CAPÍTULO IV DANÇA COMO “OUTRA” POSSIBILIDADE NA EDUCAÇÃO FÍSICA
5.3 Os jovens e a dança: compartilhando experiências, transformando
subjetividades
Coelho Jr. e Figueiredo (2004) apontam para a importância do reconhecimento da alteridade outra na constituição da subjetividade. Esses autores consideram que a reviravolta no campo da psicologia se deu a partir das contribuições, tanto da tradição fenomenológica quanto do chamado behaviorismo social, ao constatar que “existe na formação do self um Outro – um „self generalizado‟ – e outros – selves diferenciados – em suas existências concretas e eventualmente em sua radical alteridade” (p.11).
Nessa fluência entre o Eu e o Outro surge a questão da intersubjetividade, que pode ser concebida, segundo Coelho Jr. e Figueiredo (2004, p. 14-15), “como constituída a partir de experiências de compartilhamento da realidade, de buscas de
25 Reconheço que essa “tensão” nos remete ao paradoxo presente na análise das vivências contemporâneas que remete à interpretação do discurso mediático como homogêneo e, ao mesmo tempo, da configuração de identidades fragmentadas. Todavia, entendo que a analise aprofundada desse paradoxo nos remete á uma ampla discussão, a qual esse trabalho não se propôs a dar conta.
„união‟, onde antes se reconhecia a separação. Aqui ganham relevo as noções de corpo vivido, percepção e co-construção da realidade (...)”.
Para os autores, estudos recentes pontuam três significados para a noção de intersubjetividade:
O primeiro revelaria o sentido da comunhão interpessoal entre sujeitos que mutuamente estão sintonizados em seus estados emocionais e em suas respectivas expressões. O segundo significado, reconhecível em estudos como os de Habermas (1970), compreende a intersubjetividade como aquela que define a atenção conjunta a objetos de referência em um domínio compartilhado de conversação lingüística ou extra-lingüística. Como terceiro significado indica-se a capacidade de estabelecer-se inferências sobre intenções, crenças e sentimentos de outros, que envolvem a simulação ou capacidade de leitura de estados mentais e processos de outros sujeitos, que de alguma forma nos remeteria ao clássico conceito de Einfüblung (empatia) (COELHO JR. e FIGUEIREDO, 2004, p. 13).
É nos espaços da intersubjetividade que a experiência do/com o outro pode configurar-se como possibilidade de reflexão sobre si próprio, sobre a experiência de estar-no-mundo-com-outros. Merleau-Ponty (1999, p. 468), afirma que “existem dois e somente dois modos de ser: o ser em si, que é aquele dos objetos estendidos no espaço, e o ser para si, que é aquele da consciência”. Reafirmando o enredamento que ocorre entre o Eu e o Outro na experiência do mundo e na impossibilidade de ser sem o Outro, Merleau-Ponty assevera:
Ora, diante de mim outrem seria um em si, e todavia ele existiria para si, para ser percebido ele exigiria de mim uma operação contraditória, já que ao mesmo tempo eu deveria distingui-lo de mim, portanto situá-lo no mundo dos objetos, e pensá-lo como consciência, quer dizer, como essa espécie de ser sem exterior e sem partes ao qual só tenho acesso porque ele sou eu, e porque nele se confundem aquele que pensa e aquele que é pensado (1999, p. 468).
Vejo aproximações entre esses entendimentos e as reflexões de Maffesoli (2007), que acentua a diferença entre a consciência de si, pivô das filosofias ocidentais, e a consciência em seu sentido moral. Segundo o autor, esta última “vincula-se essencialmente ao outro. Ela é de essência comunitária. Orienta-se menos pela vontade ou a razão do que pela emoção, o afeto, a pré-consciência comum ou mesmo o inconsciente coletivo” (p.113). É na esteira desse pensamento que Maffesoli discute as agregações contemporâneas, as denominadas “tribos”, definidas pelo autor como modo de estar-junto a partir do gosto compartilhado.
Essas agregações ou formas de estar-junto, constituem o sentimento de pertencimento: “não é mais o político distante ou o ideal racional do contrato social que garante a solidez do vínculo social, mas a partilha das emoções vividas no dia- a-dia” (2007, p. 141-42).
Essas ideias instigam a refletir sobre o modo como os/as jovens colaboradores dessa pesquisa significaram sua experiência/vivência da dança. A partir de suas falas foi possível identificar que a dança se configurou em um momento especial, diferente, dentro da “rotina” das aulas de educação física. Nesse sentido, Louis afirma que “a dança tem a oportunidade de aproximar as pessoas [...] não importa o estilo, importa se a pessoa se vê melhor no grupo”. A fala de Louis é corroborada pelas situações percebidas durante o tempo que estive no campo, como a instalação de uma “atmosfera” diferente, conforme já apontada no capítulo IV em que, a partir de diferentes níveis de envolvimento, meninos e meninas experimentaram diferentes formas de ser e estar nesse momento. O diálogo a seguir representa, em parte, os significados atribuídos pelos/as jovens nesse processo vivenciado:
Geverton: como no nosso grupo quase todo mundo ajudou.
Dyenifer: os passos em dupla, quase todos foi você, daí nós fizemos uns outros passos e fizemos aqueles dos braços.
Felipe: é, no nosso grupo todos davam opinião.
Dyenifer: é, no nosso grupo alguns tentavam, daí outro dizia: fica melhor assim! (...) a música foi todos nós que escolhemos, pegamos uns Cds e fomos escolhendo, ah é essa aqui! E todos davam sua opinião. Os passos também não tem como dizer que uma pessoa fez.
Essa forma de estar-junto, proporcionada pela dança, se configura como uma rica experiência da alteridade, pois para a produção da dança discussões precisam se instalar, os corpos dançantes precisam compor acordos e, nesses, as subjetividades têm condições mais ampliadas de se apresentarem pelas ações, atitudes e comportamentos. Fazendo uma analogia com os esportes coletivos, parece-me que esses nem sempre dão chance para uma discussão, parecida com a que acontece na dança, já que nessas práticas, os/as jovens estão acostumados a jogar com as regras e técnicas já constituídas e, assim jogam desde sempre, com os modos e formas de jogar já “naturalizadas”.
Scholze (2007) comenta que para Heidegger, a intersubjetividade, na forma do mitsein (ser-com), constitui uma estrutura ontológica essencial do dasein (ser-aí ou ser-no-mundo). A autora pontua que esse encontro pode se dar pelo texto escrito, “as narrativas de si abrem caminho para o mitsein heideggeriano, assim como a dimensão intersubjetiva do dasein possibilita a experiência do outro. O dasein abre caminho para o conhecimento do Ser e o mitsein, para a convivência, o partilhamento” (p. 65). Penso que esse encontro também pode se dar pela dança, em que “as danças de si” configuram como textos de comunicações que o sujeito estabelece com o mundo.
Assim podemos compreender que a dança, que se manifesta pelo corpo em movimento, é uma forma privilegiada de estar-com-o-outro, pois como assevera Merleau-Ponty (1999, p. 253), “é por meu corpo que compreendo o outro, assim, como é por meu corpo que percebo „coisas‟”. Nisso, podemos inferir que a percepção do outro contem interferências de mim e do mundo, tanto quanto minha percepção é interferida pelo outro e pelas condições do mundo:
Nessa medida, antes de ser subjetivo ou objetivo, o mundo é intersubjetivo, ou melhor, intercorporal, e a transitividade de um corpo a outro torna-se teoricamente possível, concreta e definitivamente fundada; há um círculo do palpado, e do palpante, o palpado apreende o palpante; há um círculo do visível e do vidente, o vidente não existe sem existência visível; há enfim propagação dessas trocas para todos os corpos do mesmo estilo que vejo e toco. Portanto, a possibilidade de existências do outro dá-se abaixo da ordem do pensamento: percebo primordialmente uma outra sensibilidade e só depois um outro pensamento. Antes de ser espiritual, a intersubjetividade é corpórea (FRAYZE-PEREIRA, 2004, p. 23-24).
Esse pensamento permite considerar a prática da dança como uma forma especial de compartilhamento de experiências, potencialmente (trans)formadora de subjetividades ao oferecer espaço de crescimento pessoal, pois permite que o sujeito-dançante abra-se para o outro, no sentido de construir junto e ampliar perspectivas de ações, de movimentos corporais. Dessa forma, ainda amparada pelas ideias de Merleau-Ponty, reforço esse entendimento. Para o filósofo, a subjetividade está fortemente ligada com o corpo e o tempo – corpo que sou e tempo que vivo. A relação entre corpo, tempo e os outros corpos, na vivência/experiência da dança, pode configurar-se como espaços intersubjetivos, nos quais outras formas de perceber-se e relacionar-se com o mundo podem manifestar-se, já que “a experiência motora de nosso corpo (...) nos fornece uma maneira de ter acesso ao mundo e ao objeto, uma „praktognosia‟ que deve ser
reconhecida como original e talvez como originária” (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 195). É nesse sentido que a educação física pode caracterizar-se como possibilidade ímpar de pensar o movimento, configurado pelas práticas corporais, como espaço-tempo que possibilite aos sujeitos compartilharem e, porque não dizer, reconstruírem suas subjetividades.