• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 4 FASE 1: ESTUDO EXPLORATÓRIO DE PROGRAMAS E MANUAIS

4.1 Enquadramento teórico

4.1.1 Programas e manuais escolares

4.1.1.2 Os manuais escolares

O manual escolar tem constituído, desde sempre, um dos recursos educativos mais utilizados pelos professores (Stinner, 1992; Johnsen, 1993; Gérard e Roegiers, 1998), sendo, por vezes, até o único (Parcerisa, 1996; Jiménez Valladares, 2000) e considerado por outros o mais eficaz (Gérard e Roegiers, 1998).

Gérard e Roegiers (1998), apresentam sete funções essenciais de um manual escolar:

1) Função de transmissão de conhecimentos; 2) Função de desenvolvimento de capacidades e competências; 3) Função de consolidação das aquisições e aprendizagens; 4) Função de avaliação das aquisições. 5) Função de ajuda na integração das aquisições; 6) Função de referência e 7) Função de educação social e cultural. As quatro primeiras associadas às aprendizagens promovidas nos alunos e as três restantes associadas às

78

funções de interface com a vida quotidiana e profissional, interligando assim a vida escolar com a vida em sociedade.

É consensual para vários autores que os manuais escolares orientam a atividade dos professores e constituem a principal fonte de acesso à Ciência para muitos alunos (Brigas, 1997; Teixeira et al., 1999; Santos, 2001). Campanário e Otero (2000), apontam também este recurso como o principal instrumento pedagógico utilizado nas aulas de ciências e constitui uma das decisões curriculares mais importantes de muitos professores. Neste sentido, o manual exerce uma grande influência na aprendizagem, dado que orienta e dirige muitas das atividades dos alunos, assim como a dos professores79.

No mesmo seguimento, diversos estudos (ex.: Martínez Losada, Vega e Garcia Barros, 1999; Sanches Blanco e Valcárcel, 2000), vieram demonstrar que os professores de ciências do ensino básico e secundário têm vindo a utilizar maioritariamente os manuais escolares para a planificação das suas aulas, tanto no que diz respeito à seleção dos conteúdos, como nas propostas de atividades na sala de aula. Considerando este aspeto, torna-se importante investigar em que medida os textos são coerentes com as tendências atuais do ensino das ciências descritas na investigação.

No entanto, autores como Tracana (2009) reforçam que a função primordial de um manual escolar é o desenvolvimento de competências no aluno e não a mera transmissão de conhecimento. Neste seguimento, Neves et al. (2005) acrescentam que para além da aquisição de competências básicas e transversais ao longo da escolaridade, o manual deve ainda contribuir para a formação cívica e democrática dos alunos, através de valores em evolução, veiculados explícita ou implicitamente, bem como para o desenvolvimento de atividades de aplicação e avaliação de conhecimentos, promovendo a capacidade de autoaprendizagem e o espírito crítico dos alunos.

Dado o estatuto que os manuais ocupam, estes devem assentar em pressupostos e princípios facilitadores de um ensino concordante com uma perspetiva construtivista e por mudança conceptual. Esta perspetiva implica uma conceção do manual, centrada no aluno, conferindo-lhe um elevado grau de responsabilidade no processo de ensino-aprendizagem, e abrindo ao professor o papel de facilitador do processo. A promoção, através do manual escolar, da consciencialização do aluno acerca do modo como se processa a sua aprendizagem é fundamental para uma aprendizagem significativa. Paralelamente à construção de conceitos, de princípios, de teorias e ao desenvolvimento de técnicas de

79

Alguns investigadores consideram que o manual escolar constitui o principal determinante da natureza da atividade científica desenvolvida na sala de aula (Hofstein e Lunetta, 1982), da organização do currículo e da forma como os professores concebem o desenvolvimento da ciência (Chiappetta et al., 1991).

79

manipulação e da capacidade de interpretação, os manuais escolares assumem um papel fulcral na construção de um conceito de ciência, incluindo as dimensões ética e atitudinal (Silva, 2001).

Finley (1994) refere-se às dificuldades de aprendizagem sentidas pelos alunos quando utilizam o manual escolar, dado existir uma grande divergência entre a forma como os conceitos são apresentados no manual e os objetivos da educação científica. O mesmo autor refere que os manuais escolares não incluem o raciocínio que sustenta as convicções científicas e os estudantes não têm o contexto adequado para tirar partido das ideias fundamentais, apercebendo-se da sua validade e utilidade para além de raramente lhes serem dadas oportunidades para falarem das suas conceções, as explorarem e testarem. Este aspeto, segundo Stinner (1992), deve-se ao facto de a maioria dos manuais centrarem no professor a responsabilidade da pedagogia ou do modo como os estudantes aprendem ciência. O ensino centralizado no manual escolar pode assim não ser suficiente para educar um cidadão com um grau de literacia científica adequado.

Vasconcelos e Souto (2003) reconhecem que o manual escolar de Ciências tem a difícil missão de propor a compreensão de métodos científicos, estimulando os alunos a pensar, formular hipóteses e chegar às próprias conclusões, transformando o conhecimento apresentado em aprendizagem real. Santos et al. (2007) reforçam este facto, defendendo que o conteúdo de Ciências deve vir apresentado de modo a desenvolver o caráter investigativo do estudante. Este é, aliás, e segundo Rosa e Mohr (2010), um desafio ao qual os autores se deveriam propor ao elaborarem um manual escolar.

Martínez Losada e Garcia Barros (2003), num estudo realizado para analisar as atividades experimentais contidas nos manuais de ciências do ensino básico, verificaram que o que sobressai nas atividades é a aplicação da teoria descrita nos textos e a aquisição de conhecimentos, sendo praticamente inexistentes as atividades dirigidas à indagação. De acordo com isto, os tipos de procedimentos mais abundantes são a comunicação e a organização da informação, em detrimento dos associados à resolução de problemas (formulação de hipóteses, análises de dados, controlo de variáveis…).

Este aspeto vem reforçar a opinião de Chiappetta et al. (1991), que defendem que muitos professores e alunos têm uma visão de ciência empirista e indutivista porque os manuais escolares, de uma forma implícita ou explícita, dão ênfase aos factos e “apresentam a ciência como um corpo de conhecimentos construídos de forma linear, não havendo lugar para o erro” (p.713).

Têm sido realizados vários estudos de análise de manuais no que respeita a conteúdos de ciências, quer ao nível nacional como internacional. Entre outros, destacamos temas como a biodiversidade (Tracana et al., 2008a), a poluição (Tracana et

80

al., 2008b), educação ambiental (Tracana, 2009; Tracana et al., 2011), sistema reprodutor humano (Alves e Carvalho, 2007), conceções prévias dos alunos (Duarte, 1999), botânica (Guimarães, 2008) e microrganismos (Mafra e Lima, 2009).

No que respeita à temática dos seres vivos, investigado no presente trabalho, Gelape e Mendes (2005) e Silva et al. (2009), defendem que o estudo da diversidade dos seres vivos não deveria ser limitado apenas às descrições funcionalistas – morfo e fisiológicas - dos diferentes reinos e táxons, pois esse tipo de aprendizagem estimula processos de memorização, em detrimento da real aprendizagem para o conhecimento. Para estes autores, esse tipo de atuação exclui abordagens importantes, como o papel dos seres vivos no meio onde se encontram.

Rosa e Mohr (2010)80 referem que, apesar de um número razoável de investigações realizadas relativamente à análise de temas de biologia nos manuais escolares, principalmente a partir dos anos 90, por exemplo, os fungos, são pouco explorados, apesar do grande interesse deste grupo de seres vivos, não só em termos biológicos e ambientais, como também económicos e pela presença numa variedade de fenómenos do quotidiano dos alunos.

Mafra e Lima (2009) realizaram um estudo acerca do tema microrganismos em manuais escolares da área de Estudo do Meio do 1.º CEB, no sentido de compreender como o tema é trabalhado naquele ciclo de ensino. Os resultados indicaram que o tema é abordado de uma forma muito incompleta e indireta, apontando para a sua desvalorização, tanto ao nível do Programa Curricular do 1.º CEB como ao nível dos manuais de Estudo do Meio. Estes investigadores verificaram que os microrganismos não são identificados como seres vivos e, quando surgem nos manuais, a sua abordagem está apenas associada ao aparecimento de doença e da poluição. Está ausente qualquer abordagem com conotação positiva acerca da atividade dos microrganismos (ex.: produção de alimentos, tratamento da poluição). Foram também detetados alguns erros nos manuais. Destaca-se o mesmo erro encontrado por Raven et al. (2001), cujos manuais incluem os cogumelos no reino das plantas. Este é um aspeto claramente redutor relativamente à noção de biodiversidade por parte da criança, associado ao facto de na classificação dos seres vivos o tema estar

80

Rosa e Mohr (2010) analisaram a temática dos fungos em manuais do ensino básico (ensino Fundamental no Brasil), utilizando os critérios de análise: caracterização da presença do tema, a linguagem utilizada, a utilização das figuras e ilustrações, a relação dos fungos com outros seres vivos, a relação entre fungos e saúde humana e a relação do conteúdo com a vida quotidiana dos alunos. Nesta análise encontraram uma série de fragilidades nos manuais, relacionadas com cada critério de análise e alguns problemas nestas abordagens. Como reflexão dos resultados, os autores salientaram para a importância do risco que o professor pode correr se não tiver uma atitude crítica face aos manuais e não ficar alerta em relação a alguns problemas que pode encontrar nos mesmos. Assim, afirmam que não é aconselhável o professor depender exclusivamente ou em excesso do livro didático para que não se torne refém do conteúdo presente (ou ausente) e dos erros e inadequações da obra. Cabe ao educador utilizar material como uma fonte de apoio e referências, sabendo evitar as abordagens incorretas do mesmo e corrigindo-o quando necessário com os estudantes (p.100).

81

vedado a apenas dois reinos - os animais e as plantas. Estes resultados encontrados nos manuais do 1.º CEB representam uma lacuna potencialmente geradora de falsas conceções acerca do mundo vivo e redutora da perceção do mundo físico-natural próximo da criança. Os autores defendem, tal como Clément (1998), que as abordagens incompletas, assim como a presença de alguns erros, podem contribuir, certamente, para o aparecimento de obstáculos didáticos na aprendizagem.

Martins (2002b) considera que o manual, apesar de ser o recurso didático mais utilizado, é também um objeto de consumo pouco refletido por parte de quem o usa. Assim, na maioria das vezes, a seleção, adoção e uso do manual é uma prática e um hábito a cumprir pelo professor. A autora considera que os manuais escolares são uma das áreas menos exploradas em termos de investigação didática e salienta a importância destes recursos no processo de ensino/aprendizagem das Ciências, considerando-os como essenciais para a organização do ensino das Ciências e condicionantes da aprendizagem.

Assim, de acordo com Silva (2001), vários fatores podem ser objeto de análise, com o intuito de avaliar o papel do manual escolar enquanto elemento interveniente na construção do conhecimento científico, e de avaliar o seu grau de coerência de acordo com a perspetiva defendida. São eles:

1. Introdução/nota de abertura (perspetiva de ensino aprendizagem e perspetiva de ciência);

2. Organização sequencial dos conteúdos;

3. Desenvolvimento do conteúdo científico – erros, omissões, analogias, significado de termos num contexto do dia a dia e num contexto científico; nível de formulação e análise de conceitos inerentes às conceções alternativas; interpretações de situações do dia a dia; interpretação de expressões de uso corrente, de crenças e da informação veiculada pelos media; História da Ciência, Natureza da Ciência. 4. Atividades de aprendizagem.

Segundo Fernandes (2011), a avaliação dos manuais escolares está prevista na legislação portuguesa, através da Lei n.º 47/2006, de 28 de agosto de 2006, regulamentada pelo Decreto-Lei n.º 261/2007, de 17 de julho. Este último veio definir o regime de avaliação, certificação e adoção aplicável aos manuais escolares e outros recursos didático-pedagógicos do ensino básico e do ensino secundário, bem como os princípios e objetivos a que deve obedecer o apoio socioeducativo relativamente à aquisição e ao empréstimo de manuais escolares. Neste documento legal lê-se que o sistema político deve garantir a estabilidade dos manuais escolares de modo a respeitar os

82

interesses socioeconómicos das famílias e deve, ainda, assegurar a sua qualidade científica e pedagógica através de um sistema de apreciação e controle.

A mesma autora refere que a adoção dos manuais escolares pelas escolas e pelos agrupamentos de escolas é da competência do respetivo órgão de coordenação e orientação educativa, devendo ser devidamente fundamentada em grelhas de apreciação elaboradas para o efeito. Assim, a adoção e seleção de manuais escolares é o resultado do processo pelo qual a escola ou o agrupamento de escolas avalia a adequação dos manuais certificados ao respetivo projeto educativo, tal como estabelece o artigo 16.º da Lei n.º 47/2006, de 28 de agosto. No artigo 11.º da mesma Lei são apresentados os critérios de avaliação de manuais escolares considerados essenciais e obrigatórios pelo Ministério da Educação, constituindo-os como orientadores dos professores, em cada escola, aquando da sua escolha. São salientados os seguintes critérios: a) Rigor científico, linguístico e conceptual; b) Adequação ao desenvolvimento das competências definidas no currículo nacional; c) Conformidade com os objetivos e conteúdos dos programas ou orientações curriculares em vigor; d) Qualidade pedagógica e didática, designadamente no que se refere ao método, à organização, à informação e à comunicação; e) Possibilidade de reutilização e adequação ao período de vigência previsto (6 anos); f) Qualidade material, nomeadamente a robustez e o peso.

A possibilidade identificada no ponto e), relativa à possível utilização do mesmo manual por um período de 6 anos, poderá levar a reflexões pertinentes relacionadas com a importância da necessidade de haver uma correta revisão dos manuais, de modo a que se possam corrigir erros detetados durante o seu uso e se acrescentem algumas abordagens incompletas. Este aspeto torna-se pertinente considerando que, caso sejam identificadas algumas dessas falhas, só após 6 anos o manual poderá ser modificado através de uma nova edição. Tendo em conta a sociedade moderna em que vivemos, em que a Ciência e a Tecnologia ganham avanços significativos de um modo cada vez mais rápido, este problema deverá ser visto de uma forma mais cuidada, não obstante as vantagens sociais inegáveis que esse processo (não renovação do manual adotado) traz para as famílias portuguesas.

Apesar da autonomia das escolas/agrupamentos para selecionar e adotar manuais escolares, de modo a harmonizar a última seleção e a adoção de manuais, foi enviada uma circular a todos os estabelecimentos de ensino portugueses – Circular n.º2/2010 - que estabelece as orientações a respeitar na adoção dos manuais escolares. De acordo com o Ministério de Educação, o documento que estabelece os critérios de apreciação e adoção de manuais está estruturado em quatro grupos essenciais, que são: i) Organização e método, ii) Informação, iii) Comunicação e iv) Características materiais. O documento

83

contém apenas critérios de adoção generalistas, não referenciando orientações ou estabelecendo critérios próprios para cada área curricular, deixando-os à consideração da classe docente. O docente deverá utilizar o instrumento de seleção criado pelo Ministério da Educação para o efeito, que são dois anexos a esse documento legal. O Anexo 1, “registo de apreciação e adoção de manuais”, que deverá resultar numa apreciação de (Insuficiente, Suficiente, Bom ou Muito Bom) e o Anexo 2 onde deverão ser registadas as incorreções detetadas em cada manual. Nenhum deles se dirige, em termos específicos, a critérios de adoção para a Educação em Ciência (Fernandes, 2011).

Foram abordados alguns aspetos teóricos relacionados com os programas e os manuais escolares. Passar-se-á de seguida à apresentação da investigação realizada que envolveu, para além da análise aos programas do 1.º e 2.º CEB - Estudo do Meio e Ciências da Natureza, respetivamente - também os manuais escolares associados, dentro da temática “microrganismos”.