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Os Mitos (des)construídos

No documento Sim ou não? Os discursos do Referendo 2005 (páginas 156-160)

4.2 Interdiscursividade Restrita

4.2.2 Os Mitos (des)construídos

De um lado a outro na polêmica os discursos trataram de criar seus próprios mitos e os transformaram em verdade absoluta. São idéias que se encontram na raiz mesmo de cada FD e que por essa razão se transformam em pontos norteadores dos discursos. Cada discurso tem as suas próprias verdades que se constroem dentro dos limites

freqüen

te devido às pré- condiçõ

Quadro 20 mostra algumas verdades que pré-existiam na sociedade e somente depois da construção dos discursos do Referendo é que elas tomar polêmica.

QUADRO 20

das FD, mas também são planejadas a partir do Outro – as respostas prévias que têm de ser feitas ao discurso Outro.

Essas verdades, dentro de seu universo discursivo, são inabaláveis, mas fora estão à mercê do Outro e das outras verdades. Rivalizam e polemizam entre si, porque

temente só há espaço para apenas uma delas. Mas como se dá a construção dessas verdades inabaláveis? Como elas se formam e se mostram tão fortes no discurso?

Maingueneau (2005, p. 118) diz que o “discurso convence porque ia pela nossa cabeça o que já convencia”. Ou seja, as verdades não são criadas a partir do nada, sem referências ou ainda sem propósito definido. Elas funcionam justamen

es de existência do próprio discurso. Mas mesmo assim, ainda é necessário um discurso para que elas aconteçam, como afirma Maingueneau (2005).

Portanto, em muitas situações, os discursos servem como plataforma de divulgação de verdades que já circulavam e eram sentidas na sociedade. Como por exemplo, o sim e o não que refletiam desejos já manifestos e muitas vezes tais discursos serviram apenas para confirmar e exaltar aquilo que já passava pela cabeça e pelo coração de muitos. Idéias de paz ou de direitos adquiridos não surgiram aleatoriamente, mas apenas vieram à tona em FDs especificas e propícias. O

am seu lugar na

SIM NÃO

Armas matam Armas salvam vidas

Paz Direitos do Cidadão

Vida é um presente e se aceita Direito à vida – luta-se pela vida

Os discursos servem por fim para arrumar essas verdades, fortalecê-las diante do inimigo, das outras verdades. Assim, constroem-se argumentos complexos e estratégias discursivas que garantam o lugar e a existência dessas verdades principalmente quando

elas são ameaçadas por outras idéias tão certas e cheias de razão quanto. Na tentativa de derrotar essas outras idéias tão perturbadoras para a sua própria FD, a revista Época de 10 de outubro de 2005 constrói, quase como em um tribunal jurídico, uma rede de provas e contra-argume

não. Como afirma Fouc

; ela não se relaciona com um interlocutor, mas com um suspeito; ela reúne as provas de sua

e relatos e acontecimentos reservados à imaginação e à fantasia. Já

pressupõe fatos sem cons m questionados e

desmitificados.

1- Mitos sobr

s segundo Época Veredictos de Época

ntos para as principais verdades do discurso antagonista pelo ault (2006b, p. 226) ainda na metáfora da prática jurídica,

a polêmica não abre a possibilidade de uma discussão no mesmo plano, ela instrui um processo

culpabilidade e, designando a infração que ela cometeu, pronuncia o veredicto e lança a condenação.

O Quadro 21 mostra como Época hábil e diretamente retoma os principais argumentos do discurso não para em seguida dar seu parecer final sobre as verdades. A própria reportagem (ed. 386) se intitula 10 Mitos sobre as Armas. A palavra mito retoma a idéia d

istência real e sólida prontos a sere

QUADRO 2 e as Armas

Mitos sobre as Arma

- O discurso não -

As armas ajudam o cidadão de bem a se defender dos bandidos.

Em tese sim, na vida real não. Armas não matam pessoas – pessoas é que

matam pessoas. Sem armas, os homicid matar do mesmo jeito, usando outros instrumentos.

as vão

Em termos.

Os bandidos usam armamento pesado, contrabandeado, com rifles AR-15. Proibir a

ade absoluta venda não adianta nada.

Isso não é uma verd

Gente de bem usa armas para se defend Bandidos us

er. am armas para matar.

ssim. Não é bem a

Mais armas significam menos crime Trata-se de uma fraude Não adianta criar uma lei que não será Em termos

cumprida.

Outros países tentaram proibir a venda de Falso armas. Não funcionou.

Armas no lar só matam porque as pessoas não são treinadas para usá-las.

Em parte. O Estad

cidadão

o não tem o direito de impedir o livre de se defender.

Em termos.

Primeiramente, Época só traz e configura como mito argumentos do discurso

fantasia. Cabe à revista, detentora de sua verdade, desfazer esses mitos e dar a verdadeira sentença sobre eles. E esse julgamento é contundente e irrevogável. As expressões em termo e não é bem assim tentam por fim à polêmica ao se apresentarem como a palavra final. Em outro momento não há nem possibilidade de acordo nem tentativa de resgate das verdades alheias quando o mito é imediatamente considerado falso. Época tenta fechar, com suas sentenças, o ciclo de sentido que se estabelece no Referen

ramente os contra-argumentos de da revista da Editora Globo. Em V são mais mitos, mas verdades absolutas – aqueles pontos norteadores do discurso não.

QUADRO 22

ÉPOCA do. O martelo é batido, mas por pouco tempo porque logo em seguida haverá

réplicas e tréplicas e outras tantas retomadas.

Saindo de Época e indo à Veja, é importante perceber como esses mitos são construídos no seu lugar de origem para entender mais cla

eja, eles não

VEJA

Os países que proibiram a venda de armas tiveram aumento da criminalidade e da crueldade dos bandidos. (Ed. 1925)

Políticas de desarmamento funcionaram na maioria dos países. (Ed. 386)

Certo como os impostos e a morte, os vendedores ilegais de armas continuarão

ar. alimentando o arsenal dos bandidos com

equipamentos de destruição cada dia mais poderosos. (Ed. 1925)

O mercado paralelo é hoje o grande fornecedor da criminalidade, mas a maioria dos revólveres e pistolas usados pelos bandidos é roubada de cidadãos comuns - e não contrabandeada, como reza o imaginário popul

O Referendo pode proibir a venda desta arma [imagem de um revolver calibre 38], mas nada pode fazer para tirar este arsenal das mãos dos bandidos [imagem de uma página inteira de granadas e balas de fuzis (Ed. 1925)

Isso não é uma verdade absoluta. Só a elite do crime tem dinheiro para essas armas. (Ed. 386)

A culpa pelos altos índices de criminalidade e de homicídios não é da arma, mas de quem as tem em mãos. Revólveres não transformam cidadãos em assassinos. (Ed. 1925)

o. Boa parte desses crimes é cometida A maioria dos homicídios (63%) resulta do que se chama tecnicamente de ''conflito interpessoal''- briga de marido e mulher, confusão entre vizinhos, quebra-paus no trânsit

por cidadãos comuns, gente ''de bem'' que simplesmente tinha uma arma à mão. (Ed. 385)

Um carro pode ser roubado e usado por bandidos para fazer assaltos. Uma casa pode ser alugada e transformada por seqüestradores m cativeiro para suas vítimas. Uma arma legal pode ser roubada, furtada ou vendida ilegalm

e, não vão “matar do mesmo jeito”. Isso porque instrumentos como facas e cassetetes são menos perigosos que a arma de fogo. (Ed. 386)

e

Os homicidas, em verdad

Quando afirmados por Veja, esses enunciados são tratados como verdades reveladas, fatos que vêm confirmar aquilo que já se sabia ou se sentia. Os sentidos tomam

, esses mesmos instrumentos são vis

avras e os argumentos se viciam entre atacar e se defender. Pouco sobra senão repro

afirma, dessa forma, que

s não a avançar, não a se arriscar sempre mais no que dizem, mas a se fechar incessantemente

ente aquilo que se quer e precisa ouvir. E assim

sua própria existência, cada d

parte no jogo e Veja constrói sua cadeia argumentativa de modo a persuadir e provar suas próprias verdades.

Em seguida, em resposta aos enunciados de Veja, Época retrabalha aqueles sentidos de acordo com uma FD antagônica. Nesse momento e espaço, aqueles enunciados não são mais verdades, mas mentiras que precisam ser explicadas, comentadas e transformadas. De um lado, carros ou qualquer outro instrumento representa tanto perigo quanto as armas de fogo; no outro

tos como potencialmente menos perigosos. Ou ainda a percepção de que políticas restritivas de armas funcionam ou não para outros países.

Na polêmica, os sentidos são apenas jogados de um lado a outro e constantemente desfigurados. Percebe-se que dentro dessa guerra não há muito espaço para novas idéias. As pal

duzir esse ciclo que pode ser infinito. Foucault (2006b, p. 227)

anátemas, excomunhões, condenações, batalhas, vitórias e derrotas não passam, no fundo, de maneiras de dizer. E, no entanto, também são, na ordem do discurso, maneiras de fazer que não deixam de ter conseqüências. Há efeitos de esterilização: alguém já viu uma idéia nova surgir de uma polêmica? E poderia ser de outra maneira, uma vez que os interlocutores são nela incitado

no justo direito que eles reivindicam, na sua legitimidade que devem defender e na afirmação de sua inocência!

Na verdade, ambos os discursos, na polêmica, reivindicam para si a legitimidade de suas afirmações, o que eles dizem são justam

, pouca diferença faz o que é dito fora dessa FD, pois são apenas ecos de uma verdade alheia e pouco ou nada convincente.

Verdades e acusações mútuas impedem justamente que novas idéias apareçam e quem sabe seja possível sair da polêmica. Cria-se um ciclo vicioso de ataques e defesas e já não importa mais quem diz o certo, porque, no fundo, cada qual tem suas razões e erros. Tentando provar apenas o seu lado como forma de manter

iscurso segue acreditando que será ouvido e compreendido, que existirá em algum lugar alguém ou alguma coisa que ponha fim à polêmica.

No entanto, como lembra Maingueneau (2005, p. 115) isso parece mais uma “ficção que sustenta a polêmica sem poder por nela um termo”. Não há de vir, senão ilusoriamente, um terceiro pronto a dar a resposta certa e mostrar a verdade final. Até porque, no jogo discursivo, não há o sentido certo, resguardado, que espera ser trazido à tona para por fim a todos os outros. Há muitos sentidos que se somam, se sobrepõem e

se excl ia dois lados, duas verdades e

muitos

al, duas respostas antagônicas são pleiteadas, voto a

nção sobre o proposto. A revista Istoé, ao afirmar sua posição

a resposta pronta ao leitor porque não cabe a ela a decisão final sobre o Referendo. A revista apenas marcará pontos dos dois lados da disputa para cada um tirar s. Eis o plano apresentado pela Istoé em contraponto à Veja, segundo o Quadro 23.

Veja Istoé uem indefinidamente. No Referendo 2005, hav

sentidos.

No documento Sim ou não? Os discursos do Referendo 2005 (páginas 156-160)