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Os modelos de organização de conhecimentos prévios globais

CAPÍTULO III AS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS DE UM TEXTO PELOS SEUS

3.2 O Texto “A roda do jacubalê”: produto de um discurso cristalizado

3.2.1 Os conhecimentos prévios pelos arquivos da memória semântica

3.2.1.1 Os modelos de organização de conhecimentos prévios globais

O texto, “Na roda do jacubalê”, tem como sistema de referenciação conhecimentos que focalizam a corrupção do sistema político governamental do Estado brasileiro, compreendido por duas perspectivas: a) uma por meio da qual se assegura o fato de ser a corrupção uma prática inerente a todos os povos do mundo e, por isso, não poder qualificar apenas os modos de gestão desse nosso Estado Nacional; b) outra por meio da qual se assegura ser a corrupção uma consequência da fragilidade dos mecanismos ou meios jurídicos que visam a coibi-la. Essa ausência de controle, segundo alguns historiadores, faculta que esse tipo de prática seja interpretada como hábito ou mau costume, visto ser mantida e intensificada entre aqueles que ocupam os diferentes lugares da esfera pública e na condição de membros do poder político estatal. Assim, a corrupção responde pela crença segundo a qual os políticos brasileiros são corruptos: predicação à qual não se pode atribuir valor de verdade incontestável, tampouco de mentira.

Segundo, Filgueiras (2009), os casos de corrupção e de escândalos divulgados, diariamente, pela imprensa brasileira ratificam conhecimentos, socialmente partilhados pelo povo por meio dos quais as práticas político-administrativas do Estado Nacional se tipificam pela corrupção. Essa tipicidade constrói um modelo de representação circunscrito a um cenário em que o mau uso da máquina administrativa do Estado é qualificado por ações inadequadas daqueles que respondem pelo funcionamento dessa máquina.

Tal representação tem por referência um modelo ordenador de conhecimentos socioculturais que se fazem permansivos na memória semântica do longo prazo, ou seja, aquela que tem por marco a própria construção do modelo de organização pelo qual o Estado brasileiro foi construído ao longo da sua própria história: aquele

herdado da administração portuguesa. Esse modelo é reconfigurado e compreendido como mazelas que permanecem e orientam o processo de construção e implantação do sistema republicano brasileiro, denominado patrimonialismo. Por conseguinte, patrimonialismo se explica pela impossibilidade de se separar as ações administrativas e os papeis exercidos pelos funcionários e/ou governantes, que fazem uso das funções públicas para delas se beneficiarem. Assim, manter-se em cargos públicos administrativos é ocupar posição de prestígio na esfera administrativa do poder político estatal.

Nesse sentido, segundo Filgueiras (2009), o acesso a esses cargos assegura velhos modos de proceder e de agir em relação à “coisa pública”, de que resulta a corrupção. Essa compreendida por práticas resultantes do clientelismo, da patronagem, do patriarcalismo e do nepotismo: uma tradição de políticas nacionais cujas raízes têm origem na construção de partidos políticos que datam desde os tempos das mais antigas repúblicas e tem os “clãs” como marco por meio do qual eles podem ser compreendidos. Para esse autor, exemplo significativo é aquele referente aos condados italianos quando, no período renascentista, reuniam grupos de pessoas, parentes entre si, para tratarem das assembleias revolucionárias, das eleições censitárias.

Assim, esses agrupamentos pré-partidários dão origem ao conceito moderno de partido, fundado na impossibilidade de todos os cidadãos de determinado Estado estarem preparados para discutirem as questões públicas. (FILGUEIRAS, 2009). Por conseguinte, os partidos, organizados como grupos de pessoas, consoante o conceito de democracia, estruturam-se com o propósito de alcançar o poder político e exercê-lo. Esse exercício, quando democrático, qualifica tipos ou modelos de ações públicas que visam a atender aos interesses dos cidadãos-eleitores; contudo, quando visam a atender aos interesses próprios e dos membros do seu próprio partido, tem-se a poluição do processo eleitoral democrático, comprometendo o exercício dessa modalidade de gestão estatal.

Ainda, segundo Filgueiras (2009), nesse caso, as práticas governamentais poluídas são aquelas orientadas por procedimentos denominados clientelismo, patronagem ou patriarcalismo, todas elas asseguradas por procedimentos que atribuem relevo à concepção de serem os governantes “pai do povo”, ou “seu padroeiro, juiz,

advogado e defensor”. O eleitor propriamente dito, na medida em que assegura os votos dos membros desse partido, são representados como clientes dos mesmos: aqueles que negociam seus votos em troca de benefícios, ou aqueles a quem os eleitos devem favores, cujos valores são negociados em tempo de campanhas. Esses oscilam entre o preço de uma dentadura, uma camiseta, um saco de cimentos, a promessa de emprego até o valor de toda uma campanha “eleitoreira”. A essa modalidade de poluente das práticas democráticas, acrescenta-se a personalização de exercício político de que se origina a “espetacularização”, referente ao fato de os eleitos se autorrepresentarem como “grandes homens”. A personalização em si não é um mal, mas o seu uso abusivo é pernicioso, visto que, eleitos, a eles foi atribuído o poder por meio do qual ele tanto pode se beneficiar como também favorecer aqueles que o apoiaram.

Nesse contexto, os meios de comunicação de massa exercem um papel determinante na difusão das informações do sistema eleitoral-partidário. É a espetacularização da política, ou seja, todos os episódios: conchavos, propostas, debates, brigas, denúncias, são veiculadas em tempo real; tudo é veiculado pela televisão, rádio e na internet como verdade. São esses mesmos meios, mais as revistas semanais, que divulgam, investigam, acusam e julgam desvelando um processo que, constrói no imaginário do eleitor-cidadão a imagem de práticas discursivas que têm como referência a corrupção.

Segundo Ferreira Filho (2001), a corrupção eleitoral, embora amplamente divulgada nesse nosso tempo de modernidade, já estava registrada no código jurídico do direito romano e relacionava-se “com o comportamento ilícito dos que visavam às honras ou as magistraturas romanas, objeto de eleições”. Acrescenta que em 358 a.C., o tribuno da plebe C. Petélio conseguiu aprovar um plebiscito conhecido como Lex Poetelia de ambitu, proibindo a solicitação de votos nas reuniões públicas ou nos mercados além de outras medidas para conter a compra de votos,tais como: prescrições contra o costume de banquetear eleitores e valer-se de terceiros para festividades que pudessem conferir vantagens eleitorais a candidatos.

Nessa dimensão, de acordo com Ferreira Filho (2001) a corrupção é um fenômeno registrado desde a Antiguidade e, na atualidade, não se configura como um

fenômeno exclusivamente brasileiro: “o mesmo se passa noutros (países), inclusive nos mais desenvolvidos: Japão, Holanda, França, estados Unidos, etc”. Observa o autor, ao tratar desse tema, a necessidade de se realizarem reuniões internacionais, bem como o 5º Congresso Mundial sobre a Corrupção, ocorrido em Amsterdam, em 2005, visando ao combate à corrupção, das quais têm medidas legislativas e não legislativas contra essa patologia eleitoral que sempre foi vista como um gravíssimo mal que corrói os alicerces do Estado e ameaça a sociedade. Ferreira Filho, valendo-se da origem etimológica da palavra corrupção – “corruptio”, em latim = explosão de um fruto em razão de sua podridão interna – ressalta que, além de ser uma falta grave, que perverte e, à semelhança de um fruto podre, contamina a maioria daqueles envolvidos no processo político.

Para Ferreira Filho (2001), na política, a corrupção está “associada à persecução de objetivos privados em detrimento do interesse geral”, ou seja, a tomada de decisão do gestor político leva em conta os interesses particulares transvestidos de interesses públicos. Esse autor, no entanto, postula que a corrupção se manifesta, por um lado, quando envolve uma retribuição material e, por outro, quando se exerce o poder político para angariar vantagens indevidas. A retribuição material é a manifestação corruptiva na qual se enquadra o processo eleitoral e envolve: a) a utilização de meios ilícitos, tais como a compra de votos e a fraude na sua contabilização; b) ações que visam produzir desvios na exteriorização das preferências político-eleitorais; c) o financiamento partidário; d) utilização dos cargos públicos, “da máquina” para se manter no poder.