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OFICIAL KILOGRAMA VALOR

5 O AMAZONAS NA REPÚBLICA VELHA (1889 1914)

5.2 Os Interesses da Província e a Constituinte de

Enquanto no plano local havia um esforço para reorganizar a máquina pública, no plano federal era urgente dotar o País de nova Carta Política que legitimasse a nova ordem política e econômica. O Governo Provisório através do Decreto nº 510 de 22 de junho de 1890 editou a Constituição Provisória da República. Em 15 de setembro, o Congresso Constituinte foi eleito com poderes para reformar a Constituição Provisória bem como eleger o Presidente e o Vice-Presidente da República. Os Constituintes eleitos pelo Amazonas como Senadores foram Manoel Francisco Machado245, Leovigildo de Souza Coelho246, Joaquim José Paes da Silva Sarmento247 e como Deputados Federais Manoel Ignácio Belfort Vieira248 e Manoel Uchoa Rodrigues249. A composição da bancada era extremamente heterogênea com a eleição de políticos forjados sob os auspícios do Império como Manoel Francisco Machado, o Barão do Solimões e militares ligados aos ideais republicanos como Manoel Ignácio Belfort Vieira. A heterogeneidade da composição da bancada é explicada pelas disputas que aconteciam localmente no Amazonas, na República recém instalada entre o grupo militar que dirigiam o Estado e os grupos civis que disputavam o poder. Nenhum dos

245Último Presidente da Província do Amazonas nomeado pelo Imperador,era ligado ao Partido Liberal, e

recebeu o título de Barão do Solimões.

246Deputado Provincial em 1866, militar e Coronel do Exército quando eleito Senador. 247

Membro do Partido Liberal do Império foi Vice-Presidente e Presidente da Província (12/07/1884 a 11/10/1884)

248Capitão de Mar e Guerra 249

grupos tinha força suficiente para alcançar o poder.

A Sessão Solene de instalação do Congresso Constituinte Nacional aconteceu em 15 de novembro de 1890, exatamente um ano após a queda do regime monárquico. Os temas mais importantes a serem discutidos tratavam da organização federativa, da discriminação das rendas, da organização dos estados, sistema de eleição presidencial, liberdade religiosa, entre outros. No caso do Amazonas que, sob os auspícios da borracha, destacava-se como importante Estado exportador, o tema no Congresso Constituinte de seu maior interesse era o da Discriminação das Rendas.

O Brasil Republicano, sob a égide da economia primário-exportadora, apresentava diferentes estruturas produtivas regionais com diferentes graus de desenvolvimento econômico. O Congresso Constituinte de 1891 espelhava uma disputa bastante acalorada e longamente discutida sobre a questão da discriminação de rendas entre Estados e União250. Duas posições nortearam o debate: a dos Unionistas, que defendiam maior poder fiscal da União, o que significava maior poder político do Governo Federal, posição defendida por Rui Barbosa. Por outro lado, os federalistas liderados por Júlio de Castilhos representante do Rio Grande do Sul251 e ardoroso defensor do Federalismo, argumentava que seria inócua a descentralização política enquanto grande mote da República, se no âmbito da discriminação de rendas a União continuava com seu poder discricionário principalmente sobre os Estados mais fracos economicamente.

O debate sobre a Discriminação das Rendas iniciou-se na Oitava Sessão com o discurso do Deputado Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos: “Mas a Federação para ter realização efectiva, completa, satisfatória, depende da devolução aos Estados, não somente dos serviços que lhe competem, porque são correspondentes aos seus interesses particulares como também da devolução das rendas que no regimen decahido, o qual tanto combatemos, eram absorvidos quasi que totalmente pelo Governo Central.(...) Eis o problema que ora discutimos: é a questão da classificação

250 Sobre o assunto, consultar: 1) Agenor de Roure. A Constituinte Republicana.Brasília: Editora da Unb,

1979. Coleção Bernardo Pereira de Vasconcelos n°17. e 2) Felisberto Freire. História Constitucional da República dos Estados Unidos do Brasil. Brasília: Editora da Unb, 1986.

251 Joseph L. Love. O Regionalismo Gaúcho e as Origens da Revolução de 1930. São Paulo:

das rendas, afim de saber-se quaes as que devem pertencer á União, quaes as que devem pertencer aos Estados.”252

A proposta de Castilhos confrontava-se com a proposta apresentada pela Comissão dos 21. Na proposta original, o Art. 8º definia a competência dos Estados de tributar o Imposto sobre Exportação, sobre a Propriedade Territorial e sobre a Transmissão de Propriedade. O substitutivo de Castilhos definia que a decretação de qualquer imposto seria da competência exclusiva dos Estados, menos os não compreendidos no Art. 6º. E que não seja contrário às disposições da Constituição. A proposta da Comissão foi defendida por Ruy Barbosa na nona sessão, ocorrida em 16 de dezembro de 1890, na qual desferira críticas à visão de Castilhos: “Em certas reivindicações do Federalismo, que vejo encapellarem-se aqui contra o projeto eminentemente federalista da Constituição que vos submettemos, há exaggerações singulares e perniciosas, que cumpre cercear, a bem exactamente do princípio federativo. Nas crises de transformação social ou política a corrente dominante propende sempre,, pela natureza das cousas, a exceder o limite da razão, e exerce sobre os espíritos uma ascendência intolerante, exclusivista e radical. Nesse senhorio que a aspiração descentralizadora assumiu agora sobre os ânimos entre nós, começa s se revelar uma superexcitação mórbida, que nos turba a lucidez do senso político, nos assumptos directa ou indirectamente relacionados com essa idéia. Grassa por ahi, senhores, um apppetite desordenado e doentio de federalismo, cuja expansão sem correctivo seria a perversão e a ruína da reforma federal.”253

Na décima quarta sessão da Assembléia Constituinte realizada em 22 de dezembro de 1890, a questão da Discriminação das Rendas começou a ser votada a partir do substitutivo de Júlio de Castilhos sobre a competência exclusiva dos Estados de decretar qualquer imposto que não seja compreendido no Art. 6º. Este artigo determinava ser de competência exclusiva da União decretar: Impostos sobre a importação de procedência estrangeira; Direitos de entrada, saída e estada de navios, sendo livre o comércio de custeagem às mercadorias nacionais, bem como às estrangeiras que já tenha pagado imposto de exportação; taxas de selo; contribuições

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Anais da Assembléia Constituinte de 1891, Livro I, Volume I, pg. 568.

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postais e telegráficas; a criação e manutenção de alfândegas; a instituição de bancos emissores. A votação é nominal sendo a proposta de Castilhos rejeitada por 123 contra 103, mas obteve todos os votos da bancada amazonense. O apoio da bancada amazonense à proposta de Castilhos254 pode ser entendido como uma tentativa de contrabalançar a fragilidade do poder político local em relação ao centro, com a possibilidade de maior poder econômico na esfera estadual, corroborado com a condição monopolista da borracha caso o substitutivo fosse aprovado, ao contrário dos demais estados exportadores que detinham poder econômico e político. Wilma Peres Costa ao buscar compreender a questão do Federalismo Fiscal no período republicano aponta que “Decisivos para a vitória dos interesses da União foram os votos das bancadas dos estados exportadores, São Paulo em particular, que colocava na Constituinte uma bancada coesa e articulada, bem como o papel exercido pelo presidente da Assembléia, Prudente de Morais”.255

Quando da discussão do Imposto de Importação ainda que o aumento de alíquota encarecesse o preço final do produto de consumo interno, o desejo de maior arrecadação pela máquina tributária estadual esteve sempre presente no ânimo da bancada amazonense. Na décima quinta sessão realizada em 23 de dezembro de 1890 foi votada a proposta do Sr. José Mariano que estabelecia o imposto de 15% sobre a importação para os Estados, sendo a mesma rejeitada por 120 votos contra 103, não encontrando unanimidade na bancada amazonense com o voto contrário apenas do Sr. Belfort Vieira. Na mesma sessão, foi votada a proposta da Comissão dos 21 de conceder aos Estados a quota de 10% sobre os impostos de importação de mercadorias estrangeiras destinadas ao consumo no respectivo território, sendo a proposta rejeitada por 123 votos contra 98 votos, mas obteve unanimidade de votos da bancada amazonense. A bancada do Amazonas mesmo tendo adotado uma postura “localista” em função na crença das elevações permanentes das receitas de borracha, aliada a uma não articulação nacional nas votações da discriminação das rendas, tornou o Estado um dos mais beneficiados do ponto de vista fiscal, no âmbito das receitas estaduais, permitindo que no Governo de Eduardo Ribeiro (1894-1896), a

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A respeito deste assunto ver Anais da Assembléia Nacional Constituinte de 1891, pp. 828-829

255Wilma Peres Costa. A questão fiscal na transformação republicana - continuidade e descontinuidade.

capital Manaus fosse transformada numa metrópole cosmopolita.