CAPÍTULO VI – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS: A ESCUTA E A
6.9 OS EMBATES COTIDIANOS ENTRE DOCENTES E ESTUDANTES – A
As relações na escola, em todos os níveis, mobilizam nos sujeitos reações muito próprias e, frente ao desrespeito dos estudantes, alguns docentes tinham atitudes e respostas regressivas, rivalizando-se com os adolescentes, não deixando claro o seu papel de adulto e de professor, identificando-se com seus alunos. Assim, respondiam sempre à mesma altura, “davam o troco”. A partir do que apontam Pereira, Paulino e Franco (2011), educar é atuar falando, é agir, uma vez que a própria palavra dirigida ao outro não deixa de ser um ato.
A respeito do valor da palavra no ambiente da escola, Batista (2012) argumenta que superar os impasses atuais relativos à educação é, antes de mais nada, retomar a narrativa escolar, o efeito do simbólico na relação com os estudantes, pois o autor assevera que há uma deflação destes registros na sociedade contemporânea, não se restringindo somente à escola. Atualmente, a educação familiar e escolar não oferecem às novas gerações amarrações e nomeações consistentes, deixando suas filiações à mercê das pulsões. Na falta de possíveis versões dos “nomes-do-pai”, os filhos/alunos ficam desorientados e o ataque e a violência representam uma defesa contra o desamparo. O professor se queixou:
O professor é um ser a ser respeitado. (Prof. Joel).
Atualmente, parece ser muito difícil para os adultos pagar o preço simbólico da autoridade e da paternidade necessárias ao investimento libidinal na educação dos jovens. Este é um dos maiores desafios dos docentes, já que é no contexto do relacionamento com o estudante que os problemas aparecem, inclusive as violências em resposta às dificuldades apresentadas pelo professor no exercício de sua autoridade.
Tem professor que chama pra briga. Tem professor que não se intimida. Eu não me intimido. (Prof. Guto).
É possível pensar que os estudantes adolescentes tentam romper com a estrutura e com as normas escolares para fugir do tédio existente na mesmice da escola e, desorientados, em busca do objeto que faz furo em seu gozo, questionam a autoridade ambivalente do adulto e agem violentamente. Muitos docentes corroboram com a indisciplina, com as violências e com sua própria destituição do espaço que lhes cabe como autoridade, quando se recusam a ocupar o lugar devido como educadores, da mesma maneira que os estudantes se recusam a entrar no jogo da escola.
Eu tenho muita paciência pra dar aula, mas tem hora que não dá, eu xingo mesmo! (Prof. Joel).
No ambiente escolar em questão, a relação transferencial negativa entre alguns professores e alunos denunciava que o desejo do professor não dava suporte ao cumprimento de sua responsabilidade no ofício de docente.
Se você escreve uma coisa diferente no quadro o aluno pergunta: o que é isso professor? Às vezes, o único livro que tem em casa é o da escola. A fala do aluno é alienada. Ele não sabe o que está falando. (Prof. Tito).
O jogo de enganação que se estabelece nas relações intersubjetivas conflitantes, que não consideram o desejo do outro, não deixa ninguém sair ileso aos seus efeitos. Diante do que foi escutado no discurso dos professores, é possível pensar que a violência é um sintoma de toda a escola e não somente de seus estudantes. No entanto, o discurso docente apontava que a violência era uma produção exclusiva dos estudantes, fruto das dificuldades todas que traziam consigo quando adentravam a escola, como se pode observar nos fragmentos das falas abaixo.
Até entre eles o desrespeito é grande, a convivência dos colegas, o ambiente, ele reproduz o que aprende na rua. Eles não têm medo de nada. (Prof. Guto).
Têm muitos alunos que querem intimidar pela violência. As pessoas o respeitam pela violência. (Profa. Nara).
Outro discurso que foi recorrente era o de que os estudantes reclamavam que as aulas eram desinteressantes, por sua vez, os professores se queixavam que os alunos não tinham interesse pelos estudos.
Outro dia eu reclamei com um aluno que ele pegou a senha do colégio e estava usando a internet e ele disse que estava pagando. Pagando imposto é relativo, às vezes nem imposto paga. Eles acham que podem destruir tudo. (Profa. Mara).
Na rede discursiva dos docentes, a violência compareceu como um problema praticamente sem solução, que colocava a escola em uma situação sem saída. Na fala da maioria dos professores, fica clara a descrença e o desânimo quanto à problemática da violência que acontece no cotidiano escolar.
Acerca desta discussão, Freud (1927) afirma que o desamparo jamais será superado pelo homem, e é temível que o programa da busca da felicidade não tenha sucesso, pois é justamente nos laços sociais, em que se busca ser feliz, que o desprazer e as incertezas advêm. A este respeito, Mograbi (2009), em sua reflexão ao possível e impossível da conquista da felicidade, salienta que é no relacionamento com o outro que construímos e destruímos nossos investimentos nesse programa.
Assim é que os professores utilizam de violência simbólica e hostilidade na palavra, quando se referem a alguns alunos. O desrespeito ao outro acontecia cotidianamente e comparecia também na relação professor-aluno, como desabafa a professora.
Eu fiquei meio assim, meio assustada. Você chega à escola e o “educado” manda você ir para aquele lugar! Do nada! (Profa. Lara).
Alguns adolescentes têm como característica preponderante a impulsividade e, como bem lembra Ouvry (2012), eles podem ser temíveis e sacudir as gerações precedentes. O agir torna-se, para uns, internamente fragilizados, um poderoso recurso, uma defesa para não se sentirem derrotados. É neste momento que o adolescente pode se tornar violento e o professor é confrontado e desafiado em seus limites. As referências às incoerências que existem na escola, as quais os jovens se reportam no cotidiano escolar, podem traduzir as demandas, as insatisfações e questionamentos relativos à educação familiar, as quais vivenciam com seus pais, em casa. Neste sentido, pode-se pensar numa tentativa de um reencontro com o Outro infantil.
Sentimentos conturbados, muitas vezes difíceis de serem identificados, não elaborados, dada à fragilidade causada pelas excessivas demandas, na
adolescência, podem ser perlaborados como violência. O exemplo a seguir é de um professor que reclama das atitudes excessivas de seu aluno.
Ele vinha me desafiando há muito tempo. Tem que ter respeito. O aluno foi suspenso. Um professor mais velho como eu? (Prof. Tito).
O humor oscilante, a agitação excessiva, as contradições, a intolerância, hostilidade, euforia dentre outros, são, em certa medida, sentimentos próprios dos adolescentes com os quais os professores relatavam que tinham que conviver. Todavia, essas condutas podem ser a tradução de um intenso sofrimento psíquico que visa encontrar meios de simbolização. Reconhecer o adolescente como um sujeito e que o seu mal-estar pode se dar ao fato de o jovem se debater e desejar se desalojar do lugar de objeto, é fundamental na reconstrução dos laços sociais entre professores e alunos. As passagens ao ato violento por parte dos adolescentes podem ser compreendidas como uma tentativa de ressignificar no campo das identificações com o Outro, o lugar de falo materno. Nessa travessia, a adolescência por si só pode ser pensada como um momento de excessos.
Um aluno começou a tirar foto do colega em sala, na hora da apresentação de um trabalho. Eu tive que tomar o celular senão eles iam se “pegar” dentro de sala. (Profa. Lara).
O adolescente põe à prova a verdade a seu respeito. Por vezes, adota uma posição inconsciente diante do outro, de recusa e, de maneira contraditória, de dominação e gozo. Dentre as situações antagônicas, os adolescentes se recusam a entrar no jogo manipulatório de seus pais e professores e, na falta da palavra, passam ao ato violento na tentativa de saírem da posição de passividade, passando à atividade turbulenta.
A esse respeito, a Professora Nara falou o que pensava sobre os alunos que cometiam violência:
Ele tem que saber que se fez e agiu assim, ele vai pagar por isso e saber... eu não posso fazer isso... se eu fizer vou preso.
A posição defensiva quanto ao sofrimento frente ao temor de não corresponder às demandas e à solicitação do Outro, já que é ameaçadora de sua integridade, o impele a adotar dupla posição, às vezes de recusa e de algoz que
retrata a posição antagônica do jovem diante de seu desejo. A recusa pode ser retratada na dificuldade de reconhecer a autoridade de seus professores.
Marty (2006, 2010) afirma que os adolescentes atacam suas bases de vida como modo de defesa contra a angústia e o traumatismo da adolescência. Quando casos mais graves aconteceram na escola, a lei externa foi procurada, mas a tentativa, segundo o professor Joel, era sempre frustrada.
Alguma providência tem que ser tomada! A polícia me diz: não posso fazer nada porque o estatuto protege.
Dolto (1995) afirma que o comportamento fala onde as palavras terminam. Ao saber inconsciente de que os atos podem tamponar a falta em si mesmo e no outro, o jovem sem palavras age, põe à prova seu valor, sua força e coragem com comportamentos de risco. Todavia, silenciar-se a respeito de um saber sobre si mesmo e sobre a verdade da castração, somado à força das identificações nos grupos sociais, permite ao adolescente perpetrar atos, como aponta Nasio (2011), tão encorajados ao ponto de se sentirem anestesiados, não sentirem nada, nem dor, nem medo nem culpa, frequentemente movidos por um turbilhão de sentimentos, dentre eles os de onipotência e invulnerabilidade, pois acredita estar acima do bem e do mal e goza ao praticar seus atos violentos na escola e fora dela. É a própria radicalidade do real e da pulsão de morte que não cessa de não se escrever. “Se você tem um problema com um aluno você fica intranquila”. Nessa fala, a Professora Nara aponta a sua preocupação e seu sentimento com as atitudes violentas de alguns estudantes.
Ao se sentir desafiado, o Professor Guto expôs uma situação de mal-estar diante da agressividade adolescente:
Quando ele deu um coice e pegou uma câmera da menina, eu disse: não senhor! Você vai pra direção!
É função do professor fazer frente à violência adolescente, ensinar e preservar uma relação respeitosa com os estudantes no âmbito escolar. Notadamente, como adulto, não recorrer às mesmas estratégias, mas tentar estabelecer uma relação de confiança e dar o suporte necessário aos jovens,
oferecendo lei e limites, já que ele mesmo, também, é submetido às regras vigentes na escola, não estando acima delas.
Tem professor que bate boca e chama pra briga. Eu, mesmo intimidada, não me recolho, porque se eu não me impuser eu posso esquecer de dar aula. O aluno não pode te dominar. (Profa. Mara).
“O encontro com um adulto firme e que estabeleça limites possibilita, às vezes, remanejamentos espetaculares nesses adolescentes com comportamento social difícil.” (MARTY, 2012, p. 27).
Ficou claro que, para os docentes, não era uma tarefa fácil conter internamente a violência daqueles estudantes, não entrar em curto-circuito, pois a relação transferencial, permeada por afetos tão intensos, convoca no docente, muitas vezes, seus piores sentimentos. Compreender a direção do desejo e assumi- lo pode ser apaziguador para o professor e para não sucumbir, o que só é possível se o docente abandonar suas idealizações e reconhecer a própria castração enquanto Mestre não-todo.
6.10 A ENTRADA DA MARGINALIDADE NA ESCOLA E O DISCURSO