No entanto, é n’O Bode Expiatório (2004), obra dedicada à descrição de processos coletivos de produção de violência, que Girard vai detalhar como a construção de estereótipos persecutórios avança na direção do sacrifício do bode expiatório, como que encadeando mecanismos de seleção vitimária, muitos deles calcados na projeção de uma imagem monstruosa do outro. Segundo Girard, no contexto das lógicas religiosas do sacrifício, períodos de crise societária que provocam o enfraquecimento das instituições que compõem certa normalidade social e que dão certo sentido de ordem para os viventes, são favoráveis ao surgimento de crises persecutórias. (Cf. GIRARD, 2004, p.19) A perda radical das regras e das diferenças que definem certa ordem cultural e social desencadeia processos de escalada de violência.
O interesse do Girard está focado justamente nos processos de indiferenciação e nas “mecânicas de acusação e entrelaçamento de ações e representações persecutórias” (GIRARD, 2004, p.23). O foco está no sistema operacional que é desenhado nestes contextos persecutórios com a finalidade estratégica de controlar a violência tendente à escalada, tendente à guerra total. Em Girard, a construção lógica da matabilidade do bode expiatório, pensada como mecanismo de solução de uma crise específica, depende da produção de alteridades monstruosas, inimigas, responsabilizadas pela perda de uma certa ordem que num passado (ou num futuro imaginado) teria sido eficiente como mecanismo de agregação.
A comunidade sacrificial constrói uma percepção e uma presunção de que certas alteridades são responsáveis pela desagregação social e pela desconstrução de uma certa ideia de normalidade. Essas alteridades são marcadas como o signo/estigma da matabilidade. O bode expiatório, em certo sentido, é uma alteridade produzida em meio à uma incapacidade multidunitária, comunitária, de se reconhecer valor nas diferenças reais – vivem de diferenças artificialmente geradas mediante certos padrões de normalidade/moralidade majoritária – o que tende a um processo de indiferenciação.
A alteridade do outro, não reconhecida como singularidade possível ou como uma diferença assimilável, é responsabilizada, criminalizada, culpabilizada pela instabilidade e pela desagregação que afeta a comunidade. Criminalizam-se ou demonizam-se aquelas alteridades que ao aparecerem colocam em questão o status daquelas diferenças e divisões já normalizadas no interior da comunidade e que organizavam determinada coletividade. A partir de uma certa pressuposição de ordem e de diferenças possíveis dentro daquele sistema, julga-se negativa a aparição de uma alteridade totalmente outra, especialmente quando esta, ao aparecer, desorganiza em absoluto os signos, os poderes, os sistemas de verdades que aquela comunidade utilizava para se estruturar.
Isso é parte importante do processo de indiferenciação: o surgimento de alteridades monstruosas, totalmente outras, perante uma comunidade que, por causa de uma certa noção de ordem, não suportará reconhecer a singularidade daquela nova diferença. Isso, segundo Girard, essa indiferenciação, esse jogo entre a política das alteridades e das normas organizadoras de determinadas comunidades, leva à escalada da violência e à necessidade de sacrifícios de vítimas expiatórias. Nas palavras de Girard,
Não há cultura no interior da qual cada um não se sinta “diferente” dos outros e não pense as “diferenças” como legítimas e necessárias. Longe de ser radical e progressista, a exaltação contemporânea da diferença não é mais que a expressão abstrata de um modo de ver comum a todas as culturas. Em todo indivíduo existe uma tendência de se sentir “mais diferente” dos outros que os outros e, paralelamente, em toda cultura, uma tendência de se pensar não apenas como diferentes das outras, mas como a mais diferente de todas, porque toda cultura mantém nos indivíduos que a compõem esse sentimento de “diferença” (...) Não é a diferença no seio do sistema que significam as marcas de seleção vitimária, mas a diferença fora do sistema, é a possibilidade para o sistema de diferir de sua própria diferença, ou, em outras palavras, de não diferir do todo, de cessar de existir como sistema. (GIRARD, 2004, p.30-31)
São melhores objetos dos processos vitimários e dos estigmas persecutórios, dos mecanismos propriamente discriminatórios: a) aqueles fisicamente doentes, cujas enfermidades e deformações reais são gritantemente aparentes; a doença, a loucura, as deformações genéticas, as mutilações acidentais e até as enfermidades em geral tendem a polarizar perseguidores; b) as minorias culturais, étnicas e religiosas; c) os considerados socialmente anormais; Ainda hoje muitas pessoas não podem reprimir, no primeiro contato, um ligeiro recuo diante da anormalidade física. O próprio termo anormal, assim como o termo "peste" na Idade Média, tem algo de tabu; ele é ao mesmo tempo, nobre e maldito, sacer [= sagrado] em todos os sentidos do termo. (GIRARD, 2004, p.26) Há também uma anormalidade social; aqui é a média ou a maioria política que define a normalidade. Quanto mais a pessoa se distancia do status social acreditado como normal e comum, a depender dos círculos sociais dos quais participa e das condições de crise nas quais se encontra, mais crescem os riscos de vitimização. Vemos isso em relação à pobreza como elemento decisivo no processo vitimário.
Estes tendem a polarizar os espíritos arcaicos da violência persecutória. Quando não se tem alguma deformação aparente, produz-se politicamente esta deformação biológica/natural por meio de discursos como os raciais. Produz-se uma imagem social do normal, do saudável, do puro, do bom, do vivível, do seguro, do pacífico, e, em sua extrema polaridade, são situados aqueles que podem/devem ser mortos para evitar que esta sociedade normalizadora venha a morrer. Diz Girard que os grupos que tendem a escolher suas vítimas a partir destes critérios culturais, étnicos, sociais, religiosos, tendem a atribuir às vítimas alguma deformação ou doença de traço biológico/genético para cientificizar, biologizar, naturalizar sua condição de exclusão/exterioridade e futura morte. Essas tendências aparecem claramente nas caricaturas vitimárias produzidas por racismos.
Para Girard, os grupos violentos produzem matabilidade também a partir de "anormalidades" físicas, mas, principalmente por "anormalidades" produzidas politicamente a partir dos discursos ou das pressuposições ideológicas de verdade e ordem de determinada comunidade. Em todos os domínios da existência e do comportamento os sujeitos bandidos devem ser cridos como criminosos. E, para facilitar este procedimento, sobre determinados grupos de matáveis, cria-se um critério estético monstruoso que estaria vinculado à uma deformação moral.
Nos interessa como o poder soberano, em tempos de exceção, decide a respeito do normal/anormal e como os processos políticos da soberania influem nos processos de produção daqueles critérios de normalidade que serão manejados para justificar o sacrifício.
São todas as qualidades extremas que atraem, de um a outro tempo, as indignações coletivas, não apenas os extremos da riqueza e da pobreza, mas igualmente o do sucesso e do fracasso, da beleza e da fealdade, do vício e da virtude, do poder de seduzir e do poder desagradar, é a fraqueza das mulheres, das crianças e dos anciãos, mas também a força dos mais fortes que se torna fraqueza diante do número. As multidões, muito regularmente, se voltam contra aqueles que antes exerceram sobre elas um empreendimento excepcional. (GIRARD, 2004, p.28)
Girard reconhece que tais “empreendimentos excepcionais” só passam a ser tratados como suspeitos e com olhares criminógenos a partir do momento em que são visados por discursos de poder no interior de uma comunidade que pretenda lançar sobre aqueles corpos estigmatizados suas violências endógenas. O que significa que as fronteiras da inimizade, os processos de in-diferenciação entre as normalidades e as alteridades monstruosas são governadas por relações de poder no interior da comunidade sacrificial. Quer dizer que as anormalidades e as diferenciações são fabricadas dentro de arranjos de poder específicos. Pode- se inquirir, neste contexto de pesquisa, que elas estão sujeitas às políticas da soberania e seu poder de decidir.
3.3.2 - O BODE EXPIATÓRIO É O INIMIGO FICCIONAL: O DESEJO DA