Aulas eLearning
INDIVÍDUO LIGA-SE À REDE DE APRENDIZAGEM
3. Comunidades de Prática
3.7. Os Estádios de Desenvolvimento da Comunidade
Tão importante como os aspetos anteriormente abordados, importa agora analisar os estádios de desenvolvimento de uma comunidade, conforme o argumentado por Wenger, McDermott e Snyder (2002, pp. 68 – 112) e Wenger, White e Smith (2009).
Tipicamente e à semelhança de qualquer elemento vivo, uma comunidade de prática passa por um ciclo de vida, composto por cinco estádios de desenvolvimento.
No entanto, o ciclo apresentado não afasta o desenvolvimento atípico daquelas que, durante o seu ciclo de vida, variam amplamente na sequência do seu desenvolvimento.
Propomo-nos assim analisar separadamente cada estádio no que se refere às suas características mais marcantes.
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ESSTTÁÁDDIIOO11––PPOOTTEENNCCIIAALL((PPOOTTEENNTTIIAALL) )
Este primeiro estádio, que coincide com o nascimento da comunidade, surge através de uma rede informal de pessoas que se juntam devido à necessidade conjunta da discussão de assuntos comuns. Assim, “As the sense of a shared domain develops, the need for more systematic interactions emerges and generates interest” (Wenger et al., 2002, p. 71).
A energia neste primeiro estádio reside na descoberta de outras pessoas que se deparam com os mesmos problemas e na partilha de interesses comuns. É também importante imaginar o futuro da comunidade com relevância tanto para os membros como para a organização. Também, e de acordo com o citado pelos mesmos autores,
The overall goal in the planning stage is to promote community development around each of the three key elements – domain, community, and practice – by defining the community’s focus, identifying and building relationships between members, and identifying topics and projects that would be exciting for community members (Wenger et al., 2002, p. 73).
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ESSTTÁÁDDIIOO22––CCOONNCCRREETTIIZZAAÇÇÃÃOO((CCOOAALLEESSCCIINNGG))
A passagem a este estádio ocorre quando a comunidade toma consciência do seu papel, do valor que já representa, conjugado com as possibilidades futuras de onde poderá ascender. As características predominantes deste estádio de desenvolvimento assentam no valor da partilha de conhecimento inserido no domínio já definido; no incremento das relações estabelecidas entre os membros e na inerente confiança desenvolvidas entre eles para que seja inequívoca a partilha de problemas que, noutro contexto, poderiam afigurar-se
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maçadoras e até inoportunas; e, por outro lado, a descoberta coletiva de qual e de que forma o conhecimento deverá ser partilhado futuramente.
De facto, sem poder descurar as outras duas características, uma das principais peculiaridades deste estádio deverá incidir sobre o trabalho em comum, tendo assim os membros de se conhecerem, conhecerem o trabalho uns dos outros, a forma de pensar de cada um e dar a conhecer os seus próprios hábitos de trabalho, o seu estilo, para que, reconhecido o valor de cada um, possa ser estabelecida uma reconhecida confiança no valor que o trabalho de cada um pode acrescer para a comunidade, no seu todo. Este trabalho poderá ocorrer no espaço público da comunidade mas, acima de tudo, no seu espaço privado, no contacto particular com cada membro, indo ao encontro das suas dificuldades, para que a confiança ocorra e se estabeleça.
Outro traço característico que merece ser salientado é o reforço, neste estádio, do “core group”. Na verdade, de acordo com Wenger et al. (2002), “It is through the collaboration of the core group that the community discovers its value” (p. 88). Assim, com um grupo nuclear coeso, poderá a comunidade estar melhor preparada para enfrentar a passagem ao estádio seguinte.
É ainda durante este estádio que a comunidade começa a desenvolver o seu “espaço público”, incentivando eventos tais como um fórum de partilha, um Website, e organizando os documentos da comunidade (Wenger, White e Smith, 2009).
Finalmente,
As the community moves into the next stage of development, it faces the challenges of more mature communities – sharpening its focus as it grows and balancing a sense of ownership of the domain with openness to new ideas. (Wenger et al., 2002, p. 91)
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ESSTTÁÁDDIIOO33––MMAATTUURRAAÇÇÃÃOO((MMAATTUURRIINNGG))
Conforme a comunidade cresce, e principalmente neste estádio de desenvolvimento, começam a surgir as tensões e oscilações de energia. Será assim necessário clarificar inequivocamente o seu foco, papel e fronteiras.
Relativamente ao domínio, é imprescindível que a comunidade defina o seu papel na organização bem como as suas relações com outros domínios.
A gestão das fronteiras será também um aspeto a ter em atenção, já que a comunidade deixou de ser apenas uma ligação em rede de “professional friends” (Wenger et al., 2002, p. 97). Porém, será necessário assegurar que a comunidade não está afastada do seu objetivo nuclear.
É comum neste estádio de desenvolvimento assistir-se a tensões entre o acolhimento e abertura a novos membros e preservar o grupo de membros já existente.
Após algum tempo de vida da comunidade, é neste estádio que, finalmente, os membros já se reconhecem quanto à sua forma de partilha do conhecimento e experiências, valor dos seus contributos enquanto membros, e valor de cada um para a comunidade. Este fenómeno, designado por Wenger et al. (2002) como “craft intimacy” (p. 98), é revelador da intimidade desenvolvida pelos membros, da confiança mútua e da reciprocidade das trocas resultantes de um processo de aprendizagem construído entre todos.
No entanto, é incontestável que, neste estádio, será fundamental e óbvia a entrada de outros membros, até pela difusão do valor que a própria comunidade encerra. Podendo parecer paradoxal, o crescimento das relações, fruto da entrada de novos participantes, surge como elemento impulsionador de maior energia. No entanto, esses mesmos novos membros quebram o padrão de interação que o núcleo central da comunidade tinha desenvolvido, ameaçando a intimidade e sentido de identidade construído e que tornava atraente a comunidade.
Assim,
A community resolves the tension between focus and growth when it learns how to preserve relationships, excitement, and trust as it expands memberships, and when it can maintain helping interactions while systematizing its practices. Resolving this tension typically drives the community to a deeper sense of identity and greater confidence in the value of its domain (Wenger et al., 2002, p. 99).
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ESSTTÁÁDDIIOO44––PPLLEENNIITTUUDDEE((SSTTEEWWAARRDDSSHHIIPP))
Neste estádio de desenvolvimento, para além de outras características, merecem ser destacadas duas, que passamos a analisar:
Frequentemente, quando a comunidade alcança a sua maturidade, começa a sentir a necessidade de reconhecimento por parte da organização a que pertence e de ter uma voz na estratégia e direção dessa mesma organização. De facto, a comunidade pode ser crítica no sucesso a longo prazo da organização, participando ativamente nas suas decisões.
Por outro lado, a comunidade defronta-se com ciclos de alternância de energia, que variam entre subida e descida. Será assim necessário, sempre que a energia decresce, incrementá-la, rejuvenescendo as suas ideias, membros e práticas. A operacionalização desse incremento poderá passar, por exemplo, pela introdução de novos tópicos, o convite de oradores controversos para os encontros regulares da comunidade ou proporcionando encontros com
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outras comunidades. Todos estes incentivos propiciam o aumento do interesse durante os períodos de baixa energia da comunidade.
Tal como qualquer elemento vivo, uma comunidade também enfrenta a crise da meia-idade, fazendo face e defrontando-se com indecisões relativamente ao seu rumo. É necessária assim, neste estádio, a tomada de decisões, nomeadamente no que concerne ao seu lugar, se continua como comunidade informal e à margem da organização ou se ocupa lugar importante na mesma, tornando-se como sua parte integrante. Outras decisões a tomar passam por (re)definir as suas fronteiras e a sua aproximação ao domínio. Por vezes, é ainda necessário decidir se continua a existir.
Também relativamente à estrutura dos seus membros, torna-se inevitável a tomada de decisões. É inequívoca a importância do grupo nuclear. No entanto, os seus membros constituintes sentem-se, por vezes, demasiado absorvidos com o trabalho da comunidade e, por vezes, tomam a inevitável consciência de não conseguirem responder a necessidades e exigências da mesma. Os membros do grupo nuclear, porque são geralmente elementos válidos e importantes, são requisitados para inúmeras atividades, não podendo assim desempenhá-las com eficácia e responder às exigências que o incremento da comunidade exige. Outras vezes, a própria mobilidade, inerente ao ritmo de qualquer organização, exige que as pessoas se afastem da comunidade.
Torna-se assim necessária a entrada de novos membros que permitam assegurar a manutenção da comunidade. Como potenciais novos membros, são normalmente requisitados elementos da organização a meio da carreira profissional que recebem, em troca e como uma mais-valia, uma projeção do seu valor e um (re)conhecimento por parte de toda a organização. Outro traço distintivo deste estádio de desenvolvimento assenta na inevitável necessidade de alianças com organizações exteriores, tais como outras empresas e mesmo universidades. Estas associações do conhecimento permitem uma maior difusão e troca de práticas que rejuvenescem uma comunidade, enquanto permuta de diferentes perspetivas, novas ideias e mesmo novas e diferentes práticas.
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ESSTTÁÁDDIIOO55––TTRRAANNSSFFOORRMMAAÇÇÃÃOO((TTRRAANNSSFFOORRMMAATTIIOONN))
Tal como a vida humana, também qualquer comunidade atravessa momentos mais conturbados que podem conduzir a um fim.
Será imprescindível uma reflexão fria que passa pela análise, por parte dos membros, dos fatores da conjuntura que a comunidade atravessa para tomarem a difícil decisão de continuar, mudando o seu rumo, domínio e prática ou, simplesmente, morrer, desaparecendo.
De facto, tal como referido por Wenger et al., (2002) “The radical transformation or death of a community is just as natural as its birth, growth, and life” (p. 109).
Muitas razões podem conduzir e ser apontadas para uma mudança neste estádio de desenvolvimento: entre várias, podemos referir a mudança das estruturas organizacionais, a tecnologia e a alteração de mercados que podem tornar o domínio da comunidade irrelevante. Por outro lado, os assuntos que a comunidade se propunha explorar podem esgotar-se devido à sua resolução. Ainda a prática pode conduzir a comunidade a uma rotina que quebra o entusiasmo dos membros e a não exigir a continuidade dessa mesma comunidade. Assim, todos estes sinais devem ser entendidos e analisados.
Será sempre preferível que os sinais da crise e mudança sejam transformados em vitalidade e rejuvenescimento da comunidade para continuar, ainda que com adequação a novas e diferentes realidades. No entanto, se tal não for possível, a memória dos momentos vividos e a riqueza da experiência deverá perdurar sempre na lembrança de cada membro.
Após a análise dos traços mais importantes da teoria de Wenger, e sendo certo que não esgotámos toda a base teórica mas apenas os traços que nos parecem mais relevantes para a análise da nossa investigação empírica importa, agora, deter atenção no aspeto da aprendizagem.
Coincidindo com o interesse, nos anos 90 do século XX com a “aprendizagem social”, segundo Lesser e Storck (2001), o capital social existente nas comunidades de prática surge como uma resposta possível e positiva para obtenção de uma mais-valia organizativa e mais e melhores resultados.
Considerando que, de acordo com Eduard Lindeman (1926), há alguns anos, defendia já que a aprendizagem faz parte da vida quotidiana “Learning is part of daily living”, também conforme referido por Tennant (1997, p. 73), a (re)solução dos problemas e a aprendizagem a partir da experiência surgem enquanto processos centrais.
Estes aspetos e ideias defendidas levam-nos a concluir e remetem-nos para a presença da aprendizagem informal na prática quotidiana de qualquer ser, que se assume assim enquanto aprendente. Como tal, importa agora verificar e analisar de que modo o ambiente virtual (não) propicia a referida aprendizagem informal. Por outro lado, é ainda emergente verificar o papel das redes sociais e das ferramentas de um ambiente tecnológico, propiciadas pela constante presença da Web 2.0 para a implementação, criação e potenciação dessa aprendizagem. Por outro lado é nossa pretensão tentar aferir de que modo as organizações portuguesas estão cientes deste valor bem como se as (não) incrementam e potenciam.
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Ainda e porque a teoria agora explanada se consubstanciava nas comunidades de prática ancoradas em ecologia presencial importa tentar elencar as eventuais diferenças face a um ambiente tecnológico a seguir abordado.