LISTA DE ACRÓNIMOS E ABREVIATURAS
3. O Poder das Redes
Estamos assim perante um ambiente aberto, com ligações em rede e acesso livre, por parte de cada indivíduo, às potencialidades oferecidas, nomeadamente, pela Web 2.0.
Como tal e não indissociável desta problemática novos desafios irrompem e em que importa refletir.
Referimo-nos ao capital social, conceito que, repousando na sociologia, está intrinsecamente ligado às redes sociais e aos recursos nelas existentes bem como à apropriação (in)devida dos direitos de autoria relativamente ao que é posto a circular na Rede - falamos na propriedade intelectual. Também outro aspeto merece ser analisado bem como avaliado o seu impacto – a
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importância da Rede enquanto impulsionadora de movimentos de massa. Se a comunicação, tradicionalmente individual e bidirecional, se transformou em comunicação de massas, importa refletir e problematizar até que ponto não estamos, já, em presença de uma comunicação de e na rede.
É para estes três aspetos que nos propomos refletir individualmente e para os quais convocamos atenção. Na verdade e se as comunidades virtuais estão a proliferar e perseguindo, por outro lado, o nosso objeto de estudo, entendemos necessário refletir sobre estas realidades apoiando-nos nos contributos dos autores abaixo convocados.
No que concerne ao capital social, objeto de diferentes aceções e apropriações, apresenta-se na atualidade enquanto “panaceia para todas as enfermidades que afectam a sociedade” (Portes, 2000, Introdução, para. 1).
Remontando a Pierre Bourdieu (1980), o aludido conceito sofreu alterações com a visão e contributo de alguns autores, dos quais, pela proximidade com o nosso objetivo e problemática desta tese, destacamos dois – James Coleman (1988) e David Putnam (1995). Bourdieu (1986) caracteriza capital social como
the aggregate of the actual or potential resources which are linked to possession of a durable network of more or less institutionalized relationships of mutual acquaintance and recognition – or in other words, to membership in a group – which provides each of its members with the backing of the collectivity-owned capital, a ‘credential’ which entitles them to credit, in the various senses of the word (Social Capital, para. 1).
Evidencia, assim, o autor a riqueza proveniente das ligações estabelecidas pelos indivíduos numa rede, em trocas simbólicas, e que propiciam relações objetivas de proximidade, tanto num espaço físico, como económico e social.
Assim, defende Bourdieu (1986) que o volume de capital social tido por cada indivíduo, depende tanto do tamanho da rede de conexões que consiga mobilizar como do volume de capital – económico, cultural ou simbólico – possuído por cada uma das pessoas a quem está conectado.
É assim evidente que está aqui subjacente o valor e riqueza da troca consequente da pertença a uma rede, que nos interessa sobremaneira, pela proximidade com o nosso objeto de estudo. Interessante atentar na visão do autor (1986) ao defender que “The profits which accrue from membership in a group are the basis of the solidarity which makes them possible” (Social Capital, para. 3). Assim, parece evidente a justificação para a pertença a qualquer rede: a riqueza (capital social) que emerge da confiança e troca mais ou menos direta, mais ou menos
tácita. Essa riqueza é proveniente da interação e comprometimento com os demais e que, conforme aludido anteriormente, se configura como a solidariedade que une e justifica a existência das redes.
Como tal, as redes sociais (Portes, 2000) não são um dado natural mas antes construídas através de estratégias de investimento orientadas para as relações do grupo, e utilizáveis como fonte digna de confiança.
Da definição e concetualização defendida por Bourdieu decorre que o capital social é passível de ser decomposto em dois elementos: (a) a própria relação social – que possibilita a cada indivíduo reclamar o acesso a recursos na posse do grupo e (b) a própria quantidade e qualidade desses mesmos recursos.
Prossigamos, perseguindo o contributo de outros autores.
Defendendo que “The actor is shaped by the environment” (1988, p. S96), Coleman define capital social como uma “variedade de diferentes entidades, com dois elementos comuns: todas consistem num certo aspeto das estruturas sociais e facilitam determinadas ações dos atores – pessoas ou atores coletivos – no interior da estrutura” (Coleman, S98).
Permitindo, assim, relações entre dois ou todos os atores da rede, o capital social, para Coleman, remete para as expectativas de reciprocidade, o acesso privilegiado a informações e a recursos, colocados à disposição de cada um, na forma de dádiva.
Importa deter a nossa atenção numa distinção entre a concetualização defendida pelos dois autores por nós mencionados: enquanto para Bourdieu o capital social surge como um efeito “apropriável e lucrativo para indivíduos ou grupos” (Vasconcelos, 2011, p. 19) e que resulta das sociabilidades e recursos que nelas se trocam, Coleman assume-o, ainda que ambiguamente, enquanto resultado “entendido como positivo, individual e coletivamente” (Vasconcelos, p. 19) da organização dos grupos (obrigações recíprocas, estruturas organizacionais de poder, valores). Assim, é evidente a riqueza coletiva que ocorre da pertença a uma rede.
Coleman (1988) prossegue estabelecendo a distinção entre capital humano e capital social, referindo-se ao primeiro como o criado pelas transformações nas pessoas a partir dos skills e capacidades que lhes permite atuar em novas situações enquanto o capital social deriva das relações entre as pessoas e que facilitam a ação.
Por seu turno, Burt (2001) considera o capital social como o complemento contextual do capital humano, referindo-se à metáfora do capital social como “the people who do better are somehow better connected” (p. 202). Assim, pensamos estar em presença das razões
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justificativas para que uma pessoa ou certos grupos estão conectados com outros, dependendo e em função das trocas com outrem.
Um outro autor que contribuiu para este conceito foi Putnam (1995) para quem o capital social significa características de organizações sociais, como as redes, as normas e a confiança, que facilitam a ação e a cooperação com vista a um mútuo benefício.
Defendendo a confiança social, não enquanto parte integrante da definição mas como uma consequência direta, Putnam (1995) enfatiza o altruísmo e identifica “a very strong affinity between social connectedness and altruism” (p. 7).
Conscientes de não ter esgotado este tema mas antes revisitado alguns autores que se debruçaram sobre a problemática e o conceito, importa tentar sintetizarem algumas linhas de força.
Está aqui patente a noção de que, na rede, as trocas não se consubstanciam numa visão mercantilista, mas antes, radicadas num capital – o social – que, a par com o cultural e económico, radicam na dádiva repleta de gratuitidade, durabilidade e obrigatoriedade (tácita) em redes fechadas - e em que o valor obtido reverte unicamente para o indivíduo – ou abertas, coletivas - em que o benefício passa a grupal.
Assumindo-se como “operador central da partilha e transmissão do capital (em todas as suas formas)” (Vasconcelos, 2011, p. 3, itálico do autor) poderão, estes benefícios, configurar-se como explicação para a profusão e massiva adesão às redes, nomeadamente as sociais, e outras formas organizativas que encontramos e que proliferam na atualidade.
O conceito de capital social remete também para a noção de intangibilidade do mesmo (já que ocorrido na estrutura das relações). Assim, conforme Portes (2000) para possuir capital social, um indivíduo tem que se relacionar com os outros, sendo estes a verdadeira fonte dos seus benefícios.
Este conceito remete para a motivação inerente e evidente que é convocada a cada participante numa rede. Também, e na nossa opinião, esta mesma noção aproxima-se da teoria defendida por Wenger (1998) quanto às especificidades de uma verdadeira comunidade de prática.
Porém, e em nosso entender, o comprometimento, confiança – que poderá ser relacionada, no dizer de Giddens (2005) com a fidedignidade colegial, enquanto mecanismo ligado às atividades dos que estão dentro do sistema - e benefício da troca configuram-se, assim, na riqueza e valor de qualquer rede ou comunidade de prática. Também é nosso entendimento que o capital social só poderá ser efetivamente encontrado se e quando cada indivíduo tomar
consciência de que, para gerar e obter riqueza e valor, terá também que participar ativamente, na forma de dádiva. Para tal é determinante que exista e percecione motivação ou que, revisitando os autores agora estudados, entenda os benefícios da participação numa rede. Por seu turno, parece-nos assim poder refletir e estabelecer uma conexão entre o conceito de capital social, defendido por estes autores, com as características das redes e novas formas organizativas (que apresentaremos, em detalhe, no Capítulo III).
Na verdade, e se para Downes (2007) o conhecimento se encontra livre na rede, são apontadas, entre outras características, a rede dever ser aberta (Downes, 2007; Anderson e Dron, 2007) e conetiva (Downes, 2007; Anderson e Dron, 2007; Wenger e Trayner, 2011a). Um olhar transversal permite, como tal, estabelecer uma ligação e esboçar uma explicitação para o papel que cada indivíduo assume na rede e para as suas expectativas a nível individual e que podem justificar os potenciais laços estabelecidos entre as pessoas, atualmente observáveis na evidente adesão a redes, em geral, e nas redes sociais, em particular. A par de um interesse e partilha com benefícios coletivos, não podemos desvalorizar que, enquanto pertença a esse grupo, a dádiva poderá, também, reverter em seu próprio benefício.
Prossigamos a nossa reflexão pelo ambiente presente, reconvocando novos desafios e factos da atualidade à nossa reflexão.
Vimos anteriormente que o conhecimento circula livre na rede. Também a riqueza das ligações entre as pessoas radica, em muito, na riqueza da interação bem como nos recursos disponibilizados por cada um e por todos, em forma de dádiva.
Porém, para além do conhecimento, pensamos poder afirmar que é, também, a informação que circula de forma livre na rede. Assim, importa refletir se a comunicação de massas não será já uma comunicação de e na rede, conforme referido por Cardoso e Lamy (2011a)
nas sociedades da informação, onde a rede é um elemento central da organização, um novo modelo comunicacional tem vindo a tomar forma: um modelo caracterizado por uma nova rede interpessoal, de um para muitos e de massa, que conecta públicos, participantes, utilizadores, empresas de difusão e editoras sob uma só matriz de rede mediática (p. 76).
Essa comunicação que, radicada numa sociedade em rede e sendo certo que “Toda sociedad en red es fundamentalmente individualista” (Castells, 2000, para. 13), é apossada de um poder que permite mobilizar multidões, convocar manifestações e iniciativas do foro político, discutir e até referendar assuntos, realizar petições online. Parece-nos que o poder desta comunicação (mediada tecnologicamente), em rede, está conseguindo despertar as multidões e as pessoas
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para fenómenos que, de forma presencial, seriam e se tornariam mais difíceis ou até impossíveis. Conforme Castells (2000), tornou-se importante utilizar o enorme potencial da Internet para, por exemplo, reviver a democracia, a partir da organização de grupos de conversação, consultas sobre distintos temas e disseminando informações na sociedade. Promovendo o ciberativismo ou ativismo digital, foi reconhecido já no Fórum Social Mundial, em janeiro de 2001, que “as vozes que se somam no ciberespaço representam grupos identificados com causas e comprometimentos comuns, a partir da diversidade de campos de interesse (. . .), de metodologias de atuação (. . .), de horizontes estratégicos (. . .) e de raios de abrangência(. . .)” (Moraes, 2001, para. 1).
Estamos, assim, em presença de uma das reações adaptativas identificadas por Giddens (2005) – o ativismo radical – definido como “uma atitude de contestação prática às fontes de perigo identificadas” (p. 96). Os seus seguidores esteiam-se na mobilização, associada à ação contestatária a fim de, a partir da mobilização e movimentos sociais, reduzir o impacto dos problemas. Contrariamente à aceitação pragmática (outra reação adaptativa) descrita por Giddens como um sentimento de pessimismo subjacente, parece-nos ficar assim evidente a consciencialização, por parte dos indivíduos, do poder da rede e dos seus benefícios para poderem assumir um papel ativo na sociedade.
Porém, e por outro lado, importa também refletir acerca de outro aspeto não menos importante e que se refere aos direitos de propriedade na Internet. De que forma e em que medida o autor de determinado conteúdo está preservado quando o mesmo (conteúdo) é colocado e disponibilizado na rede? De que forma e até que ponto está salvaguardada a sua autoria? Estamos a referir-nos ao copyright.
A este propósito defende Moraes (2002)
Para assegurar a liberdade na rede, sem dúvida precisamos coibir com rigor as atitudes deletérias, as fraudes e o terrorismo, sem, todavia, institucionalizar regimes de censura e desrespeito à privacidade. As legislações sobre protecção do consumidor e direitos de propriedade intelectual na Web devem ser aperfeiçoadas (p. 108).
É evidente que, conforme afirmado por Ascensão (2010) “a World Wide Web veio introduzir no tratamento dos direitos de autor questões novas, como as da digitalização, da convergência e da interactividade” (p. 2).
Parece evidente que a Sociedade da Informação e os conteúdos disponibilizados na Internet – quer ao próprio conteúdo da obra como quanto à proteção dos links e sites – levantou problemas aos juristas de direito autoral e para os quais ainda não existe uma resposta. Na
verdade estão aqui relacionadas duas ordens de direito que entram em conflito – o direito autoral e o direito de acesso à informação.
Sendo certo que (Avancini e Barcellos, 2009) “as obras fazem parte do património cultural da humanidade” (p. 62), tendo o autor direito exclusivo de exploração da mesma durante a sua vida e num período após a sua morte aos sucessores, esse mesmo direito exclusivo esvazia-se sempre que as obras caem em domínio público.
Esclarecem os autores que atualmente, com a Internet, estão a ser violados os aludidos direitos autorais “sob a alegação de que as obras constituem fatores que impulsionam o desenvolvimento cultural e, portanto, não se deveria impor limites à liberdade de informação, pois o interesse da coletividade deveria prevalecer” (Avancini e Barcellos, p. 63).
Este paradoxo constitui, ainda atualmente, o principal desafio ao legislador porquanto o caminho, parece-nos, é irreversível. Mas, e na nossa opinião o direito de acesso à informação não pode sobrepor-se ao direito de propriedade que o direito autoral preconiza e consagra. É evidente o interesse público do acesso à informação. Recorrentemente é feito o apelo à participação e partilha dos produtos de cada indivíduo que, na rede, passam a ser de todos. Conforme teremos oportunidade de analisar no capítulo III, as novas formas de organização social incentivam à produção comunal de recursos. A própria ciência também sofreu alterações oriundas de “uma nova maneira de fazer ciência” radicada nas aplicações tecnológicas – a “tecnociência” (Cardoso, Jacobetty e Duarte, 2012, p. xiv).
Convivemos, na atualidade, com a emergência da abertura da ciência (open science) (Cardoso et. al, 2012, p. 1) como forma de disseminação da ciência, acesso, partilha e ferramentas de pesquisa, tornando-a mais próxima da sociedade e facultando maior partilha de conhecimentos no interior da própria comunidade científica.
Defendendo os autores que também os membros da comunidade científica foram influenciados (a) pela nova forma de organização social preconizada por Castells – “a sociedade em rede”; (b) pelo desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação; (c) aliado à difusão dos “usos científicos” da Internet (pp. 2-3), parece assim estarem a ser criados “na primeira década do século XXI (. . .) os primeiros passos para uma ciência aberta” (p. 4, itálico dos autores).
Conscientes de não termos esgotado as especificidades do ambiente atual bem como não tendo realizado uma análise em profundidade das temáticas ora versadas, parece-nos poder concluir esta reflexão que se propunha refletir acerca do ambiente real e envolvente que acolhe a nossa investigação.
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Estamos presentemente a vivenciar uma época plena de oportunidades, com o acesso difundido massiva e globalmente à informação e conhecimento. Resta que cada indivíduo se aproprie desse mesmo conhecimento, proceda à sua gestão – de acordo com os seus interesses e necessidades – e que, em Rede ou pertença a outra qualquer nova forma de organização social, construa o seu percurso, partilhando e cooperando, de forma colaborativa, as potencialidades e valências que a Internet fornece.