CAPÍTULO 3. TOMÁS DE AQUINO E A FUNDAMENTAÇÃO ÉTICA DOS
3.2 UM PRESSUPOSTO: O RECONHECIMENTO DA HUMANIDADE
Entre os pilares da ética tomista que fundamentam os direitos humanos está a justiça, uma vez que implica relações interpessoais marcadas pela capacidade e dever de reconhecer o próximo como pessoa – de reconhecê-lo igualmente como Imago Dei. E nas relações de justiça é possível identificar a empatia em relação ao próximo – a capacidade de colocar-se na sua situação, o que possibilita uma resposta às suas necessidades. Por meio de Aquino podemos compreender que o ser humano se ordena ao próximo e que isso é constitutivo de sua realização individual. Mas não apenas isso. Nessa ordenação há uma relação de justiça, na qual observar o dever em relação ao outro é um ato da razão e, consequentemente, moral.
655 SPAEMANN, 1988, p. 30.
656 SPAEMANN, 1988, p. 33. Inclusive, Joas vê uma possibilidade de ainda hoje o cristianismo servir de “esteio
da sacralidade de cada pessoa contra as forças despersonalizantes da modernidade”. Ver: JOAS, op. cit., p. 59.
657 Tradução livre de: “es un error todavía no superado pensar que se podría renunciar a la consideración de la
realidad sin que con ello se escapen no pocas cosas a las cuales no es posible renunciar tan fácilmente”. Ver: SPAEMANN, 1988, p. 21.
Dessa forma, ao basear-se na condição de pessoa comum a toda a humanidade, a ética tomista fixou a base para a naturalidade dos direitos humanos. E, ao defender a existência de determinados bens humanos objetivamente válidos, tornou-se possível o desenvolvimento de direitos que transcendem fronteiras nacionais e culturais, alcançando qualquer ser humano. Os direitos humanos, então, podem ser fundamentados a partir de uma determinada naturalidade – isto é, enquanto conceitos não criados ex nihilo por alguma convenção – a partir da compreensão de que todos os seres humanos possuem atributos próprios e comuns, como racionalidade, liberdade e dignidade.
Ausente um fundamento em relações de justiça, em que os sujeitos são compreendidos como pessoa e, consequentemente, há a capacidade de sentir o sofrimento alheio, de colocar-se na condição das demais pessoas – aquelas que sequer são familiares ou do mesmo círculo de convivência –, seria inviável a afirmação dos direitos mais básicos das primeiras declarações. E não existem direitos humanos sem empatia, sem a capacidade de cada pessoa colocar-se no lugar da outra e, assim, compreender necessidades comuns. Em consequência, as necessidades que afetem a todos (ou mesmo que afetem somente o outro) precisam ser remediadas. Esse conceito é básico para a compreensão de que o outro possui os direitos necessários à transformação de sua condição – ou, em outros termos, ao respeito desta.
Isso relaciona-se diretamente com uma condição de pessoa que é igualmente possuída por todo ser humano. No entanto, essa igualdade da condição de pessoa humana não significa que todos devem ser absolutamente iguais, e sim que a condição de pessoa humana é igual a todos os seres humanos658. Há uma igualdade constitutiva da pessoa humana que se correlaciona
à sua também constitutiva dignidade. Claro que esse elemento de fundamentação nem sempre encontrou manifestação prática, mas essa é uma questão da afirmação histórica e sociológica dos direitos humanos – o que não condiciona sua fundamentação, embora dependa desta para desenvolver-se de forma racional.
Lynn Hunt659, ao analisar essa construção histórica dos direitos humanos, destacou a
relação de seu conceito com, no mínimo, três fenômenos: a garantia dos direitos das mulheres, o fim da escravidão e o repúdio à tortura. Anos mais tarde, o fundamento que baseou aquelas transformações levou a humanidade a considerar inadmissíveis os atos praticados pelo Regime Nazista – ainda que não houvesse nenhuma norma escrita neste sentido.
Tais transformações foram pautadas, entre outros fundamentos, na empatia. A compreensão de que o outro é senhor de si, em vez de um objeto, possibilitou o reconhecimento
658 HERVADA, 2008, p. 321.
de que todo ser humano é um fim em si mesmo e não um meio. Tal transformação social somente foi possível porque as pessoas estavam se colocando no lugar daqueles que nunca possuíram voz, reconhecendo a generalidade da condição de pessoa humana. A partir de então a mudança movida pelos direitos humanos era inevitável660.
Por isso, as relações interpessoais demandadas por uma concepção fundamentada dos direitos humanos – no sentido que aqui vem sendo abordado – não podem estar baseadas em uma visão utilitarista da outra pessoa. Quando a sacralidade da pessoa é compreendida como a sacralidade de cada e de toda pessoa humana, a dignidade e a igualdade passam a fazer parte das relações interpessoais. Ao contrário, por exemplo, do utilitarismo, que não consegue justificar em todos os casos a inutilidade de tirar a vida de alguém661.
A fundamentação dos direitos humanos a partir desse reconhecimento da condição de pessoa dos demais é indispensável, pois os direitos humanos, diferentemente dos demais direitos, exigem uma proteção que não se limite às relações mantidas com os Estados. Essa afirmação pode soar historicamente falsa, tendo em vista que o ideal liberal desses direitos os apontou tão somente contra o Poder Político. No entanto, ao vermos os desafios atuais de respeito ao ser humano precisamos reconhecer que os direitos mais fundamentais exigem uma proteção nas relações interpessoais.
A exigência de reconhecimento da condição de todo ser humano como pessoa nos permite compreender o recurso às teorias do direito natural no curso das primeiras declarações de direitos humanos. Como afirma Joas, a linguagem dos direitos naturais foi recuperada pelas revoluções porque era extremamente apropriada para promover a supressão dos privilégios de classe (aristocráticos e clericais)662. No entanto, como vem sendo visto, não se trata apenas de
uma possibilidade histórica, mas uma via de fundamentação.
A partir de Aquino é possível compreender que a relação com o outro afeta necessariamente a ética e a juridicidade, pois, sendo o outro uma pessoa, a relação com ele é uma forma de relação de justiça em que algo é devido às partes. A continuidade dessa forma de relacionar-se com os demais atrai a noção de virtude. Considerando, então, a relação da lei com a virtude já apontada, o Direito precisa ordenar a sociedade em torno de relações que promovam essa concepção de humanidade comum – na medida do possível.
Contudo, o reconhecimento do outro como pessoa se dá em relações interpessoais – e, por isso, depende da existência delas. O papel, então, dessas relações para o indivíduo assume
660 HUNT, op. cit., p. 28.
661 JOAS, op. cit., p. 71. 662 JOAS, op. cit., p. 36.
um caráter fundamental. Na fundamentação dos direitos humanos a partir de Aquino a igual condição de pessoa envolve a natural sociabilidade humana. Isto é, sua inclinação a relacionar- se com outras pessoas. A condição de animal social do homem envolve ser social com outros seres com condição de pessoalidade.
Por tal via, é possível compreender os direitos humanos como uma garantia da individualidade sem incluir um caráter egoísta. Na clássica explicação de Durkheim, o individualismo pode ser classificado a partir do seu caráter egoísta ou não. É possível identificar um individualismo destrutivo, anarquista, em que os indivíduos não são guiados por outro propósito que não a obtenção do próprio prazer egoísta663. Por outro lado, o individualismo
presente nos direitos humanos encara com ceticismo o interesse meramente pessoal, não sendo um “culto egoísta do eu”664.
O tomismo fundamenta explicações sobre os direitos humanos – como a de Durkheim, de que os direitos humanos dependem de uma simpatia por tudo que é humano, uma compaixão com todas as tragédias humanas e uma sede de justiça665– a partir do necessário reconhecimento
da pessoalidade de cada ser humano – e de todos eles, consequentemente. E, em razão dessa necessária e fundamental sociabilidade da pessoa, o fundamento dos direitos humanos é a condição de pessoa humana e não de indivíduo. Como resume Joas:
De minha parte, falo da sacralidade da pessoa e não do indivíduo para garantir sem ambiguidades que a crença na dignidade irredutível de cada ser humano, circunscrita com essa expressão, não seja imediatamente confundida com uma autossacralização inescrupulosamente egocêntrica do indivíduo e, desse modo, com uma incapacidade narcisista de livrar-se da autorreferencialidade666.
Assim, por um lado o ser humano se diferencia dos animais em razão de sua dimensão moral, que envolve sua racionalidade e liberdade – que permitem que ele tenha uma personalidade. Por outro lado, o ser humano não vive fechado em si. Se assim o fosse, não conseguiria reconhecer a pessoalidade dos demais e, consequentemente, não teria sua pessoalidade reconhecida senão por ele mesmo. Somente essa dimensão social permite o reconhecimento mútuo – e geral – da condição de pessoa do ser humano, sem o qual o conceito de direitos humanos esvazia-se.
Portanto, após a consideração do ser humano como pessoa, dotado de atributos que atraem o reconhecimento de sua dignidade, o pressuposto aos direitos humanos é o
663 DURKHEIM, Émile. O individualismo e os intelectuais. Revista de Direito do Cesusc, Florianópolis, n. 2, p.
299-311, jan./jun. 2007 [1898].
664 DURKHEIM, op. cit., p. 301.
665 DURKHEIM, op. cit., p. 304.
reconhecimento da igual condição de pessoa – e de sua dignidade constitutiva – a todo ser humano, partindo da natural sociabilidade e das relações de justiça.