CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
I. 5 OS MEDIA E A JUSTIÇA: PRINCIPAIS DIFERENÇAS
Os campos dos media e da justiça, ou poder judicial, são bastante diferentes, acentuando-se actualmente ainda mais essa diferença em virtude da circulação da informação a uma velocidade vertiginosa graças aos novos meios de comunicação que propiciam a notícia ao minuto e “em cima do acontecimento”.
No que concerne à noção de campo ora gizada e simultaneamente aplicada aos media e à justiça seguimos os ensinamentos de Pissarra Esteves, para quem a noção de campo social é simultaneamente uma estrutura e processo, é simultaneamente criação e parte da dinâmica entre indivíduo e sociedade. Colhendo os ensinamentos do autor, seguimos-lhe as pisadas, afirmando a noção de campo social como uma “estrutura estruturada e estruturante” (Esteves, 2003, p. 134). Se, por um lado, um campo social é, sem sombra de dúvida, uma estrutura dentro de um sistema social, é de igual modo inegável que esse mesmo campo social é simultaneamente um processo dentro das dinâmicas sociais que impele a estruturação ou restruturação do sistema social.
A formação de um campo social inicia-se a partir da necessidade de controlo ou do estabelecimento de regras de relacionamento de uma determinada sociedade com o que lhe é externo e alheio e, consequentemente, com a criação de subsistemas dentro de uma determinada estrutura social, que visam essencialmente suprir essa necessidade, organizando por essa via os processos de socialização.
44 A transformação, autonomização e consolidação de um determinado campo social, enquanto processo de evolução social, apresenta-se por isso enquanto estrutura, dotada de uma dimensão física e espacial, para lá da dimensão simbólica que assume, estruturada (pelo desenvolvimento de regras próprias) e estruturante enquanto introdutória de mudança na própria estrutura social na qual se desenvolve, porquanto aumenta e reestrutura as áreas de influência dessa mesma estrutura social.
Enquanto construção conceptual, os campos dos media e da justiça assumem-se simultaneamente como estruturas e processos, no âmbito de um quadro geral de interacção social, enquanto “contextos de sociabilidade nos quais indivíduos e a sociedade são uma e a mesma matéria” (ibidem: 137).
Ambos os campos dos media e da justiça têm, à semelhança do que sucede com outros campos sociais, funções de mediação próprias e específicas. Todavia há entre ambos os campos, entre várias diferenças, uma especialmente notória – no campo dos media a mediação é ela própria, além de função, a razão de existência desse mesmo campo.
Para além desta diferença basilar, existem ainda outras diferenças entre estes dois campos sociais – media e justiça. As principais diferenças entre ambos os campos sociais são a linguagem, o tempo, a posição dentro da estrutura profissional, praxis, a função, o objectivo que visam alcançar e a proximidade com o cidadão.
A primeira diferença entre estes dois campos é o tipo de linguagem.
O universo judicial possui uma linguagem formal, hermética, codificada e fechada, própria do direito decorrente dos termos técnicos, do rigor e das formalidades a que a aplicação da justiça obriga. As características da linguagem do universo judicial são patentes nas codificações legais (por exemplo: Código Civil e Código Penal), nos textos legislativos e nas sentenças e acórdãos.
Por sua vez, os media têm uma linguagem mais simples, clara e mais aberta à compreensão do cidadão, decorrente do facto de ser (a linguagem) claramente vocacionada para a transmissão da informação, onde “ (…) o discurso jornalístico é, na verdade uma recomposição do real a partir de fragmentos e dá ao público uma semelhante impressão de poder ser compreendido a despeito da sua complexidade, pela arrumação aparentemente controlada das suas contradições e incoerências.” (Cornu, 1994:281).
45 A segunda diferença é a noção de tempo campo que os media têm e a noção de tempo no campo judicial.
No campo dos media tudo se processa a uma velocidade vertiginosa, tão ou mais rápida que a circulação da própria informação. Impõe-se a celeridade, a rapidez numa corrida pelo exclusivo ou pela notícia “em primeira mão”.
A notícia quer-se “aqui e agora”, quer-se enquanto novidade, enquanto é “a notícia” e não apenas mais uma notícia. Importa que se seja rápido, que se consiga a notícia ou o exclusivo antes de todos os outros, de forma a conseguir captar mais espectadores ou a conseguir uma maior tiragem. Subjacente a esta necessidade de obter o exclusivo e o imediato, encontra-se uma nova concepção da notícia, enquanto notícia- mercadoria que gera e potencia “ (…) a aposta mediática e televisiva (…); o aumento da concorrência entre os media; (…) a vontade de estabelecer uma forte relação com o consumidor baseada numa linguagem apelativa.” (Mesquita, 2004: 55) e consequentemente a “ (…) informação jornalística é mais rápida, [mas mais] fragmentária, incompleta.” (ibidem: 55).
Por sua vez, o sistema judiciário com todo o seu formalismo processual obriga a que tudo se processe não a uma velocidade vertiginosa, mas a um compasso ritmado e ponderado que assegure uma decisão justa, correcta e reflectida, com base na prova produzida e no respeito pelos envolvidos. Mas a justiça e o universo judiciário, não raras vezes acusados de uma lentidão tremenda, são também prejudicados pelo uso de expedientes dilatórios, como por exemplo pedidos de aclaração ou requerimentos infundados, que entravam a marcha processual já de si legalmente morosa.
Todos estes elementos contribuem de uma ou de outra forma para a morosidade da marcha processual, originado assim um tempo próprio no qual se movimenta o campo da justiça e respectivos operadores.
A terceira diferença que se pode apontar entre estes dois campos é a posição dentro da estrutura profissional, a ausência ou presença de hierarquia.
Enquanto titular órgão de soberania, o poder judicial (o juiz) é independente devendo apenas obediência à lei, conforme consagrado no artigo 203.º da CRP. O juiz não está sob o jugo ou sob a orientação de nenhum superior hierárquico, estando sujeito apenas à lei.
46 Por sua vez, os media, leia-se os jornalistas, encontram-se inseridos em estruturas hierárquicas cujos interesses produtivos e económicos por vezes obnubilam a sua verdadeira “função informativa, essencial em democracia” (Afonso, 2001).
As palavras de Pierre Bourdieu ao referir que “o universo do jornalismo é um campo, mas que está sob a pressão do campo económico por intermédio do índice da audiência.” (Bourdieu, 1996: 77), não poderiam ser mais ilustrativas da referida realidade.
De facto, é exercida sobre os jornalistas, de forma directa ou indirecta, alguma pressão de forma a garantir que conseguem a notícia em primeira mão ou em exclusivo, delegando para segundo plano o cumprimento de algumas regras deontológicas, preceitos legais ou simplesmente morais, de forma a assegurar o maior número de espectadores ou a maior tiragem possível. Ou, como escreve Mário Mesquita, na senda da reflexão de Daniel Cornu, “Os meios de comunicação social constituem elementos estruturantes da sociedade, dependentes (…) do poder politico, das empresas mediáticas, e dos grupos económicos a que pertencem, das tendências determinadas pelo mercado e da própria categoria profissional dos jornalistas.” (Mesquita, 2004: 76).
Outra diferença notória entre o campo dos media e da justiça é a praxis (ibidem: 58).
O poder judicial está obrigado a seguir um conjunto de regras muito específicas que se consubstanciam na estrutura processual e que se pautam por um conjunto de valores cujo fundamento reside no respeito pela dignidade da pessoa humana e pela lei.
O desrespeito pelas normas processuais poderá originar uma nulidade ou irregularidade20. Não sendo a nulidade sanável, será inválido o acto em que se verificou,
os actos que dele dependerem e que a nulidade possa afectar, obrigando à repetição de todos os actos declarados como nulos21.
Por sua vez, a irregularidade, quando arguida atempadamente determina a invalidade do acto a que se refere e dos termos subsequentes que possa afectar, podendo ser ordenada oficiosamente a sua reparação.
20 Cfr. neste sentido o artigo 118.º do CPP.
47 Assim sendo, nas situações em que o desvalor aplicável seja o de nulidade insanável, o desrespeito pela praxis processual implicará a invalidade dos actos e quando possível a sua repetição.
No caso de não ser possível a repetição dos actos considerados como inválidos, a marcha processual fica afectada podendo todo o processo tornar-se inútil e obrigar a uma renovação da instância ou a uma perda de elementos de prova, por exemplo.
Deste modo o poder judicial, por força dos princípios da legalidade e da dignidade da pessoa humana, tem a sua praxis definida através da estrutura e normas processuais (Marques da Silva, 2008: 24).
Por sua vez, os media têm uma praxis muito própria e mais livre, não obedecendo por isso a regras tão rígidas, não obstante terem as suas regras deontológicas, como por exemplo o Código Deontológico dos Jornalistas. Apesar da praxis profissional dos jornalistas também obedecer a regras próprias, o desvalor a aplicar à violação dessas mesmas regras não é tão grave (do ponto de vista do resultado sobre o trabalho até então feito), não culmina numa anulabilidade, nulidade nem tão pouco numa irregularidade, ou seja, não culmina em trabalho infrutífero.
O jornalista poderá ser sancionado, em caso de desrespeito pelas normas estatuídas, no entanto a notícia, o resultado do seu trabalho, é publicado, atingindo o efeito pretendido.
Os media (jornalistas) dispõem então de uma ampla margem de manobra no seu processo de redacção, na sua praxis profissional, sendo que o desrespeito pelas normas profissionais não acarreta a destruição da notícia, contrariamente o poder judicial (juízes) encontra-se espartilhado numa estrutura processual rígida, adstrito a uma praxis, cujo desrespeito poderá afectar de forma severa a marcha processual, o resultado da mesma e os próprios envolvidos.
Ainda no âmbito da praxis é imperativo que se refira que os media seleccionam os assuntos que querem publicar ou analisar, ou seja, há um poder de escolha quanto ao tema, o que influencia claramente o modo como abordar esse mesmo tema e consequentemente a praxis. Segundo Pierre Bourdieu, “não há discurso, nem acção que, para ter acesso ao debate público, não deva submeter-se a essa prova de selecção jornalística, isto é, a essa formidável censura que os jornalistas exercem, sem sequer saber disso, ao reter apenas o que lhes interessar” (1996: 67).
48 Os jornalistas fazem uma selecção ou triagem das temáticas que querem ou que devem abordar de acordo com o valor-notícia, interesse público e interesse suscitado no público e consoante essa mesma temática seleccionada, escolhem o modo como redigir a notícia, definindo assim a sua praxis.
A subjectividade na praxis jornalística assume ainda a sua existência por via da forma como a notícia é redigida, podendo o jornalista assumir por essa via três perfis possíveis: o jornalista-observador (a quem cabe simplesmente investigar e relatar), jornalista-intérprete (a quem cabe interpretar e relacionar os eventos) e o jornalista- narrador (a quem cabe contar com algum recurso à criatividade)22.
Por sua vez, o poder judicial tem de dar seguimento a todos os processos que lhe são entregues aquando da distribuição, não havendo assim qualquer poder de escolha de quais os casos a apreciar, obedecendo a praxis a uma estrutura processual rígida, conforme foi anteriormente explanado. A única escolha possível é entre as provas oferecidas ao tribunal na busca da verdade material.
Outra diferença entre os dois campos reside na função específica ou missão social de cada um.
Os jornalistas (órgãos de comunicação) têm como missão ou função social, informar, divulgar, fazer chegar ao conhecimento geral do público os factos, as notícias de interesse geral, de interesse público, numa linguagem clara, perceptível e acessível ao cidadão comum e do interesse deste, sendo que “Tradicionalmente, entende-se que o jornalismo defende o interesse público (…) ” (Mesquita, 2004:202) por via do “ «ideal» de informação desinteressada, inerente ao jornalismo” (ibidem: 202).
Por sua vez, compete aos juízes (poder judicial) decidir no âmbito dos processos que são submetidos à sua apreciação.
As suas decisões podem ser impostas aos respectivos destinatários.
Em suma, o juiz julga os actos e pondera os factos que são chamados à colação no âmbito dos respectivos processos, não emite nem oferece opiniões, pontos de vista ou manchetes, simplesmente decide. O que resulta do trabalho do juiz vincula as partes visadas, contrariamente o que resulta do trabalho de um jornalista não vincula, ainda
49 assim tal não significa que não marque para sempre a vida dos visados, não obstante de não os vincular.
Da função específica de cada um dos campos ora em análise decorre o objectivo próprio de cada um e esta é outra diferença a assinalar entre ambos.
O poder judicia e os tribunais têm como objectivos “assegurar a defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, reprimir a violação da legalidade democrática e dirimir os conflitos de interesses públicos e privados”23, ou
seja, assegurar a boa administração da justiça com base no respeito pela lei e pela dignidade da pessoa humana.
O objectivo dos media é, ou deve ser, informar. No entanto, esse mesmo objectivo encontra-se por vezes ofuscado pelos interesses económicos subjacentes a toda a estrutura jornalística, ou seja, se o objectivo for o lucro, quer seja através da maior audiência ou da maior tiragem, a função informativa poderá perder-se ficando preterida a informação ou a notícia relevante, isenta e clara face a uma notícia “sensacionalista” cujo conteúdo é ou poderá ser duvidoso, mas que ainda assim gera lucro.
Neste sentido, Pierre Bourdieu distinguia dois pólos através dos quais o jornalismo se estrutura: o «pólo intelectual», no qual se situam os jornalistas que privilegiam o reconhecimento dos seus pares e cumprimento das normas deontológicas enquanto matriz de conduta profissional e o «pólo comercial», no qual se situam os jornalistas que preferem utilizar como matriz de conduta profissional o critério da audiência e da clientela, afirmando-se este último como cada vez mais predominante e decisivo (Pierre Bourdieu, 1994: 3-9 apud Mesquita, 2004:232, 233).
Contrariamente aos media, os tribunais não visam, nem dependem do lucro. Ou seja, a preponderância ou influência do factor económico na produção ou no resultado final obtido por ambos os sectores, varia de acordo com o grau, maior ou menor, da dependência desse sector do poder económico.
A última diferença a enunciar é a proximidade ao cidadão, ou seja, a relação que é estabelecida com este, quer pelo poder judicial, quer pelos media.
50 O poder judicial, devido à sua própria natureza, é distante do cidadão, a aura de mistério, as pesadas vestes, a solenidade e o formalismo, bem como a linguagem hermética contribuem bastante para este distanciamento.
Para além disso, é de certa forma imposto e até expectável, de modo a garantir a boa administração da justiça que o poder judicial seja distante para que possa ser verdadeiramente imparcial, assegurando por isso que não fica ofuscado ou pressionado pelos cidadãos ou por algum cidadão em específico, garantido que transmite uma imagem de imparcialidade, mas que acima de tudo é verdadeiramente imparcial.
Esta imposição sistémica, jurídica e até social, acaba por decorrer, de forma natural, por um lado das exigências constitucionais preceituadas para o exercício da função jurisdicional, mas de igual modo pela necessidade de assegurar a igualdade de todos perante a lei, seja em sede de inquérito, de julgamento ou de sentença, enquanto resultado final.
Os juízes devem ser distantes do cidadão, até certo ponto, de forma a garantir a imparcialidade e a independência judicial, bem como a boa administração da justiça, ou seja, de modo a garantir que a função jurisdicional é exercida de forma independente e imparcial.
Por sua vez, os media são mais próximos do cidadão mais acessíveis a este, devido à sua própria natureza dos media e à linguagem clara e mais facilmente compreensível utilizada por estes na redacção das notícias.
A proximidade entre os media e o cidadão também provém do facto de os jornalistas, enquanto corporização dos media, serem necessariamente figuras mais próximas do cidadão, ou seja, são geralmente “caras conhecidas” ou cujo estilo de escrita se torna tão familiar do cidadão que gera neste a capacidade de associar um estilo de escrita a um jornalista que, de tanto se ver ou ler, já se considera como próximo, familiar, ou seja, já se considera como uma cara conhecida.
Outra diferença entre os media e o poder judicial reside na capacidade impositiva do resultado do trabalho realizado por ambos: a notícia e a sentença.
O jornalista não tem a função nem o dever de impor uma decisão contra a vontade popular ou contra uma figura pública, compete-lhe apenas e tão-somente relatar factos com clareza, isenção e imparcialidade, que apesar de ser uma tarefa igualmente árdua não é tão antagonizadora, nem geradora de tanta animosidade entre os
51 destinatários. Contrariamente, a capacidade impositiva da sentença, seja essa condenatória ou absolutória, assegura a concretização dos efeitos definidos nessa decisão, impondo-se por isso aos seus destinatários.
Para além das diferenças há um ponto em comum que aproxima os media e o poder judicial: o trabalho de ambos versa sobre factos, sobre um retalho da história de vida de uma pessoa, sobre uma história real que pode ainda não ter terminado.
Mas até neste ponto comum radica uma diferença muito importante que remete em parte para a praxis anteriormente mencionada.
O poder judicial trabalha com factos, tentando reconstruir a história através da produção de prova relativamente a cada um dos factos, num processo com regras e procedimentos rígidos.
Após a reconstrução da história, cumpre ao juiz fazer a subsunção dos factos às normas e decidir em conformidade, tendo sempre em conta a reconstrução que foi feita da história e os factos que foram considerados como provados.
O juiz tem então a obrigação de ver a questão que lhe é apresentada e os factos através dos “olhos da lei” com base na experiência profissional e tendo em conta todos os elementos que integram o processo, não pode nem o deve fazer de outra forma.
Por sua vez, os media operam uma selecção de factos e seguidamente reconstroem esses factos (a história) consoante a sua visão, ou seja, “os jornalistas têm “óculos” especiais a partir dos quais vêem certas coisas e não outras; e vêem de certa maneira as coisas que vêem” (Bourdieu, 1996: 25). Esta selecção de factos, bem como a reconstrução da história ou posterior narração dos factos, não obedece a um procedimento rígido ou tão rígido quanto o formalismo subjacente à elaboração de uma sentença ou decisão, não obstante de ter as suas regras.
Novamente neste aspecto a subjectividade ou o grau de subjectividade do jornalista influenciará a forma como a notícia é redigida reconduzindo-o aos perfis anteriormente mencionados: o jornalista-observador, jornalista-intérprete e o jornalista- narrador24.
52 Em suma, são muitas as diferenças que existem entre o universo judicial e o universo dos media, tais diferenças são inegáveis, mas de igual modo também são inegáveis os pontos de contacto que se estabelecem entre ambos os campos.