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SISTEMA DE ATIVIDADES

3.3 POR QUE GÊNEROS TEXTUAIS?

3.3.2 Os gêneros textuais no contexto da pesquisa

Não é meu objetivo neste trabalho desenvolver análise de gêneros textuais. Entretanto os gêneros permeiam todo o contexto da pesquisa, pois deram suporte às oficinas de letramento, estas, sim, alvo de observação.

Ao afirmar que “deram suporte”, já estou atribuindo aos gêneros uma finalidade de caráter pedagógico, pois reconheço que por meio deles se processaram várias atividades propostas ao longo do curso. Mas, para além do caráter pedagógico – que não pode ser ignorado –, está o caráter profissional dos gêneros textuais trazidos para a sala de aula. Por ‘caráter

profissional’ estou me referindo aos gêneros cuja função é inserir o indivíduo no mundo do trabalho (currículo, carta de apresentação, biografia de perfil profissional, entrevista de emprego etc.) e aos gêneros que são utilizados pelas cuidadoras de idosos como parte de sua ação profissional (bula, tabela de medicamentos, cardápio etc.).

Em ambos os casos, o que se observa é que tais gêneros têm um caráter agentivo, são eles mesmos “uma ação social [...] uma ferramenta de agência” (BAZERMAN, 2011a, p. 19). Pode-se dizer que estão socialmente disponíveis e prontos para serem utilizados, de acordo com as necessidades específicas a que se propõem, pelas cuidadoras de idosos, para alcançar sua função e no exercício de sua função. Mas tais gêneros só são agentivos, dinâmicos, interativos, porque são manipulados por agentes, “pessoas [cuidadoras] que querem realizar coisas através da escrita em um mundo em mudança” (BAZERMAN, 2011a, p. 10-11). De posse desses gêneros, as cuidadoras (ou quaisquer outras pessoas) tornam-se, então, agentes de seus interesses. No âmbito do trabalho, Bazerman (2011a) faz questão de assinalar que as pessoas atuam como agentes cada vez que escrevem para realizar um trabalho profissional, não importando onde esse trabalho é realizado, se há ou não reconhecimento da importância do que se escreve, mas as pessoas continuam agentes e finaliza:

Assim, da grande agência das figuras históricas ao nosso mero preenchimento de um formulário médico para facilitar nosso tratamento, a escrita nos ajuda a tornar real e forte nossa presença num mundo social em que asseveramos nossas necessidades e nosso valor (BAZERMAN, 2011a, p. 13).

Por isso entende-se que, no curso, há a ressignificação dos usos da escrita a partir dos gêneros textuais, porque ela está voltada para o uso efetivo em situações sociais, para inserir ou manter as colaboradoras no mercado de trabalho. Isso dá um outro sentido ao por que escrever no curso. Não para atender às demandas de um programa pré-estabelecido pela instituição, mas para atender às necessidades de agências cívicas delas. Em consequência, o curso de extensão consegue atribuir um outro sentido à escrita dessas mulheres.

Isso posto, já se evidencia nesta pesquisa a abordagem social de gêneros inspirada na Sociorretórica, a que Swales, Miller e Bazerman estão afiliados, por entenderem o gênero como ação social (MILLER, 2012).

Bazerman (2011b) incorpora o conceito de atos de fala, preconizado por Austin, aos seus pressupostos, concordando com o filósofo que os enunciados realizam ações. Miller (BAZERMAN; MILLER, 2011) admite a influência de Burke, Perelman e Toulmin, todos representantes da Nova Retórica, a quem atribui sua percepção de gêneros como um “tipo de

ação persuasiva” (BAZERMAN; MILLER, 2011, p. 59). Swales defende a ideia de que os gêneros realizam tarefas, tendo, portanto, propósitos comunicativos variados (HEMAIS; BIASI-RODRIGUES, 2005, p.113).

Ao considerar aspectos sociais e situacionais na compreensão dos gêneros, Miller (2012, p. 32) os define “como ações retóricas tipificadas fundadas em situações recorrentes”. A estudiosa admite a densidade dessa definição, em virtude de cada um dos termos que a ela se aplica incorporar uma série de pressupostos (BAZERMAN; MILLER, 2011, p. 16). Para que ela se torne clara, então, cumpre-se entender algumas noções oriundas da fenomenologia de Husserl e da fenomenologia social de Schutz26, que influenciaram os Estudos Retóricos de Gêneros (daqui em diante ERG).

A primeira delas é a noção de ‘intencionalidade’. Bawarshi e Reiff (2013, p. 89-90), citando Sokolowski (2000), entendem a intencionalidade como “um ato de tornar algo disponível para nossa consciência”, “um ato de cognição dirigida a um objeto”, considerando que objeto é tudo aquilo que é intencionado, quer de natureza real, ideal ou fictícia.

Outro conceito importante é o de ‘mundo da vida’, que Gurwitsch (1970, p.35, apud BAWARSHI; REIFF, 2013, p. 90) define como o “mundo da experiência comum”, “o mundo

como encontramos na vida cotidiana”. Schultz esclarece que “o mundo da vida é [...] uma realidade que modificamos por meio de nossos atos e que, por outro lado, modifica nossas ações” (SCHUTZ; LUCKMAN, 1973, 6-7, apud BAWARSHI; REIFF, 2013, p.90). Há ainda a ideia de ‘estoque de conhecimento’, que corresponde “às experiências cotidianas vividas e transmitidas pelos e para os agentes sociais” (Schutz, 1974, p. 38-40, apud MAGALHÃES, 2007, p. 243). Magalhães (2007) ainda esclarece que o estoque de conhecimento possibilita a interação com o mundo, pois se trata de conjunto de saberes, informações e operações cotidianas. E o conceito que parece ser o mais importante para a compreensão dos ERG é o de ‘tipificações’, as quais devem ser entendidas como estoques de conhecimento que vão se consolidando através das experiências adquiridas no mundo da vida. Sua função é facilitar e simplificar o pensamento e as ações dos agentes sociais, uma vez que “se baseiam na experiência e na premissa de que o que funcionou anteriormente em dada situação deverá funcionar novamente noutra” (BAWARSHI; REIFF, 2013, p. 91).

26 “A fenomenologia é uma tradição filosófica que surgiu no início do século XX, na Alemanha, com a obra de

Edmund Husserl, e depois se expandiu através da obra de Martin Heidegger [...] procura dar conta de como as coisas se manifestam a nós e de como vivenciamos essas manifestações” (BAWARSHI; REIFF, 2013, p. 89). A fenomenologia social, fundamentada na fenomenologia, “é o estudo dos modos como as pessoas vivenciam o cotidiano e imbuem de significado as suas atividades” (CALDERANO, 1998, p. 14, grifo da autora).

De uma forma simplista, essas noções ajudam a entender que, estando imersos no mundo da vida, os homens agem movidos pela intencionalidade, em busca de tornar determinado objeto disponível para sua consciência. Nesse processo, ao se depararem com uma situação problemática, recorrem às tipificações (estoques de conhecimento: estratégias, regras, receitas de comportamento, técnicas etc.) que estão disponíveis para que ajam nessas situações (BAWARSHI; REIFF, 2013, p.89-91).

Por isso Miller – e também Bazerman – consideram os gêneros como tipificações. Para este último, a tipificação de gêneros responde “ao nosso ambiente social, material e histórico” (BAZERMAN; MILLER, 2011, p. 29), já que a utilização de formas padronizadas e reconhecíveis possibilita uma melhor coordenação dos atos de falas entre os interlocutores (BAZERMAN, 2011b). E Miller, reiterando sua percepção de gêneros como um fenômeno social, adverte“que não devemos perder de vista que essas tipificações realmente sinalizam padrões socialmente perceptíveis e socialmente determinados, e isso vem de fora da subjetividade individual” (BAZERMAN; MILLER, 2011, p. 32). A pesquisadora esclarece ainda que o conceito de tipificação abraça a dimensão de similaridades de forma, de conteúdo ou substância e de ação. É nesse tripé que os ERG são sustentados.

No que concerne a Swales (1990), Hemais e Biasi-Rodrigues (2005) afirmam que o pesquisador apresenta uma noção de gênero amalgamada, oriunda de diferentes campos de estudo. Na abordagem desenvolvida por ele sobre gêneros textuais e ensino, uma das influências do autor a que dou destaque são aquelas relacionadas à área da aprendizagem, em especial as abordagens sobre noções e funções, “por causa dos fatores do propósito comunicativo da linguagem e das necessidades do aprendiz” (HEMAIS; BIASI-RODRIGUES, 2005, p. 110). Essa é uma influência determinante para sua visão de gênero, pois aponta para a finalidade dos gêneros textuais (HEMAIS; BIASI-RODRIGUES, 2005), aspecto que o pesquisador evidenciará na elaboração de seu conceito de gêneros.

Para formalizar esse conceito, Swales recorreu a quatro diferentes perspectivas teóricas: estudos de folclore, estudos literários, linguística e linguística sistêmico-funcional e estudos de retórica. Sempre com o olhar voltado para o ensino, no conceito por ele formulado, o estudioso destaca algumas características dos gêneros textuais, das quais considera mais importante o fato de eles se constituírem em eventos comunicativos que partilham de um ou mais propósitos comunicativos. Biasi-Rodrigues e Bezerra (2012, p. 235) esclarecem que o propósito comunicativo “embasa o gênero e determina não somente a sua forma, mas também as escolhas relativas ao conteúdo e ao estilo”, o que mantém o gênero focalizado em uma determinada ação retórica. Swales afirma ainda que “Esses propósitos são reconhecidos pelos membros mais

experientes da comunidade discursiva original e, portanto, constituem a razão do gênero” (HEMAIS; BIASI-RODRIGUES, 2005, p. 114).

Surge, assim, um outro elemento que se coaduna ao escopo desta pesquisa: a comunidade discursiva. Trago o conceito do termo já reformulado pelo autor, em seu trabalho Other Floors, Other Voices de 1998 . Hemais e Biasi-Rodrigues (2005) esclarecem que, para a reformulação dessa teoria, Swales tomou como base a perspectiva teórica de diferentes estudiosos, que a tornaram mais complexa e abrangente. Seguem alguns pontos da teoria que merecem destaque: a) “A comunidade discursiva possui princípios e práticas que têm uma base linguística, retórica, metodológica e ética” (HEMAIS; BIASI-RODRIGUES, 2005, p.117), (toma como base a teoria de Porter, 1992); b) As comunidades discursivas podem ser locais ou globais: nas primeiras, os participantes trabalham juntos, nas últimas, os “membros têm um compromisso com diversos tipos de ação e discursos, independendo de onde e com quem trabalham” (HEMAIS; BIASI-RODRIGUES, 2005, p.117), (toma como base a teoria de Killingsworth e Gilbertson de 1992); c) Swales desenvolve a noção de comunidade discursiva de lugar, ou seja, de um grupo de pessoas que trabalham juntas e que têm a noção clara dos objetivos propostos para o seu grupo.

Já se evidencia a partir do exposto a convergência de pontos em comum entre as teorias de Swales e esta pesquisa. Lembro que os gêneros selecionados para o curso têm duas finalidades específicas: ‘para conquistar o trabalho’ e ‘para usar no trabalho’. Tais propósitos atendem à comunidade das cuidadoras colaboradoras, em dois contextos que se complementam: o curso de letramento (de uma forma mais restrita) e o mundo do trabalho (de uma forma mais generalizada). Ao apresentar as especificidades dos sistemas e conjuntos de gêneros, ao final deste capítulo, poderão ser observadas outras comunidades discursivas bem como os gêneros textuais que atendem aos seus propósitos.

Há de se ressaltar também que, ao eleger tais gêneros para comporem a arquitetônica do curso, considerei-os como gêneros retóricos, pois respondem adequadamente às situações retóricas suscitadas pelas necessidades prementes das colaboradoras: inserirem-se no mercado de trabalho e qualificarem-se para atuar em suas funções. Nesse sentido, os gêneros fazem mediação entre situações e ações, pois, como lembra Bazerman (2011a, p. 27), “O conceito retórico de gênero associa [...] a forma e o estilo do enunciado com a ocasião ou situação e a ação social realizada no enunciado”. O autor continua sua reflexão, esclarecendo o conceito de gêneros de Carolyn Miller, principalmente no que concerne ao conceito sociológico de tipificação:

Os falantes percebem que um tipo particular de enunciado se mostra eficaz em certas circunstâncias, de sorte que, em circunstâncias similares, há uma tendência para o uso de um tipo similar de enunciado. Com o passar do tempo e com as repetições, os padrões e as expectativas socialmente compartilhados emergem para guiar todos na interpretação de circunstâncias e enunciados. Para Miller, a percepção é a chave para o reconhecimento de circunstâncias recorrentes e de ações tipificadas, de tal modo que a emergência de gêneros reconhecíveis aumenta o reconhecimento de situações como similares ou recorrentes. (BAZERMAN, 2011a, p, 27)

Sem dúvida, em seu ofício de cuidadoras, as colaboradoras estão a todo o tempo se deparando com ações tipificadas, que lhes exigem a utilização de enunciados similares, porque reconhecidamente eficazes. Por isso justifica-se a adoção da abordagem de gênero como ação social, no curso, já que o ensino da escrita, nessa perspectiva, se deu como ação social motivada, colaborando para que as mulheres se apropriassem das possibilidades de ação que os gêneros com os quais trabalharam lhes permitia e valorizassem os gêneros que estavam sendo solicitadas a produzir (BAZERMAN; MILLER, 2011). De minha parte, posicionei-me como gerenciadora das oficinas de letramento, à medida que criei situações motivadoras, trazendo para o espaço de sala de aula gêneros textuais significativos para o desenvolvimento do curso de letramento (BAZERMAN; MILLER, 2011).