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2.5 A “Operação Limpeza” e os expurgos nas universidades brasileiras

2.5.3 Os expurgos de 1968: o segundo ciclo repressivo

A edição do AI-5139 criou todas as condições necessárias para que se aprofundem a repressão e as medidas autoritárias contra toda população brasileira, inaugurando-se um novo ciclo repressivo, com a retomada da “limpeza” iniciada (e não concluída) em 1964 em diversos setores da máquina pública, em especial, nas universidades. Na avaliação dos militares, o critério “ameno” com que foi proposta a repressão nos primeiros anos era o principal responsável pela reorganização dos movimentos sociais, entre eles o movimento estudantil, o qual havia se rearticulado e estava com força, contrapondo-se aos militares no poder.

Logo após o AI-5, o clima nas universidades mudou drasticamente, pois definitivamente não havia mais condições para a agitação crescente, a qual vinha preocupando os golpistas, a ponto de sentirem-se acuados pelas reivindicações dos grupos de esquerda. O recrudescimento do governo do ditador Costa e Silva, na avaliação dos técnicos norte-americanos que implantavam os acordos MEC-USAID foi recebido com entusiasmo, já que o “maior controle” (aumento da repressão),

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Ato Institucional nº1, de 09 de abril de 1964. A partir do AI-1, ficaram suspensos por dez anos os direitos políticos de todos os cidadãos vistos como opositores ao regime, dentre eles congressistas, militares e governadores e demais políticos. Neste período, surgia a ameaça de cassações, prisões, enquadramento como “subversivos” e eventual expulsão do país para muitos dos cassados. (MOTTA, 2014).

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Como citado anteriormente, as razões pelas quais foi imposto o AI-5 ainda são motivo de controvérsia, o argumento aqui apontado reflete a “justificativa” encontrada pelos militares para impor à população aquele que seria o mais terrível ato institucional de todo o período ditatorial.

poderia servir para facilitar a implantação da modernização (autoritária) nas universidades.

Dessa forma, um dos primeiros objetivos do AI-5 foi atingido: aterrorizar os intelectuais de esquerda que protestavam contra o governo. Em meados de 1969, inicia-se novamente a onda de expurgos, atingindo agora de maneira indiscriminada os docentes e estudantes universitários. Deixava de haver a “seletividade” que pautou o primeiro expurgo logo após o golpe passando a atingir a todos os opositores do governo.

Até mesmo alguns dos professores alinhados com os militares passaram a criticar a intensidade da repressão, pois entendiam que os afastamentos enfraqueceriam os quadros das universidades, além de frustrar a Operação Retorno140, a qual visava repatriar alguns nomes importantes que haviam sido afastados no primeiro expurgo.

Na mesma proporção em que o AI-5 conseguia atingir seus objetivos nas universidades, o apoio entre os docentes alinhados com o governo diminuía. Contudo, os militares não se deram por satisfeitos em somente retomar a onda de expurgos e implantar o AI-5 sem prazo para expirar: o momento era “oportuno” para dar uma resposta ao movimento estudantil que havia se rearticulado e pressionava o governo por liberdades, se contrapondo às arbitrariedades que vinham acontecendo. Dentro desse contexto foi editado em fevereiro de 1969, o Decreto nº 477, um dos instrumentos mais repressivos de toda a ditadura brasileira, o qual tinha capacidade de atingir professores, servidores e especialmente os estudantes universitários.

Mesmo antes da vigência do Decreto nº 477, muitos Reitores alinhados com o governo já vinham expulsando os estudantes, alguns baseados nos regimentos internos de suas universidades. Como resposta, alguns estudantes ingressaram com ações judiciais questionando as medidas arbitrárias dos dirigentes de suas instituições de ensino, mas com relação ao Decreto, pouco poderia se fazer.

Aconteceram casos peculiares de aplicação retroativa do Decreto nº 477, como foi o caso da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG - o que denota a aparente legalidade de que se revestiam os atos da repressão. Na UFMG, durante

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A Operação Retorno, a qual havia sido pensada com o interesse de minimizar as perdas dos intelectuais de expressão das instituições de ensino superior praticamente teve seus resultados anulados com a nova onda de expurgos. MOTTA, op. cit. p. 153.

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uma manifestação dos alunos por ocasião de uma assembleia geral, cerca de 200 alunos foram presos, sendo instaurados de uma só vez 142 IPMs, com os alunos enquadrados ao final, no Decreto nº 477, independente do fato ter acontecido antes da própria existência da norma.

De acordo com a dissertação de Isabel Cristina Leite (2010, p. 156):

O arbítrio configura um poder ilimitado e absoluto, que na forma de simulacro, passa a ter força da lei. Expulsar tais alunos poderia se configurar em medidas exemplares, como forma de dizimar focos militantes dentro das instituições de ensino, evitando, assim, mais simpatizantes na luta contra o regime vigente141.

Em outras instituições uma das formas nada sutis de controle dos estudantes e do que acontecia dentro dos campi foi colocar militares em sala de aula - alguns inclusive sem terem passado por nenhum processo seletivo (vestibular) - com a tarefa de “monitorar” as atividades dos estudantes. Só no ano de 1969 centenas de estudantes foram expulsos de seus cursos, número muito mais expressivo do que todo o período do primeiro expurgo. Era a resposta dos órgãos de repressão às manifestações que tomavam conta do país em 1968 que, em boa parte, eram organizadas e/ou conduzidas pelo movimento estudantil.

Sob esta perspectiva, o expurgo funcionou muito bem num primeiro momento, pois com o AI-5 e o Decreto nº 477 praticamente deixou de existir qualquer possibilidade de manifestação estudantil e as poucas e corajosas tentativas de protesto foram duramente reprimidas. Apesar da dureza do Decreto nº 477, constatou-se que o número de estudantes expulsos com base nele foi inferior àquele baseado nos regimentos internos das universidades. Entre os anos de 1969 e 1979 foram expulsos em torno de mil estudantes, sendo que uns 250, mais ou menos, estavam baseados no Decreto (MOTTA, 2014, p. 159-160).

Um dos resultados mais significativos do “grande expurgo” mostrou-se na significativa perda da capacidade de trabalho de algumas universidades, já que alguns professores expurgados eram proeminentes pesquisadores inclusive alguns com projeção internacional em suas áreas de atuação. Entre as universidades mais

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LEITE, Isabel Cristina. “Apurando a subversão”: um estudo de caso sobre a repressão na

Universidade pelos arquivos da AESI/UFMG. O artigo é parte da dissertação intitulada: “Comandos de Libertação Nacional: Oposição Armada à Ditadura em Minas Gerais (1967-1969)”,

Do Departamento de História da UFMG. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/ temporalidades/pdfs/03p148.pdf.> Acesso em: 05 abr. 2014.

atingidas com as perdas estavam a UFRJ (curso de História), a USP (curso de Sociologia) e a UFRGS (curso de Filosofia).

De maneira análoga ao caso relatado no primeiro expurgo (Prof. Paulo Lauda), houve tremendo impacto na vida pessoal e profissional dos docentes afastados142. Novamente, o critério ideológico foi determinante para os expurgos, embora tenha havido razões pessoais que acabaram pontuando alguns casos, em que docentes “oportunistas” resolveram aproveitar para delatar seus colegas de profissão na expectativa de poderem ocupar os cargos então vagos. Há que se colocar a incompletude dos expurgos ideológicos mesmo no segundo ciclo, pois tanto quanto no primeiro, houve pressões dos próprios aliados do governo, assim como o temor às críticas amenizavam os afastamentos, juntamente com os contatos pessoais a que, em alguns casos, os docentes ameaçados recorreram.