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5. AS MEMÓRIAS DO PESQUISADOR NO PROCESSO DE PRODUÇÃO

5.1 OS ENCONTROS COMIGO MESMO NESTA TRAJETÓRIA

Um dia, numa praça, um jovem exibia seu coração, o mais bonito daquela cidade. Uma grande multidão se aproximou e admirou aquele coração, pois era perfeito. Não havia nele uma única marca que lhe prejudicasse a beleza. Todos reconheceram que realmente era o coração mais bonito que já haviam visto. O jovem estava vaidoso e o ostentava com crescente orgulho. De repente um velho homem, montado num cavalo, surgiu no meio da multidão, desmontou e bradou: - Seu coração nem de longe é tão bonito quanto o meu! O jovem e a multidão olharam para o coração do velho homem. Batia fortemente, mas estava cheio de cicatrizes. Havia lugares onde faltavam pedaços e também partes com enxertos que não se encaixavam bem, que tinham as beiradas salientes. A multidão se espantou. - Como pode ele dizer que seu coração é mais bonito? O jovem olhou para o coração do velho homem e disse, rindo: - O senhor deve estar brincando! Compare seu coração com o meu e veja. O meu é perfeito e o seu é uma confusão de cicatrizes e remendos . - Sim - disse o velho homem. - O seu tem a aparência perfeita, mas eu nunca trocaria o meu por ele. As marcas representam pessoas a quem dei o meu amor. Eu arranquei pedaços do meu coração e dei-os a elas e, muitas vezes, elas me deram pedaços de seus corações para colocar nos espaços deixados; como esses pedaços não eram do tamanho exato, hoje parecem enxertos feios e grosseiros, mas eu os conservo como lembranças do amor que dividimos. Algumas vezes eu dei pedaços do meu coração e as pessoas que os receberam não me deram em retorno pedaços de seus corações . Esses são os buracos que você vê. Dar amor é arriscar. Embora esses buracos doam, eles permanecem abertos lembrando-me do amor que tenho por aquelas pessoas, e eu tenho esperança de que um dia elas me dêem retorno e preencham os espaços que ficaram vazios. Agora você consegue ver o que é beleza de verdade? O jovem ficou em silêncio, com lágrimas rolando por suas faces. Caminhou em direção ao velho homem, olhou para o próprio coração e arrancou um pedaço, oferecendo-o com as mãos trêmulas. O homem pegou aquele pedaço, colocou no coração e tirando um outro pedaço do seu, colocou-o no espaço deixado no coração do jovem. Coube, mas não perfeitamente, já que as beiradas eram irregulares. O jovem olhou para o seu coração, antes tão perfeito, mas agora muito mais bonito do que sempre fôra, já que o amor do velho homem entrara nele. Diante da multidão que os observava em respeitoso silêncio, eles se abraçaram e saíram andando lado a lado, seguidos pelo cavalo, cujas patas batendo no solo emitiam o som de corações pulsando... (Autor Desconhecido)

Ao iniciar esta sessão, me coloco na condição deste velho citado no texto supracitado, pois trago comigo marcas profundas no meu coração em diferentes formas, tons e intensidades. São amores, paixões, decepções, encontros, desencontros, lutas, resistências e (re)existências que me

impulsionaram a alçar novos e desafiadores vôos com o desejo latente de voar cada vez mais alto e tentando ultrapassar meus próprios limites.

Na escrita desta dissertação, várias foram as marcas que se fizeram visíveis no meu coração. Reafirmo que não foi um processo fácil, muito pelo contrário, foi até bem dolorido com muitas idas e vindas que por muitas vezes traziam dentro de mim um certo desânimo e sensações das mais diversas.

Diversos sentimentos se misturaram e provocaram por muitas vezes em mim um desejo muito forte de parar toda esta grande engrenagem, mas as forças se renovavam e me faziam entender que o processo de produção de uma dissertação não é um trabalho fácil, mas que empreende tempo, dedicação, superação e uma dose extra de resistência.

A função e o papel daqueles que se propõe a realizar uma pesquisa e a partir dela fomentar novas e importantes problematizações e discussões é extremamente importante, pois passamos a conviver com uma gama considerável de sujeitos, me refiro aos sujeitos que estão num espaço exógeno e endógeno.

Nos encontros com os sujeitos exógenos faço referência aos diversos sujeitos que encontrei no decorrer desta pesquisa: professores, alunos, funcionários e as mais diversas pessoas que me fizeram evoluir e compreender a importância das diversas culturas que formam o complexo mosaico da vida.

Quanto ao encontro com os sujeitos endógenos, faço referência aos diversos sujeitos que perfazem o meu “eu”, enquanto uma multiplicidade de sujeitos que me formam enquanto ser no mundo, enquanto uma pessoa que é constituída de vários sujeitos que encontram a sua intersecção em mim

Figura 3 - Os sujeitos que compõem o “eu” sujeito

Fonte: Esquema construído pelo próprio autor

Resistência e Resiliência foram fundamentais no andamento desta pesquisa e que para mim foi carregada de sentidos e significados. Quando falo em resistência, refiro-me a luta travada dia-a-dia, ao movimento dinâmico, constante, dialógico e polifônico que busca a subversão aos ditames impostos por um sistema vigente que tem suas bases solidamente edificadas na desvalorização de culturas, povos e comunidades tradicionais.

Neste Sentido, Giroux (1986) nos contribui com esta fala dizendo que:

A noção de resistência indica a necessidade de se entender mais completamente as maneiras complexas pelas quais as pessoas medeiam e respondem à intersecção de suas próprias experiências de vida com as estruturas de dominação e coerção. (...) Em outras palavras, a resistência deve ter uma função reveladora, que contenha uma crítica da dominação e forneça oportunidades teóricas para a auto-reflexão e para a luta no interesse da auto-emancipação e da emancipação social. ( p. 146,148)

Ao nos depararmos com as inúmeras dificuldades e barreiras em idas a campo na realização desta pesquisa, entendemos que os espaço campesino enfrenta diversas e sucessivas tentativas de apagamento das culturas que permeiam

“EU” SUJEITO SUJEITO PROFESSOR SUJEITO SOCIAL SUJEITO PESQUISADOR SUJEITO CULTURAL

este território. Assim, cria-se dentro do pesquisador um sentimento de resistência que nos mobiliza a denunciar e compreender a plenitude da ação do sujeito pesquisador. A resistência que se processa em uma busca para se entender a subordinação imposta pelos grupos dominantes.

Giroux problematiza o conceito de resistência, a partir desta linha de pensamento.

A resistência é um construto teórico e ideológico que fornece um foco importante para se analisar as relações entre a escola e a sociedade maior. Mais importante do que isso, ela fornece uma nova alavanca teórica para se entender as maneiras complexas pelas quais os grupos subordinados experimentam o fracasso educacional, e dirige atenção para novas maneiras de se pensar e reestruturar os modos de pedagogia crítica. (Giroux, 1986, p.148)

Entendemos que resistir é um ato dialógico e polifônico, pois envolve a relação de inúmeros sujeitos e da emergência das vozes que ecoam desses sujeitos e do lugar de onde elas se pronunciam. No meu caso, o sujeito pesquisador está inteiramente ligado ao sujeito professor, ao sujeito aluno, ao sujeito social e aos diversos sujeitos que assumo nas diversas espacialidades e temporalidades que se passam em minha trajetória.

Neste sentido, é impossível o pesquisador estabelecer um distanciamento do seu objeto de pesquisa, já que é impossível me isolar dos sujeitos que ontologicamente compõem o meu ser neste mundo.

Ludke e André (1986, p.5) nos falam do papel do pesquisador e corroborando com a nossa fala:

O papel do pesquisador é justamente o de servir como veículo inteligente e ativo entre esse conhecimento acumulado na área e as novas evidências que serão estabelecidas a partir da pesquisa. È pelo seu trabalho como pesquisador que o conhecimento específico do assunto vai crescer, mas esse trabalho vem carregado e comprometido com todas as peculiaridades do pesquisador, inclusive e principalmente com as suas definições políticas. “Todo ato de pesquisa é um ato político”; já disse muito bem Rubem Alves (1984). Não há, portanto, possibilidade de se estabelecer uma separação nítida e asséptica entre o pesquisador e o que ele estuda

e também os resultados do que ele estuda. Ele não se abriga, como se queria anteriormente, em uma posição de neutralidade científica, pois está implicado necessariamente nos fenômenos que conhece e nas consequências desse conhecimento que ajudou a estabelecer. (Grifos meus)

A partir da fala de Ludke e André (1986), entendemos que o pesquisador não deve permanecer numa neutralidade científica, mas deve compreender que a pesquisa se constitui em um instrumento político e social para problematização e tensionamento de uma dada realidade. Assim, a convergência de diversos sujeitos se entrelaçam na pessoa do pesquisador, ou seja, diversas vozes e diversos discursos ecoam a partir deste entrelaçamento.

Bakhtin nos traz um contributo importante ao enunciar os conceitos de polifonia e dialogismo.

O que caracteriza a polifonia é a posição do autor como regente do grande coro de vozes que participam do processo dialógico. Mas esse regente é dotado de um ativismo especial, rege vozes que ele cria ou recria, mas deixa que se manifestem com autonomia e revelem no homem um outro “eu para si” infinito e inacabável. Trata- se de uma “mudança radical da posição do autor em relação às pessoas, que de pessoas coisificadas se transformam em individualidades”. (Bakhtin, 1997, p.349 apud Bezerra, 2016, p. 194)

Nesse posicionamento teórico de Bakhtin, Bezerra (2016) complementa dizendo que:

A polifonia se define pela convivência e pela interação, em um mesmo espaço de romance, de uma multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis, vozes plenivalentes e consciências equipolentes, todas representantes de um determinado universo e marcadas pelas peculiaridades desse universo. Essas vozes e consciências não são objeto do discurso do autor, são sujeitos do seu próprio discurso. A consciência da personagem é a consciência do outro, não se objetifica, não se torna objeto da consciência do autor, não se fecha, está sempre aberta à interação com a minha e com outras consciências e só nessa interação revela e mantém sua individualidade. Essas vozes possuem independência excepcional na estrutura da obra, é como se soassem ao lado da palavra do autor, combinando-se com ela e com as vozes de outras personagens. (p.194-195)

A individualidade do sujeito, a partir de Bakhtin, só é evidenciada a partir da coletividade e da interação com os diversos sujeitos e com a multiplicidade de vozes que ecoam e se pronunciam a partir destes sujeitos.

A minha identidade enquanto pesquisador apenas se processa a partir do momento que reconheço o meu inacabamento. A multiplicidade das vozes e discursos que se pronunciam em cada um dos sujeitos que sou me torna múltiplo e único ao mesmo tempo, ou seja, constituído por muitos sujeitos sendo apenas um.

Reconhecer a existência deste vários sujeitos que me compõem se torna em um ato de resistência aos ditames impostos dentro de uma lógica positivista que desconsidera a multiplicidade de possibilidades e de sujeitos mas que prima pela padronização, estereotipização, homogeneização e até mesmo captura a partir de um cientificismo que corrobora para o aprisionamento dos sujeitos e das vozes que para existirem precisam se manifestar rompendo com o que já está posto, pela busca de um projeto alternativo para efetivação de uma vida mais bonita e certamente repleta de sonhos.

Uma vida firmada na resistência nos promove a busca, a esperança de uma educação firmada na resistência. Como nos evidencia de forma bonita a fala de Gadotti (2003, p.70)

A esperança, para o professor, a professora, não é algo vazio, de quem “espera” acontecer. Ao contrário, a esperança para o professor encontra sentido na sua própria profissão, a de transformar pessoas, a de construir pessoas, e alimentar, por sua vez, a esperança delas para que consigam, por sua vez, construir uma realidade diferente, “mais humana, menos feia, menos malvada”, como costumava dizer Paulo Freire. Uma educação sem esperança não é educação.

Gadotti (2003, p.72) ainda complementa que a esperança, a resistência e a busca por uma educação que verdadeiramente seja transformadora e que escape e subverta o viés neoliberal e capitalista podem ser fundamentais para a emancipação, o respeito ao modo de vida das pessoas, o caráter identitário e

de formação permanente e constante do indivíduo como pressuposto de um inacabamento inerente ao ser humano.

A educação, para ser transformadora, emancipadora, precisa estar centrada na vida, ao contrário da educação neoliberal que está centrada na competividade sem solidariedade. Para ser emancipadora a educação precisa considerar as pessoas, suas culturas, respeitar o modo de vida das pessoas, sua identidade. O ser humano é “incompleto e inacabado” como diz Paulo Freire, em formação permanente.

A presente pesquisa impôs uma dose extra de resistência, mas também de resiliência, que consiste na capacidade de nos adequarmos às adversidades que encontramos em um determinado processo. Nesse sentido, possuímos uma capacidade imensa de nos adaptarmos as diversas condições de dificuldades que nos são impostas e que muitas vezes, reproduzem o modelo vigente que tem como primazia a manutenção das bases solidamente formadas ao longo de toda evolução do sistema capitalista e atualmente de uma política neoliberal baseada na retirada de direitos, de não reconhecimento das identidades e das culturas dos sujeitos.

Resiliência não é um atributo que nasce com o sujeito, mas sim uma qualidade que nasce da relação da pessoa com o meio em que ela vive; e que pode fortalecê-la para superar as dificuldades e violências vividas. Desta forma, a resiliência pode ser trabalhada e estimulada por qualquer grupo social ou instituição escolar, comunidades, profissionais, famílias. (ASSIS, 2005, p.7).

Em tempos tão difíceis, resistência e resiliência são conceitos que permearam todo o decorrer desta pesquisa, fazendo com que as dificuldades, as negativas, as barreiras impostas, as tentativas de retiradas das possibilidades e de (re)criação destas possibilidades, o desânimo fossem transformados em novas possibilidades, novos cenários, novas territorialidades, novas temporalidades, novas espacialidades e novas condições de trabalho que viabilizaram a finalização desta pesquisa, embora inacabada, mas cumpridora dos seus objetivos como prerrogativa de resistência da Escola do Xúri, enquanto escola situada na zona rural, sendo escola em defesa da Educação do Campo.

Nesse contexto, o sujeito pesquisador e o sujeito professor se entrelaçam e se enunciam a me indagar, qual ó sentido do ser professor na minha trajetória? Quais significados e sentidos se processam na minha atuação enquanto professor da educação básica? Minha pesquisa contribui para que este processo de inacabamento do meu ser professor, do meu ser pesquisador aconteça de forma a permitir a emancipação do meu “eu” na sua plenitude?

Gadotti (2013, p.71) nos diz a respeito do sentido de ser professor e nos leva refletir sobre isto dizendo que:

O professor precisa indagar-se constantemente sobre o sentido do que está fazendo. Se isso é fundamental para todo ser humano, como ser que busca sentido o tempo todo, para toda e qualquer profissão, para o professor é também um dever profissional. Faz parte de seus saberes profissionais continuar indagando, junto com seus colegas e alunos, sobre o sentido do que estão fazendo na escola. Ele está sempre em processo de construção de sentido. Como diz Celso Vasconcellos, “o sentido não está pronto em algum lugar esperando ser descoberto. O sentido não advém de uma esfera transcendente, nem da imanência do objeto ou ainda de um simples jogo lógico-formal. É uma construção do sujeito! Daí falarmos em produção. Quem vai produzir é o sujeito, só que não de forma isolada, mas num contexto histórico e coletivo [...]. Ser professor, na acepção mais genuína, é ser capaz de fazer o outro aprender, desenvolver-se criticamente. Como a aprendizagem é um processo ativo, não vai se dar, portanto, se não houver articulação da proposta de trabalho com a existência do aluno; mas também do professor, pois se não estiver acreditando, se não estiver vendo sentido naquilo, como poderá provocar no aluno o desejo de conhecer?”

5.2 OS “BONS ENCONTROS”: A RELAÇÃO DIALÓGICA COM OUTROS