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2.2 A segunda fase nas teorias da comunicação: estudos dos efeitos da mídia em longo

2.2.2 Os guardiões do portão e a teoria do gatekeeper

O conceito de gatekeeper (porteiro) “refere-se à pessoa que toma uma decisão após uma seqüência de decisões”.437 Esse conceito foi elaborado a partir de um estudo desenvolvido pelo psicólogo Kurt Lewin em 1947, quando o mesmo analisou o processo de tomada de decisão referente à aquisição de alimentos para casa. Nessa pesquisa, Lewin apresentou a proposta de que o fluxo de informações existentes em um dado sistema passa por diversos gates (portões), que funcionam como filtros que permitem ou impedem a circulação de determinadas informações.438

David Manning White, nos anos 50, foi um dos primeiros teóricos a aplicar esse conceito ao jornalismo, reconhecendo que os meios de comunicação de massa exercem um poder decisivo sobre o processo de escolha das informações que virarão notícia.439 Dessa

434 Ibidem, p. 179.

435 Ibidem, p. 179-180.

436 Mauro Wolf ressalta que os estudos sobre os emitentes são, comumente, restritos a análises mais simples

sobre as operações produtivas da mídia, sendo que níveis mais complexos relativos à programação política, por exemplo, permanecem praticamente inexplorados. WOLF, Mauro. Teorie delle comunicazioni di massa. 22. ed. Milão: Bompiani, 2006. p. 177-179.

437 TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Unisinos, 2001. p. 68. 438 WOLF, Mauro. Teorie delle comunicazioni di massa. 22. ed. Milão: Bompiani, 2006. p. 180.

439 WHITE, David Manning. O gatekeeper: uma análise de caso na seleção de notícias. In: TRAQUINA, Nelson

forma, em meio a tantas informações existentes nas mais diversas áreas, torna-se necessário definir o que será ou não publicado e, nesse contexto, o jornalista exerce a função de gatekeeper. O repórter forma o primeiro gate no processo de comunicação, sendo que o editor, que é o objeto de estudo de White, constitui o último gate, conforme se pode verificar na figura número 5 que representa o presente modelo teórico.440

Figura 5 – Modelo teórico formulado por David Manning White

Fonte: elaborado pelo autor a partir de informações contidas em: WHITE, David Manning. O gatekeeper: uma análise de caso na seleção de notícias. In: TRAQUINA, Nelson (Org.). Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa: Vega, 1993. p. 142-151.

Assim, como destaca Traquina, “se a decisão for positiva, a notícia acaba por passar pelo portão; se não for, a sua progressão é impedida, o que na prática significa sua morte, porque significa que a notícia não será publicada, pelo menos nesse órgão de informação”.441

O estudo de David Manning White é baseado numa pesquisa sobre a atividade de um jornalista com 25 anos de experiência na atividade junto a um jornal de porte médio na cidade norte-americana de Midwest e que é responsável por selecionar as informações que serão publicadas. “Mr. Gates”, como ficou conhecido esse jornalista, registrou durante uma semana os motivos que o levaram a rejeitar cada uma das notícias não utilizadas. O autor, ao analisá-las, percebeu que a cada dez fatos que chegaram ao conhecimento de Mr. Gates por meio das agências de notícias (Associated Press, United Press e International News Service), somente um foi transformado em notícia e publicado pelo jornal.Ao buscar compreender os

440 Ibidem, p. 143. 441 A B C D

Notícias potenciais Gatekeeper Notícias selecionadas

A

motivos de tantas rejeições, David White refere que essa seleção é extremamente subjetiva e que depende de “juízos de valor baseados na experiência, atitudes e expectativas do gatekeeper”.442 Além disso, um motivo claramente identificado é o da falta de espaço dentro dos jornais para publicar tantas notícias e, também, a sobreposição de acontecimentos que já haviam sido selecionados ou, ainda, a ausência de interesse jornalístico.443

Mauro Wolf destaca que o mérito desses primeiros estudos é o de individualizar onde e em quais pontos desse mecanismo a ação de filtro é exercida explicitamente e institucionalmente. Deve-se ressalvar que são estudos que partem de pesquisas realizadas no intuito de desvendar o fenômeno apenas a partir de quem as produz, ou seja, do jornalista.444 Nas conclusões de David White, por exemplo, verifica-se que o mesmo permaneceu apenas no âmbito da identificação dos aspectos de seleção, algo que só posteriormente se desenvolveu sob outras duas concepções, dessa vez, a primeira centrada no papel desse aparelho midiático como instituição social e a segunda sob uma abordagem sistemática.

Em face disso, percebe-se que a teoria do gatekeeper emerge mediante utilização de uma abordagem microssociológica, priorizando o papel do indivíduo jornalista, ignorando outros fatores macrossociológicos ou até mesmo a organização jornalística. Traquina sustenta que é uma teoria que se “baseia no conceito de seleção, minimizando outras dimensões importantes do processo de produção das notícias”, o que, conseqüentemente, conduz a uma “visão limitada do processo de produção das notícias”.445 Ainda assim, apesar de as primeiras pesquisas identificarem somente o caráter individual da atividade do gatekeeper, as fases seguintes dessa teoria passaram a considerar a concepção de que o processo de seleção é hierarquicamente ordenado e ligado a uma complexa rede de feed-back.446

Dessa forma, partindo dessa realidade que reconhece a existência de um complexo processo informativo, as pesquisas mais recentes no campo do jornalismo ressaltam a importância de se compreender como ocorre essa filtragem tendo em vista que durante esse processo podem estar envolvidos muito mais do que uma simples recusa ou aceitação.447 Segundo o Mauro Wolf, a função de gatekeeper junto aos mass media inclui todas as formas de controle da informação que podem ocorrer nesse complexo processo, de maneira que as

442 WHITE, David Manning. O gatekeeper: uma análise de caso na seleção de notícias. In: TRAQUINA, Nelson

(Org.). Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa: Vega, 1993. p. 145.

443 Ibidem, p. 145.

444 WOLF, Mauro. Teorie delle comunicazioni di massa. 22. ed. Milão: Bompiani, 2006. p. 182. 445 TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Unisinos, 2001. p. 70 446 WOLF, Mauro. Teorie delle comunicazioni di massa. 22. ed. Milão: Bompiani, 2006. p 181-182. 447 Ibidem, p . 182.

decisões também passam por selecionar outros atributos que envolvem a codificação da mensagem, a formação da mensagem, sua difusão, programação e exclusão integral ou não da mensagem.448

Em face disso, enquanto os primeiros estudos sobre gatekeepers somente associavam o conteúdo dos jornais ao trabalho de seleção de notícias executado pelo jornalista, os mais recentes estudos relacionam a produção de notícias à imagem da realidade social que é fornecida pela mídia juntamente com a organização e produção rotineira dos aparelhos jornalísticos. Com isso, são analisadas as deformações dos conteúdos informativos não somente em face da atuação do jornalista; mas, em especial, pela forma como se encontra organizada e institucionalizada a profissão junto aos meios de comunicação.

Outro aspecto interessante a ser considerado para uma melhor compreensão da teoria do gatekeeper relaciona-se com os estudos sobre noticiabilidade ou de valores- notícia449 que, segundo Johan Galtung e Mari Holmboe Ruge, se sobreporiam à subjetividade do jornalista no momento de atuar como gatekeeper. Em um clássico trabalho publicado em1965, no Journal of Peace Research, os referidos autores analisaram a forma como foi realizada a cobertura dos jornais noruegueses em relação às crises políticas ocorridas em 1963 no Congo, Cuba e Chipre.450

A partir desse estudo, os autores elaboraram uma tipologia formada por doze fatores capazes de explicar a produção das notícias, sendo que tais fatores não são independentes uns dos outros, pois podem ser estabelecidas inter-relações entre eles. Os fatores podem ser sintetizados conforme o Quadro 4:

Quadro 4 – Doze fatores que explicam a produção das notícias segundo Galtung e Ruge

Fator Descrição

1. Frequência Eventos que ocorrem com mais frequência e eventos que ocorreram recentemente

possuem maior probabilidade de serem recordados pela mídia e transformados em notícias;

448 Ibidem.

449 Os valores-notícia e os critérios de noticiabilidade são abordados por Mauro Wolf quando analisa o

newsmaking. Tendo em vista que o referido autor vem pautando o presente estudo como teoria de base para a

compreensão das teorias da comunicação, tais elementos serão analisados com mais detalhes somente no próximo item juntamente com a análise específica do newsmaking.

2. Amplitude A intensidade ou magnitude de um evento faz com que o mesmo ganhe intensidade na percepção das pessoas transformando-se em notícias;

3. Clareza Quanto mais clareza e menos ambiguidade possuir um evento, mais provavelmente

ele se tornará uma notícia;

4. Relevância e

proximidade Quanto mais significativo for o evento e quanto maior for a proximidade geográfica e cultural mais provável será a sua seleção, tendo em visa que os

gatekeepers tem os mesmos referentes;

5. Consonância A presença de uma predisposição por parte dos selecionadores de notícias

(gatekeepers) ao já possuírem uma pré-imagem de determinados fatos ou eventos aumenta as probabilidades de se tornar notícia;

6. Imprevisão Quanto mais inesperado e raro for um acontecimento, maior será sua chance de ser

selecionado como notícia;

7. Continuidade A cobertura contínua por parte da mídia também favorece a permanência do

evento sob a atenção dos jornalistas, dessa forma, os assuntos já noticiados tem grande probabilidades de se tornarem novamente notícia;

8. Composição Um evento pode ser transformado em notícia não somente por seus valores, mas

porque ele consegue se balancear com o restante das notícias;

9. Referência às

nações de elite Os acontecimentos oriundos das nações de elite são vistas com grandes consequências para as ações de outras nações, por isso possuem grandes probabilidades de se tornar notícia;

10. Referência à elite

popular As ações da elite popular (famosos, por exemplo) podem ser vistas como mais atrativas para se tornar notícias do que as ações de outras pessoas desconhecidas;

11. Referência a

pessoas As notícias que apresentam eventos como ações de pessoas individuais são mais facilmente comunicadas em comparação àquelas que são resultado de forças sociais;

12. Referência a algo

negativo As notícias com caráter negativo por serem mais inesperadas que as notícias positivas, tanto no sentido de que os acontecimentos referidos são mais raros e que são menos previsíveis, possuem mais chances de serem transformados em notícias;

Fonte: elaborado e traduzido pelo autor a partir de: GALTUNG, Johan; RUGE, Mari Holmboe. The Structure of Foreign News: the presentation of the Congo, Cuba, and Cyprus crises in four Norwegian newspapers. In:

Journal of Peace Research. v. 2, n. 1, p. 64-91, 1965

A partir do exame desses fatores, é possível perceber que se um acontecimento se enquadra fortemente em um dos critérios, ou se enquadra de maneira branda em vários deles, tem grandes probabilidades de se tornar notícia. Nota-se, ainda, que a intenção dos autores com esse estudo era identificar os motivos pelos quais certos eventos são transformados em notícias enquanto outros não e, portanto, após análises dos jornais, os autores concluem que existem três motivos principais que favorecem que um fato social se transforme em notícia.

fatores apresentados pelos autores como definidores de noticiabilidade (selection). O segundo é que cada elemento de um acontecimento selecionado pelo jornalista deve despertar o interesse e acentuar alguns dos fatores indicados como definidores de noticiabilidade, para que possa ser transformado em notícia (distortion). E, por fim, o terceiro motivo é que em todas as etapas do processe de construção da notícia é possível encontrar procedimentos de seleção e distorção dos fatos, o que pode ocorrer desde a ocorrência do fato em si, até a sua difusão e recepção pelo público (replication).451

O estudo de Galtung e Ruge recebeu muitas críticas por analisar, especificamente, momentos de crise internacional, o que poderia comprometer as conclusões a que os autores chegaram. Da mesma forma, outros autores criticaram a lista de fatores de noticiabilidade apresentada, sustentando que ela não considera os elementos visuais que podem afetar os conteúdos dos textos (fotos impactantes, por exemplo).452 Além disso, para Stuart Hall, a listagem somente identifica os elementos formais do processo de construção das notícias, sem, contudo, considerar ou explicar o papel das forças ideológicas existentes e atuantes sobre cada um dos elementos apresentados.453 Hall destaca que os valores-notícia não podem ser considerados tão somente como uma estrutura independente de conhecimento que conduzem a produção de notícias como se fosse resultado de um conjunto de práticas rotineiras neutras. Em face disso, o autor sustenta que é necessário levar em consideração que os valores-notícia formalmente estabelecidos também sofrem influência de toda uma estrutura ideológica que age no processo de produção das notícias.454

É em face desses elementos que se deve perceber que, geralmente, o espaço de seleção de informações por parte do jornalista não é tão amplo e exercido de forma autônoma como sustentado nos estudos pioneiros sobre gatekeeper, pois grande parte do exercício da função é exercida mediante execução de ordens previamente estabelecidas pelos donos do jornal. Além disso, outros fatores interferem na aplicação dessa teoria tal como foi inicialmente pensada. Na era da Internet, por exemplo, em face da maior liberdade de espaço nas publicações on-line, há possibilidade de que todos os assuntos ganhem espaço nesse mundo virtual, apesar de serem descartados pelos meios de comunicação tradicionais. Além

451 GALTUNG, Johan; RUGE, Mari Holmboe. The Structure of Foreign News: the presentation of the Congo,

Cuba, and Cyprus crises in four Norwegian newspapers. In: Journal of Peace Research. v. 2, n.1, 1965, p. 71.

452 HALL, Stuart. The determinations of news photographs. In: COHEN, Stanley; YOUNG, Jock. (Orgs.). The manufacture of news: social problems, deviance and the mass media. London: Constable; Beverly Hills (CA):

Sage, 1973. p. 226-243.

453 Ibidem, p. 237-242. 454

disso, em face das possibilidades de cada pessoa também poder expressar suas opiniões e relatar ao mundo certos acontecimentos por meio de sites individuais (blogs, em especial) qualquer um também pode ser um pré-selecionador de acontecimentos que poderão, dependendo do impacto causado na rede, servirem de fonte para os meios tradicionais. Essa facilidade de expor cada vez mais conteúdos sem uma preocupação com o espaço reservado a elas dentro dos jornais, também faz emergir um curioso fenômeno que é o de os próprios jornalistas possuírem sites onde publicam suas reportagens, muitas delas só existentes no mundo virtual.455 Em face de todo esse contexto, a análise da próxima teoria (newsmaking) propiciará uma identificação mais adequada sobre como ocorre o processo de construção das notícias e não somente desse processo de seleção de notícias.

2.2.3 A construção da notícia e a teoria do newsmaking

A hipótese do newsmaking é considerada mais uma teoria do jornalismo do que uma teoria da comunicação tendo em vista a ênfase dada “à potencial transformação dos acontecimentos cotidianos em notícia”.456 Os estudos sobre o newsmaking aperfeiçoam as investigações sobre o gatekeeper tendo em vista que apresentam mais detalhes sobre a rotina de trabalho junto aos meios de comunicação investigando como ocorre o processo de industrialização das notícias, ou seja, como se dá o processo em que os profissionais da mídia avaliam os valores de certos acontecimentos de forma a transformá-los ou não em notícias.

Esses estudos, além de fornecerem um método de pesquisa457 sobre a produção de

455 Segundo Lévy "a palavra virtual vem do latim mediaval virtualis , derivado por sua vez de virtus, força,

potência. [...] O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente. Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes”. Além disso, “o virtual só eclode com a entrada da subjetividade humana no circuito, quando num mesmo movimento surgem a indeterminação do sentido e a propensão do texto a significar, tensão que uma atualização, ou seja, uma interpretação, resolverá na leitura”. LÉVY, Pierre. O que é o virtual? Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Ed.34, 1996. p. 15; 40.

456 HOHLFELDT, Antonio. Hipóteses contemporâneas de pesquisa em comunicação. In: HOHLFELDT,

Antonio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera Veiga. Teorias da comunicação: conceitos, escolas, tendências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. p. 203.

457 A pesquisa sobre newsmaking é caracterizada pela utilização da técnica da observação participante a qual

permite que sejam reunidas e obtidas, de forma sistemática, todas as informações e dados fundamentais acerca das rotinas produtivas operantes na indústria da mídia. Dessa forma, os dados são recolhidos pelo pesquisador que se encontra presente no ambiente que é objeto de estudo, seja com a observação sistemática de tudo o que acontece, seja por meio de conversas ou entrevistas com as pessoas que colocam em prática os processos produtivos. WOLF, Mauro. Teorie... Op. cit. p.186-187

notícias, fornecem elementos de compreensão acerca dos valores-notícia, que são os componentes da noticiabilidade de um fato. É importante destacar que o processo de seleção dos gatekepeers nem sempre se mostra suficiente, pois certas filtragens ficam somente na esfera dentro/fora do jornal – notícia/não-notícia. É em face desse contexto que se inserem os estudos do newsmaking, ao enfrentarem outros dilemas dentro do processo de criação das notícias.

Dentre esses dilemas encontra-se a difícil tarefa de decidir, a partir das notícias selecionadas quais devem estar nas capas dos jornais e quais devem receber mais espaço e atenção. Assim, a seleção dos fatos noticiosos se estende em um processo muito mais complexo, em que não basta somente selecionar, mas também é preciso hierarquizar os fatos para que se possa distribuir a atenção dentro do jornal.

De acordo com Mauro Wolf, esses valores são a resposta para as seguintes perguntas: “que imagem do mundo fornecem os noticiários televisivos? Como se associa essa imagem às exigências quotidianas da produção de notícias, nas organizações radiotelevisivas?”458 As pesquisas do newsmaking, decorrentes dessas duas perguntas, se articulam dentro de dois limites que definem o âmbito e expõem os problemas enfrentados pela abordagem do newsmaking: a cultura profissional dos jornalistas e a organização do trabalho e dos processos produtivos. Assim, o ponto central do newsmaking reside em identificar as conexões e relações existentes entre esses dois aspectos.459

Mauro Wolf ainda destaca que o objetivo declarado de qualquer órgão de informações é fornecer relatos dos acontecimentos significativos e interessantes. Contudo, dada a superabundância de informação, faz-se necessário realizar uma filtragem nesses acontecimentos mediante a adoção de um conjunto de critérios que definem a noticiabilidade (newsworthiness) de cada acontecimento.460 Os resultados das pesquisas do newsmaking trouxeram uma percepção contrária do que se propala através dos meios de comunicação de massa, de que as notícias são simplesmente o relato de acontecimentos, da forma mais objetiva possível. O conjunto de critérios de relevância dos acontecimentos que irão definir a sua noticiabilidade é construído a partir da relação entre a cultura profissional, a organização do trabalho, entre outros condicionamentos.

458 Tradução livre do original em italiano: “Quale immagine del mondo danno i notiziani radiotelevisivi? Come

si correla questa immagine alle exigenze quotidiane della produzione di notizie nelle organizzazioni radiotelevisive? WOLF, Mauro. Teorie delle comunicazioni di massa. 22. ed. Milão: Bompiani, 2006. p. 188.

459 WOLF, Mauro. Teorie delle comunicazioni di massa. 22. ed. Milão: Bompiani, 2006. p. 189. 460

A noticiabilidade, portanto, é constituída pelo conjunto de requisitos que se exigem dos acontecimentos para que possam ser transformados em notícias, sendo que aqueles que não se enquadrarem neles serão excluídos desse processo.461 Em face disso, notícia é o que os jornalistas, dentro de alguns condicionamentos, definem como sendo notícia.462 Sendo assim, é também de grande importância observar tudo o que deixa de ser notícia, e como os silêncios dos jornais também podem ser significativos nesse sentido.

Mauro Wolf afirma que "a noticiabilidade corresponde ao conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, quotidianamente, dentre um número imprevisível e indefinido de fatos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias".463 A noticiabilidade, todavia, encontra-se regrada por valores-notícia (news values) que podem ser definidos como o “conjunto de elementos e princípios através dos quais os acontecimentos são avaliados pelos

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