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CAPÍTULO I. IDENTIDADE NO ESTILHAÇO

1.3 Um evento para falar de identidade e clivagens

Os associados da Casa de Macau de São Paulo receberam em suas casas no final do mês de janeiro de 2002 uma carta da Fundação Oriente, cujo teor despertou na comunidade, conforme as palavras do editor do Boletim 9 – O Macaense, (fevereiro de 2002, publicação da gestão de 2001-2002) surpresa, revolta e consternação. Nessa carta, a Fundação Oriente afirma que é necessário manter e consolidar a organização das Casas de Macau de modo a reforçar os elos de união entre os membros da comunidade e que as Comunidades deverão manter os laços que as unem não só a Macau, como Portugal e também à China devendo ser este um ponto de união e não de desunião e dispersão.

A Fundação Oriente menciona também segregação e discriminação: Não podemos deixar de considerar totalmente inaceitável a possibilidade de se estabelecerem quaisquer segregações entre macaenses de origem portuguesa e de origem chinesa. E mais adiante: Do mesmo modo entendemos também que são inaceitáveis quaisquer discriminações em relação aos membros da comunidade com menores posses, devendo, pelo contrário ser-lhes dado o justo relevo na gestão dos destinos da CMSP.

Tal fato foi considerado inaceitável pela maioria dos associados de São Paulo e obrigou a Diretoria a convocar extraordinariamente os Conselheiros Consultivos para discutir os “termos da carta”. De modo geral, os associados acharam a carta com um tom de advertência e intromissão nos assuntos da Casa de Macau, além de considerarem que havia insinuações infundadas. Desse incidente, uma crise se instaurou: nas conversas informais os macaenses relembram o fato de a Casa de Macau de São Paulo não ter sido doada como, por exemplo, a Casa de Macau do Rio de Janeiro, assim como a falta de apoio da própria Fundação à comunidade paulista. Os associados que compareceram à Casa de Macau em grande número nas duas semanas que se seguiram demonstraram revolta e decepção. Vou responder, esta foi a reação de um macaense com mais de 80 anos, inconformado e com as mãos trêmulas de nervosismo. Nas agitadas conversas entre os associados um conjunto de questões eram formulado: Quem fez a queixa à Fundação Oriente? Por que a diretoria não foi

consultada? Por que não mostram sua cara? Como pode a Fundação Oriente interferir nos assuntos da Casa de Macau, uma vez que a associação é autônoma, regida por seus Estatutos, aprovados democraticamente pelos associados em Assembléia Geral?

Como atos remediadores foram redigidos um abaixo-assinado (com 117 assinaturas) e uma resposta ao Presidente do Conselho de Administração da Fundação Oriente. O conselho da Fundação respondeu em poucas linhas que lamentava que a Direção da Casa de Macau tenha levado para o lado pessoal tais reflexões construtivas. Como desfecho, seguiu-se então uma publicação de carta resposta no Boletim de março, contendo a seguinte nota da redação:

Nota da Redação: A resposta alega que as reflexões foram dirigidas às Casas de Macau e em particular à de São Paulo. Para quem gosta de estatística, a carta de 18 de janeiro de 2002, citou 7 vezes a Casa de Macau de São Paulo (ou CMPS ou Casa, em singular) e as Casas de Macau ou Casas em plural, também 7 vezes, registrando-se assim um empate técnico. Se tomamos as reflexões especialmente dirigidas para nós, como o fizemos, as estatísticas esclarecem. Pergunta-se aos associados de outras Casas de Macau também receberam ou irão receber uma carta semelhante? Ou esse Boletim serviu como mensageiro, uma vez que foi e é, como de costume, remetida a todas as Casas, entidades, associados e pessoas cadastradas? Esses “problemas” somente estão acontecendo na Casa de Macau de São Paulo, dentro da ótica da FO?

A análise desse incidente nos mostra a preocupação de como são e como podem ser visto os macaenses fora da comunidade. E como se autodefinem como grupo hoje. Sem dúvida um grupo que requer uma origem portuguesa, chinesa e macaense, fruto dos novos tempos em que há uma aproximação com um capital intercultural. A carta resposta revela forte repúdio à alegação de haver segregação racial ou discriminação baseada em posses materiais, visto que acreditam que a maioria dos macaenses não tem patrimônio de vulto, vivem de parcos salários e pensões e um bom número de associados ainda conta com o auxílio da comunidade. Os macaenses da Casa de Macau de São Paulo querem viver a harmonia entre todos e serem conhecidos por sua liberalidade e por sua aceitação e adaptação às mudanças. Conduta que foi decisiva para sua sobrevivência ao longo da história.

Em um determinado momento, chega-se à definição do que é ser macaense, novamente explicita-se a questão das raízes primordiais: Ser macaense, isso não é diferente de ser português; porém nossa associação não é restrita a macaenses, mas aberta a todos os portugueses com alguma ligação com Macau, principalmente de origem asiática. Considerar que ser português não é diferente de ser macaense consiste em mais um inventário das definições macaenses sobre si mesmo. No texto há também a preocupação com a continuidade

da cultura macaense, sobretudo, na transferência aos filhos, como já foi dito acima, levada como questão no “ 5° Encontro da Diáspora” e também em um próximo “Econtro para Jovens Macaenses 2006”.

Alguns macaenses são acusados de negar o chinês da raça, como aparece no depoimento do macaense Jorge Hu. Jorge, associado da casa paulista, é considerado por todos como uma figura querida e importante, sobretudo por seu contato com os jovens e sua atuação ativa na Casa. Jorge é responsável pelo treinamento e ensaio de artes marciais e da dança do Leão com os adolescentes. Considera que a cultura macaense está acabando e que na Casa de Macau de São Paulo todos tentam negar o chinês da raça, o que lhe parece uma contradição, por haverem chineses na Casa. Jorge é casado com uma mulher chinesa e conta-me que em uma reunião da CMSP de que participou, diante de uma discussão sobre quem são os verdadeiros macaenses, perguntou aos dirigentes: vocês querem que eu expulse minha mulher da Casa? Tal clivagem pode ser explicada pela sua geração, pois Jorge pertence a uma geração que nasceu entre os anos 70 e 80 e, portanto, se aproxima mais de um capital de comunicabilidade entre os chineses e portugueses do que um “capital de portugalidade” ao possuir um nome chinês e ser casado com uma chinesa. São clivagens étnicas que revelam uma defasagem entre o “capital de portugalidade” que os macaenses da Casa de São Paulo querem preservar, e o capital de comunicabilidade, ou como coloca Pina Cabral, “capital de intercomunicação” que a instituição portuguesa e os administradores de Macau, mais afinadas com os novos tempos, defendem.