CAPÍTULO I. IDENTIDADE NO ESTILHAÇO
CAPÍTULO 3. TEMPORALIDADE
3.3 Os eventos e os incidentes constitutivos da experiência
Outros eventos e incidentes históricos ainda iriam permear a história de Macau e dos macaenses; como a paralisia social e econômica dos anos 50, a Revolução democrática Portuguesa, a Declaração Conjunta41 e o período de transição (de 1988 a 1999), quando foram elaborados os instrumentos político-jurídicos que regulam a Região Administrativa Especial da República Popular da China, ou seja, Macau, de acordo com o princípio “um país dois sistemas”, a vigorar nos 50 anos seguintes. Tais incidentes e eventos constituem a história do território e desses indivíduos. E nos fazem crer que são frutos da contradição que há em os portugueses administrarem uma terra que nunca lhes pertenceu e sobre a qual não detinham a soberania plena. Não podiam, portanto, exercer uma política colonial como a exercida nas colônias africanas. Os portugueses, macaenses e chineses tiveram o conflito como motor de
41
A Declaração Luso-chinesa é fruto do Estatuto Orgânico de Macau, legislação básica e suprema do ordenamento jurídico e do funcionamento do território. A Declaração Luso-chinesa consagra Macau como parte integrante do território chinês de acordo com os princípios estabelecidos na Lei Básica. A Lei Básica funciona como uma mini-constituição, na qual se dispõem os princípios estatutários fundamentais da RAEM. Sobres essas questões ver Oliveira, 1998; Silva Fernandes, 2000; Souza Santos e Gomes, 1998.
sua sociedade, em uma dinâmica de cisma e continuidade. E de uma maneira diferente, propriamente como enclave e completamente instável, a presença portuguesa permaneceu por mais de quatro séculos. Os macaenses, vulneráveis em cada conflito, decidiam suas vidas por meio da emigração para países anglófanos ou portugueses.
Em 1999, no momento da entrega, não houve insulto por parte dos chineses aos macaenses e portugueses, pois este era um temor dessa comunidade lusófona de modo geral. O dia da Entrega para muitos macaenses que conversei foi considerado o dia mais longo e mais difícil de suas vidas. Houve muito choro. Na Casa de Macau de São Paulo e do Rio muitos acompanharam o evento pela televisão à cabo. No dia seguinte à Entrega ocorreram “dois dias” de tristeza, e o medo pairava no ar, até se darem conta de que tudo estava sossegado e “continuava” não havendo nada, isto é nenhum conflito e nenhuma ruptura.
Alguns eventos ocorridos em Macau são reelaborados no teatro em patuá que acontece na Casa de Macau de São Paulo. O teatro em patuá realiza uma dramatização auto reflexiva em que se faz um comentário meta-social, as ensenações mostram por exemplo, o tempo colonial nas ações da administração, que tratava Macau como se fosse Portugal. Um quadro com a foto de Salazar compôs um dos cenários, pois viveu-se em Macau a ditadura de Salazar, sem ele nunca ter pisado lá. As peças também mostram como eram as relações entre as diversas classes sociais e a relação com os chineses.
A reelaboração dos eventos também são feitas por meio de uma literatura poética e romanesca que começa a surgir nos anos 80. Muitos dos temas tratados falam dos eventos sofridos pela população como a II Guerra Mundial, a crescente e constante presença dos refugiados no Território, a necessidade de partir, os contatos de um português com a multiculturalidade de Macau, mas sobretudo tematizam os chineses e o oriente exótico. A meu ver, Portugal não se preocupou em formar uma elite intelectual de macaenses, impediu-lhes o acesso a postos importantes, não facilitou e nem investiu na formação universitaria. A escrita macaense seguiu então por outras veredas, a de mostrar aos portugueses a cultura oriental: as tradições, os rituais, as maneiras de viver, os temperos, os mitos, a medicina, enfim o exótico para o Ocidente.
Henrique de Senna Fernandes é o único a assumir a ficção de Macau. Os seus herois são macaenses, percorrem a geografia (alguma já desaparecida ) da cidade, movimentando-se no universo familiar e social dos macaenses. A intriga são estórias de amores difíceis com
finais felizes, no ambiente reverberam os paradoxos de uma cidade chinesa sendo administrada por portugues. Publicou até hoje três livros, uma coletânea de contos e dois romances : Amor e Dedinhos de Pé e Trança Feiticeira. José dos Santos Ferreira (Adé) já mencionado é conhecido por suas poesias de tradição oral, do teatro, mas sobretudo por ser um guardador de memórias pelas obras escritas em patuá.
O escritor macaense Prof. Luís Gonzaga Gomes é sinólogo e pesquisador da cultura chinesa. É considerado um expoente nesse tipo de literatura. A escritora macaense Deolinda da Conceição possui em sua escrita uma preocupação pedagógica, mas sob a perspectiva do feminino. Deolinda da Conceição é uma autora de uma obra só Cheong-Sam. A Cabaia publicado em 1956. Este livro é a reunião da maioria dos contos que foram publicados no Jornal Notícias de Macau. jornal que mais colaborou em servir aos interesses portugueses, levando ao conhecimento de todos o grau de progresso de Macau (Azevedo, 1984). Deolinda da Conceição, professora de português em Macau e Hong Kong, foi diretora da Escola Portuguesa dos refugiados de Hong-Kong, durante a II Guerra Mundial. Seus contos revelam a condição da mulher oriental. O contexto histórico passa como pano de fundo, ou nos remete a guerra que marcou profundamente o território. Deolinda mostra nos seus contos a mistura de costumes e crenças, a ligação afetiva dos macaenses com Portugal. O passado vai sendo elaborado também por autores que passam por Macau como Miguel Torga, Rebordão Navarro, Maria Ondina Braga, Rodrigo Leal de Carvalho entre outros42. Em suas histórias há perplexidade diante de um cotidiano estranho em uma terra estranha, ou o drama dos macaenses à beira de perderem uma pátria, a desatenção dos poderes políticos nacionais. E a figura do macaense ganha um sentido de sobrevivência, um grupo que apesar das adversidades que sofreram por meio das guerras, tensões e conflitos étnicos, conseguiram obter muitas vitórias e resistir.
Em Nocturno em Macau (1991) de Maria Ondina Braga é a história do confronto de uma portuguesa com a diversidade da cultura oriental no espaço asfixiante de um colégio religioso em Macau. É pela comida que a narradora entra em contato com a cultura chinesa. No romance a questão da alimentação se coloca também como a devoração da vida alheia, o mundo da bisbilhotice. O livro ressoa as sonoridades exóticas da culinária macaense.
42
Miguel Torga, Rebordão Navarro e Maria Ondina Braga são escritores portugueses e Rodrigo Leal de Carvalho é açoreano radicado em Macau a cerca de 40 anos.
Macau hoje significa para essas pessoas um espaço de facilidades, cosmopolita, internacional, supersticioso, de pagar promessas, de familiaridade com as ex-colônias de Portugal como Timor, Moçambique, Angola, Diu, Gamão e Goa; um fácil acesso à China. Uma terra “abençoada” a única na Ásia que não foi atingida pela febre atípica que ocorreu há pouco tempo. Uma terra cheia de vicissitudes, de tufões, mas a única que leva o nome de Deus em seu nome. As questões em torno de Macau giram em torno da memória, dos negócios e das oportunidades. Acompanhei um debate no tempo da pesquisa sobre o lugar da memória em Macau, pois há um projeto realizado pela STDM para demolir a Escola Portuguesa (EPM), construída pelo arquiteto português Chorão Ramalho. Este edifício, construído em 1963, é considerado pelos macaenses e portugueses o melhor edifício de arquitetura moderna de Macau e sobretudo um ícone da influência portuguesa. A demolição da escola é sintomática de um modelo de desenvolvimento desta parte da Ásia e pela pressão da industria do jogo. O panorama deste espaço de desenvolvimento são os cassinos, o encontro de culturas e um futuro incerto. Macau vive agora uma nova ameaça: a possibilidade de ocorrer uma liberalização do jogo na China o que significaria, dez mil Las Vegas espalhados pelos territórios circundantes e portanto, uma repetição do que ocorreu com Macau na fundação de Hong-Kong – a falência do território. E paralelo às incertezas, como a econômica, a questão identitária se faz presente. Consideram a demolição da Escola um exemplo disso. Destruir o edifício significa a destruição de parte da história e deles mesmos, e portanto o estilhaço da identidade