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OS MOVIMENTOS DOS SEM-TETO DO CENTRO E DA PERIFERIA

A segregação sócio-espacial entendida enquanto diferenciação social e espacial determinada por níveis de renda e espacialidades residenciais pode ser bem exemplificada pelo seguinte quadro, o qual por sua vez é grande conhecido dos brasileiros: de um lado, uma favela repleta de moradias precárias e sem infra-estrutura, do outro lado, um condomínio muito luxuoso com toda infra-estrutura possível e tecnologias de ponta, inclusive no que se refere ao quesito segurança. Na favela, provavelmente estarão as empregadas domésticas, no condomínio fechado, suas patroas.

De acordo com Castells (1975), a distribuição das residências no espaço segue a mesma lógica da distribuição de produtos entre os diferentes agentes pertencentes a diferentes classes sociais. Assim, a discussão compreende dois conceitos que se encontram interligados: o de estratificação e segregação urbana.

O conceito de estratificação urbana ao se relacionar ao sistema de estratificação social, fornece a dimensão de um arranjo hierárquico e uma divisão desigual do poder, da riqueza e do próprio espaço urbano entre os agentes. Já a segregação urbana é a expressão espacial da distância social existente entre os agentes das diferentes classes sociais. Segundo Flávio Villaça (1998: 142), a “(...) segregação é um processo segundo o qual diferentes classes ou camadas sociais tendem a se concentrar cada vez mais em diferentes regiões gerais ou conjuntos de bairros da metrópole”.

Posteriormente, este autor demonstra que a distância física entre os bairros dominados por diferentes classes não é relevante para o conceito de segregação. Isso porque é muito comum termos lado a lado, em uma mesma região da cidade, um condomínio de alto padrão em que seus moradores possuem alta renda e há anos saíram dos centros das cidades e, ao lado, a existência de favelas ou bairros periféricos pobres (sem infra-estrutura, sem segurança e sem acesso a serviços de saúde e educação, por exemplo). Portanto, a inexistência da distância física entre espaços tão diferenciados não significa que a segregação tenha acabado e que tenha ocorrido uma democratização na distribuição espacial da cidade. Neste sentido, “(...) a sedução fácil de uma teoria de

convivência harmoniosa e divertida é negada, entretanto, pela geografia socioeconômica” (Rolnik, 2003: 45).

Para Villaça a segregação deve ser considerada como um processo necessário para a manutenção da dominação através do espaço urbano de uma classe sobre a outra. Isso porque se há uma concentração espacial das classes dominantes, o poder público pode, por exemplo, viabilizar para esta área, com mais facilidade, uma séria de aparelhos que melhorem a qualidade de vida dessas pessoas. O exemplo citado por Villaça é o do quadrante sudoeste da cidade de São Paulo. Apesar de a população deste quadrante ser minoritária em relação ao total da cidade, ela possui um poder político maior e padrões urbanos e ambientais muito melhores do que a maior parte da população da capital paulista. Nesta região há um bom sistema viário, linhas de metrô, ZER (Zonas Exclusivamente Residências) e a predominância de áreas verdes e arborizadas viabilizando climas mais amenos22.

Quando os problemas habitacionais passam a se intensificar nas grandes cidades brasileiras, o Estado, através dos inúmeros governos, tenta resolvê-los com a expansão horizontal ilimitada da cidade, possibilitando aos trabalhadores pobres a compra, mesmo com um salário baixo, de terrenos e a construção de suas casas na periferia. No entanto, esta expansão horizontal e periferização das cidades reforçaram a segregação urbana. Em São Paulo, por exemplo:

A política habitacional praticada pela Cohab durante as décadas de 70 e 80 foi a construção de imensos conjuntos uniformes e exclusivamente residenciais nas extremas periferias, marcando sua posição limítrofe em relação à cidade existente e segregando de forma explícita e violenta a população ali residente. (...) no extremo leste da cidade, guetos habitacionais sem variedade social ou funcional acabaram funcionando como ponta de lança de uma urbanização feita de loteamentos irregulares e favelas, para aqueles que não tiveram a “sorte” de residir nos conjuntos (Rolnik, 2003: 50).

22 Tivemos contato com essas idéias de Villaça em uma palestra conferida pelo autor na ocasião do Seminário “Vulnerabilidade social e dinâmica intra-urbana: dimensões, conseqüências e primeiros

resultados da pesquisa domiciliar”, promovido pelo Núcleo de Estudos de População (NEPO). 27 e 28 de março de 2008, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo. A conferência de Villaça foi entitulada de “A segregação: processo necessário à dominação através do espaço urbano”.

A segregação espacial é reproduzida pela especulação imobiliária dos capitalistas, especulação que se dá tanto em terrenos periféricos quanto em prédios centrais. No caso da cidade de São Paulo isso é visível e são justamente esses prédios que se encontram vazios, à espera de uma valorização, que a partir da década de 90 começaram a ser ocupados pelos movimentos dos sem-teto.

Castells (1975) fala da deterioração dos prédios das regiões centrais das cidades e da sua dupla utilidade para os proprietários. A primeira utilidade seria que o preço do terreno é maior que o preço do imóvel, aquele valor aumenta por causa da escassez crescente da localização central. Logo para o capitalista não importa a condição do imóvel, mas sim a propriedade do terreno. A outra utilidade se dá em um contexto em que os trabalhadores urbanos mais pobres têm uma escolha limitada no que se refere à habitação, não têm condições de exigir qualidade, daí que o proprietário tem a certeza de encontrar sempre muitos locatários (“exército de reserva em relação à moradia”). A estratégia do proprietário é simples, ele espera uma supervalorização no seu terreno para vendê-lo e enquanto isso vai garantindo uma renda mensal a partir do aluguel pago pelos trabalhadores pobres.

Este tipo de ocupação e de gestão da moradia acelera o processo de deterioração física dos imóveis. As famílias de classe média e alta deixam a região central e vão para o subúrbio, para os condomínios, tão em moda atualmente. Cabendo então para a população de mais baixa renda viver no centro da cidade ou na periferia pobre. A partir disto, tal população possui duas opções dentro das limitações de uma equação complexa, em que as variáveis são dinheiro (ou a falta de), transporte, tempo, qualidade da moradia, dentre outros.

Em toda parte do Terceiro Mundo a escolha da moradia é um cálculo complicado de considerações ambíguas. Como a frase famosa do arquiteto John Turner, “Moradia é um verbo”. Os pobres urbanos têm de resolver uma equação complexa ao tentar otimizar o custo habitacional, a garantia da posse, a qualidade do abrigo, a distância do trabalho e, por vezes, a própria segurança. Para alguns, como muitos moradores de rua, a localização próxima do trabalho – digamos, em uma feira livre ou estação de trem – é ainda mais importante do que o teto. Para outros, o terreno gratuito, ou quase isso, compensa viagens épicas da periferia para o trabalho no centro. E para

todos a pior situação é um local ruim e caro sem serviços públicos nem garantia de posse (Davis, 2006: 39).

Sendo assim, uma das opções é viver na periferia da cidade (conjuntos habitacionais populares, favelas, casas construídas em regime de mutirão, etc) onde os terrenos são mais baratos e livres, ao menos em parte, da especulação imobiliária. Porém, em tal região, a infra-estrutura urbana é de péssima qualidade, além do que o caminho casa / local de trabalho é muito distante e o transporte é caro. A outra possibilidade de localidade de moradia da classe trabalhadora de baixa renda é a região central. Aqui, apesar de a casa estar mais perto do trabalho, o preço do aluguel de um quarto minúsculo é muito caro e a deterioração física dos prédios centrais faz com que a qualidade habitacional seja baixíssima, vide o exemplo dos cortiços. Percebemos assim que apesar de encontrarmos na periferia bairros pobres e, ainda, os bairros dos pobres, no centro das grandes metrópoles também há trabalhadores pobres e populações em situação de moradia precária.

Geralmente, a população que não possui moradia digna também tem dificuldade em se alimentar bem, além de estar desprovida de saúde e educação adequada, entre outras carências. Rolnik (2003) coloca esta discussão em outros termos. Ela defende a idéia da existência de uma sobreposição das diversas dimensões da exclusão que incidem sobre a mesma população. A autora sustenta que no decorrer dos últimos anos essa sobreposição das diferentes faces da exclusão só aumenta e que as possibilidades reais de superação dessas vulnerabilidades são extremamente limitadas.

Na última década acelerou-se o motor da exclusão. Hoje são 2 milhões os favelados na cidade (de São Paulo), representando um recorde histórico de 20% da população; mais de 1 milhão de pessoas na faixa etária dos 18 anos aos 24 anos está sem estudo e sem trabalho na cidade (Rolnik, 2003: 67).

Para evitarmos o conceito problemático de exclusão, preferimos falar aqui de uma sobreposição de carências ou vulnerabilidades23.

A partir da nossa observação de campo realizada na região central da cidade de São Paulo, podemos dizer que a sobreposição de carências não é uma particularidade da

23 Apontaremos os problemas do conceito de exclusão social no capítulo 3, momento em que apresentaremos os sem-teto como membro da massa marginal e não como excluídos do sistema capitalista.

população periférica. A questão não se refere à periferia ou ao centro, mas sim à pobreza. Isto ajuda a desmistificar a idéia de que os trabalhadores pobres que vivem no centro estão bem. Eles não estão. Eles possuem baixa escolaridade, precariedade das condições habitacionais, alta mortalidade infantil, altos índices de homicídios, etc.

Temos que ter claro que os pobres sempre passam por privações e se encontram muitas vezes vulneráveis não porque moram aqui ou ali, mas porque pertencem à classe trabalhadora e mais especificamente a uma fração dessa classe que se encontra na pobreza ou extrema pobreza. E se essas frações de classe são miseráveis, possibilitando aos capitalistas maior valorização de capital, temos aqui simplesmente o funcionamento da lei geral da acumulação de capital detectada por Marx (Marx, 1983).

Encontramos trabalhadores pobres, que não estão assegurados de seus direitos sociais (no nosso caso, a moradia), tanto na região periférica quanto na central da cidade, no entanto, existem diferenças importantes e especificidades ao se lutar pelo solo urbano no território do “filé mignon imobiliário” (região central) e na região periférica da cidade. Estamos querendo dizer que se, por um lado, não faz sentido se falar de centro versus periferia, entendendo o centro como um território rico e onde as pessoas possuem boa qualidade de vida e moradia digna, e a periferia, no sentido de ser um local ruim, com más condições de vida; por outro lado, faz sentido sim falar em segregação urbana e ainda diferenciar a luta pela moradia no centro e na periferia da cidade.

2.2 Os movimentos dos sem-teto no território: a Grande São Paulo

Por que lutar pela moradia no centro da cidade?

Os movimentos dos sem-teto que atuam na região central da cidade lutam por moradia digna no centro e um dos principais argumentos é que a moradia é um direito social previsto na Constituição e, além do direito à moradia, eles também têm o direito à cidade, têm o direito de usufruir de toda a infra-estrutura e oferta de serviços existentes.

A escolha pelo centro é influenciada pela necessidade que os trabalhadores têm de morarem próximos a seus empregos ou próximo de regiões onde é mais fácil de se conseguir um emprego temporário já que grande parte dos sem-teto estão desempregados ou são “fazedores de bico”.

Dentre os sem-teto existem muitos que são camelôs, tendo assim o centro da cidade, principalmente as famosas ruas de comércio como a José Paulino, 25 de março, Santa Ifigênia, o bairro do Bom Retiro, Brás e as proximidades do Mercado Municipal, como um importante lócus de trabalho. Quando visitamos a Ocupação Mauá, organizada pelo Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC), localizada na região da Luz, centro da cidade, um dos sem-teto comentava que ali era muito bom de se morar já que ia a pé até a Rua José Paulino onde trabalhava como camelô, vendendo bolsas e outros acessórios. O sem-teto ainda disse que podia voltar para o seu “barraco” (seu quarto dentro do prédio ocupado) para almoçar de modo a economizar algum dinheiro e, depois, podia retornar ao trabalho a pé novamente, economizando o transporte.

Assim como o emprego no centro da cidade está para os adultos, a oportunidade de educação e lazer na região central está para muitas das crianças sem-teto. Quando se vive no centro da cidade tem-se aumentada a possibilidade de lazer, como por exemplo, cinema, visita a museus, teatros de rua e outras atividades culturais gratuitas. As chances de maior acesso à educação aumentam, assim como a participação em projetos sociais e culturais.

Uma das lideranças do Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC), Ivaneti Araújo comenta:

A luta dos sem-teto é uma luta digna pela moradia e, de preferência, no centro da cidade de São Paulo. Digo no centro porque é um local que já tem infra-estrutura e ainda é um lugar onde existe cerca de 300 prédios vazios. Isso é um crime: um prédio vazio lá dentro, e pessoas dormindo do lado de fora.

Dizem que a cidade de São Paulo não é para trabalhador de baixa renda. Mas como podem existir trabalhos como o de empregada doméstica, pedreiros, “boys”, se não existir nestas cidades os trabalhadores?

Se estes trabalhadores podem trabalhar na cidade de São Paulo, por que não podem morar? Por que têm que morar longe? Pegar trem, metrô e ônibus para poder chegar ao trabalho?

A moradia é um direito que está assegurado no artigo sexto da Constituição. Mas também não adianta construir prédios onde Judas perdeu as meias, porque como costumo dizer, as botas já ficaram bem pra lá... Prédios no centro fica mais barato, pois a construção de prédios em áreas não

urbanizadas logo terá que levar infra-estrutura para estes lugares ... isso é mais caro24.

Além da questão do emprego para os adultos, a líder dos sem-teto enfatiza que é no centro da cidade que existe uma infra-estrutura adequada, ou seja, as residências são servidas de água, luz, esgoto, asfalto e transporte.

Um outro argumento da defesa da luta para morar no centro se refere à história de vida dos próprios moradores. Se um sem-teto morou em um cortiço, no centro da cidade, grande parte de sua vida, ele tem um sentimento de grande identidade com o local, além de toda a relação de vizinhança. Sendo assim, ele não quer sair daquele bairro. Rosana, uma das coordenadoras de base do Sem-Teto do Centro, comenta conosco:

Eu sempre vivi nesta região (Santa Cecília) e quero continuar vivendo aqui. Por que eu não posso? Estou esperando minha casa aqui!

Eu estava na fila de um programa habitacional, mas o local onde eu iria morar era muito longe. Eu quero continuar morando aqui no centro. (Entrevista de campo, 1 de junho de 2006)

Se o centro da cidade é um local tão interessante e importante para os trabalhadores sem-teto, ele também o é para os capitalistas imobiliários e aí se tem o acirramento da luta pelo solo urbano. Os capitalistas, como mostramos acima, têm na área central da cidade grande zona de interesse, pois deixam os seus terrenos e prédios a mercê da especulação imobiliária para realizarem negócios extremamente lucrativos. Muitos destes proprietários se encontram inadimplentes em relação ao IPTU do imóvel, chegando a casos extremos em que a dívida de tal imposto supera o valor do próprio edifício e, mesmo nesses casos, o Estado não consegue, na verdade, muitas vezes não se esforça nem se interessa em transformar esses prédios em local de habitação social.

24 Ivaneti Araújo apresenta esta fala no Seminário: Cidade Ocupada. Sesc Avenida Paulista. São Paulo. 1 e 2 de junho de 2006.

Quando formos citar as falas dos sem-teto que são retiradas de fontes secundárias, como matérias da grande imprensa, entrevistas publicadas em revistas cientificas, ou ainda, discursos proferidos em um evento público, como o seminário citado acima, citaremos o nome do sem-teto que fala e o local em que retiramos a informação. Nos casos em que as entrevistas foram concedidas a nós, durante a pesquisa de campo, optaremos por colocar nomes fictícios, evitando quaisquer tipos de problemas e punições para os sem-teto. Faremos isso porque em algumas ocasiões os sem-teto fornecem opiniões pessoais sobre as lideranças de seu movimento, ora criticam, ora elogiam, apresentam confissões que poderiam prejudicar sua imagem diante dos outros. Lembramos ainda que em alguns casos não gravamos as entrevistas e por isso as falas dos sem-teto foram registradas por escrito, após a conversa, de acordo com nossa memória.

Em relação aos problemas a serem enfrentados no centro, as idéias de Maricato nos ajudam a pensar o assunto. A principal tese desenvolvida pela autora, em Metrópole na periferia do capitalismo: ilegalidade, desigualdade e violência, é que existe uma cidade real e uma virtual, uma ilegal e uma legal. A autora se atém a explicitar a dita cidade ilegal, a ocupação de terrenos ilegais e loteamentos clandestinos. Esses locais são os únicos que a parcela de mais baixa renda pode pagar e habitar. E sabe-se que apesar de estas construções estarem em regiões ilegais, tais como: manguezais, áreas de proteção ambiental, ou em regiões de extremo risco, os governos (Executivo e Legislativo) acabam, de uma maneira, ou outra, atendendo parcialmente a demanda das pessoas que vivem nestes locais, levando assim transporte, luz e rede de esgoto aos terrenos ilegais. Em relação ao Judiciário, Maricato (1996:25) apresenta que: “(...) diante do agravamento do conflito urbano, o Poder Judiciário tem aparecido como instância onde se tenta não só fazer cumprir o direito de propriedade, como também não fazê-lo cumprir”. Sendo assim, a questão imediata que se apresenta é a seguinte: “Qual é o critério de aplicação da lei?” Maricato (1996: 26) responde:

Enquanto os imóveis não têm valor como mercadoria, ou têm valor irrisório, a ocupação ilegal se desenvolve sem interferência do Estado. A partir do momento em que os imóveis adquirem valor de mercado (hegemônico) por sua localização, as relações passam a ser regidas pela legislação e pelo direito oficial. É o que se depreende dos dados históricos e da experiência empírica atual. A lei do mercado é mais efetiva do que a norma legal. (grifo nosso)

Temos então que a conduta do Estado pode ser diferente diante das ocupações das terras da periferia (as menos interessantes para o mercado imobiliário) e as do centro (onde o interesse do capital fundiário é grande).

No que se refere à periferia e, mais especificamente, às áreas que as populações de baixa renda ocupam, sabemos que tais áreas não interessam tanto aos capitalistas, posto que não dão tantos lucros. Assim sendo, a justiça se realiza aqui pela forma como a lei é esquecida e não pela forma como ela é colocada em prática.

Chamamos a atenção para a falsa idéia de que as ocupações realizadas pelos trabalhadores pobres, sem-teto, nos terrenos da periferia da cidade não encontram resistências dos proprietários ou do Estado. Os conflitos existem sim, vide o exemplo das

inúmeras reintegrações de posse que existem nos terrenos periféricos. Mas é fato que é muito mais fácil encontrarmos a construção de conjuntos habitacionais ou o incentivo estatal aos mutirões em regiões periféricas do que nas áreas centrais.

Agora, no que se refere aos terrenos e prédios da região central, ou ainda, outros terrenos que são considerados “filé mignon” imobiliário, a luta é extremamente acirrada. Isso acontece porque há um conflito muito claro entre os interesses dos trabalhadores pobres que querem viver no centro e dos grandes capitalistas. Dessa maneira, fica nas mãos do Estado a resolução deste conflito e, como sabemos, os governantes procuram atenuar os conflitos, sem que com isso deixem de atender aos interesses mais gerais dos detentores de capital.

O acirramento da luta pelo solo urbano também pode ser visto no que se refere aos projetos destinados à dita revitalização do centro da cidade. As políticas propostas pelos governos geralmente atendem aos interesses dos grandes capitais imobiliários, supervalorizando os seus terrenos, construindo grandes centros comerciais e culturais e sendo, muitas vezes, políticas de cunho higienista, impedindo que a população pobre viva nas regiões centrais da cidade. Já o projeto de revitalização do centro dos sem-teto tem

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