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1 O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO ESPAÇO DE FORTALEZA E A

1.5 Expansão urbana da cidade de Fortaleza: o parcelamento do solo e o aumento

1.5.2 Os loteamentos aprovados entre 1948 e 1961

Consoante Accioly (2008), nos anos 1947 e 1948, ocorreu a primeira experiência concreta de urbanismo em Fortaleza com a elaboração do Plano Diretor de Remodelação e Extensão da Cidade de Fortaleza (1947-48). A elaboração, de autoria de Sabóia Ribeiro, teve início na administração do prefeito Clóvis Matos e foi finalizada na administração do prefeito Acrísio Moreira Rocha, no ano seguinte. Costa (2009) aponta que “este plano tinha uma

preocupação pioneira com a preservação dos leitos dos riachos e das áreas verdes e com a delimitação de áreas verdes de parques.” (p. 155).

No ano subsequente, aprovou-se um novo Código de Obras, seguindo algumas indicações presentes no Plano Diretor de Remodelação e Extensão da Cidade de Fortaleza feitas por Sabóia Ribeiro. A aprovação desse novo Código de Obras marcou o início de outro período em nossa análise. O fato é que, segundo Muniz (2006), por conta do crescimento desordenado da periferia composta por grande número de pessoas pobres, a prefeitura abre mão das exigências feitas no Código de Obras, explicando que a população pobre não tinha condições financeiras que lhe permitisse adequar suas moradias aos parâmetros urbanísticos exigidos.

Assim, a proposta de organização e planejamento de Saboia Ribeiro para Fortaleza não teve sucesso. Na verdade, nesse período se acentuaram os problemas referentes à segregação socioespacial e descontinuidade da malha urbana com a produção de vazios urbanos. Isso porque esse é o período com maior número de loteamentos aprovados – um total de 158 loteamentos – correspondendo à maior porção de terra incorporada entre todos os períodos.

Nesse período, a expansão em direção ao leste ultrapassa a ferrovia, que até então era obstáculo ao crescimento da cidade nesse sentido. Essa expansão se deu com a aprovação do loteamento Praia Antônio Diogo (652, 652B, 684)4 localizado no antigo Sítio Cocó na praia do Futuro, como exibido no mapa 4. Costa (1988) discutiu a incorporação de terras nesse antigo sítio, ressaltando o processo de expansão da cidade para o lado leste com a abertura de loteamentos e a construção do conjunto habitacional Cidade 2000. A construção desse conjunto, somada a implantação de outros equipamentos urbanos pelo poder público, valorizou as terras localizadas naquela porção da cidade.

4 Os números em parênteses fazem referência ao número de registro na base da prefeitura que

A porção de terra vazia, entre a ocupação urbana na Aldeota e o loteamento aprovado na Praia Antônio Diogo, ficou sendo uma área de especulação que seria incorporada no período posterior com o loteamento Planalto da Nova Aldeota (600, 605), como mostra o mapa 5. No loteamento Planalto da Nova Aldeota predominaram os lotes de grande testada e residências de Alto Padrão (SOUZA, 2009).

A implantação de outros loteamentos no sudeste da cidade confirma os lados leste e sudeste como eixos de segregação. Fuck Junior (2002, p. 79) assegura esse fenômeno:

[...] a partir dos anos 1940 aumentou o processo de incorporação de novas áreas a leste da Cidade, realizado por empresários e proprietários fundiários, que se apropriavam de terrenos localizados na periferia urbana, loteando antigos sítios de uso rural, como o Cocó, o Alagadiço Novo, o Cambeba, o Estância (Dionísio Torres), o Colosso, o Tunga (na “Água Fria”).

Os lados leste e sudeste passaram a ser os eixos de segregação escolhidos pela elite. É importante destacarmos que a segregação socioespacial não é unilateral, visto que é um processo dialético, sendo que a segregação de uns provoca, ao mesmo tempo e pelo mesmo processo, a segregação de outros (VILLAÇA, 2001). Assim, quando uma classe social se autossegrega em uma parte da cidade, outras partes da cidade participam desse mesmo processo. Embora, desde o início do século, a classe alta se deslocasse do Jacarecanga para a Aldeota, Souza afirma que é na década de 1950 que esse processo se concretizou na estrutura urbana da cidade, devido ao grande aumento da população.

No caso de Fortaleza esse processo teve início em 1950 quando do crescimento das favelas e de grande expansão urbana, tanto para o setor leste quanto para os setores oeste e sul, acompanhando os principais eixos viários e também para além da ferrovia. As vias de acesso orientaram e dimensionaram o crescimento da cidade e, assim, à proporção que aumentava a população, surgiam novos bairros através da aglutinação cada vez maior dos espaços periféricos (SOUZA, 2006, p, 136)

O acesso ao automóvel teve grande influência nesse processo, pois se constitui como meio de deslocamento capaz de alcançar maiores distâncias em

menor quantidade de tempo, permitindo assim a seus detentores, no caso em questão apenas a elite, morar em locais mais distantes. Dantas (2009) apresenta a evolução do número de carros em Fortaleza.

Tabela 1 – Veículos existentes em Fortaleza entre 1946 a 1949

Ano Automóvel Auto-ônibus Camionete Outros Total

1946 852 50 94 1244 2240

1947 731 37 93 627 1488

1948 1349 205 72 1232 2858

1949 1737 228 50 1833 3848

Fonte: O Povo, Jornal, 11/07/1951, In: Dantas (2009)

Conforme tabela 1, é notório o crescimento do número de automóveis que praticamente duplicou em quatro anos, mas, em uma proporção muito maior, ocorreu o crescimento da quantidade de ônibus que se elevou 4,5 vezes mais que a quantidade inicial. O transporte coletivo, por meio dos ônibus, deu condições ao trabalhador de morar cada vez mais distante.

Os moradores pobres da periferia sofriam com a pouca disponibilidade de ônibus e o desconforto das viagens pelas péssimas condições das vias. Além disso, a superlotação também era um problema, pois, para que se compensasse a distância da periferia, os ônibus costumavam circular bastante cheios

(MENEZES, 2009).

Mesmo assim, o transporte coletivo “solucionou” o problema da distância para os moradores de vários loteamentos voltados para a classe baixa na periferia pobre da cidade. Nesse período, uma grande quantidade de loteamentos foi aprovada em Fortaleza seguindo o tipo “loteamento popular”. Eram loteamentos voltados a uma população capaz de se sujeitar a morar em um bairro distante, com infraestrutura urbana precária e mobilidade limitada. Dentre os quais, podemos citar: loteamento Santa Cecília (33), localizado no bairro Siqueira, empreendimento da imobiliária João Gentil; loteamento Vila Manoel Sátiro (92, 94), localizado no bairro Manoel Sátiro, de terras pertencentes ao proprietário que deu nome ao loteamento e ao bairro;

loteamento Jardim Iracema (1031) no bairro de mesmo nome, com terras pertencentes à imobiliária J. Carvalho.