A Síria, sendo uma nação do Oriente Médio, região que, conforme já foi verifica- do, possui grande importância estratégica no mundo, é um país que tem sido alvo de diversos interesses estrangeiros ao longo de sua história.
Abordando tais interesses a partir do início do século XX, pode-se ressaltar inicial- mente o domínio da região pela França, após o Tratado de Sykes-Picot, como já foi elucidado, o que contribuiu para o enraizamento de expressiva comunidade cristã na região, o que viria a facilitar o domínio francês nas décadas seguintes (ZAHREDDI- NE, 2011).
A França realizou um censo demográfico na região sob seu domínio que abarcava a atual Síria, o Líbano e a província turca de Hatay, em 1921, dividindo desta forma as terras sob seu controle. Desta forma, já estariam plantadas as sementes que con- tribuiriam, anos mais tarde, para a fragmentação do território em pequenas repúbli- cas.
Segundo CLEVELAND, 2009:
O Resultado do Censo Francês levou à criação de seis províncias na “Gran- de Síria”, onde o aspecto confessional seria central para a criação dos futu- ros “Estados”. Seriam eles: o Estado de Alepo, o Estado de Damasco, o Estado de JabalDruze, o Estado Alauíta , a Província de Alexandreta
(Hatay) e o “Grande Líbano”. Cada um destes Estados estaria sob o con- trole de uma elite confessional, tutelada pela França. Este elemento confes- sional/étnico pode ser observado no desenho dos limites territoriais da Síria sob Mandato francês: duas províncias eram de maioria Sunita (Estado de Alepo e Estado de Damasco), uma de maioria Drusa (Estado de JabalDruze), uma de maioria cristã (Grande Líbano um Estado de maioria Alauita (Estado Alauita) e uma província autônoma de maioria Turca (Sanjak – Alexandreta).
A França, partindo da estratégia do “dividir para dominar (ou conquistar)”, ao lon- go de todo seu mandato, foi ciosa no dever de instrumentalizar o equilíbrio de forças existente entre os diversos grupos étnico-religiosos, de forma a impedir a formação deste ou daquele grupo que pudesse formar uma massa crítica com força política suficiente para requerer mais direitos. Neste contexto, identificando os Sunitas como maior grupo regional, dividiu a porção do território por eles ocupado em duas provín- cias distintas, Alepo e Damasco.
Diante desta crescente fragmentação, em 1925, eclodiu uma revolta árabe antiim- perialista que durou até 1927 e, apesar de ter sido vencida pelos franceses, refreou em parte maiores divisões do território, criando as bases para o futuro estado sírio (ZAHREDDINE, 2011).
O “Grande Líbano” proclamaria sua independência anos mais tarde, em 1943, sendo oficialmente reconhecido pela ONU, em 1946, como a República do Líbano.
Ainda em 1946, a Síria formalizou sua independência constituída, majoritariamen- te, por uma população Sunita, além de outros grupos étnico-religiosos. A formação política do país foi conturbada desde o início, conforme já foi abordado em capítulo anterior, o que tornou a nação mais vulnerável ainda às interferências estrangeiras no cenário nacional.
Fonte: Censo Francês 1921-1922, CLEVELAND, 2009.
A Síria, desde que se tornou independente, passou a ser alvo também dos inte- resses islâmicos estrangeiros de caráter Sunita, que vislumbravam o potencial da nação em tornar-se mais uma nação árabe dominada por este grupo, devido à gran- de proporção de Sunitas no país.
Tais ingerências externas causaram conflitos como o ocorrido na cidade de Hama, em 1982, quando Hafez al Assad determinou o cerco e a destruição da resistência islâmica, representante da Irmandade Muçulmana, que se encontrava nesta cidade. O cerco de 27 dias deixou um saldo de 10.000 mortos e desencorajou por um bom tempo outros movimentos contrários ao regime (ZAHREDDINE, 2011).
No conturbado Oriente Médio, em particular após a 1ª Guerra Mundial, unidades políticas de maior projeção, como Turquia, Arábia Saudita, Egito e Irã, procuraram influenciar cada vez mais o cenário regional, em suas disputas por poder, o que ine- vitavelmente gerou reflexos na Síria.
Um dos reflexos mais emblemáticos se deu pelo fato do território sírio servir como palco de disputas entre a Arábia Saudita, que procura manter um papel de liderança entre os Sunitas no Oriente Médio, buscando fortalecê-los, e o Irã que, por seu tur-
no, desempenha um papel de liderança entre as comunidades Xiitas, procurando fortalecê-los também na região e assegurar a continuidade do governo Alauíta na Sí- ria.
Após a 2ª Guerra Mundial, a região passou a receber maior atenção e influência de dois novos atores no cenário mundial, EUA e URSS. Segundo Zahreddine, 2011:
Com a Segunda Grande Guerra, e principalmente após a crise do Canal de Suez, em 1956, dois novos atores irão polarizar as disputas na região, os Estados Unidos da América e a União Soviética. Esta polarização é um re- flexo da própria ordem mundial inaugurada em 1947, que também terá seus efeitos no Oriente Médio.
Com o surgimento do partido Baath, de perfil socialista, e a ascensão ao poder de Hafez al Assad, a Síria estreitou cada vez mais seus laços com a URSS. Hafez já havia morado por alguns anos naquele país, como parte de sua formação política, militar e ideológica, o que favoreceu ainda mais tal aproximação, que se estendeu ao comércio, alianças políticas e intercâmbios militares (TOMÁS, 2014).
Em troca do apoio russo, a Síria concedeu seu litoral para o estabelecimento de uma grande frota naval soviética no porto de Tartus, fazendo com que o país se tor- nasse mais importante ainda para a URSS (TOMÁS, 2014).
As relações estreitas com a União Soviética e com o Irã, e o apoio às ações do grupo terrorista Hezbollah, sediado em território libanês, contra Israel, fizeram com que a Síria atraísse a animosidade crescente dos EUA, que incluíram o país no rol das nações do “Eixo do Mal”, devido ao apoio às atividades terroristas pelo mundo.
Foi sendo o epicentro de tantas disputas e interesses regionais e extra-regionais ao longo de sua história, que a Síria entrou no conflito alvo do estudo em tela, inicia - do em 2011.
Tais disputas e interesses constituíram as forças que tem ampliado o conflito, além de torná-lo extremamente complexo para o equilíbrio regional e para a paz mundial. Elas se organizam da seguinte forma:
• De um lado: governo de Bashar + Alauítas + outras minorias religiosas (que se beneficiavam das liberdades religiosas no país) + Russos + Irã + Hezbolah + Hamas.
• Do outro lado: Rebeldes sunitas (alguns grupos reunidos em torno do Conselho Nacional Sírio, CNS) + Arábia Saudita (visa enfraquecer e isolar o Irã) + Bahrein (visa enfraquecer e isolar o Irã) + Al Qaeda.
Recentemente, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS) passou a tomar parte no conflito, tornando-o ainda mais complexo.
O ISIS é um grupo armado surgido após a queda do regime iraquiano de Saddam Hussein, composto por insurgentes sunitas, oriundos de vários outros movimentos ji- hadistas, inclusive a Al Qaeda, que visa instaurar um califado islâmico – Estado go- vernado por um Califa, baseado na lei islâmica (Sharia) --, valendo-se do caos insta- lado no Iraque (TOMÁS, 2014).
Este movimento passou a controlar um território na fronteira entre Iraque e Síria e, inicialmente, manifestou fidelidade à Al-Qaeda, que os aceitou, mas que, em um se- gundo momento, os renegou, devido aos métodos violentos aplicados contra a pró- pria população islâmica
O ISIS se colocou ao lado dos rebeldes, em um primeiro momento, e foram aos poucos conquistando mais espaço e poder até virarem-se contra eles e começarem a executar grandes contingentes populacionais e, inclusive, os próprios rebeldes a quem inicialmente apoiavam. Segundo Tomás, 2014:
de repente o ISIS era a força mais poderosa a combater na Síria, controlando as cidades de Ar-Raqqa, Idlib e Aleppo. Tal como no Iraque, instituíram Estados fundamentalistas islâmicos, protegen- do as populações que lá moravam, mas também cometendo atro- cidades contra os rebeldes, que começaram a ter de lutar em duas frentes, contra o ISIS e contra Bashar al-Assad. Apesar de, em fevereiro de 2014, a Al-Qaeda ter-lhes retirado o apoio, o seu poder foi crescendo, bem como o número de jihadistas que se lhe juntavam, vindos de todas as partes do mundo, em especial da Europa, por ser mais fácil passar pelas fronteiras.
Finalmente, fica claro que a história da Síria está diretamente relacionada aos in- teresses estrangeiros divergentes em seu território que se mostraram presentes, principalmente, após a independência do país. Tais interesses têm sido tão relevan- tes que podem ser considerados, em alguns casos, como uma das principais causas de dissensões internas e conflitos, como o que ocorre na atualidade.
Fonte: www.theguardian.com
Figura 12 – Execução em massa pelo ISIS
Fonte: www.irishtimes.com