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Os intérpretes de línguas orais na história

UM OLHAR SOBRE E COM AS IDENTIDADES

2.4. A CONSTITUIÇÃO PROFISSIONAL COMO TRAÇO NAS IDENTIDADES DOS ILS

2.4.1. Os intérpretes de línguas orais na história

Uma tarefa difícil, na área da interpretação, se constitui em estabelecer com precisão a data em que aconteceram as primeiras interpretações orais e quem eram as pessoas que realizavam tal atividade. Provavelmente, essa atividade aconteceu na medida em que os povos começaram as trocas de mercadorias a fim de negócios e que necessitavam, para se comunicar, de alguém que intermediasse essa questão cultural, econômica e lingüística. No entanto, PAGURA (2003:4), “nos coloca que a mais antiga referência a um intérprete parece ser um hieróglifo egípcio do terceiro milênio antes de Cristo. Há registros de intérpretes na antiga Grécia e no Império Romano”.

Por outro lado, a história, ao abordar a questão da interpretação, recorre a dados bíblicos, tais como a orientação do apóstolo Paulo em sua carta aos Coríntios. Ele afirma como necessidade, a presença de um intérprete quando as pessoas falarem em línguas desconhecidas. Outro fato bíblico que remete à interpretação, se refere à Torre de Babel.

Na época do Iluminismo, conforme mencionei no capítulo 2, as posições sociais dos sujeitos era regida por um padrão social, ou seja, serem homens brancos, europeus, intelectuais, eram alguns dos critérios que definiam as classes sociais daquele tempo. Para “DELISLE e WOODSWORTH (2003:258), a posição social dos intérpretes, também, se explica pela sua omissão nos anais da história, pois eram:” híbridos étnicos e culturais, muitas vezes do sexo feminino, escravos ou membros de uma “subcasta” – cristãos, armênios, judeus que viviam na

Índia britânica, por exemplo, (Roditi, 1982, p.6) -, esses intermediários não recebiam nos registros históricos o tratamento que mereciam”.

Na Idade Média, os encontros diplomáticos marcaram a presença dos intérpretes de línguas orais em conferências, pois necessitavam de um intermediador lingüístico e cultural para os países representados nesses encontros. Antes, as negociações diplomáticas internacionais eram realizadas em francês, uma vez que essa era a língua que predominava na época. Essa situação começou a mudar a partir da Primeira Guerra Mundial, pois segundo PAGURA (2003), houve o Congresso de Viena (1814-1815) em que os Estados Unidos começaram a participar, precisando que as interpretações fossem realizadas em francês e inglês. Esse autor cita Paul Mantoux como um dos primeiros intérpretes das conferências atuando, também, no Tratado de Versalhes.

Nessa época, era comum, além das guerras em nome das religiões e, por conseqüência, a evangelização dos povos, a necessidade da intermediação cultural e lingüística. Conforme mencionei anteriormente, essas pessoas não eram valorizadas por seus trabalhos de interpretação e muitos eram forçados a realizar tal atividade.

Tanto nas guerras a fim de conquistar novos territórios, quanto nas Cruzadas que almejavam propagar o cristianismo, a língua desempenhou papel fundamental do poder de um povo sobre outros. As pessoas eram capturadas para intermediar lingüisticamente os povos, ainda que não fossem valorizadas pelos seus trabalhos. Foi assim que aconteceu com Doña Marina que interpretava para o conquistador de colônias, Cortez, na cidade do México.

Todos esses intermediadores lingüísticos e culturais atuavam sem conhecimento algum do processo de interpretação. PAGURA (2003) fala que nos meios profissionais se usa a expressão “método sink or swim” para a formação dos intérpretes daquela época, isto é, significa de forma literal “afogue-se ou nade”, uma vez que os mesmos não recebiam orientação alguma de como atuarem. Nessa época, a interpretação consecutiva era a mais utilizada. No entanto, era desgastante tanto para os intérpretes, palestrantes como para o público, pois se exigia bem mais tempo nessa modalidade. Outro elemento que contribuiu para perdurar essa interpretação, foi a falta de equipamentos tecnológicos que permitissem a interpretação simultânea.

Segundo PAGURA (2003:4), “as coisas começaram a complicar-se com a criação da Organização Internacional do Trabalho, uma vez que alguns representantes sindicais não falavam francês nem inglês e tinham de expressar-se em sua própria língua”. A solução para sanar esse obstáculo lingüístico, foi à interpretação sussurrada, que consiste no “sussurro” ao

ouvido da pessoa que necessita da interpretação. Essa modalidade é pouco usada atualmente, no entanto, a mesma deu origem à modalidade simultânea. A primeira vez que se utilizou a interpretação simultânea, segundo RODRÍGUEZ (2001:6), foi

La primera vez que se utilizó fue en 1931 durante la Asamblea de la Liga de Naciones. A partir de aquí se empezó a utilizar regularmente em todos los actos diplomáticos que sucedieron a la Segunda Guerra Mundial, especialmente en los Juicios de Nuremberg donde, gracias a este método, se conseguió la exactitud y calidad necesarias en un asunto tan delicado Asunto tan delicado como fue el juicio a criminales de guerra.

Os intérpretes de línguas orais, com o passar dos tempos, foram se organizando profissionalmente em diversos países por meio de associações. No âmbito internacional, temos a Associação Internacional de Intérpretes de Conferências. No Brasil, temos a Associação Profissional de Intérpretes de Conferências. Esses intérpretes se organizaram profissionalmente, reivindicaram formação, por meio das universidades e escolas de formação. Essa apresentação sobre os intérpretes de línguas orais nos mostrou alguns fatos que marcaram o percurso desses profissionais. Certamente, há muito ainda para ser contado sobre a história desses profissionais, assim como dos ILS. Por isso, na próxima seção estarei mencionando os traços de uma história que se encontra em construção: a dos ILS.