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PARTE 1 PESSOA HUMANA: CONCEITO E SUA DIGNIDADE

2 A PESSOA HUMANA E SEU CONCEITO

2.5 Racionalidade

Por fim, o último desdobramento do conceito de Boécio é a racionalidade, já que o homem é capaz de se debruçar sobre todas as coisas e sobre si mesmo, é capaz da compreensão. Seus sentidos são como antenas que captam a realidade, mas não uma

23 Tradução livre do espanhol pelo autor

24 Tradução livre do espanhol pelo autor

25 Tradução livre do espanhol pelo autor

apreensão qualquer dessa realidade, mas sim sintetizada, elaborada, capaz de ver na individualidade dos seres uma essência um fator distintivo entre as espécies. Em suma, o homem é o único capaz de se debruçar sobre o mundo e sobre si mesmo, o único capaz de decidir de per si os rumos de sua vida, pela vontade movida pela razão. É nesse sentido também o pensamento de Quiles (1942, pg. 98):

Temos dito que a autonomia no obrar, a liberdade, é na pessoa uma prolongação no ser e no conhecer. Efetivamente, a pessoa conhece o fim, conhece os meios que conduzem ao fim; a pessoa pode criar para si um programa de vida, selecionando entre as diversas possibilidades de eleição e entre os diversos fins.

Eleger um ou outro depende em última instancia somente dela.26

De modo diferente dos animais, o homem pode interpretar a realidade e guiar-se não só pelos fatores externos que o cercam, mas também pelas luzes da razão que lhe moverá a inteligência e trará, como conseqüência, a liberdade. O homem é livre porque é racional, pois, se diferente fosse, estaria absolutamente coagido pelo meio em que vive, como se dá com os seres irracionais, já que o homem, como ser livre, age por atos voluntários.

Quando se fala em ato voluntário, na linguagem tomista, não é possível atribuir tais atos exclusivamente à vontade. De outra forma, o ato voluntário é uma concatenação lógica e alternada entre o discernimento e a vontade. Santo Tomás, como observa Vigo (1984), didaticamente organiza o ato voluntário em dez passos, sendo cinco da razão e outros cinco da vontade.

Em primeiro lugar, agiria a inteligência buscando o conhecimento do fim, ou seja, do bem a ser alcançado ou realizado. A vontade, por sua vez, entraria em ação a fim de querer tal fim ou bem. Voltando à baila, a inteligência julgaria, segundo os primeiros princípios, se o objeto é bom. Em sendo afirmativo, a vontade agiria de forma a querer alcançar o bem através de um ato do obrar, ou o apetite do fim.

Voltando, a inteligência traz a deliberação, na qual se busca o caminho ou os meios adequados para obter o bem. A vontade, por sua vez consente e aceita os meios conseguidos racionalmente. Novamente, a inteligência determina um dos meios como o mais adequado para se chegar ao fim, ao que responde a vontade com o seu ato central: a eleição (electio), pela decisão de escolher um caminho e rechaçar os restantes.

Finalmente, a inteligência indica (manda) diretamente à vontade utilizar o meio eleito para alcançar o fim determinado. A vontade, então, obedece ao mando da razão e aplica as potências operativas ao ato para que o mesmo se realize.

Na racionalidade, e, por conseqüência, na vontade (já que esta é iluminada por aquela) está a característica distintiva e mais importante da pessoa humana, já que embora existam outros seres que atendam aos três graus de unidade acima descritos, apenas o homem tem consciência disso. É capaz de conhecer, como prolongamento disso tem liberdade no obrar. Podemos, ainda dizer que “a autonomia no obrar, a liberdade, é na pessoa uma prolongação natural de sua autonomia no ser e no conhecer”27 (QUILES, 1942, pg. 98)

Maritain ([?], pg. 11) interpreta, em belas palavras, que merecem ser transcritas, a originalidade de que se reveste a pessoa humana no que tange à sua liberdade decorrente da inteligência e da vontade:

O homem é um animal e um indivíduo, porem (sic) diferente dos outros. O homem é um indivíduo que se sustenta e se conduz pela inteligência e pela vontade; não existe apenas de maneira física, há nele uma existência mais rica e mais elevada, que o faz superexistir espiritualmente em conhecimento e amor.

Substancial, individual e racional: este seria o homem, ou melhor, a pessoa humana, o que faz Mondin (1980, pg. 296), abordando, antes inúmeros pensadores que se inclinaram para o estudo da pessoa humana, dizer que “pessoa que dizer antes de tudo, autonomia no ser, domínio de si mesmo, inviolabilidade, individualidade, incomunicabilidade, unidade”

O próprio Mondin (1980, pg. 297-298) explica sua definição, da qual entendemos por bem apropriar-nos para o bom andamento do presente trabalho, e que julgamos conveniente citar:

Esta definição parece válida porque compreende todos os elementos principais que os filósofos antigos e modernos reconheceram como características principais da personalidade: a autonomia quanto ao ser (Boécio, Tomás, Guardini), a autoconsciência (Descartes, Fichte, Hegel), a comunicação (Buber, Marcel, Nédoncelle), a autotranscendência (Blondel, Heidegger, Brightman).

26 Tradução livre do espanhol pelo autor

27 Tradução livre do espanhol pelo autor

Porém, de todos esses elementos, o que ilustra melhor a grandeza da pessoa humana e faz entender mais profundamente as suas características é o último, a autotranscendência.

De fato, é sobretudo na autotranscendência que se reconhece a pessoa, porque a autotranscendência é sinal de espiritualidade e essa pertence só ao homem. E aqui está, portanto, a razão profunda pela qual o homem é pessoa, e as coisas não o são: o homem é dotado de espírito, enquanto as coisas dele são carentes.

Em segundo lugar, na autotranscendência radica também a propriedade da personalidade sobre qual tanto insistem os filósofos do nosso tempo: a dinamicidade. (...) é justamente a autotranscendência que leva o homem continuamente para além do que já é e possui, propondo-lhe sempre novos objetivos e novas conquistas. 28

Parece claro que não foi possível chegar, verdadeiramente, a uma definição do que seja a pessoa humana, lembrando-nos da possibilidade, antes levantada, de se deparar, no presente trabalho com o mistério no qual o homem encontra-se inserido. Entretanto, com esse agrupamento de características essenciais da pessoa humana, cremos ter uma noção bastante nítida do que seja a pessoa, noção que será bastante importante para os desenvolvimentos posteriores que se propõe.29

28 Não obstante, tenha-se buscado essa citação em sua fonte, como consta na referência, ela encontra-se, originalmente citado no trabalho da Profa. Luiza Matte (2000, pg. 44), e não se faz possível dela olvidar-se em virtude de sua enorme importância para o presente trabalho.

29 Lembra-nos, ainda, a Profa. Luiza Matte (2000, pg. 44) que “se já temos uma idéia do que seja, então,

‘pessoa humana’, algo de suma importância que desponta neste momento, e que devemos ter presente daqui para frente, é que este termo dá nova dimensão ao homem, aplicando-se a todos do gênero humano, sem exceções.”