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OS ENFOQUES COGNITIVOS PRIVILEGIADOS NOS PCN-LE

CAPÍTULO IV OS PCN-LE E SUAS BASES TEÓRICAS

4.3. OS ENFOQUES COGNITIVOS PRIVILEGIADOS NOS PCN-LE

O documento introdutório dos PCN do 1o e 2o ciclos (1997: 33) explicita que a orientação proposta nos PCN pretende reconhecer a importância da participação construtiva do aluno, e ao

mesmo tempo, da intervenção do professor para a aprendizagem de conteúdos específicos que favoreçam o desenvolvimento das capacidades necessárias à formação do indivíduo.

Neste contexto, o documento introdutório dos PCN do 3o e 4o ciclos (1998a), ao expor a concepção de ensino e aprendizagem subjacente ao documento, explicita a necessidade de dar um

novo significado à unidade entre aprendizagem e ensino, buscando embasamento teórico no que

classifica de enfoques cognitivos, dentro de uma perspectiva construtivista, citando autores como

J. Piaget, Vygotsky, M. Cole e D. Ausubel, em nota de rodapé. Vejamos (cf. PCN-I, 1998a: 71,

“A busca de um marco explicativo que permita esta revisão, além da criação de

novos instrumentos de análise, planejamento e condução da ação educativa, tem se situado, atualmente, para a maioria dos teóricos da educação, dentro da

perspectiva construtivista. Em linhas gerais, o marco de referência está delimitado

pelo que se pode denominar ‘enfoques cognitivos’, no sentido amplo. Entre eles destacam-se a teoria genética, de Jean Piaget e seus colaboradores da escola de

Genebra, tanto no que diz respeito à concepção dos processos de mudança como às

formulações estruturais clássicas do desenvolvimento operatório e as elaborações recentes sobre as estratégias cognitivas e os procedimentos de resolução de problemas; a teoria da atividade, nas formulações de Vygotsky, Luria e Leontiev e

colaboradores, em particular no que se refere à maneira de entender as relações

entre aprendizagem e desenvolvimento e a importância conferida aos processos da relação interpessoal; o prolongamento das teses no campo da psicologia cultural,

como as enunciadas nos trabalhos de M. Cole e colaboradores, que integra os

conceitos de desenvolvimento, aprendizagem, cultura e educação; e a teoria da

aprendizagem verbal significativa, de Ausubel, e seu desdobramento em outras

teorias. O núcleo central da integração de todas estas contribuições refere-se ao reconhecimento da importância da atividade mental construtiva nos processos de aquisição do conhecimento. Daí o termo construtivismo, denominando esta convergência”.

Com o que foi exposto até aqui podemos compreender que os PCN (e aqui entendemos estar inseridos os PCN das várias áreas, inclusive os PCN-LE) possuem fortes bases teóricas no que o documento mesmo classifica como enfoques cognitivos, revelados na psicologia genética de Piaget (e colaboradores), na psicologia cognitiva de Ausubel, na psicologia sócio-histórica de Vygotsky (e colaboradores) e na psicologia cultural de M. Cole (e colaboradores).

Essas mesmas bases teóricas devem ser também, conforme já enfatizamos, as que ancoram os PCN-LE – se pensarmos que os PCN das várias áreas coadunam numa mesma base filosófica. Isso se concretiza ao fazermos uma leitura cuidadosa dos PCN-LE, tentando resgatar partes do corpo do documento que nos dêem pistas que remetam aos enfoques cognitivos destacados nos PCN-I (1998a).

Em uma primeira tentativa, conseguimos visualizar os encaminhamentos da psicologia

genética de Piaget no que os PCN-LE classificam como “Progressão Geral dos Conteúdos” em

conhecimento de mundo, textual e sistêmico do aluno para o uso da linguagem na comunicação, ou seja, para que ocorra o engajamento discursivo do aluno.

Essa progressão pretende respeitar o ciclo e/ou série em que cada aluno esteja inserido, com o objetivo de envolver esse aluno na construção do significado – sempre com menos foco no conhecimento sistêmico. Vejamos (cf. PCN-LE: 72):

“(…) Essa progressão deverá ser a ênfase no terceiro ciclo (quinta e sexta séries).

Já no quarto ciclo (sétima e oitava séries), pode-se aumentar a proporção de conhecimento sistêmico da Língua Estrangeira.

Lembrando que Piaget se preocupava em estudar o desenvolvimento cognitivo da criança (do nascimento até por volta dos quinze anos de idade) considerando e respeitando as várias etapas ou fases da vida dessas crianças na construção do conhecimento humano. Essa seria a base da chamada “epistemologia genética” desenvolvida por Piaget.

No que diz respeito à psicologia cognitiva de Ausubel, entendemos que os PCN-LE (p.62) valorizam o que Ausubel classificou de construto cognitivista ao enfatizarem os processos cognitivos e metacognitivos na construção do significado.

O construto cognitivista destacado por Ausubel (cf. Moreira & Masini, 1982: 3) é entendido como

“(…) um processo de armazenamento de informações, condensação em classes mais

genéricas de conhecimentos, que são incorporados a uma estrutura no cérebro do indivíduo, de modo que esta possa ser manipulada e utilizada no futuro. É a habilidade de organização das informações que deve ser desenvolvida.”

No processo de construção de significados, os PCN-LE explicitam a importância da

consciência lingüística e da consciência crítica que o aluno deve possuir. De acordo com esse

documento,

“No ensino de Língua Estrangeira, os processos de natureza metacognitiva envolvem

também a consciência lingüística, isto é, a consciência dos conhecimentos (sistêmicos, de mundo e da organização textual) que o usuário possui como também a consciência crítica de como as pessoas usam esses conhecimentos na construção social dos significados.” (p. 63)

Nesse contexto, os PCN-LE destacam também a importância do resgate do conhecimento prévio, ou seja,

“(…) um dos processos centrais de construir conhecimento é baseado no

conhecimento que o aluno já tem: a projeção dos conhecimentos que já possui no conhecimento novo, na tentativa de se aproximar do que vai aprender (p. 32).

Essa passagem dos PCN-LE vai ao encontro também do que Ausubel destacou como condição para que a aprendizagem significativa ocorra. Para esse psicólogo, a aprendizagem significativa acontece quando ocorre também uma modificação nas estruturas cognitivas do aprendiz, uma vez que o mesmo entra em contato com um conteúdo novo, transformando e/ou melhorando os conteúdos já existentes.

Os PCN-LE enfatizam também a importância da inclusão de atividades significativas em

sala de aula permitindo ampliar os vínculos afetivos e conferindo a possibilidade de realizar tarefas de forma mais prazerosa (p. 55).

Em relação à psicologia sócio-histórica de Vygotsky devemos destacar que os PCN-LE deixam claro que as suas questões teóricas de base são: uma visão sociointeracional da

Com relação à visão sociointeracional da linguagem, os PCN-LE destacam o engajamento discursivo do aluno na construção social do significado e propõe que isso seja feito via leitura (sendo que outras habilidades também podem ser trabalhadas). Nesse processo o aluno deve se utilizar os conhecimentos sistêmicos, de mundo e de organização textual (cf. PCN-LE, 1998b: 15)

Com relação à visão sociointeracional da aprendizagem os PCN-LE destacam a importância dos processos cognitivos, que segundo o documento, têm uma natureza social, sendo

gerados por meio da interação entre um aluno e um parceiro mais competente (p. 15).

Nesse contexto sociointeracional, privilegiado pelos PCN-LE, o documento ainda enfatiza que a mediação do professor é fundamental em todo esse percurso de aprendizagem, que abrange

ainda o desenvolvimento e aprimoramento de atitudes (p.55). Isso reforça os tópicos que os PCN-

LE desenvolvem, em sua página 58, que levam os títulos de “Aprendizagem como forma de co- participação social” e “Aprendizagem como construção de conhecimento compartilhado”.

No primeiro tópico, Aprendizagem como forma de co-participação social, o documento destaca a importância da aprendizagem ocorrer conforme o que foi desenvolvido nos trabalhos de Vygotsky como sendo a Zona de Desenvolvimento Proximal.

No segundo tópico, Aprendizagem como construção de conhecimento compartilhado, o documento cita a palavra “andaimes” que seria a tradução do termo em inglês “scaffolding”. Esse termo é utilizado principalmente por neo-vygotskyanos como J. Bruner (sua obra “Actual minds,

possible worlds” é referenciada na bibliografia dos PCN-LE). Os PCN-LE explicam o termo

dizendo que a metodologia que o professor usa se apóia na interação, isto é, nos andaimes que

constrói para facilitar a aprendizagem (p.59).

Finalizando devemos destacar também a psicologia cultural de M. Cole.

De acordo com Coll (2001), M. Cole e colaboradores seguem os encaminhamentos de Vygostsky, Luria e Leontiev com relação à importância dada aos processos de relação

interpessoal. A psicologia cultural de M. Cole integra os conceitos de desenvolvimento,

aprendizagem, cultura e educação em um esquema explicativo unificador (op.cit.: 50-41). Nessa

visão, todos os processos psicológicos que configuram o crescimento de uma pessoa (…) são

fruto da interação constante que mantém com um meio ambiente culturalmente organizado

(op.cit.: 40).

Entendemos que nos PCN-LE esta perspectiva aparece principalmente na junção entre os encaminhamentos da perspectiva sociointeracionista revelada no documento e sua preocupação em trabalhar com os tópicos privilegiados nos Temas Transversais.