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OS ENTREMEIOS, AS ADJACÊNCIAS E A CIRCUNSCRIÇÃO DA

5 O CASAMENTO INTERCULTURAL KARAJA COMO METÁFORA DO

5.1 OS ENTREMEIOS, AS ADJACÊNCIAS E A CIRCUNSCRIÇÃO DA

A rotina da vida, a descrição de como o as pessoas inventam seu cotidiano, em qualquer que seja a ótica sob a qual as focalizamos, denuncia a trama da existência onde os atores sociais estão enredados; anuncia os calços e os percalços que compõem sua caminhada, seja de quem escreve, seja a quem a escrita se refere. Há aí um enlear-se em curso, onde a textualização ou metamorfose do discurso apresenta-se como forma de interpretação, de transdução. No caso específico desta pesquisa é preciso sublinhar que, o ato da escrita em curso transduz os pontos de vista do observador (gestado nos horizontes do ser) que mira uma paisagem cultural construída em outro horizonte de compreensão da vida (horizonte do estar). Chamo a atenção para este fato, pois acredito que, desde a perspectiva desta tese, há uma preocupação implícita quando ela não é explícita, de não subordinar a diferença dos Iny à identidade da cultura do observador. Este é um exercício desafiante para montar o cenário para onde se lança nossa mirada e assim descolonizarmos nossas mentes, que continuam a enxergar “o outro” com condescendência, como exótico.

A explicitação destas nuances comparecem na escrita como uma espécie de “sinais de trânsito” indicando o uso literário de trechos de um diário de campo, que dão indícios da

caminhada, que subsidiam o ato da escrita, ancoram as reflexões em curso, cirzem teoria e prática e o campo de pesquisa, trazendo à tona uma espécie de radiografia do conjunto do corpo, desta investigação. Desta forma, sigo pelo caminho desta tese, num exercício de sensibilidade onde a ética do observador deseja pisar leve no território de sentidos por onde transita, para não ser tragada pela areia movediça de categorizações do tipo genocida cultural, linguística, literária ou simplesmente civilizacional. Neste sentido a textualização, a seleção de fragmentos de narrativas transformados em textos, realmente, o que importa é a memória dialogando com a trajetória. Vamos a elas, onde trago uma descrição de um dia comum, vivido junto à teia da vida Karajá:

[...] Relato aqui, em parte, o dia de ontem, sexta feira, pois foi deveras significativo. Pela manhã, depois de fazer umas tapiocas na casa onde estou hospedado, fui até a residência das Irmãs, ver e-mails e fazer contatos. Dentre estes, via watzapp, fiz contato com Ismini [14] onde expus a minha velha intenção de presentear os Karajá com uma oficina de “teatro lambe-lambe” em Krehawa (São Domingos). Prontamente Ismini se colocou a disposição e se mostrou entusiasmada com a ideia de vir para a região por uma semana, dez dias nos meses de setembro ou outubro. Entusiasmado com essa notícia rumei para a aldeia de bicicleta. No caminho, sempre me deparo com alguns Iny no rumo da cidade, na maioria das vezes de motocicleta em alta velocidade, ou então de bicicleta, outras vezes de carro. É muito raro ver alguém a pé fazendo este percurso. No caminho de ida, passa por mim num carro vermelho, o cacique ( Iny) e sua mulher (tori). Chama minha atenção à direita e à esquerda, o capoeirão de roçados abandonados ao longo do caminho, já em território indígena. Aliás, tenho percebido que os Iny já não tem cultivado tanto a terra, o que de alguma maneira denota que a sobrevivência da comunidade se dá pela ocupação em trabalhos públicos assalariados. Cargos como professores, merendeiras, vigias, secretários, faxineiros, entre outros que atuam na Escola Estadual Indígena Hadori, dentro da comunidade. Soma-se a estas atividades uma creche municipal onde atuam mais quatro pessoas (duas atendentes e duas merendeiras) além de um posto de saúde com atendentes de enfermagem, motoristas, sem falar do programa Bolsa Família. Chegando a Krehawa me dirijo à casa do Cacique. Para tanto, atravesso o campo de futebol onde nos finais de tarde é cena cotidiana os mais jovens jogarem futebol, passo por três ou quatro crianças Iny, onde a menor (mais ou menos três anos) é empurrada pelas outras em um quadriciclo de plástico. O Cacique está sentado na sombra, em frente de sua casa de alvenaria, cercada por uma cerca de madeira. Peço para fazer “xixi”, ele aponta onde é banheiro. É próximo ao meio dia, vou até a cozinha lavar as mãos que estavam cheias de graxa da correia da bicicleta que, por duas vezes, caiu no caminho. Em conversa com o dono da casa exponho a minha intenção de dar um “presente” diferente, para a comunidade. Seria uma apresentação do teatro lambe-lambe, e oferecer a oportunidade de uma oficina de bonecos deste tipo de teatro. Tudo isso como forma simbólica de retribuir o carinho dos Iny para comigo. De pronto, com um sorriso no rosto, aprova a iniciativa ao que, sua esposa que está ao lado, também concorda e diz que já está imaginando “alguma coisa”. Trocamos ideias a respeito e os mesmos me convidam para almoçar ao que eu respondo que, se eles insistem muito, eu aceito! Dirigimo-nos à mesa dentro de casa; feijão, arroz e um gostoso risoto com carne de sol, aipim cozido compõem o cardápio [...] (Diário de campo, 23 de junho de 2017).

[14] Ismini Lima – Uma das criadoras do Teatro Lambe-lambe. Também chamado de teatro de caixa, miniteatro ou caixa mágica, surgiu no Brasil em 1989.

As linhas introdutórias de um dia de diário de campo, ilustram em alguma medida, a forma de abordagem, o estilo do olhar que o observador lança sobre uma determinada realidade, que tipo de cenas o capturam, para onde elas o levam. Então, já de entrada, o olhar que se projeta, submete a “paisagem” a um determinado ângulo. Nos bastidores deste processo, do olhar em curso, que chega de fora e vai se adentrando, há um mundo operando. Frequentemente ele só enxerga o que quer ver, mas há também dimensões do lugar que o acolhe, capturando quem observa, estabelecendo-se aí um intercurso e um interjogo interessante. Nesses movimentos atuam, conforme Schwartzmann (2003), uma profunda expressão ética, poética e filosófica de uma simultaneidade de sentido existente entre a visão do cosmos ou do transcendente e a presença interior do “outro”, ou seja, visão de futuro, contemplação da paisagem e relação humana se enlaçam estreitamente.

De antemão, parece evidente que a presença e a influência do mundo capitalista avança a passos largos e que, sob um olhar superficial, se diria simplesmente que os Karajá estão perdendo a cultura. Por outro lado é possível perceber que não é bem assim, ou seja, nos espaços da diferença é condição sine qua non, nos imbuir de uma atitude que coloque entre parênteses os conhecimentos que trazemos na bagagem, pois do contrário nosso etnocentrismo não se deixa interpelar pelo outro, enquanto outro. Neste sentido, o relato da experiência de campo denota uma cultura em movimento, que se abre e se fecha naquilo que avalia ser interessante ou não para suas vidas. Mas também é verdade que o mundo de fora os assedia, por um lado, e os seduz, por outro. Não por escolha da cultura Iny, mas por estarem sitiados pela realidade do entorno, assim sendo não existe outra saída, que não seja abordá-la de frente. É nesse sentido que, a busca constante dos Karajá para habilitar-se a transitar nos territórios de sentido dos horizontes do ser é inevitável, mas sem abrir mão do núcleo seminal do “estar sendo Iny”. Dizendo de outra forma, é desde a ancestralidade de suas raízes culturais que ecoam as forças vitais que conferem sentido às suas existências. É no rumo deste raciocínio que o sentido de cultura comparece no âmbito deste trabalho investigativo, ou seja:

Cultura no es sólo el acervo espiritual que el grupo brinda a cada uno y que es aportado pela tradición, sino además es el baluarte simbólico, en el cual uno se refugia para defender la significación de su existencia. Cultura implica una defensa existencial frente a lo nuevo, porque si careciera uno de ella no tendría elementos para hacer frente a una novedad incomprensible (KUSCH, 2000, tomo III, p. 252).

Esta noção de cultura vem ampliar a compreensão da questão da pesquisa, uma vez que, no lócus da sua observação (e onde a pesquisa lança suas bases), salta aos olhos as diferenças consideráveis entre o existir Karajá e a proposta do ser assediando constantemente, ou seja, irrompe uma espécie de contradição entre suas vidas e o papel que devem jogar, uma oposição entre sua forma de estar e o que devem ser. Este Inter jogo entre o ser e o estar exige um constante se repensar, pois se toda cultura busca os seus sujeitos, ela implica e compromete estes mesmos sujeitos e têm suas exigências. É dinâmica, mas o acelerado ritmo do estilo de vida moderno também quer arrastar estes sujeitos para si, para que estes entrem na lógica do seu tempo, mas “não dá tempo”. Não pergunta e sim dita às regras, imprime cartilhas, tenta colocar dentro de uniformes. Penso que o relato de campo traz um pouco disso, a forma como os sujeitos transitam, nos entre mundos, ou se preferirmos, entre as razões ancestrais e as novas sínteses culturais.

Conforme se percebe no relato de campo, num primeiro momento aquilo que nos aparece no manto superficial é o que os atores sociais representam aos olhos de quem vem de fora. Sabem exatamente o que este quer ver, ou seja, mais do mesmo. Esta estratégia, das mais diferentes formas e camuflagens foi o que permitiu que a diferença dos povos originários da América atravessassem os tempos e chegassem aonde chegaram. Diante do assédio e do etnocentrismo da cultura ocidental, os Iny, para defender o significado de suas existências se refugiam nos braços da tradição e de sua ancestralidade. Ancestralidade é entendida aqui, não como uma linha linear do tempo ocidental, mas como algo que já viveram e já aprenderam e que se faz presente, encontrando assim alternativas para pensar os desafios do aqui e agora. A ancestralidade se faz presente, outorgando sentido e ancorando o devir, apontando caminhos para que os Iny sejam eles mesmos e não sombras daquilo que os projetos civilizatórios os querem formar ou deformar, ou ainda nas palavras do professor Luiz Iny (já referidas).

[...] mesmo sendo advogado, ou professor formado com curso superior; sendo médico, ou alguma profissão que seja, nós nunca vamos deixar de ser Iny. Sempre vamos ser essa nossa aldeia, nesse nosso interior mesmo; ser esse Iny daqui (KARAJA LUIZ, depoimento gravado em entrevista, abril de 2013).

Assim, sigo trazendo o diário de campo para que possamos, aos poucos, nos adentrar pelos labirintos desta tese, tendo a noção do entrelaçamento dos universos culturais no contexto da pesquisa.

[...] Estamos na casa eu, Timóteo, a esposa e a nora com o filho de sete meses, vindos de Fontoura (Comunidade Karajá dentro da Ilha do Bananal-TO). Chama minha atenção, através da porta, no fundo do pátio um animal cercado. Diante de

minha pergunta, de que espécie se trata, me respondem que é um porco do mato. Enquanto eu aguardo o início das aulas do período da tarde - onde vou combinar com os professores a vinda do teatro lambe-lambe - conversamos de tudo um pouco. Na mesa, terminado o almoço, a avó pega o neto no colo. Olho para a criança, estendendo os braços e ela vem para meu colo. Levanto-me, pois não sei ficar sentado com uma criança no colo. Depois a criança volta para o colo da avó, que momentos depois, passa para os braços do avô. De pronto, me chama atenção que o avô dá uns cheiros na criança, gesto lindo, que me reporta no tempo da vida entre os Iny, o cheirar, tão característico da cultura Iny. A prosa segue, e fico sabendo que o casal está desempregado, pois a mulher era atendente na creche na comunidade e o cacique ocupava a secretaria para assuntos indígenas em Luciara, mas devido às questões políticas, ambos foram demitidos na última eleição municipal. Em meio à conversa, pergunto quantos filhos eles têm juntos. Respondem que têm um filho que, por sua vez, é o pai do neto deles, que estava entre nós. O filho tem dezoito anos, fruto de uma relação que dura mais de vinte e três anos. Ambos vêm de outras relações matrimoniais. O Cacique narra que tem outros dois filhos do relacionamento anterior com outra mulher tori de Luciara, e que hoje moram em Goiânia. De vez em quando eles vêm visitá-lo nas férias. [...] (Diário de campo, 23 de junho de 2017).

Nesta parte do diário, chama a atenção – entre outras coisas – o ato do cheiro, como forma característica de relação que nos leva para dentro da cultura Iny. O cheiro como “modo de relação”, como via de acesso a outros sentires em relação aguçando instintos, costurando relações, desencadeando emoções. Os cheiros me transportam no tempo, nos primeiros momentos do meu contato com os Iny aos dias de hoje. O cheiro de óleo de tucum que de geração em geração tradicionalmente sempre se passou na cabeça, deixando os cabelos pretos e brilhosos como a noite e expelindo os aromas da natureza; o jenipapo e urucum que pintam os corpos, que se misturam com os tons da natureza e que com ela se confundem em significativas implicações. Não é à toa que “el hedor de América” fisga Rodolfo Kusch (2007, p.6,tomo II) para os recônditos da ”América Profunda” conforme este autor faz menção no exórdio do seu livro que leva este nome. O autor explicita que usa o qualificativo “hediento” se referindo ao prejuízo e preconceito de nossas elites e de nossa classe média, que costumam ver o americano, considerado desde suas raízes, como nauseabundo, ainda que não seja assim. Nas suas palavras esclarece que: “evidentemente tuve la deliberada intención de mostrar el hondo sentido positivo que tiene ese presunto hedor” (KUSCH,2007,p.6, tomo II). Na linha deste pensamento, no que tange aos cheiros da América, Carolina A. Wajnerman (inspirada em Kusch), em um artigo (¿Algo huele mal? Vías hacia el bie-estar americano entre olor, vínculos y símbolos) diz:

Por eso Kusch propone integrar el hedor, en lugar de intentar excluir-lo, pues en el hedor está la ira de Dios y también el miedo al azar de la vida, la incertitumbre. Aquello que olemos no solo es invisible y dificultosamente expresable, sino que nos conecta diretamente con nuestras emociones. En esa instancia estamos como al

borde de un abismo, pero también encontramos la mística y el sentido profundo del vivir, segun Kusch. Se trata de sentirnos parte de la naturaleza y recordar que tenemos un corpo y que a través de nuestra corporalidad y emocionalidad podemos acceder a nuevas formas de conocimiento (WAJNERMAN, 2013, p. 66-67).

Colocações como estas podem gerar estranhamento, sobretudo para a cultura ocidental que privilegiou o olhar como forma de acesso ao conhecimento, mas como vamos percebendo, através de nossos corpos e emoções, existem outras vias de acesso ao conhecimento, é só uma questão de aguçá-las. Mas para aguçar estas outras vias do conhecimento é preciso abrir as portas e as janelas da alma da cultura em que estamos instalados, deixar circular os aromas da diferença, para que estes nos conectem com nossas emoções, pois como nos lembra Wajnerman, elas nos levam a “passear” na beira de um abismo, mas também encontramos a mística e o sentido profundo de nossa existência. A ida a campo, nos espaços da diferença tem alguns destes ingredientes. Assim, continuo com o relato de campo, na intenção de trazer a complexidade dos elos da corrente desta análise cognitiva conforme segue:

[...] Me oferecem um café, tomo e sigo até a escola, onde debaixo de uma mangueira frondosa as crianças brincam com bola, voleibol. Vou direto à secretaria da escola, onde encontro a orientadora pedagógica da escola (G. tori). Ela pergunta quem sou? Explico que fiz meu mestrado com os Iny, falo de minhas intenções de trazer o teatro Lambe-lambe, ela simpatiza com a ideia. Neste momento chega o professor C. (Iny), e em seguida o professor P. entre outros professores que vão se achegando. Conversamos todos descontraidamente, e entre outras coisas acertamos que eu voltaria à escola no dia 26 às 8h30 da manhã, para programarmos a apresentação do teatro lambe-lambe para o mês de setembro, ou outubro.

Deixo a escola e vou para a casa da professora S., onde travamos um longo diálogo. Talvez o diálogo mais próximo do que venho pensando sobre a tese de doutorado. Falamos de tudo um pouco, a relação tori e Iny, casamentos com tori, diferenças e sobreposição de horizontes culturais. Em meio à conversa o que chamou minha atenção foi um exemplo trazido por ela, por ocasião de um velório, de um cunhado seu tori. Seu filho de onze anos a acompanhou neste funeral e fez várias observações para o que presenciou, relatando: Algumas pessoas choram, outras ficam conversando e bebendo, comendo; como é diferente dos Iny diz ele. Aqui na aldeia todo mundo fica em silêncio, triste e chora. Como é isso mamãe? Ele, o filho fruto da relação de mãe Iny com tori (com quem convive há mais de 15 anos), vive no âmbito da família os dois mundos ou entre mundos culturais se sobrepondo, com as perguntas que lhe são pertinentes, ou seja, desde muito cedo os horizontes culturais se fazem presentes, se entrecruzam, se justapõem. S. relata, explica que “na nossa cultura é diferente”, é deste jeito!

Na sua fala, relata também a dificuldade de seu marido (tori) - que hoje trabalha como pedreiro na cidade - de compreender e aceitar algumas diferenças culturais. Enquanto eu converso com ela no pátio, à sombra de uma árvore, no quintal de sua casa, sua filha de dois anos brinca livre em volta com um tubo de xampu, e de vez em quando passa na mão, passa na cabeça da mãe e na sua, faz menção para que eu me incline, e passa também na minha. Nesse meio tempo seu marido estava no banho, depois sai para a varanda dos fundos enquanto a comida esquenta – tinha recém chegado do trabalho – se aproxima de nós e troca algumas palavras e retorna para dentro de casa. S. menciona os conflitos entre famílias no seio da comunidade,

referentes aos assuntos da escola e nas disputas por cargos. Disputas intraculturais se atravessam e se misturam.

Faz poucos dias que faleceu Paulinho, um dos mais velhos da comunidade, o ambiente está triste. Somam-se a isto algumas intrigas atravessadas pelos dois mundos, exigências burocráticas, disputas pelo poder local, cargos, salários, tudo se atravessa. Enquanto conversamos, S. fala normalmente baixinho, eu me controlo para não fazer perguntas, exercito a prática de ouvir. Neste meio tempo, um carro de som percorre as transversais da aldeia FLanunciando gás, melancia, etc. Tenho que fazer um esforço para ouvi-la, pois o som do carro que anuncia as mercadorias dificulta o diálogo. Seguimos falando, é impressionante a consciência que ela demonstra dos atravessamentos de mundo, diz que aconselha as pessoas da comunidade. Ela pensa muito em um dia estudar psicologia, mas que agora quer priorizar os filhos, que estão pequenos, e que logo mais o menino de onze anos “será iniciado na cultura”, rito de passagem para o mundo adulto. Fala do custo deste ritual e das obrigações culturais quando se leva a cabo esta festa; a comida que tem que ser oferecida, os presentes, e até os pedidos que os outros fazem e que a “cultura manda dar”. Enquanto conversávamos chega de moto sua filha mais velha, na garupa de um rapaz Iny que dirige a moto. Este faz o Curso de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins, em Porto Nacional. S. diz que está preocupada com a filha, fruto de um matrimônio anterior. Essa jovem vive atualmente com um tori, jovem que ainda não concluiu o ensino médio e que para sustentar a casa tem que pescar e vender o peixe. Hoje algumas espécies são proibidas e ela se preocupa com isso, pois no dia anterior a polícia federal da Barra do Garças apareceu na aldeia e seu genro correu para se esconder. Diz que não aprova muito a relação da filha, que gostaria muito que ela se formasse antes do casamento, que priorizasse os estudos, como a própria mãe fez e que hoje é o que lhe dá sustento. (Diário de campo, 23 de junho de 2017).

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