CAPÍTULO III – ADOLESCÊNCIA, VIOLÊNCIA E ESCOLA
3.3 SOBRE O MAL-ESTAR E O SOFRIMENTO PSÍQUICO DOS PROFESSORES
autoridades responsáveis nas últimas décadas, em âmbito mundial. Atualmente, as pessoas parecem que estão sempre além de seus limites, cansadas, fatigadas e, às vezes, desanimadas, pois adotaram um estilo de existir e investimentos na vida contemporânea que as levam a se desconectarem do outro e ao afrouxamento dos vínculos sociais. Estes, via de regra, apresentam sintomas como o isolamento e o individualismo, que conduzem à instabilidade psíquica e às inquietações subjetivas, uma vez que o contexto social, a vida coletiva, é um importante suporte psíquico, já que é o ponto de convergência em que acontecem as trocas simbólicas, sustentáculo da vida em sociedade e da manutenção da cultura. Notadamente, o espaço onde se compartilha ideias, pensamentos e o sujeito se forma e se transforma. Ademais, pelo fato de o homem não possuir nenhum gregarismo inato, como pensa Mograbi (2009), é justamente o fato de o sujeito necessitar de amor que o move em direção ao outro, a procura de ligações nas quais receba amor e proteção. A ameaça da perda dos laços onde se sente protegido e amado pode resultar em profundo sentimento de desamparo. Quando as relações sociais se afrouxam ou se rompem, podem surgir sintomas que denunciam um mal-estar psíquico, como o medo, até mesmo em seu estado mais intenso, como o pânico.
Os investimentos em um ritmo de vida “frenético”, demasiadamente acelerado, em que todas as demandas são urgentes, têm gerado fragilidade psíquica e mal-estar na vida de um número significativo de sujeitos – características que apresentam vários desdobramentos e têm ressonâncias tanto na vida pessoal como na vivência na cultura.
Aubert (2004 apud DANTAS, 2009) convida à reflexão sobre os efeitos dos exageros próprios da contemporaneidade, quais sejam as patologias sociais do esgotamento, como a depressão. O sujeito, ao ultrapassar seus limites singulares, na tentativa de acompanhar um ritmo alucinante de vida, sofre um verdadeiro “curto circuito” e adoece. O sofrimento psíquico tem sido um modo de expressão, ou dito de outro modo, um sintoma ou maneira de denunciar ao outro seu sofrimento, uma demanda de amor e de cuidado.
Em suas reflexões a respeito desse tipo de sofrimento, Dantas (2009) aponta em sua análise três aspectos: do ponto de vista de seu valor, tem sido considerado tão relevante e grave quanto o sofrimento físico; ele mobiliza diferentes instituições e profissionais como a família, escola, igreja e Estado e os cuidados de médicos, psicólogos, psicanalistas, assistentes sociais e outros; o sentimento de desamparo vivido nos laços sociais coloca em questão, no discurso social, o conceito de bem- estar subjetivo e equilíbrio psicológico, necessários aos sujeitos e às suas capacidades de tomar decisões e a sobreviver no mundo.
Os laços sociais têm o propósito de manter o sentimento de segurança e de identidade dos quais o homem depende para sobreviver na cultura, pois a experiência aversiva do desamparo é um fantasma que ronda e provoca desilusão, todavia é uma marca da existência e uma experiência vivida por todo humano. Dantas (2009) alerta para o fato de que o sentimento de insegurança surge quando são frustradas as expectativas socialmente construídas de se obter proteção e a capacidade efetiva da sociedade resguardar seus cidadãos.
Entretanto, como pensa Kaës (2012), na atualidade existe uma permanente e profunda crise que revela o real do que é a vida coletiva na civilização, já que ela não assegura mais e nem sustenta a proteção de seus cidadãos. Nas relações sociais há o paradoxo da experiência do prazer e, ao mesmo tempo, como considera Freud (1930), a do desprazer, já que as relações entre os homens constituem uma das maiores fontes de sofrimento.
Abordar as desilusões e as dificuldades com as quais todos se deparam ao conviver socialmente é necessário nas discussões a respeito do sofrimento psíquico. A discussão no que concerne à necessidade da restauração dos vínculos sociais é uma constatação premente, tanto quanto a urgência em restaurá-los. Mograbi (2009) corrobora a ideia de que é imperativa a reflexão sobre o vínculo humano e
anuncia que a respeito da relação com o outro não resta alternativas ao homem, pois, para este, há um só o lugar, o do jugo da necessidade de viver socialmente e de criar vínculos sociais.
Diferente de outras espécies, a cria humana nasce inacabada, dependente e, para sobreviver, não há nada que possa fazer sem o cuidado do Outro. Sua prematuridade é grande e necessita de ajuda para desenvolver-se e apropriar-se do modo de vida social. Uma das condições vitais para a possibilidade de inserção do bebê no processo de humanização é o acesso dado ao infans à dimensão simbólica, à linguagem transmitida pelo Outro que cuida, pois como ser biológico não há nenhuma inscrição de saber, nenhum registro capaz de dar algum suporte para a criança, a não ser os vínculos sociais estabelecidos a partir do nascimento. Os dizeres do par parental a respeito do pequeno ser são estruturantes do psiquismo da criança.
Dolto (1999) nos ensina que tudo que se refere ao agir dos pais da criança e ao que eles dizem estrutura a criança. “Isto não é negativo nem positivo, é efetivo, é dinâmico, vitalizante ou desvitalizante” (p. 6). Desse momento da vida em diante, vincular-se ao outro, no contexto social, desenvolver novos laços, é um processo que tende a alargar-se e é saudável que assim o seja.
Roudinesco (2008) pensa que no mundo atual o discurso da ciência, que se tornou de principal domínio, tomou o lugar do corpo, da alma e, até mesmo, do desvio do mal, com outros disfarces, diferentes dos de tempos atrás. Há, hoje, uma espécie de negativo da liberdade, como o aniquilamento, a desumanização, o ódio, destruição, a crueldade e o gozo. Nesse sentido, o real da vida e as adversidades com as quais convivemos constantemente são negados, é como se não existisse uma fragilidade interior que não pode aparecer.
É possível considerar que o arranjo dado à vida contemporânea, o gozar a qualquer preço, passou a ser particularizado sem considerar a perspectiva do outro e o ideal do coletivo (FERREIRA, 2008). A autora relata sobre um colapso no modo de gozar que não mais reconhece a cultura como Outro social. Assim, surge a solidão dos sujeitos, que Soler (2000 apud FERREIRA, 2008) expressa como sendo o modo de vida solitário próprio da vida contemporânea, fomentando solidões justapostas. É a sobreposição da solidão, inerente e estruturante da subjetividade humana, que dá o tom dos laços sociais dos sujeitos que dispensam a vinculação
com o outro. Face à recusa das adversidades, que fazem parte do existir humano e do mal-estar na cultura, podem surgir as violências contra si mesmo e contra o outro. Para defender-se de relações sociais que podem trazer sofrimento, muitos sujeitos se angustiam e adoecem, pois se isolam por temer a intimidade e a aproximação. Ademais, para esses, a sociedade não lhes assegura o reconhecimento de sua singularidade e o acolhimento de suas manifestações subjetivas.
A subjetividade é uma característica essencial do sujeito e é contrária à objetividade, faz parte de sua constituição psíquica e só pode ser experimentada por ele, pois caracteriza a interioridade de cada um (MORAIS, 1992 apud DANTAS, 2009). Ela é um componente eminentemente humano, que advém das pulsões e do destino dado ao desejo e às construções fantasmáticas. A subjetividade ou, dita de outro modo, a maneira singular de cada qual estar no mundo e construir laços sociais, tem seu percurso constituído a partir do vínculo parental.
No entanto, a vida na cultura é constituída ao preço da renúncia das pulsões primitivas. O homem, como lembra Freud (1930), sob o domínio do princípio da realidade, que traz desconforto, desilusão e uma grande parcela de desprazer, renuncia à vida regulada pelo princípio do prazer e pelo primitivismo para proteger- se da natureza e fazer parte do processo civilizatório, que o torna capaz desenvolver laços sociais. Diante dos conflitos surgidos pelas exigências de satisfação pulsional contrária às imposições do processo civilizatório, surge o mal-estar. Nos laços sociais aparecem os mais diversos tipos de contradições e não se pode negar o fato de que é no campo simbólico, com a mediação da linguagem, que há o acesso às relações sociais.
A linguagem e a cultura, portanto, são estruturantes da relação com o outro. O homem necessita do trabalho da cultura e, segundo Kaës (2012), este é incessante e vital, já que possibilita a manutenção das instituições sociais, as quais são necessárias para manter a convivência humana. O acesso ao que vem a ser o real da vida, ao imaginário e às ilusões, que de alguma maneira sustentam a convivência social, são parte desse trabalho. Todavia, a dialética da vida cultural muitas vezes mascara o desejo que circunda as relações humanas e, neste paradoxo, de maneira geral, por seu componente enigmático, sem possibilidade de outra via de expressão,
seu destino é uma formação sintomática, já que o sintoma é uma satisfação do desejo às avessas, segundo Lacan (1957-1958).
O sofrimento psíquico instala uma “identidade marginalizada”, como denomina Kaës (2012), já que põe em evidência o caráter de desqualificação social do qual os sujeitos deprimidos sofrem, pois esperam ser assistidos pelo outro, mas, ao contrário do acolhimento, o que sentem é que há desvalorização de suas queixas, como se já não servissem mais para integrar a comunidade, não conseguindo acompanhar o jogo característico da vida contemporânea, sentindo-se desqualificados. O afastamento do sujeito do discurso social acontece quando se torna insuportável acompanhar a dinâmica que hoje impera na sociedade, baseada na superficialidade, modismos e futilidades. A desvalorização é o resultado da dificuldade de inserção nas regras do jogo em um mundo onde o que é valorizado é o belo, o novo e o perfeito, onde não mais cabe a dor e não é mais “permitido” entristecer e nem sofrer. Etimologicamente, lembra Dantas (2009), o termo sofrimento é originário do latim suffere, sufferentia, que significa ação de suportar, permitir por tolerância.
Dentre as questões que trazem angústia e sofrimento ao ser humano, tem-se apontado que o modo de vida e a estrutura social contemporânea estão cada vez mais desistindo das tradições e dando lugar ao novo, ao individualismo e ao narcisismo. Não obstante, a solidão é uma marca subjetiva do humano, pois há sempre algo que é experimentado e vivido solitariamente, próprios da constituição subjetiva e da construção do sintoma.
Kaës (2012) acentua que o mundo, hoje, evidencia os efeitos persecutórios, melancólicos e maníacos de um luto interminável. O autor se interroga a respeito dos efeitos dos modos de laços sociais, estabelecidos na atualidade, capazes de garantir a sobrevivência humana e aponta que estamos quase impossibilitando a capacidade de existir no mundo. Tudo isso parece impregnar o homem de uma desesperança no seu semelhante, já que tudo é efêmero e inconsistente. É assim, diante de um cenário patológico, que há possibilidade de o sujeito sucumbir e o mal- estar psíquico se instalar como sintoma. Assim, suportar o mal-estar e as imposições para viver na cultura é necessário, posto que as leis, regras e normas guardam em si um potencial organizador e estruturante da sociedade. Seguramente, como considera Kaës (2012), o trabalho da cultura é uma necessidade vital para todo
humano, já que mantém as instituições e assegura as condições para que os homens possam viver juntos.
Porém, as confusões na estrutura e no modo de pensar fazem parte da atualidade e se apresentam nos paradoxos patológicos da violência incontrolada, na dificuldade de integração e nas exigências de satisfação imediata (KAËS, 2012). Corroborando o pensamento de Kaës, nos estudos de Dantas (2009) surge a discussão de que hoje o que impera é a figura do eterno infantil, enfant eternel, o lado festivo que parece um gozo coletivo como se a razão fosse amplamente negada nas ações dos homens. Os apelos externos são controlados pelo desejo quase indelével de felicidade total, denunciado pela dificuldade da renúncia aos impulsos internos, e da inexistência da ética nas relações e a responsabilidade com o outro, como se as situações que trazem angústia e dor à existência humana pudessem ser rechaçadas.
Em referência ao texto de Freud (1930), “Mal-estar na civilização”, Kaës (2012) propõe o neologismo Malêtre (malestar) para traduzir a existência do homem, o seu estar mal no mundo, referindo-se à capacidade de existir, de humanizar-se, de fazer laços sociais e do processo de subjetivação, que estão comprometidos pela dor de existir. Contudo, lembra que não é porque a situação no mundo atual é alarmante, nos termos discutidos, que teremos, necessariamente, de ser pessimistas. Embora reverter a situação do mal-estar e da depressão possa ser uma ilusão, temos de contar com a margem de esperança em nossa capacidade de ressignificar e improvisar. Não obstante, a capacidade do homem de criar saídas ou soluções criativas será um apoio nas situações de impasses, nos desacordos, na convivência com o outro e com o mal-estar de existir.
Lacan (1957-1958), em seus “Escritos”, afirma que o sintoma tem algo de revelador, esconde um segredo, mascara algo, já que aponta para o reconhecimento do desejo. Reportando-se aos estudos de Lacan, Soler (2012) diz que no texto de Lacan, “Televisão”, ele declara que o inconsciente tem algo a dizer, “isso fala”. Assim sendo, a linguagem é a condição do inconsciente. A autora acrescenta que o inconsciente, como muitos pensam, não é a opacidade do psiquismo.
A perspectiva da cura pela palavra foi inaugurada por Freud com a descoberta da Psicanálise. Em seus estudos a respeito da dor psíquica, empreende esforços e toma como componente principal no tratamento a subjetividade de seus pacientes.
Assim começou a escutar mulheres histéricas que o procuravam em função dos conflitos, da dor e do sofrimento com os quais não conseguiam conviver. A noção de conflito, como apropriadamente lembra Dantas (2009), é importante no entendimento dos processos defensivos e na formação de sintomas. No caso das depressões, revela a problemática da ambivalência dos sentimentos referentes à afetividade em sua dimensão inconsciente.
De certa maneira, o sofrimento patológico que é engendrado na sociedade, perpassa e atravessa os muros da escola. O adoecimento psíquico atingiu sobremaneira os docentes, uma vez que sendo um discurso social, passou a fazer parte também da linguagem escolar. A dor de existir tem algo de incomunicável, de difícil expressão, um resto que muitas vezes os professores não conseguem nomear, simbolizar, colocar em palavras.
Nóvoa (2000) relata que a atual perspectiva de formação de professores tem levado em consideração a pessoa do professor e sua formação enquanto sujeito que possui uma historicidade. O ideal de encontrar na prática docente uma relação em que não haja conflitos acaba frustrando e adoecendo os professores, pois o que aprenderam em suas formações é que teriam, como nos livros didáticos, estudantes, famílias e pares ideais no cotidiano do trabalho escolar. No entanto, o cenário, como se apresenta hoje, tem, e muito, contribuído para o desgaste físico e mental do professor. Os problemas são de várias ordens e desencadeiam demandas aos docentes que, por vezes, se desdobram tentando atendê-las, conduzindo ao excesso de atividades que os leva à situação de fadiga física e mental. Tal realidade tomou conta de escolas de diversas localidades do país. Gasparini, Barreto e Assunção (2005) desenvolveram uma pesquisa documental tendo como texto base o Relatório da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Minas Gerais, a fim de estudar as relações entre o trabalho docente, as reais condições sob as quais ele se desenvolve e o processo de adoecimento físico e mental dos professores. Notadamente, as circunstâncias com as quais os docentes se deparam na escola, os mobiliza nos aspectos tanto psicoafetivos quanto físicos. As autoras registram que a produção do trabalho dos professores acontece sob o efeito do excesso de esforço em decorrência das diversas solicitações cotidianas, sem que haja tempo para recuperação. Diante da realidade da escola da capital mineira, o índice de pedidos de afastamento do trabalho docente, por transtornos mentais, é alarmante. Vale
destacar que de 2001 a 2002 os transtornos mentais ocuparam o primeiro lugar nos diagnósticos que provocaram o afastamento do trabalho, em torno de 15%.
Escutar o que o professor tem a dizer pode minimizar seu sofrimento, pois ao colocar suas angústias em palavras traduz sua dor e põe em evidência a própria subjetividade, uma vez que, pela via a linguagem, desliza no discurso sua própria singularidade e o modo próprio de existir, de acordo com seus componentes psíquicos. Desta maneira, as frustrações e conflitos usuais do cotidiano escolar podem ser expressos em nome próprio, sem deixar de lado a historicidade inerente ao sujeito, devolvendo ao docente a sua palavra. O homem sempre conviverá com o mal-estar, já que é inerente ao sujeito. Todavia, procurar estar bem é uma imposição da vida. Os conceitos se confundem quando estar bem torna-se a tradução de gozo absoluto. Contudo, a Psicanálise mostra que o sujeito busca “um bem” (gozo), que pode não lhe trazer bem-estar. Nesse caso, o crivo é a ética, que inclui “uma cisão entre bem e bem-estar” pautada na dimensão do desejo Gasparini, Barreto e Assunção (2005, p. 13). Destarte, o trabalho, na medida em que envolve as singularidades, deve ir além do prescrito, permitindo que o docente crie e construa seu próprio percurso, dialogando consigo mesmo e com a equipe. Não obstante, problematizar o sofrimento psíquico do professor não está em desacordo com emergência de (re)descobrir o desejo de ensinar.