Teoria 2: Não há homens verdes pequenos em Marte.
3.1 A ARON , UM A RTISTA B ASEADO NO C ONHECIMENTO
3.1.3 OS ELEMENTOS DO COMPORTAMENTO-
Em essência, COHEN (1999) reconhece, ao observar sua filha, três elementos presentes na
realização de uma atividade. Primeiro, a emergência, que implica numa sucessão de eventos suficientemente complexa para garanti-la. Segundo, a atenção de que algo emergiu, e aqui ele distingue atenção consciente da inconsciente. Somente uma pequena parte de toda a informação apresentada aos sentidos é consciente, o que não significa que desaparece sem deixar resíduo. Mas há evidências de que a maior parte da informação que chega ao cérebro não é absolutamente consciente. Terceiro, sem a qual dificilmente se saberia que a atenção ocorreu, é a disposição de agir de acordo com as implicações do que emergiu. Isto certamente implica numa motivação distinta em cada indivíduo. Além disso,
não garante que o comportamento-X acontecerá em um indivíduo, mas o comportamento-X não acontecerá sem ele.
Quanto de cada desses elementos pode se esperar que se manifeste em um programa de computador? Quanto ao primeiro elemento, a emergência, aparentemente não há problema quanto à crescente complexidade de um programa a não ser a capacidade do programador de manter controle do que o programa está fazendo. Quanto ao terceiro elemento, a disposição, certamente um programa pode ser escrito de forma a atuar sobre o que lhe é solicitado, desde que seja provido o código necessário. Quanto ao quarto elemento, o conhecimento, não há em princípio razão pela qual um corpo de conhecimento arbitrariamente grande, relativo a um tema específico, não possa ser fornecido a um programa.
O problema está quanto ao segundo elemento, a atenção do programa quanto às propriedades que emergem, imprevistas e não antecipadas, de suas ações. Mas certamente este não é o único problema, deve estar claro que a maneira como as questões foram respondidas com relação a um programa de computador não significa o mesmo que significaria com respeito a um ser humano. É verdade que pode ser dado a um sistema uma quantidade de conhecimento arbitrariamente grande, mas isso não significa que seria este conhecimento o usado por um ser humano ao resolver o mesmo problema. Pode ser verdadeiro que o programa possa ser escrito para atuar de acordo com o que o programador deseja, mas certamente isto não é o mesmo que um ser humano atuando de acordo com o que ele quer, ou seja, por livre vontade. Cohen enfatiza com respeito ao Aaron que ele é uma entidade, não uma pessoa, e seu inconfundível estilo artístico é um produto de sua essencialidade, não de sua personalidade. Em termos funcionais, Aaron faz o que um artista faz: pinta. Por muito tempo, Cohen supriu as cores para os desenhos de Aaron, mas a possibilidade de ter o sistema pintando por si mesmo perseguiu-o por muitos anos até se tornar um imperativo. A figura 3.8 apresenta uma pintura a computador feita por Aaron. Já na figura 3.9 o desenho foi feito pelo Aaron e a pintura, a óleo, por Cohen. Na concepção de Cohen, o comportamento-X manifesta-se na capacidade de contínua auto-modificação, ao invés de nos objetos resultantes. Aaron iniciou como um programa de desenho há trinta anos atrás e evoluiu, graças ao contínuo envolvimento de Cohen, para a pintura figurativa, retratos de pessoas imaginadas. Mas Aaron também não é uma receita de pintura; a
complexidade de sua estrutura garante que o programa em si não pode predizer exatamente o que acontecerá com a pintura como processo, o que, afinal, foi chamado de emergência. Uma significativa proporção de suas decisões tem que responder ao estado da pintura no momento em que as decisões acontecem.
Figura 3.8 – Pintura a computador Tinta sobre papel, 1995 (COHEN, 1999)
O nível de resposta é promissor, mas não satisfaz ao segundo critério do comportamento-X, que requer que Aaron esteja atento ao que emerge, espontaneamente, do exercício de sua própria produção. Aaron responde a alguma parte do que emerge, mas isto ocorre porque há um conjunto de propriedades as quais Aaron está sempre verificando. Elas definem o que o artista humano está sempre verificando no trabalho artístico corrente, os aspectos dignos de atenção. De certa forma, este conjunto de propriedades define o que Aaron é. Mas Aaron não nota nada do que está fora do conjunto. Ele não pode notar, por exemplo, se os elementos do plano frontal ocupam exatamente metade do espaço total, ou se a cor do fundo tornou-se precisamente complementar à cor do objeto principal. Mas, também, os seres humanos nem sempre notam isso. Mais corretamente, Aaron poderia notar tais aspectos, mas somente se eles forem incluídos no conjunto de características que ele deve observar.
Ainda, Cohen nota que Aaron falha com relação ao terceiro critério também: a habilidade de agir de acordo com a significância das propriedades emergentes. A maior limitação de Aaron é o fato de que ele não tem capacidade de auto-modificação, porque Cohen sempre considerou auto-modificação um exercício de programação sem sentido a menos que ele pudesse ser guiado pela existência no programa de critério de mais alto nível e pela habilidade do programa de julgar o grau de satisfação. Neste caso, o critério de mais alto nível seria pintar como verbo, e não pintar como objeto.
Após cinqüenta anos dedicados à pintura, Cohen ainda se considera incapaz de externar o critério para pintar como verbo, menos ainda de construir aquela capacidade dentro do programa. Assim, como o autor de um programa capaz de gerar inúmeras imagens de qualidade de museu, originais, a cada ano, perpetuamente, Cohen não reconhece Aaron como sendo criativo, até que ele veja o sistema fazendo coisas que ele não poderia fazer como resultado direto do código programado. Por outro lado, Cohen enfatiza que não disse que é impossível. Muito do que se vê os computadores fazendo hoje era impensável há algumas décadas atrás. Aaron certamente é um exemplo disso.