A Bem da Nação: política e turismo (1933-1940)
Capítulo 1 – Um regime “nacionalizante”
2. Os (mitos dos) nacionalismos segundo vozes neutras
Nação, nacionalidade, nacionalismo – todos estes conceitos são difíceis de definir, resta-nos analisá-los.
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A epígrafe de Benedict Anderson parece afastar-se das certezas proferidas por Salazar e por outras vozes do seu regime, às quais aludimos anteriormente, quando se pronunciaram sobre a “Nação” e o nacionalismo portugueses. Para melhor compreendermos os fundamentos ideológicos que justificavam o regime salazarista, consideramos pertinente evocar os entendimentos que diversos pensadores fazem do conceito de “nação” e de “nacionalismo”, ou seja, de termos que foram privilegiados nas retóricas políticas do Estado Novo, bem como dos indispensáveis coadjuvantes mitos e propaganda.
Ernest Renan explica nação como um “facto histórico originado por uma série de factos convergentes” (Renan, 2006: 11-12, itálicos nossos). Mais do que uma imposição conceptual resultante de imperativos eventualmente obsoletos como raça, geografia, língua ou religião, a “nação” de Renan surge como a concretização da partilha de um legado transmitido sob a forma de memórias, e que desencadeia a vontade de uma vivência comunitária que será, em última análise, o modo mais eficaz para perpetuar essa herança (vd. ibidem: 19) e, por isso, essa nação.
Homi Bhabha também ilustra a importância do passado para o entendimento geral de nação, quando refere que as “nações (…) perdem as suas origens nos mitos do tempo” (Bhabha, 2006: 1), reforçando, deste modo, a ideia de que as nações são legitimadas pela sua antiguidade. Este autor considera que esta é uma perceção “impossivelmente romântica e excessivamente metafórica” (ibidem: 1), mas admite que no ocidente o termo continua ainda a emergir e a fazer sentido a partir de motivações históricas.
Tal como Benedict Anderson, Lowell W. Barrington afirma-se ciente das divergências de entendimento dos conceitos de nação e nacionalismo por serem frequentemente alvo de confusão com outras expressões. Barrington entende nação como um conjunto de pessoas ligadas pela vontade de controlar um território que consideram a pátria do seu grupo (nacional). Este estudioso considera ainda que tão importante como a partilha cultural referida por outros teóricos é o propósito de controlar um território de que todos os membros da comunidade acreditam ser donos
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(vd. Barrington, 1997: 713). Os nacionalismos serão, então, movimentos de procura de direitos para todos os que afirmam ser membros da nação. Esses direitos incluem, entre outros, autonomia e soberania territoriais, e lealdade entre todos os elementos que formam o coletivo. Lowell W. Barrington conclui o seu argumento com a afirmação de que todas as formas de nacionalismo têm como objetivo último descrever claramente os limites que a nação pode controlar, e definir que elementos têm o direito de fazer parte do grupo deste controlo territorial (vd. ibidem: 714).
Na introdução a Nationalism, Ernest Gellner afirma que as “nações não são dadas, mas antes criadas pelos estados e pelos nacionalistas” (Gellner, 1998: viii), afastando-se, desta forma, de explicações eventualmente redutoras que compreendem “nação” como um mero e quase inevitável aglomerado de pessoas que dizem partilhar uma cultura ou um território. Tal não significa, porém, que este autor não atribua um considerável protagonismo ao papel desempenhado pelo conceito de cultura sempre que se discute “nação” ou “nacionalismo”. Na verdade, Gellner é perentório na afirmação de que para os nacionalismos “a semelhança cultural é o elo social básico” (ibidem: 3) que legitima a pertença a uma determinada comunidade, porquanto a cultura decide quem pode e quem tem o dever de se juntar ao grupo (vd. ibidem: 4). Este teórico evoca ainda a perenidade e a universalidade que aparentemente caracterizam todas as nações que são observadas e justificadas de uma perspetiva nacionalista, designadamente ao afirmar que estes regimes se apresentam com a afirmação de uma “nacionalidade individual” que alegadamente sempre terá existido (vd. Gellner, 2001: 49). Pretensas heranças culturais e históricas de uma era pré nacionalista, materializadas, por exemplo, em tradições e em modelos de uma vida saudável e pura, validam e ajudam a divulgar a “nação” e a fidelizar os seus membros (vd. ibidem: 49).
O historiador Eric Hobsbawm destaca igualmente o reconhecimento apriorístico de nação pelos regimes nacionalistas (Hobsbawm, 2007: 9), bem como o papel primordial desempenhado pelos mecanismos da propaganda tão necessários à validação de tais paradigmas. A presença homogeneizante desses instrumentos tem por objetivo a reprodução ininterrupta dos ícones considerados como sendo os mais representativos do grupo nacional. Dentro desta lógica, fazia todo o sentido recuperar símbolos alegadamente negligenciados que passariam a ser entendidos como exemplos da perenidade nacional por todos os membros do grupo. Hobsbawm considera que a
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situação vivida pela Europa no período entre as duas guerras do século XX seria um habitat privilegiado para a disseminação de regimes nacionalistas, que forçavam os nacionais a identificar-se com a “nação”, tal como era prescrita pelos seus chefes e porta-vozes (vd. ibidem: 132-135).
Qualquer discussão sobre nação e nacionalismo tem necessariamente de contemplar o canónico Comunidades Imaginadas, no qual Benedict Anderson argumenta que as nacionalidades e os nacionalismos são nada mais, nada menos do que o resultado de determinados “artefactos” (Anderson, 2006: 4). Anderson evoca igualmente as origens remotas e imemoriais das nações, e conclui com a afirmação de que uma “nação” é uma
comunidade política imaginada (…) porque até os membros da mais pequena nação jamais se conhecerão, encontrarão ou ouvirão a maior parte dos seus compatriotas. Contudo, nas mentes de cada um dele reside a imagem da sua comunhão. (…) [A]s comunidades são distinguidas (…) pelo formato pelo qual são imaginadas.
ibidem: 6
Para Michael Ignatieff as retóricas nacionalistas servem-se de elementos neutros de um determinado grupo, como a língua, a cultura ou a tradição, e transformam-nos numa narrativa, cujo objetivo é iluminar a autoconsciência de uma comunidade, obrigando-a a pensar em si própria como uma nação com direito à autodeterminação. As ideologias nacionalistas surgem, assim, como “um espelho que distorce a realidade, permitindo, ou forçando, os seus seguidores a ver todas as suas caraterísticas étnicas, religiosas ou territoriais transformadas em atributos e qualidades gloriosas” (Ignatieff, 1999: 79-80).
As abordagens de “nação”, “nacionalismo” ou até mais concretamente do Estado Novo português acabam invariavelmente por aludir, como já verificámos neste capítulo, à importância dos mitos na construção das suas retóricas de validação. Procuremos, por isso, compreender agora o modo como alguns pensadores têm discutido e explicado o papel atribuído aos mitos por regimes semelhantes àquele implantado por Salazar em Portugal no século passado.
Defende Raymond Williams que, até ao século XIX, os mitos eram considerados como meras fábulas ou alegorias (vd. Williams, 1988: 211). O autor prossegue,
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afirmando que o desenvolvimento da antropologia promoveu o entendimento do mito como uma história de origens que, como tal, acabou por desempenhar um papel fundamental na organização social de inúmeras comunidades. Em determinados contextos, os mitos acabam por ser mais valorizados do que as informações históricas, porquanto utilizam referências e dados tidos como intemporais que soam, por isso, de forma mais apelativa e convincente (vd. ibidem: 212).
Roland Barthes advoga que um mito é um sistema de comunicação que surge materializado num discurso (cf. Barthes, 2000 [1957]: 109). O significado do mito tem um valor próprio e pertence a uma história una e completa em si própria, que “divulga um tipo de saber, um passado, uma memória, uma ordem comparativa de factos, ideias, decisões” (ibidem: 117). Barthes acredita ainda que as narrativas míticas não têm de ser forçosamente fixas, uma vez que podem surgir apenas quando são necessárias e vir depois a sofrer alterações, a desintegrar-se ou a desaparecer por completo (vd. ibidem: 120). Por essa razão, o autor entende-as como distorções ou inflexões adaptadas a necessidades concretas, e não propriamente como mentiras que transformam significados em formas (vd. ibidem: 129). As aferições de Roland Barthes conduzem-no à pertinente conclusão de que o mito é formalmente o instrumento mais adequado para a inversão ideológica que define a nossa sociedade atual (ibidem: 142), pois o seu significado nunca é arbitrário, mas antes motivado por um determinado tipo de poder, podendo, por isso, atingir e corromper qualquer realidade (cf. ibidem: 132). Barthes destaca o quão essencial o mito é para as ideologias de direita que devem grande parte da sua sobrevivência a processos contínuos de (re)invenção de mitos (vd. ibidem: 148). Através das narrativas míticas a memória real e histórica tende a desaparecer, tornando- se os objetos mitificados lugares inocentes, naturais e eternos (vd. ibidem: 142).
A este propósito, Alessandro Portelli alerta-nos para o facto de que, em diversas narrativas e representações, a história parece ter sido substituída por mitos que são compostos por acontecimentos imaginados e por falsas memórias (cf. Portelli, 2007: 29). Esta distorção do passado resulta, para este estudioso, de “uma série de mal entendidos politicamente motivados, miticamente motivados, humanamente motivados e naturalmente ideologicamente motivados” (ibidem: 33). As memórias sociais aparentam derivar de memórias coletivas partilhadas por todos os membros da
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comunidade, mas são quase sempre meras construções ideológicas preparadas por agentes de poder que negoceiam, num jogo de escondidas nem sempre dissimulado, materiais que vão buscar ao passado para arquitetar mitos prementes para a manutenção das atuais identidades de poder.
Quanto à questão da propaganda, o caráter vital que ela adquire em regimes como o Estado Novo português leva-nos a evocar Pascal Ory quando nos diz que o termo “propaganda” terá surgido nos inícios do século XX, precisamente como resultado das necessidades de divulgação dos governos totalitários e nacionalistas/nacionalizantes. Ao contrário do que sucedeu em Portugal, onde o Estado Novo apenas instituiu um Secretariado para se ocupar da propaganda do regime, outros países europeus criaram ministérios, cujo protagonismo e importância eram incontornáveis. Independentemente da nomenclatura atribuída (secretariado ou ministério), as atividades desenvolvidas por estes órgãos visavam difundir a ideologia oficial vigente através da organização de uma série de iniciativas públicas e populares, e de eventos patrocinados e chancelados pelos governos, como sejam a implementação de festividades, feiras, comemorações ou mostras expositivas que incluíam também a projeção de filmes e documentários (vd. Ory, 2004: 39-40).
Oliver Thomson, por seu turno, refere a definição de propaganda apresentada, no ano de 1937, pelo Instituto Norte-americano de Análise de Propaganda, que explica o fenómeno como “a expressão de opinião ou ações de indivíduos ou grupos com o objetivo claro de influenciar as opiniões ou ações de outros indivíduos ou grupos relativamente a determinados fins” (Thomson, 1999: 2). O autor alerta-nos para uma aparente e curiosa coincidência conceptual que parece existir sempre que se torna necessário apresentar as interpretações oficiais de “propaganda” e “educação”. No seu entender, tal deve-se ao facto de que, de uma forma mais ou menos velada, ambos os termos são encarados pelos poderes como estratégias para produzir cidadãos que possam vir a ser úteis ao Estado, cooperando e obedecendo aos seus padrões morais (vd. ibidem: 4). Ou seja, o objetivo último dos mecanismos de propaganda é a alteração da atitude ou do comportamento de um grupo de pessoas, por decisão de um outro grupo, que invariavelmente detém a autoridade e o poder necessários para estabelecer padrões
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que apresenta como sendo os únicos válidos. Thomson argumenta que as estratégias utilizadas dependem de um uso intensivo de todos os meios de comunicação disponíveis, e da gestão dos eventos que ocorrem numa dada comunidade, onde valores como lealdade política, patriotismo, nacionalismo ou respeito pelas autoridades são simultaneamente instrumentos e fins (vd. ibidem: 5).
Toby Clark também estudou a expressão “propaganda” e destaca o tom sinistro que normalmente lhe está associado por, no seu entender, o termo surgir, desde as lutas ideológicas do século XX, aliado a estratégias de persuasão, manipulação, intimidação e engano (vd. Clark, 1997: 7)14. Terá sido, porém, durante a Primeira Guerra Mundial, quando os governos envolvidos no conflito entenderam o verdadeiro poder da opinião pública, que os meios de comunicação social de massas começaram a ser usados para divulgar regularmente mensagens institucionais, dando início às poderosas armadilhas propagandísticas, que iremos encontrar anos mais tarde em regimes políticos nacionalistas e totalitários (vd. ibidem: 7). A este propósito, o autor destaca a diversificação de meios de propaganda usados pelos estados essencialmente fascistas para, dessa forma, conseguir atingir as diferentes áreas de interesse de toda a população, argumentando ainda que as mensagens divulgadas por essa propaganda prometiam principalmente a reintegração dos indivíduos na alma coletiva da nação (vd. ibidem: 48).
A nossa pesquisa permite-nos concluir que as retóricas de propaganda serviam para promover todo o tipo de discursos superlativos de exaltação do melhor chefe, da mais pura raça ou da mais legítima nação. Na época que o nosso estudo abrange, esses discursos eram usados por regimes “totalizantes” e “nacionalizantes” (vd. Rosas,1994: 281-283) em registos que iam além do âmbito político, e que fundiam os conceitos que atualmente distinguimos de “publicidade” e “propaganda”.
14 Na obra Art and Propaganda Clark diz-nos que a expressão “propaganda” já seria usada no século
XVII para designar uma “propagação sistemática de crenças, valores e práticas” (Clark, 1997: 7). Nos séculos XVIII e XIX, contudo, o termo apresentava uma conotação neutra, pois referia não só a disseminação de crenças políticas e religiosas, mas também a publicidade comercial.
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Como afirmámos anteriormente, não é nossa intenção discutir a nomenclatura mais adequada para designar o regime político português monitorizado durante décadas por António de Oliveira Salazar. Muito menos pretendemos sugerir qualquer rótulo que o descreva, tarefa essa que caberá a outros muitíssimo mais avalizados para o efeito. Este capítulo pretendeu antes entender a forma como o chefe do regime, bem como as vozes por ele autorizadas, discorriam acerca de um paradigma de governação que classificavam como próprio, e que agregava padrões comuns a ideologias coevas consideradas como fascistas, nacionalistas ou totalitárias. Por outro lado, tivemos ainda como objetivo neste capítulo compreender como autores e teóricos afastados temporal e espacialmente do Estado Novo português lidam com o rótulo de “nacionalista” tão recorrentemente citado por Salazar e pelos seus porta-vozes.
Essas duas fases permitiram-nos concluir com Filipe Ribeiro de Meneses que Salazar fazia uma leitura nacionalista do passado e do presente portugueses (vd. Meneses, 2010: 107). Como o político inúmeras vezes explicou, o “bem da Nação” constituía o verdadeiro móbil de tudo o que era permitido. Era ainda indispensável manter os cidadãos agregados em torno de um ideal que valorizasse e promovesse a existência de um destino nacional inquestionável e de exceção. A afirmação comprovada de uma “História” antiga e partilhada por uma vasta, mas concreta comunidade surgia como prova suficiente da legitimidade da “Nação”, e parecia ter o poder para tudo justificar.
A extrapolação de que foi alvo terá elevado a alegada herança histórica nacional a um tal nível determinista que António de Oliveira Salazar acabou por adquirir simultaneamente o papel do mártir empurrado para o serviço público por uma força
inexplicável que regia a “Nação”, e de herói reencarnado de outras eras. O regime arquitetado e ensinado por Salazar apresentava-se como uma versão única e peculiar de
governação, que insistia sempre na singularidade resultante de especificidades da realidade portuguesa, que o afastavam de influências estrangeiras que, apesar disso, acabavam por ser referidas como modelos a seguir.
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Após a pesquisa efetuada para este capítulo, optámos por usar as classificações de nacionalizante ou de salazarista para designar o ambiente político e social que contextualiza o objeto do nosso estudo. Tal acontece em virtude de identificarmos nas fontes que referimos um óbvio protagonismo de justificativos marcadamente nacionalistas. Contudo, não desprezamos a posição de Filipe Ribeiro de Meneses quando afirma que tais argumentos não são suficientes para apelidar o regime de nacionalista, na medida em que se advogava mais a diferença da “Nação”, e não tanto uma eventual superioridade da mesma, como sucedia em outras realidades políticas coevas (vd. Meneses, 2010:108-109).
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