3.4 O Entrelugar
3.4.3 Por onde os sentidos escapam
Há sentidos no silêncio que não necessariamente permanecem em silêncio. Esses sentidos não dependem do que foi dito nem são complementos puro e simples das palavras, eles apenas estão em uma dimensão diferente do universo discursivo. Sua existência é um fato, mesmo que eles não venham à tona. Além disso, esses sentidos sempre encontram uma brecha para emergir e se mostrarem.
O movimento dos sentidos é constante. Orlandi (2002, p. 13) diz que “o sentido não pára, ele muda de caminho” apenas. Em determinadas situações históricas e política, como a censura, há uma interdição do que é permitido dizer. Isso impede o próprio movimento do sujeito e conseqüentemente dos sentidos. Mas mesmo nessas situações de proibição, os sentidos seguem em seu fluxo ininterrupto para significar de outro modo.
No entanto, o silenciamento da Istoé não foi fruto de uma censura imposta. A revista deliberadamente escolheu a posição de manter-se em silêncio diante do debate proposto pelo Referendo. Não haveria de apoiar (ao menos em tese) nem o sim nem o
não. Istoé, quando deixou de opinar diretamente, quando deu a voz a terceiro e se
isentou da responsabilidade do dizer, continuou produzindo sentidos. Mesmo sendo uma escolha editorial e não uma imposição superior, os sentidos que deixaram de ser dito continuaram seu caminho e significaram de outras formas.
Os enunciados abaixo são exemplos em que, mesmo dentro do silêncio construído por Istoé, é possível perceber o movimento dos sentidos entre o que foi dito e o que deixou de ser dito.
1. Prevista no artigo 35 do rigoroso e restritivo Estatuto do Desarmamento, em vigor desde 2003, a proibição do comércio de armas, para entrar em vigor, através do próprio estatuto, precisa ser aprovada em votação popular. (Istoé, ed. 1878)
2. É bom que se esclareça que a proibição da venda de armas de fogo e munição representa apenas um item a mais em um Estatuto que já proíbe o porte de armas aos cidadãos comuns, liberando o seu uso apenas para policiais federais, militares e civis e agentes de empresas de segurança. (Istoé, ed. 1878)
3. Os efeitos do crescimento do NÃO preocupam os representantes do SIM (Istoé, ed. 1879)
4. Um dos aspectos que marcaram mais na população – e isso se reflete nas conversas nos locais de trabalho e nos bares – foi a opção do NÃO tratar a questão não apenas como uma simples proibição da venda de armas, mas sim como a anulação de um direito do cidadão de se defender. (Istoé, ed. 1879)
5. Iniciada para referendar um artigo do Estatuto do Desarmamento, a campanha intensificou o clima de insegurança. Muitas pessoas que antes eram a favor da proibição chegaram a declarar mudança de voto. (Istoé, ed. 1880)
6. Se a campanha não esclareceu pontos importantes da lei do desarmamento, isso se deve às falhas do Estatuto e à necessidade de regulamentações futuras que atendam todos os cidadãos. (Istoé, ed. 1880)
7. Se depender da legislação, o desarmamento é um tiro já deflagrado. Que apenas dependerá de regulamentação para apurar seu curso. (Istoé, ed. 1880)
Istoé definiu muito claramente seu posicionamento pela imparcialidade diante do debate na sua primeira reportagem na edição 1878 de 19 de outubro de 2008. Seu silêncio foi uma forma de se manifestar contrariamente à postura de Veja. Sua pretensa imparcialidade dialogou diretamente com o discurso produzido por Veja.
É importante ressaltar que o semanário da editora Três, mesmo não tomando posição, construiu um discurso próprio assim como fez Veja e Época. A revista se posicionou sem tomar partido diante da disputa. Istoé deixou de dizer, mas intensificou esse fato tanto quanto suas concorrentes. Isso mostra que aquilo que foi posto à margem do discurso continua significando de uma forma ou de outra.
Existiram falhas no silêncio construído por Istoé. Os sentidos propositadamente calados para produzir a noção de imparcialidade encontraram meios de se mostrarem e se tornaram visíveis. A revista deixou rastros de qual seria de fato o seu posicionamento.
Os exemplos 1 e 2 mostram o pensamento da revista sobre o Estatuto do Desarmamento que dá suporte ao Referendo. No primeiro caso, a lei que regulamenta a compra, posse e venda de armas é taxada de restritiva e rigorosa. Ou seja, já haveria limite demais imposto pela lei e as medidas seriam por demais severas. De uma ou outra forma, é construída a idéia de que já há rigor suficiente, portanto, o Referendo não seria tão importante. No segundo exemplo, essa idéia da inutilidade da consulta popular se confirma quando se diz que a proibição seria apenas mais um item naquele restritivo Estatuto. Muita coisa já é proibida, logo a necessidade da consulta popular é novamente colocada em xeque.
Os enunciados 3 e 4 são extraídos da edição 1879 em que há uma reportagem mostrando o franco crescimento do não nas pesquisas. Mas da metade da matéria de três paginas é dedicada a mostrar o quanto aumento do não nas pesquisas tem assustado a frente pela proibição. As primeiras linhas dizem que o sim começou com um apelo irresistível de um pouco mais de paz, caso a proibição saísse vencedora, mas depois de algum tempo que as campanhas das duas frentes saíram às ruas, o sim sente-se ameaçado com a reviravolta do não.
É enfatizado também no exemplo 4 o principal argumento do não – a manutenção de um direito do cidadão. Segundo a revista, o não escolheu tratar a “questão não apenas como uma simples proibição de venda de armas”. Os dois advérbios utilizados garantem a esse enunciado outros sentidos. Ducrot (1987, p. 173) afirma que “o efeito em uma frase de morfemas como quase, apenas, pouco, um pouco, etc. é de impor certas restrições sobre o potencial argumentativo dos eventuais enunciados desta frase”.
Nesse caso, a proibição da venda de armas, o principal objetivo do discurso sim, é reduzida a um ato sem importância e diminuto. O sentido produzido no enunciado 4 não está, como se pode pensar primeiramente, no argumento do não do direito do cidadão, mas se volta para a proibição que fica pequena e insignificante com o uso do morfema simples. Com a redução de um dos lados, o outro toma corpo e se fortalece. Dessa forma, o argumento de defesa dos direitos se infla e adquire um valor mais forte diante daquela que seria apenas uma simples proibição.
Nos exemplos 6, 7 e 8 da edição 1880, o Estatuto mais uma vez é questionado. Primeiramente, a campanha, que é resultado direto do Estatuto, pois é ele quem estabelece a realização do Referendo, é a causadora do clima de instabilidade que domina a sociedade. A confusão foi tamanha que pessoas mudaram de lado, mas esse movimento só aconteceu no caminho que abandona o sim e se junta ao não (ex. 5).
O Estatuto se mostra com falhas (ex. 6) que precisam ser corrigidas para atender a todos os cidadãos. Porém, essa mesma lei aparece como eficiente no exemplo 7, uma vez que o desarmamento já é um fato visível (tiro deflagrado) na sociedade. Apenas alguns ajustes na legislação se fazem necessários para que o tiro (desarmamento) siga seu curso já provocado.
Além desses enunciados acima, há um caso que precisa ser trazido para a análise e que também demonstra como se dá o movimento dos sentidos. Na edição 1878, em que Istoé declara que só o leitor é capaz de decidir, ao fim da reportagem há um quadro
com o título: A opinião do especialista. Esse espaço estruturado como uma célula separada do corpo do texto apresenta o ponto de vista de um oficial reformado das Forças Armadas e considerado especialista em segurança.
Istoé cede a palavra a um terceiro que não faz parte do seu ciclo de produção. A voz que vem de fora carrega já uma força e certa autoridade, afinal, a revista abriu espaço no seu discurso para um outro se pronunciar e demonstrar sua posição. Existe uma relação de interação entre os dois discursos, porque a revista não trará para dentro de si, de sua FD, um discurso que a ameace, mas se utilizará de outras vozes para dar suporte ao seu dizer.
Essa palavra dada ao outro tem ainda mais força quando atribuída a um especialista, aquele que pode, diante de todo seu conhecimento e experiência, de fato opinar sobre um determinado assunto. É natural que o olhar dispensado a essa figura, que tem a palavra e a autoridade para dizê-la, seja cercado de respeito e produza um efeito de verdade.
Charaudeau (2006a) diz que quando a declaração emana de um locutor que tem uma posição de autoridade, isso gera um efeito de saber que reflete direta ou indiretamente a posição da instância de comunicação. No caso de Istoé, o locutor tem certa autoridade (o especialista), mas também se configura como a figura daquele que opina e dá uma devida avaliação sobre o caso (a opinião). Os enunciados abaixo são tirados do quadro A opinião do especialista e mostram como os sentidos podem ser trabalhados no jogo discursivo de modo a criar efeitos de verdade.
QUADRO 13
Nº Enunciados do Especialista
01 Sou radicalmente contra civis portando armas, mas aceito a posse legal, levando-se em conta que a legislação hoje em vigor é uma das mais restritas do mundo.
02 As pesquisas da ONU utilizadas pelo pessoal do sim, por exemplo, colheram dados basicamente de ONGs, muitas vezes duvidosas, baseadas no Brasil, e das Secretarias de Segurança Pública, que dispõem de dados através de metodologias discutíveis.
03 Se o sim prevalecer, as pessoas que têm armas legalizadas poderão mantê- las. Mas, quando acabar ou vencer a munição, onde irão obtê-las? Provavelmente na ilegalidade.
04 O Brasil é o único país no mundo que faz fronteira com dez países, a maioria problemáticos. Eu, evidentemente, prefiro que as pessoas que convictamente, erradas ou não, queiram as armas, que as tenham de maneira legal e identificáveis.
05 O bom senso nos leva a crer que o correto e mais seguro seria desarmar a população espontaneamente, com campanhas maciças, blitz intensivas nas áreas urbanas além de “fechar” nossas fronteiras.
Os enunciados do Quadro 13 não deixam dúvida de qual é a posição pretendida pelo locutor que se apresenta como conhecedor profundo em segurança pública. No exemplo 1, posse de armas é aceita, uma vez que a legislação brasileira já é muito restritiva, ou seja, a lei por si só já estabelece os mecanismos corretos e limitativos para quem quer ter uma arma, portanto, o Referendo não é uma boa proposta. Fato confirmado no exemplo 5 pelo qual há um caminho mais sensato e correto a se seguir que a consulta popular.
Em seguida, o locutor apresenta uma série de dados que desqualificam os argumentos do sim, como os números apresentados nas campanhas que são geralmente oriundos de fontes não confiáveis (vide ex. 2). Os números questionados também relacionam a diminuição dos números de assassinatos desde que a legislação do Estatuto entrou em vigor.
É também apresentada no texto a possibilidade de fracasso do discurso sim, pois caso ele saia vencedor nas urnas, não restaria alternativa ao cidadão que não fosse a ilegalidade (ex. 3). Mostra-se, dessa forma, a ineficiência dos argumentos daqueles que defendem a proibição. Por fim, a opinião do especialista é demarcada no exemplo 4 em que a certeza absoluta e incontestável é exposta: cada um, segundo sua consciência, deve decidir sobre o uso de armas ou não.
O formato da reportagem de Istoé (ed. 1878) trabalha para construir um efeito de imparcialidade na revista. São apresentados sete casos para cada um dos lados, mais dois quadros com exatamente as mesmas perguntas para os presidentes das duas frentes parlamentares, além de informações técnicas sobre como votar nas eleições. No entanto, a opinião do especialista foge à regra já que não há um contraponto a ela. O texto é, então, apresentado como a expressão absoluta de um discurso proferido por quem sabe e pode dizer, portanto está acima de um ou de outro lado da disputa. É a verdade que se mostra.
Istoé declarou oficialmente, até com certo barulho, uma tendência de imparcialidade – só o leitor seria capaz de decidir! No entanto, sua real posição, que foi silenciada em prol de uma estratégia discursiva e comercial, emerge em alguns momentos do texto. O sentido nunca é sufocado por completo, por mais que seja intencionalmente colocado à margem do dizer. Ele sempre encontra brechas por onde escapar e continuar significando.
Orlandi (2002, p. 25) diz que “há um ritmo no significar que supõe o movimento entre silêncio e linguagem”. Os sentidos não são estáticos, eles caminham por entre os sujeitos, a história e a língua. Portanto, para apreender esses sentidos é preciso embarcar nesse movimento ininterrupto e perceber que é a partir da circulação que os sentidos podem produzir diferentes significados.