferenças culturais entre os povos e as regiões, ou dentro do mesmo povo ao longo da história, isso não implica necessariamente que os padrões éticos sejam também relativos703.
702 DURKHEIM, op. cit., p. 303.
703 GRISEZ, Germain; SHAW, Russel. Beyond the new morality: The responsabilities of freedom. Notre Dame:
Ao tratar da sacralização da pessoa, Durkheim destaca a relação entre a universalidade da humanidade e a particularidade do indivíduo, podendo sua explicação ser fundamentada a partir da universalidade analógica tomista: “O culto do qual ele [o ser humano] é, ao mesmo tempo, objeto e agente, não se dirige ao ser particular que ele é e que carrega seu nome, mas à pessoa humana, onde quer que ela se encontre, sob qualquer forma que se personifique”704.
Onde houver humanidade, apesar das particularidades, haverá a proteção da pessoa humana. Além disso, a ética das virtudes tomista também assegura uma universalidade que respeita a diversidade – permeada pelo tempo e pela cultura –, uma vez que é formada por normas responsivas a considerações particulares e assentadas em tradições comunitárias705. Ou
seja, a virtude é capaz de incluir da melhor forma as influências das circunstâncias, sem estar fechada em um dever abstrato além do tempo e do espaço. Por outro lado, todavia, continua preservando os bens a serem realizados.
Uma consequência dessa universalidade analógica é que culturas diferentes terão visões e conceitos diferentes sobre os direitos humanos. Assim, caso alguma não os reconheça ou se negue a aceitá-los – totalmente ou apenas em relação a determinados direitos –, não se trata de, pura e simplesmente, impor uma específica concepção acerca deles ou, noutro extremo, deixá-los conforme se encontram. É necessária uma universalidade consentânea com o pluralismo cultural, que busque formas de assegurar os bens humanos e, por decorrência lógica, a dignidade da pessoa humana sem impor a reprodução de uma específica concepção sobre os direitos disso decorrentes706. A analogia em Aquino fundamenta esse caminho.