3 APRESENTANDO OS CAMINHOS (MÉTODOS)
3.4 OS INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS
3.4.1 Os instrumentos
Utilizamos o registro de observação em caderno de campo, a videogravação de entrevistas e o registro fotográfico para caracterização dos diferentes espaços- tempos da escola.
3.4.2. A observação participante
Para dizermos que nossa observação foi do tipo participante, concordamos com Woods (1987), apud Sarmento (2003, p. 160), quando afirma que ―[...] não há modo de realizar a observação dos contextos de ação que não seja participante‖. Porém, o nível da participação pode variar, de acordo com a inserção do pesquisador, que pode atuar como um simples observador, que se esforça para estabelecer um mínimo de interferência, ou como sujeito de ação, cuja interferência é significativa. Ao nos integrarmos no espaço escolar investigado, sentimo-nos também convidada a ser parte dele. A primeira providência tomada foi apresentar a proposta da pesquisa, para que todos pudessem ter o entendimento de nossa presença ali. Feito
isso, iniciamos o processo de investigação e mesmo tendo o aluno como foco das observações, os professores e os outros servidores da EMEF também participaram do processo de pesquisa. Esse aspecto foi de suma importância para nós.
Durante a pesquisa de campo, não nos sentimos como simples observadora, pois nossa participação foi ativa. Sempre que solicitada, procurávamos contribuir. Em determinadas situações, via-nos tão envolvida no contexto que nos sentíamos fazendo uma ―participação observante‖ ao invés de uma observação participante como disse Loic Wacquant (Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe).
A pesquisa de campo teve seu início em setembro de 2008, com uma reunião com a Coordenação de Educação Especial da SEME. As visitas às escolas indicadas ocorreram entre outubro e novembro do mesmo ano. As observações das aulas foram durante cinco meses (de março a julho de 2009), realizadas em três dias durante a semana (inicialmente às segundas, quartas e sextas-feiras). No mês de abril, efetuamos a troca da segunda pela terça-feira em função de poder observar as aulas de Artes que aconteciam às terças e quintas-feiras e também, mais intensamente, as aulas de Educação Física que eram nas terças, quartas e sextas- feiras. Deixamos os demais dias para sistematização do caderno de campo e atividades de estudo. As horas de observação em aula perfizeram um total médio de 112 horas. Cada dia observado tinha 4 horas e 20 minutos e o total foi de 26 dias.
3.4.3 Entrevistas e conversas informais
Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os alunos com deficiência, sujeitos do estudo, e com seus pais, ao final do processo de coleta de dados, fazendo uso de videogravação, com a devida autorização dos responsáveis. As entrevistas foram realizadas individualmente com os alunos a fim de confirmar dados já observados. Tiveram duração média de seis minutos e foram realizadas na sala de apoio pedagógico e da coordenação pedagógica (APÊNDICES A e B).
As entrevistas com os pais dos alunos com deficiência foram agendadas via telefone, ao final do processo de observação e tiveram a duração média de 15 minutos. Ocorreram na sala da coordenação pedagógica, normalmente acompanhadas pelos filhos (APÊNDICES C e D). Tinham como principal objetivo conhecer um pouco da história de vida desses alunos assim como de seu processo de escolarização. Foi também esse o momento de explanação da pesquisa aos pais, assim como da autorização de utilização das informações coletadas e imagens dos alunos (a devida autorização se deu conforme o Termo de Consentimento Livre Esclarecido em anexo). Além disso, durante o processo de coleta de dados, fizemos uso de conversas informais com os sujeitos do estudo e com outros participantes, com o objetivo de obter informações em processo, sobre o cotidiano dos alunos com deficiência na escola.
3.4.4 O caderno de campo
É um instrumento pessoal utilizado para as anotações das observações em campo. Os registros foram realizados durante as aulas observadas sempre que possível ou, posteriormente, dependendo da característica. Nele foram feitos registros sobre o comportamento dos alunos, suas relações e conflitos com os pares, enfim, seus movimentos nos diferentes espaços-tempos da escola.
3.4.5 A videogravação e o registro fotográfico
Utilizamos a videogravação e a fotografia em alguns momentos de pátio, de aulas de Educação Física e, principalmente, nas entrevistas. O objetivo principal era o registro audiovisual cotidiano dos diferentes espaços-tempos dos sujeitos da escola. Também realizamos o registro dos espaços/equipamentos utilizados em laboratório
pedagógico. A utilização desses instrumentos foi previamente autorizada pela direção da escola e pelos pais dos alunos acompanhados neste trabalho.
3.4.6 Fontes documentais
Outro aspecto marcante no cotidiano das escolas é a produção de documentos. Segundo Sarmento (2003), os documentos produzidos pela escola se dividem nas seguintes categorias: textos projetivos de ação — planos de aulas, projetos da escola, regulamentos etc.; produtos da ação — relatórios, atas, memorandos etc.; documentos performativos — jornais escolares, redações etc.
Ao utilizar documentos projetivos de ação, tomamos os seguintes cuidados destacados por Sarmento (2003, p. 164):
Dado que os documentos do primeiro tipo – textos projetivos –
constituem orientações prévias à ação, é legitimo esperar-se deles um conjunto articulados de intenções formalmente assumidas, aos diferentes níveis a que se situam. Não é lícito interpretá-los como elementos reveladores das práticas efetivamente realizadas, dado que eles de alguma forma lhe são anteriores; no entanto, eles têm um considerável interesse nos estudos das lógicas de ação, porque, de algum modo, são a expressão ‗oficial‘ das lógicas dominantes. Há que, todavia, considerar as suas múltiplas relações com o plano da ação, o qual pode confirmar contradizer ou ‗reinterpretar‘ as intenções formalizadas.
Nossas fontes documentais incluíram a consulta dos seguintes documentos oficiais da escola: Projeto Político-Pedagógico da escola (fragmentos), elaborado em maio de 2003 para o triênio de 2005 a 2008 (no momento da pesquisa o documento atual estava em fase de elaboração), agenda do estudante e plano de trabalho 2008-2009 da coordenação de formação e acompanhamento à Educação Especial da SEME.
3.4.7 Análise dos dados
Como os dados são de natureza qualitativa, utilizamos a técnica de análise de conteúdo, realizando a triangulação das diversas informações (BARDIN, 2004). ―Em síntese, a triangulação dos métodos de recolha de informações, bem como a multiplicação das fontes, obedece ao duplo requisito da abrangência dos processos de pesquisa e da confirmação de informação‖ (SARMENTO, 2003, p. 157).
Procedemos à análise baseada em dois eixos temáticos principais:
a) cotidiano escolar e educação inclusiva baseados em: Heller (1977, 1992), Duarte (2007), Bissoli (2007), Amaro (2006), Guimarães (2002), entre outros; b) estudos sobre exclusão e inclusão no contexto da Educação Física por:
Chicon (2005), Rodrigues (2000), Cruz (2008) entre outros.
Enfim, percebemos que, com a pesquisa de características etnográficas, poderíamos viver o dia a dia da escola, ouvindo os alunos, os professores, os funcionários, as estagiárias, uma gama de atores sociais da escola. Percebemos a possibilidade de discussão e diálogo dessa forma de pesquisar o micro, um espaço específico, mas que nos conduz a pensar a inclusão de alunos com deficiência na macroestrutura da educação.