CAPÍTULO 1 Fundamentação Teórica
1.1 Os Estudos da Tradução
1.2.6 Os Estudos da Tradução com base em corpus
Como parte desta pesquisa centra-se na anŠlise de traduƒ„es feitas por tradutores em formaƒ‰o, com uso de recursos da LC e em aportes te‹ricos dos Estudos da Traduƒ‰o, dedicar-se-Š esta seƒ‰o a expor como essas duas se encontram e se relacionam.
Conforme Baker (2000, p. 277)clxxvi, o termo Estudos da Tradução foi criado por Holmes para a disciplina em The name and nature of Translation Studies (1972). Para Holmes (1988, p. 70)clxxvii, “a designaƒ‰o Translation Studies pareceria ser a mais apropriada entre todas as dispon…veis em ingl†s e sua adoƒ‰o como um termo padr‰o para a disciplina como um todo removeria a grande confus‰o e mal-entendido que havia se constituido”. Holmes (1988, p. 71)clxxviiiestabeleceu que os Estudos da Traduƒ‰o t†m dois objetivos: 1) descrever o fen‘meno do traduzir e da traduƒ‰o, como eles se manifestam no mundo de nossa experi†ncia; e 2) estabelecer princ…pios gerais por meio dos quais esses fen‘menos podem ser explicados e prognosticados. Essas divis„es com esses objetivos podem ser designadas como Descriptive Translation Studies (DTS) ou Translation Description (TD) e Theoretical Translation Studies (ThTS) ou Translation Theory (TTh).
Antes do termo Translation Studies (TS), a disciplina foi chamada por alguns pesquisadores de ‘Ci†ncia da Traduƒ‰o’ e ‘Translatologia ou ‘Tradutologia’, na Franƒa. Somente a partir da segunda metade do s‡culo XX ‡ que a traduƒ‰o passou a ser uma
disciplina autônoma no cenário internacional e, atualmente, o termo Translation Studies (Estudos da Tradução) é o mais utilizado para designar tanto os estudos teóricos como os descritivos.
Em relação aos estudos teóricos da tradução, Gentzler (2009, p. 22) apresenta cinco abordagens, explicando que tais estudos se iniciaram em meados da década de 1960 e complementa:
A tradução era, na melhor das hipóteses, uma atividade marginal, não considerada pelo meio acadêmico como uma área devida de estudo no sistema universitário [...] Em 1968, o Centro Nacional de Tradução publicou o primeiro exemplar de DELOS, um periódico dedicado à história e à estética da tradução. A tradução literária havia estabelecido um lugar, embora pequeno, na produção da cultura americana [...] Estabeleceu-se uma organização profissional conhecida como American Literary Translators Association (ALTA) no fim da década de 1970 (GENTZLER, 2009, p. 27-28).
No prefácio de Writing from the World II (1985), uma antologia de traduções literárias elaboradas no fim da década de 1970 e começos dos 1980, há um comentário sobre a causa politicamente urgente e socialmente ativa da tradução no mundo contemporâneo:
[...] é possível que a frase crucial para os nossos anos restantes na Terra seja simplesmente: TRADUZIR OU MORRER. A vida de toda criatura na Terra pode um dia depender da tradução instantânea e correta de uma palavra (ENGLE & ENGLE, 1985, p. 2)clxxix.
Os estudos que envolvem a análise de traduções feitas por tradutores em formação são relevantes para que se possa entender o comportamento e o estilo desses tradutores, no caso desta pesquisa, em relação à tradução de mexicanismos.
Para se chegar aos mexicanismos, foi imprescindível leituras no campo dos Estudos da Tradução, assim como a metodologia da LC.
A pesquisa de Alambert (2008, p. 38-69) serviu como base para esta porque objetivou encontrar características de uma tradução que revelasse a expertise do tradutor, daí a ter selecionado como objeto de
estudo a tradução que recebeu o prêmio União Latina de 2006. Alambert (2008, p. 12-34), com o aporte teórico dos Estudos da Tradução e da Linguística de Corpus, descobriu que o tradutor traduzia de forma variada cada palavra do original e que a natureza da palavra na língua inglesa era indiferente ao tradutor experiente, não importando a sua semelhança com o português.
Alambert (2008, p. 76-87) baseou-se no fato de que uma palavra do inglês cognata de outra do português pode exercer influência na escolha da tradução e determinou duas categorias de palavras a serem investigadas, as que apresentam uma tradução imediata para o português e as que não apresentam essa característica. Extraiu 40 palavras do corpus paralelo que compilou, 20 de cada categoria para o levantamento das traduções.
Segundo Ulsh (1971, p. 10)clxxx, provavelmente, mais de 85% do vocabulário português tem cognatos em espanhol, especialmente no léxico. O espanhol possui mais palavras cognatas do português que o inglês. O espanhol e o português são línguas muito parecidas em todos os níveis, por isso, seguindo uma observação feita pela orientadora no exame de qualificação, optou-se por observar a tradução de palavras não cognatas, o que desvelou os mexicanismos.
O estudo de Alambert (2008) mostra como a LC e os Estudos da Tradução (ET) podem ser usados em conjunto. E para se discutir como as duas áreas se inter-relacionam, começar-se-á por esclarecer como se dá essa aproximação.
Segundo Alambert (2008, p. 26), foram os estudos de base empírica levados a cabo por Toury (1995) os que precederam a aproximação entre as duas áreas, conhecidos como DTS (Descriptive Translation Studies). Toury (1995, p. 12)clxxxi defende que, para se estudar uma tradução, é preciso começar pelo TA. Sua abordagem baseia-se na análise de textos traduzidos, tal como expõe Gentzler (2009, p. 178):
Toury é convincente na defesa de sua abordagem do texto-alvo para estudar a tradução, argumentando que, como as traduções são invariavelmente iniciadas pela cultura-alvo, esse é, então, o ponto onde as observações devem começar. Ele também oferece estratégias para mapear o texto-alvo para os segmentos do texto- fonte, de forma mais sistemática que eclética.
Estudos realizados de maneira sistemŠtica que t†m como objeto a traduƒ‰o s‰o importantes por revelarem o comportamento do tradutor e caracter…sticas do texto traduzido, al‡m de aumentarem o entendimento que se tem dos fen‘menos tradutol‹gicos. Toury (1995, p. 276)clxxxii prefere n‰o considerar o TF, pois o TF poderia provocar algumas interfer†ncias. Gentzler (2009, p. 179) acrescenta: “Quanto mais os tradutores levam em conta o texto-fonte, mais elementos eles s‰o capazes de transferir [...]”.
Para mostrar o elo existente entre os DTS e a LC, toma-se como apoio Laviosa (2002, p. 16)clxxxiii, que esclarece que os DTS, assim como concebemos a LC, t†m base emp…rica: o objeto ‡ investigado mediante observaƒ‰o direta de exemplos da vida real sem que se d† margem Œ intuiƒ‰o e Œ pressuposiƒ‰o. Al‡m disso, ambas as abordagens afirmam que as generalizaƒ„es resultantes da evid†ncia emp…rica s‰o vŠlidas se fundamentadas em estudos de conjuntos de textos em larga escala. Estudos recentes mostram que uma Šrea pode contribuir com a outra. Conforme Laviosa (2002, p. 18)clxxxiv, se Toury (1995) ‡ considerado pai dos DTS, Baker (1993) merece o t…tulo de m‰e dos DTS com base em corpus dado o seu pioneirismo.
Munday (2009, p. 180)clxxxv opina que Toury (1995) apresenta uma metodologia sistemŠtica para se estudar as traduƒ„es:
Os DTS foram desenvolvidos por Toury em seu livro Descriptive Translation Studies and Beyond, onde ele prop„e uma metodologia sistemŠtica para os DTS com o objetivo de resguardar que as descobertas de estudos individuais ser‰o intersubjetivamente testŠveis e comparŠveis, que os pr‹prios estudos sejam replicŠveis [...] Nessa metodologia, ‡ descrito primeiramente o papel do TA na cultura-alvo, os TA e TF s‰o, ent‰o, comparados por mudanƒas, tend†ncias s‰o identificadas, s‰o desenhadas algumas generalizaƒ„es sobre a estrat‡gia da traduƒ‰o e os resultados s‰o comparados com outros estudos. A ideia ‡ que, gradualmente, quando mais estudos acontecerem, o aperfeiƒoamento de tais generalizaƒ„es nos leve ao estabelecimento de leis probabil…sticas da traduƒ‰o.
Baker (1993, p. 243)clxxxvi, em seus estudos sobre DTS baseados em corpus, prop‘s alguns universais da traduƒ‰o (melhor descritos como
características) com base em corpora. Baker (1993, p. 243)clxxxvii afirmou que a disponibilidade de grandes corpora de originais e traduções, associados a uma metodologia corpus-driven, permitiria que os estudiosos de tradução descobrissem a natureza do texto traduzido como um evento comunicativo mediado. Segundo ela, esses universais (ou características linguísticas que ocorrem tipicamente em textos traduzidos) não dependem dos pares de língua envolvidos no processo. De acordo com Baker (1996, p. 176)clxxxviii, há quatro características da tradução para pesquisa:
a) simplificação: a ideia é a de que tradutores simplificam a língua ou a mensagem, ou ambas as coisas. Segundo Baker (1996, p. 176)clxxxix, o processo de simplificação consiste em tornar a língua menos complexa, ainda que subconscientemente, e o tradutor o faz deixando o texto mais fácil para o leitor. Essa estratégia consiste em usar recursos, tais como: omissão de informações redundantes, diminuição de estruturas complexas, redução de sentenças longas, mudanças de pontuação e uso de vocabulário menos variado. Olohan (2004, p. 99)cxc esclarece que simplificar não significa deixar mais pobre: há apenas uma diminuição na quantidade de palavras, seja pela ruptura de sentenças longas, por omissão de informação repetida ou redundante, etc. Verificar-se-á, neste trabalho, a simplificação na comparação do roteiro redigido em espanhol e suas respectivas traduções.
b) explicitação: a explicitação é a tendência de esclarecer aspectos da mensagem na tradução, inclusive em sua forma mais simples, e de acrescentar informações preliminares, afirma Baker (1996, p. 176)cxci. A explicitação costuma acontecer principalmente quando há palavras, termos ou expressões típicos da língua-fonte para os quais o tradutor não encontra equivalentes na língua-alvo. A explicitação também pode ser feita mediante ilustrações e exemplos. Seu objetivo é deixar a compreensão textual mais fácil. Como consequência da explicitação, a tradução se torna mais extensa se comparado seu número de palavras com o do original, de acordo com Baker (1996, p. 180)cxcii, o que pode ser constatado mediante o uso de ferramentas da LC, como, por exemplo, a Wordlist do WorldSmith Tools.
c) normalização ou conservadorismo: é a tendência de adaptar padrões e práticas típicos da língua-alvo, até mesmo exagerar nessa adaptação, define Baker (1996, p. 176-177)cxciii. Expressões típicas da língua-fonte, por exemplo, são substituídas por expressões mais frequentes e usuais na língua-alvo. Segundo Sardinha (2002, p. 26):
Um exame das escolhas lexicais em textos originais e em suas respectivas traduƒ„es pode revelar a normalizaƒ‰o se indicar, por exemplo, que as escolhas mais ‘marcadas’ (ou criativas) dos originais tiverem sido traduzidas por outras menos marcadas.
Embora essa identificaƒ‰o seja poss…vel, Baker (1996, p. 180)cxciv alerta que, apesar de existirem estrat‡gias particulares para a identificaƒ‰o, uma mesma express‰o pode apontar caracter…sticas ou tend†ncias diferentes. Pode haver traƒos de simplificaƒ‰o e de explicitaƒ‰o considerados como traƒos de normalizaƒ‰o, por exemplo.
Se por um lado, Baker concebe a normalizaƒ‰o como a tend†ncia de verificar padr„es colocacionais, de estruturas gramaticais e pontuaƒ‰o na traduƒ‰o; por outro, Venuti (1995, p. 20)cxcv, ao discutir a invisibilidade do tradutor, trabalha a noƒ‰o de estrat‡gias de “estrangeirizaƒ‰o” e “domesticaƒ‰o”15, que v‰o al‡m de uma padronizaƒ‰o lingu…stica, pois a traduƒ‰o de um livro, por exemplo, depende, entre outros aspectos, de normas editoriais que s‰o espec…ficas em cada caso.
Segundo Sardinha (2002, p. 27-28), hŠ uma caracter…stica do texto traduzido que ‡, de certa forma, oposta Œ normalizaƒ‰o, a qual ‡ conhecida como visibilidade, identificada quando hŠ caracter…sticas da l…ngua-fonte em excesso na l…ngua-alvo (traduƒ‰o) impossibilitando sua “naturalidade”. Sardinha (2002, p. 28) cita o caso do ger‚ndio em ingl†s (por exemplo, ao traduzir “opening a new document, printing a file”, um tipo de ger‚ndio condenado nas variantes cultas do portugu†s), o que sugere que se em textos traduzidos do ingl†s para o portugu†s houver a utilizaƒ‰o desse tipo de ‘gerundismo’, surge a suspeita de visibilidade.
d) estabilização: ‡ a tend†ncia de fazer o texto traduzido gravitar em torno do centro mais que em volta das margens, de modo que a l…ngua usada no texto traduzido revele menos variaƒ‰o do que a usada em um n‰o traduzido, sendo, portanto, mais homog†nea em termos de caracter…sticas textuais. De acordo com Baker (1996, p. 184)cxcvi, existem evid†ncias de que textos traduzidos possuem mais semelhanƒas entre si em relaƒ‰o Œ densidade lexical, raz‰o vocŠbulo/ocorr†ncia e
15
Domesticar significa adaptar o texto Œ cultura nacional. Estrangeirizar significa privilegiar o TF, mantendo suas caracter…sticas lingu…stico-culturais.
tamanho da sentença. Na estabilização, por outro lado, são reduzidas as marcas culturais, o que torna a linguagem mais formal.
Essas características da tradução podem revelar semelhanças e diferenças no confronto do original com suas traduções ou das traduções com um corpus monolíngue (na mesma língua das traduções).
Olohan (2004, p. 30)cxcvii, ao falar sobre a contribuição de pesquisas que têm a tradução como objeto, afirma que a análise da língua-fonte e de suas traduções fornece informação sobre o comportamento do tradutor, especialmente quando comparados com os dados de TF espontâneos.
Um exame interno das características das traduções, do original e de um corpus escrito originalmente na mesma língua dos textos traduzidos proporciona dados que permitem um melhor entendimento da natureza da tradução (produto). Segundo Laviosa (2002, p. 60)cxcviii, é possível compilar um corpus monolíngue (na mesma língua das traduções) e confrontá-lo com o texto traduzido para verificar a presença da simplificação. Laviosa (2002, p. 60-62)cxcix realizou uma pesquisa com um corpus comparável de textos traduzidos para o inglês e constatou a simplificação como característica do texto traduzido, chegando a três hipóteses: os textos traduzidos devem ter variedade lexical menor, carga de informação menor e sentenças mais curtas. Para confirmar essas hipóteses, ela mediu a densidade lexical e o comprimento médio das sentenças. O português e o espanhol possuem características morfossintáticas diferentes do inglês, portanto, essas hipóteses podem não se confirmar em uma análise de corpus de textos traduzidos para essas línguas. Somente uma testagem para confirmar essa hipótese.
Encerra-se aqui o capítulo da Fundamentação Teórica, cujos conceitos serão retomados nos capítulos de Metodologia e Análises de Dados.