• Nenhum resultado encontrado

3.2 O curriculum e a vida da criança

3.2.1 Os impulsos

A formulação do currículo originou-se da seguinte hipótese: como utilizar as tendências individuais da criança, seus impulsos originais para comunicar-se com tal domínio gradativo e habilidade para, assim, ajudá-la a cooperar com crescente eficácia para a vida de seu grupo? Para isso, Dewey estabeleceu uma classificação básica dos impulsos que a escola motiva, e os agrupou em quatro categorias: o impulso social, o construtivo, o investigativo e o expressivo.

O instinto social das crianças se manifesta na comunicação, na interação pessoal e nas conversas. A criança de 4 ou 5 anos, diz Dewey, é egocêntrica. Sempre que um novo assunto é abordado, ela diz que já viu ou ouviu sobre ele. O horizonte dela não é amplo, ―uma experiência tem de afetá-la de forma imediata, caso contrário ela não se mostra suficientemente interessada em compará-la ou relacioná-la com as experiências doutras pessoas‖(DEWEY, 2002, p. 46). E, sendo assim, o interesse limitado da criança pequena é passível de se expandir indefinidamente. Por esse motivo, Dewey destaca o instinto da linguagem como sendo a maneira mais simples de expressão social da criança, por conseguinte, o mais importante recurso educativo.

O instinto de fazer representa o impulso construtivo. Esse impulso que a criança tem para fazer coisas exprime-se pelas brincadeiras, pelos movimentos, pelos gestos e o faz de conta, que se traduzem depois nas modelagens de materiais, dando forma concreta e solidificação definitiva. Todas as artes

expressivas, como pintura, desenho, etc. podem ser incluídas sob o impulso construtivo. Segundo Dewey, essa expressão, que é originada nos impulsos sociais e construtivos da criança, são - na realidade - refinamentos dos mesmos. Essas expressões são agrupadas em partes separadas de atividades artísticas para fins de convivência. Elas resultam em contribuições úteis entre o trabalho e o lazer. A sensação de ter ajudado se transforma e aumenta a estimativa da criança em seu próprio poder. Assim, gradativamente, o modo de agir inovador torna-se habitual e resulta em um desenvolvimento da experiência, que - continuamente refinada e enriquecida - aumenta a cada dia para a criança e para o grupo. O instinto de investigação da criança surge da combinação entre o impulso construtivo e o da conversação. Não há diferença entre um trabalho feito na carpintaria e a ciência experimental. As pesquisas que as crianças são capazes de desenvolver, seja no campo da física ou da química, não apresentam como objetivo elaborar conceitos técnicos ou conquista de verdades abstratas, mas o que elas querem e gostam é de mexer nas coisas e ver o que acontece.

O instinto artístico apresenta-se, na concepção de Dewey, como uma quarta categoria, que desenvolve o impulso expressivo da criança. Ele origina-se dos instintos construtivos e comunicativos. O instinto social relaciona-se com o impulso artístico, porém, na maioria dos casos, em crianças pequenas, pelo desejo de representar, de relatar. Dewey relata um exemplo relacionado com o trabalho têxtil de coser e tecer. Para estimular o impulso construtivo, as crianças montaram um tear primitivo na oficina. Em seguida, surgiu a vontade de criar algo com o tear. O professor mostrou alguns cobertores fabricados pelos índios, e as crianças começaram a desenhar estilos de cobertores indígenas, dentre eles foram escolhidos os que mais se identificavam com o trabalho proposto. Com poucos recursos, as próprias crianças definiram as cores e as formas para finalizarem os cobertores. As crianças puderam perceber, a partir da análise do trabalho, que os fabricantes de cobertores precisavam ser meticulosos, pacientes e perseverantes. Nesse momento, para Dewey, revela-se o espírito artístico da criança. Para além de mostrar disciplina, domínio de conhecimentos históricos e dos princípios de noção técnica, eles mostraram a sua capacidade de transmitir corretamente uma ideia. Acontece assim a ligação entre o instinto artístico e o instinto construtivo.

Os interesses na conversação, na comunicação, na descoberta das coisas ou investigação, na construção ou no ato de fazer coisas - juntamente com o interesse na expressão artística - tratam-se de talentos naturais, do recurso não investido, a cuja realização está sujeito o crescimento ativo da criança. Dewey considera que

[...] todos os interesses se desenvolvem a partir de instintos ou hábitos, os quais, por sua vez, se baseiam num instinto original. Não se deve concluir que todos os instintos tenham o mesmo valor ou que não herdemos muitos instintos que necessitam mais de transformação do que de satisfação de forma a terem alguma utilidade na vida. Mas os instintos que encontram uma saída e expressão consciente na ocupação estão destinados ser de um tipo particularmente fundamental e permanente. As atividades da vida estão por necessidade orientadas no sentido de colocar os materiais e forças da natureza sob o controle de nossos objetivos; a torná-los tributários para com os fins da vida (DEWEY, 2002, p. 118).

Os hábitos ou instintos, segundo o autor estadunidense, são a chave para o crescimento. No entanto, é impossível seguir por vários caminhos ao mesmo tempo, ou obedecer aos inúmeros impulsos. Por esse motivo,há uma questão que passa a dominar o processo e guiar a ação, permitindo, assim, que os outros impulsos atuem como secundários: o hábito de refletir.

De acordo com o que foi referido no capítulo anterior, para Dewey, o hábito é produto da vida em sociedade e se expande na vida social através da experiência por meio de ações. Ele afirma também que, em uma situação instável, o sistema de hábitos ativa a inteligência, que, pela ação, reestabelece a harmonia. Dessa forma, utilizando o exemplo citado por Dewey, sobre a atividade de fabricação dos cobertores, podemos inferir que, enquanto o instinto faz apelo ao lado social, o interesse da criança nas pessoas e nas suas ações pode ser expandido ao mundo mais amplo da realidade.

De acordo com Moreira (2002), o hábito de refletir, que se desenvolve a partir da vida da criança, apresenta alguns fatores que podem variar de pessoa para pessoa, mas existem algumas linhas gerais que podem ser aproveitadas. São elas: a curiosidade, a sugestão e a ordem(p. 145). A curiosidade é o motor principal da interação do organismo com o meio, ou seja, da criança com o ambiente em que vive. Esse processo de interação é o que constitui a estrutura da experiência. Não há uma faculdade chamada de curiosidade. Cada órgão sensitivo ou motor da

criança busca oportunidade de ação e para agir, reclama um objeto. A curiosidade é a soma de todas essas disposições com direcionamento externo. É ela o princípio fundamental da ampliação da experiência, sendo assim, o motor curiosidade é o componente primordial das causas que se desenvolverão em ato de pensar reflexivo.

O segundo fator que se apresenta no hábito de refletir é a sugestão. Dewey reconhece que nada na experiência é isolado, e tudo ocorre em união com outros objetos, acontecimentos ou qualidades. A experiência presente contém sempre elementos complexos, não uma sensação única. A esse respeito, Dewey cita o exemplo do pássaro. Uma criança pode estar absorvida na contemplação de um pássaro, para sua consciência. Nesse momento, não há nada além do pássaro. Porém, em algum lugar o pássaro está na árvore, no chão, pode estar cantando, voando, comendo. A experiência do pássaro não é uma sensação única, pois há muitas qualidades incluídas e que a ela se relacionam. Isso quer dizer que toda vez que a criança vir um pássaro pensará em algo que não esteja no momento presente, semelhante a da experiência anterior.

Transformar sugestões em reflexão exige um terceiro princípio, o da ordem. É através da ordem de ação que as pessoas conseguem alguma ordem de pensamento. Os adultos, normalmente, têm suas carreiras, suas profissões, e isso firma o alicerce estabilizador em torno do qual organizam-se conhecimentos, crenças e hábitos para o alcance e verificação de conclusões. A criança precisa, desde cedo, ser educada com bons hábitos intelectuais, pois ela não tem uma organização de suas atividades como o adulto. O pensamento reflexivo só acontece quando o fluxo de pensamentos se torna uma sucessão ordenada que já apresente as ideias anteriores e se direciona por uma questão ou problema. Moreira (2002) acrescenta que a demanda dessas três forças para o desenvolvimento do pensamento reflexivo é o que conduz Dewey a pensar em atividades que despertem a curiosidade das crianças, o direciona a estabelecer condições para aproveitar o fluxo de sugestões vindas da experiência e a trabalhar com questões que favoreçam uma certa ordem na sucessão das ideias ou sugestões (p. 147).