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PARTE 2 PRESSUPOSTOS JUSFILOSÓFICOS PARA A PLENITUDE DA

4 CAUSAS EXTRÍNSECAS DO DIREITO

4.3 Causa final

4.3.2 Os elementos do Bem Comum Político

Fica por saber agora em que constitui o bem comum político, ou seja, quais são os elementos que o constituem, para, assim, saber como pode o direito numa relação de apetite.

O Prof. Vigo (1983) apresenta como conteúdo do bem comum quatro elementos: a ordem, a concórdia política, o direito positivo eficiente e a vida humana perfeita (que se divida em bens externos, bens do corpo e bens da alma. O Prof. João Camillo de Oliveira Torres (1968), a seu turno, apresenta cinco: a ordem, a liberdade, a segurança, a justiça e a prosperidade.

Não se verifica entre os dois autores qualquer contradição, mas sim uma complementaridade mútua, não se pretendendo dizer com isso que falta em algum deles a completa definição de bem comum.

O primeiro elemento a ser analisado é a ordem ou arquia. É bem de todos que haja na sociedade política uma certa ordem, a acompanhar analogicamente a ordem natural das coisas, utilizando-se o Estado, para isso, da força proporcionalmente necessária, já que tal ordem não exige tão somente abstenção estatal, mas também atitudes positivas.

João Camillo dirá que “consiste a ordem na regularidade de sucessão dos atos e na regularidade de colocação dos seres” (TORRES, 1968, pg. 110). Isso sem dúvida é um bem comum, pois a instabilidade é maléfica no sentido em que não se sabe o que pode acontecer e quando pode acontecer. Não existe Estado sem que haja ordem.

Ademais, temos a concórdia política, pois sem um mínimo de coesão, ainda que nos pontos mais pacíficos, não há como se ter um Estado eficiente. Pelo contrário, é a própria dissociação política, em que não há valores que agreguem as pessoas em mira de um objetivo comum.

Não há dúvidas que a liberdade também é elemento do bem comum político, na medida em que o homem é essencialmente livre. Frente ao Estado, ela se manifestará em duplo sentido: objetivamente consiste no direito à ausência de óbices à expansão dos indivíduos e dos grupos sociais. Subjetivamente, será o poder com que conta a pessoa para se defender das injustificadas ingerências em sua esfera pessoal ou micro-social. (Torres, 1968).

Outro elemento fundamental para o bem comum é a existência de um direito positivo encarregado de assinalar o caminho para a sua concretização. São nesse sentido as palavras do Prof. Vigo (1983, pg. 173).:

As normas constituem um ‘ideal’ – no dizer de Lachance – ou um projeto a favor do bem comum concreto, por isso poder se afirmar que há um passo desde às normas justas às condutas justas, que, inclusive, as vezes não chega a se dar.

O Prof. Rodolfo Luis Vigo (1983, pg. 170), citando Lachance em certos momentos, manifesta-se acerca do papel do direito em relação ao Estado e, conseqüentemente à política:

O direito não é para si mesmo, senão que está ordenado para fazer possível e conveniente a vida em sociedade, e também para fazê-la efetiva, aportando todo ele pra realizar o bem comum” (Lachance, 1953 apud Vigo, 1983). Tomistas egrégios como Lachance, Olgiati, Soaje Ramos, etc., têm destacado este caráter das normas jurídicas ordenadas ao bem comum político, chamando o de nota de politicidade do direito; este, segundo leis inscritas no ser humano, possui uma orientação finalística intrínseca ao “bonum commune”, que no caso da justiça legal e distributiva a referencia é direta e a respeito da justiça comutativa indireta.52

O bem comum é causa final do direito na medida em que as normas jurídicas – naturais ou positivas – apresentam um direcionamento até o bem de todos naquilo que todos temos em comum (Saldanha Souza Jr., 1997). No caso das relações particulares (justiça comutativa), isso ocorre de maneira indireta, na medida em que é bom para a sociedade política que as obrigações dos particulares sejam cumpridas com retidão, sob pena de instabilidade e insegurança.Com relação aos outros dois modos de justiça, a relação com o bem comum é direta, pois ocorre uma imediata participação do indivíduo no bem comum.

O Prof. João Camillo de Oliveira Torres (1968, pg. 112) apresenta, ainda, como inter-relacionados mais três elementos do bem comum (segurança, justiça, e prosperidade), o que faz nas seguintes palavras:

(...) se não há segurança na sociedade, a vida se torna insuportável. Mas a segurança não pode ser garantida sem a Justiça estabelecida entre os indivíduos e entre os grupos. Por fim, é impossível a vida humana sem um mínimo de bens materiais destinados a garantir a alimentação, a casa, o vestuário. Sem, a prosperidade geral não há vida social.

52 Tradução livre do espanhol pelo autor.

Mais adiante vai dizer o mestre mineiro que tais elementos somados à ordem e à liberdade só podem existir na Democracia que, alertando para as dificuldades que se tem a conceituar, descreve-a nos seguintes termos:

Chama-se Democracia o Estado em que todos os poderes estão sujeitos à lei, e que tem como fundamento e condições de exercício o consentimento dos cidadãos, como finalidade o bem comum do povo e como limite os direitos fundamentais do homem. (TORRES, 1968, pg. 113)

Pela riqueza que apresenta essa definição, há que se dispensar eventuais comentários que dificilmente conseguirão trazer aportes de clareza, correndo-se o risco, ainda de maculá-la por qualquer imprecisão terminológica.

Convém, ademais, trazer uma breve definição elaborada pela Corte Constitucional Alemã acerca da democracia, que muito pouco se diferencia da anterior e que amolda também elementos do bem comum:

A Corte Constitucional alemã (decisão de 23 de outubro de 1952) a resumiu [a democracia] perfeitamente nestes termos: a ordem democrática é a do poder de um Estado de direito, fundado sobre a autodeterminação do povo, segundo a vontade da maioria, sobre a liberdade e a igualdade, à exclusão de todo poder violento e arbitrário. (GICQUEL, 1993, pg. 194-195)

Com relação, ainda, à prosperidade de que fala o Prof. João Camillo, também ela é tratada pelo mestre argentino que a divide em três esferas: os bens externos, os bens do corpo e bens da alma. Sendo que os primeiros são aqueles necessários para a realização de uma vida digna, por meio da sua justa distribuição. Há de se verificar, portanto, a existência de vestuário, mobília e adereços dos quais o homem tem carência para a realização de suas atividades pessoais.

Além desses, faz-se mister que o corpo esteja guarnecido de alimentação e salubridade, pois “Um corpo são e forte resulta um bem médio para o crescimento pessoal e pelo contrário, um corpo enfermo e débil constitui um obstáculo para o exercício da virtude” (VIGO, 1983, pg. 176)

Enfim, pressuposto que os bens exteriores e os bens do corpo devem ser entendidos como meio há garantir a realização dos bens da alma, pois a inexistência destes

corresponde à animalização da pessoa humana, negando-se toda a sorte do belo, do culto, da verdade e do bem. O incremento dos bens espirituais deve se realizar no sentido quantitativo e também qualitativo.

Não se pretendeu, esta seção, esgotar o conteúdo do bem comum político, até porque isso seria uma incoerência a partir do momento em que se tem por certo a evolução das instituições políticas, e conseqüentemente a evolução do bem comum político.

Entretanto, isso deve ser um fator de estímulo àqueles que se apetecem da verdade, pois, no decorrer da história, vão se desenrolando os fatos da vida, como a abertura das cortinas de um palco a desvendar os mistérios do mundo. Tais mistérios não serão poucos, pois tudo o que existe, em última análise, assim foi feito para atender aos anseios e carências da pessoa humana que é em si um mistério.

PARTE 3 RELACIONAMENTO ENTRE A PESSOA HUMANA E O