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4 POSSIBILIDADES DE UMA EDUCAÇÃO PARA ALÉM DO ESPAÇO

4.5 Os limites da teoria althusseriana sobre educação

No percurso da nossa reflexão, repetimos várias vezes que Althusser não teve a pretensão de teorizar e nem tampouco dizer como se dá o funcionamento da educação nas sociedades capitalistas. Mesmo mostrando o papel da escola nesse sistema, não arriscou a escrever nenhum livro que possamos identificá-lo como um teórico da educação. Portanto, dizer que Althusser foi um teórico da educação ou um pedagogo, é não ter lido o suficiente este autor.

Quanto ao conceito de experiência em Althusser, não encontramos elementos claros e consistentes que possamos afirmar em até que ponto as experiências da classe operária podem se constituir em um processo educativo, como por exemplo na teoria da experiência de Dewey, de Thompson, Paulo Freire, etc.

Não estamos com isso afirmando que em Althusser, as experiências da classe operária não tenham significado, e nem seja por ele valorizada, e até mesmo incorporada. O autor em uma das suas citações vai externar com entusiasmo, que foi com o contato com a classe operária e suas lutas que o motivou a entrar no partido comunista francês em 1948.

Já mencionamos em várias partes deste trabalho, que Althusser foi um pensador que foi bombardeado por todos os lados, principalmente dentro do próprio marxismo no qual estava inserido. A sua condição de um pensador marxista estruturalista, juntamente com a leitura que fez do marxismo a partir da psicanálise lacaniana, como já dissemos, lhe rendeu críticas das mais diversas áreas do conhecimento. Ele foi altamente criticado pela sua posição pessimista e de estar preso a estrutura, acusação que ele próprio, em última instância não gostaria de ser vítima.

Pensamos que o autor, ao sentir-se de certa forma incomodado com tais críticas, fez a leitura estruturalista nos limites que ele conseguiu fazê-la, de certa forma, não conseguindo avançar, e para não ser tão acusado de pessimista e descrente no que tange a educação, etc., fez novas leituras da realidade, mas a faz abrindo concessões para perspectivas de filosofias da consciência ou da libertação.

Sem sombra de dúvidas, existe uma tensão muito forte em Althusser em relação a experiência. Ele sofre com as acusações acima, quer abrir espaço para a agência humana, mas ainda está preso a estrutura. Mesmo assim, a experiência da classe operária se apresenta ao autor, como uma condição relevante para a efetivação e revolução dessa mesma classe.

Pressupomos que o conceito de experiência em Althusser tenha um vínculo estreito com a filosofia marxista. Nesse sentido, a experiência não cria condições teóricas de libertação, mas encontra seus limites a partir de algo já dado e acabado.

Acreditamos que é dentro desse contexto que surgem os questionamentos de E. P. Thompson a Althusser, abrindo talvez caminhos para um diálogo, e não necessariamente uma crítica.

Althusser no seu livro “Filosofia e Filosofia Espontânea dos Cientistas”, limitou a apropriação do conhecimento ao campo específico da academia, admitindo com

rara exceção a possibilidade de se adquirir e construir conhecimentos em outros espaços. Nesse sentido, Thompson afirma:

Mas fora dos recintos da universidade, outro tipo de produção de conhecimento se processa o tempo todo. Concordo em que nem sempre é rigoroso. Não sou indiferente aos valores intelectuais nem inconsciente da dificuldade de se chegar a eles. Mas devo lembrar a um filósofo marxista que conhecimentos se formaram, e ainda se formam, fora dos procedimentos acadêmicos. E tampouco eles têm sido, no teste da prática, desprezíveis. Ajudam homens e mulheres a trabalhar os campos, a construir casa, a manter complicadas organizações sociais, e mesmo, ocasionalmente, a questionar eficazmente as conclusões do pensamento acadêmico (THOMPSON, 1981, p. 17).

Thompson evidencia na experiência a possibilidade de avançar e chegar a consciência da necessidade de transformação e de um projeto libertador da classe trabalhadora, mesmo que as relações de produção determinem em grande parte as relações nas formações sociais capitalistas.

Thompson evidencia juntamente com a experiência um outro elemento fundamental de resistência da classe trabalhadora, a saber: a cultura. E ressalta.

Verificamos que, com “experiência” e “cultura”, estamos no ponto de junção de outro tipo. Pois as pessoas não experimentam sua própria experiência apenas como ideias, no âmbito do pensamento e de seus procedimentos, ou (como supõem alguns praticantes teóricos) como instinto proletário etc. Elas também experimentam sua existência como sentimentos na cultura... (THOMPSON, 1981, p. 189).

Nestas duas citações, parece está clara a posição do autor em querer abrir um diálogo com Althusser. Não temos provas evidentes, mas nos parece que Althusser em algumas de suas citações, embora não cite Thompson, mostra também a importância das práticas e experiência como possíveis elementos integradores da classe operária.

Os questionamentos de Thompson a Althusser se originaram basicamente de o fato deste último analisar o processo social como um fenômeno objetivo, e não como o resultado da vontade, da cultura e da experiência dos sujeitos. Portanto, os sujeitos fazem a história, mas sob condições históricas determinadas. Nesse

sentido, o ato de ser sujeito é ao mesmo tempo uma ação de libertação, mas também de sujeição.

No pensamento althusseriano existe a defesa do anti-humanismo, visto que Althusser ao analisar a teoria de Marx encontrou nesta, uma visão „ingênua” de humanismo. Este estava vinculado necessariamente a ideia de homem enquanto indivíduo na sua particularidade, preso a sua própria libertação, o indivíduo singular. Na crítica ao humanismo marxista, Althusser desenvolve a tese de que é necessário romper com essa percepção essencialista e idealista e abrir uma discussão que tenha como princípio nodular o sujeito enquanto parte de uma classe, e que as emancipações não se dão no plano individual, mas sim, na posição coletiva de classe e nas suas lutas, iluminadas pela teoria marxista.

É importante ressaltar, que mesmo Althusser não sendo adepto de uma filosofia da consciência ou da libertação, e de que, talvez não tenha atribuído um lugar de destaque a experiência no sentido de vê-la como condição indispensável para o processo de revolução e transformação da classe operária, fica evidente que o seu discurso fez com que o debate sobre a experiência no meio acadêmico se tornasse mais fecundo e significativo. Foi dentro dessa realidade que as reflexões sobre a experiência avançaram. Tais discussões possibilitaram pensar a experiência como motor fundante de transformação social, política e econômica, principalmente no pensamento do próprio Thompson, Paulo Freire, etc. Daí um dos méritos de Althusser.

Althusser faz uma reflexão sobre o humanismo tendo como fundamento a ideologia. Uma leitura do humanismo que não leve em consideração o poder da ideologia e sua interpelação estar morta. Estas ideologias são formadas no interior de uma dada formação social.

Laclau, no seu livro “Hegemonia e Estratégia Socialista...”, faz uma crítica a Thompson em relação a crítica que este autor faz a Althusser, dizendo:

La confusión de E. P. Thompson en su ataque a Althusser reside justamente en este punto. Thompson confunde al hablar de “humanismo” el status de ese concepto, y así cree que negar a los valores humanistas el status de una esencia implica negarles toda validez histórica. Por el contrario, de lo que se trata es de demonstrar cómo, el “Hombre” ha sido producido los tiempos modernos; cómo el

sujeto “humano”, es decir, el portador de una identidade humana sin distinciones[...] (LACLAU; MOUFF, 1987, p. 198-199).

Laclau, com essa contra crítica a Thompson em relação ao pensamento althusseriano, no tocante ao humanismo teórico, está evidenciando que Althusser não está negando o fazer dos sujeitos enquanto agentes de práticas sociais, políticas, econômicas, culturais, etc., dentro, é lógico, das determinações materiais que lhes são impostas. O que Althusser está criticando é como esse humanismo moderno que atribui ao sujeito uma natureza humana, uma essência, uma origem, uma consciência, uma autonomia, etc., foi construído, e a quem tal impressão e expressão de sujeito interessa.

Pensamos que Althusser, mesmo com todas as suas contradições no campo epistemológico, ontológico, etc., foi muito coerente no sentido de afirmar que o sujeito não é senhor da sua história, que não existe uma natureza humana, uma essência e uma origem na qual identifique os sujeitos como seres racionais, livres, autodeterminados, autônomos, conscientes. Laclau se referindo ao pensamento althusseriano, no que tange a essa problemática vai afirmar.

[...] es igualmente verdad que el enfoque de Althusser respecto al humanismo no deja otra posibilidad que su relegación al campo de la idelogía. Porque si la historia tiene una estructura inteligible dada por la sucesión de los modos de producción, y si es ésta la estructura que es accesible a la práctica “científica”, esto sólo puede ser acompañado por una noción de “humanismo” como de algo constituido en el plano de la ideología-un plano que, aunque no es concebido como falsa consciencia, es ontológicamente subordinado a un mecanismo de reproducción social estabelecido por la lógica del modo de producción [...] (LACLAU; MOUFF, 1987, p. 198-199).

Rancière (1971) que foi aluno de Althusser e concomitantemente foi influenciado pelo seu pensamento, rompe com o seu mestre, principalmente no que tange a reflexão que este último faz sobre à oposição ciência x ideologia.

Como podemos observar, o referencial teórico althusseriano provocou e suscitou novos debates em torno de vários aspectos da existência humana, entre eles: a ciência, a filosofia, a política, a ideologia, a educação, a escola, e até mesmos as experiências dos vários grupos sociais, que foram vistos com um novo olhar a partir de Althusser. Daí a importância de trazer este autor para o debate

acadêmico. Seu pensamento suscitou inquietações nos vários campos do conhecimento.

As leituras que fizemos sobre Althusser, permitiram identificar que a sua teoria foi e continua sendo um referencial importante para as mais variadas áreas do saber, e de maneira mais específica, para a área educacional. Althusser continua sendo um imortal para todos aqueles e aquelas que desejam analisar a sociedade e os seus conflitos de maneira mais crítica e significativa. Sua teoria possibilita ver a sociedade com um novo olhar: um olhar de pesquisador para além do seu tempo.

Acreditamos ter proporcionado neste trabalho, e especificamente, neste capítulo uma discussão fértil que nos possibilita pensar uma concepção de educação em Althusser para além dos muros da escola e da reprodução da ideologia dominante capitalista, como também propusemos um debate sobre a constituição das subjetividades nesse mesmo autor.

Em nenhum momento desse capítulo tivemos a pretensão de esgotar o assunto, e nem tampouco afirmar verdades absolutas. Com certeza chegamos a conclusões significativas no que se refere a concepção de educação, de sujeito e de subjetividade no pensamento althusseriano, ao mesmo tempo que levantamos questões significativas que nos possibilitam pensar a educação e a constituição das subjetividades de maneira mais ampla e problematizadora, levando em consideração que o ser humano é inacabado, indefinido, a se fazer, inconcluso.