3.2 Limitando a dialética: a Ethica Eudemia e a Ethica Nicomachea
3.2.1 Os limites da dialética em ética: a interpretação de Zingano
brevemente de que modo algumas leituras mais recentes desse texto oferecem um diagnóstico distinto para as questões do método.
Em 2.2.1, apresentarei sucintamente como é possível caracterizar os procedimentos de Ethica Nicomachea I em uma chave não necessariamente dialética, tomando por base a interpretação de Zingano (2007a). Nesse caso, o método dialético parece bem ambientado na Ethica Eudemia, mas não na Nicomachea. A seguir, em 2.2.2, pretendo mostrar como mesmo as passagens nicomaqueias que costumam receber o diagnóstico da dialeticidade de seu método podem, igualmente, escapar a esse destino conceitual com base na interpretação oferecida por Salmieri (2009). Com isto, será possível, em 2.3, indicar como uma interpretação distinta do esquema metodológico do livro da EN poderia oferecer, eventualmente, uma versão purgada dessa sana expansiva da dialética como o método em ética.
3.2.1 Os limites da dialética em ética: a interpretação de Zingano
Em sua análise do texto eudêmio, Zingano assim sintetiza essa lição, afirmando que “[T]he passages concerning method in EE strongly support the use of dialectical method in ethics”.164
De fato, como procurei mostrar na análise do Capítulo 1, Aristóteles faz uso reiterado desse padrão argumentativo, integrando-o a uma orientação mais geral quanto a seu método: cabe ao filósofo tornar mais claro (saphôs) aquilo que, de início, quando apenas expresso pelas mencionadas opiniões comuns, não é suficientemente claro.
Contudo, Aristóteles não parece fazer nenhum tipo de alarde quanto à precariedade ou à limitação que argumentos partindo de premissas desse tipo podem enfrentar. Pelo contrário, sua confiança mostra-se quase inequívoca, haja vista o modo como procede à construção de um tipo de dedução muito assemelhado às deduções mais formais que as ciências apodíticas podem empregar, como é o caso do exame da definição de eudaimonia, celebremente realizado por D. J. Allan e que já foi objeto de análise prévia. Essa segurança quanto às provas que a dialética pode fornecer, Zingano as apresenta nos seguintes termos:
The most important point here is that, through the refutation of the objections, one obtains the demonstration of the opposite theses without any allusion to a weakening of the proof. As we shall see,
164
Aristotle, in EE, typically proceeds through the use of dialectical proofs, according to the rules established in the Topics, with- out questioning the status of the proof, that is to say, without the weakening or diminution of its claims to demonstrate a point.165
Assim, o que a EE apresenta em termos de provas para a filosofia moral parece satisfazer as condições de aplicação de um método tipicamente dialético. Mais que isso, e conforme já havia indicado a seção 1.4 do capítulo anterior, por “dialética” entende-se aquele procedimento marcado pelos traços que lhe imprimem os Tópicos: premissas reputadas, argumentos dialéticos, recurso aos instrumentos característicos da dialética. Dois pontos, no entanto, parecem emergir dessas considerações acerca das práticas de Aristóteles na EE:
(i) As práticas argumentativas de Aristóteles, por mais que sejam compatíveis com certo grau de formalização dedutiva,166 necessariamente quedarão apartadas das pretensões mais firmes do conhecimento científico e, portanto, da verdade.
(ii) Essas mesmas práticas, com sua confiança, não encontram lugar na Ethica Nicomachea.
Com isso, abrem-se não um, mas dois fossos conceituas: o primeiro, aquele já conhecido do leitor deste trabalho, aparta a filosofia prática do âmbito do conhecimento científico. O segundo, já delineado, mas ainda não anunciado explicitamente, separa o procedimento metodológico da EE do modelo de que se vale Aristóteles na EN. De um lado, portanto, encontra-se um lugar para a dialética, e tal lugar é a EE, conforme ficou evidenciado o exame na seção 1.3. De outro, a EN tem suas marcas dialéticas, se não deletadas, certamente mitigadas por preocupações de método que são de outra natureza.
O ponto (i), como se poderia supor, é decorrente da separação que vem sendo destacada neste trabalho insistentemente entre o que o domínio das opiniões, em que restará a operação filosófica das provas eudêmias, e a verdade, a que ambiciona – e alcança – as provas científicas. Como afirma Zingano,
The opinions may be true, and the reputable opinions may have a stronger probability of being true than mere opinions; none the less, the premise of a dialectical syllogism is not necessarily true. In scientific knowledge, on the other hand, premises are not only true, but necessarily true. Extensionally, dialectic and science may coincide, but they differ radically. There is a gap no opinion can bridge or bypass, whatever dialectic’s reputation: even if it is true, it is
165 Idem, p. 306.
166
not necessarily true. The dialectical method is consistent with an effort to preserve other people’s opinions, something that seems justified by such an epistemological optimism: if every man has some link to the truth, it seems reasonable to preserve everyone’s opinions, even when they are confusingly expressed, hoping that they may lead us to the truth. Such optimism, however, soon reaches its limits, for it is not possible through dialectic to have de jure access to the truth, even if, de facto, we have already that access.167
Importa lembrar que a essa distinção correspondem os tipos de argumentos que Aristóteles apresenta em Tópicos I.1168 e as consequentes e reiteradas separações entre a epistemologia correspondente ao que é kat’aletheian e o que é kata doxan, conforme exame na seção 2.1 acima.
O ponto (ii), o leitor já o antevê, remete à análise desenvolvida no primeiro capítulo desta tese atinente à singularidade das observações metodológicas de Aristóteles no contexto da Ethica Nicomachea. Como se viu, procurei mostrar que, em que pesem os esforços dos comentaristas em reconhecer marcas dialéticas indisputáveis no primeiro livro do tratado nicomaqueio, naqueles momentos em que Aristóteles explicitamente aborda a questão do método, suas considerações não são sobre a natureza endoxal das premissas e a consequente dimensão dialética de seus argumentos. Pelo contrário,
In the two most important passages on method, there is no reference to dialectical reasoning; there one finds, instead, a discussion about the conditions of exactness for ethical discourse. NE strongly stresses that it is necessary to abandon any intention of a more geometric proof. In NE 1. 3, 1094B11– 27, after noticing that ethical matters are indeterminate, Aristotle emphasizes that ethical proof must be limited to a rough outline (1094B20). This standard of akribeia, adapted to ethics in opposition to that of mathematics, is due to the nature of the practical object, human action (τὸ πρακτόν), since it takes place under circumstances whose moral value is indeterminate.169
A separação entre os dois esquemas nas éticas, ainda que não seja da mesma dimensão que aquela segregação epistemológica que se dá entre o domínio da epistêmê e o domínio da doxa, é bastante radical: é a própria pretensão de que apenas a natureza das premissas da prova ética, isto é, seu caráter endoxal, é que ameaçaria um modelo de prova rigoroso como o matemático, é abandonada em 167 Zingano (2007a), p. 306-07. 168 Cf. Texto [6] do Capítulo 1. 169 Zingano (2007a), p. 308.
nome do reconhecimento que a matéria moral é, ela mesma, profundamente marcada pelas circunstâncias, é indeterminada e, portanto, refratária a essa pretensão formalizadora e precisa. Foi nesse sentido que Zingano procurou mostrar, bastante conclusivamente, que,
Concerning method, then, there are two very different schemes: NE mentions no dialectical processes in its discussions of method; EE contains no reference to conclusions obtained roughly and in outline. Even the Greek term ‘in outline’ (τύπῳ), which expresses these new reservations about exactness in NE, is singularly lacking from EE.170
Como acomodar, no entanto, as diversas referências que a Ethica Nicomachea faz em seu primeiro livro às opiniões, comuns ou reputadas? A análise de Zingano é bastante eficaz em separar esses contextos não apenas daqueles em que Aristóteles está efetivamente tratando das questões de método, indicando que a simples presença de opiniões reputadas não é o suficiente para se falar em método dialético.171 No entanto, aproveita a questão suscitada para examinar ainda outra interpretação que procurou mitigar o alcance da dialética no contexto da Ethica Nicomachea.