Acreditamos que para se conhecer a fundo um movimento social é fundamental que saibamos bem quem é a sua base social, a qual classe social seus militantes pertencem, e daí, juntamente com as reivindicações desses movimentos e posição política, identificar o caráter classista de tal. Será, portanto, isso que tentaremos fazer aqui.
Pensando ainda que um dos nossos principais objetivos é fazer a comparação entre três movimentos dos sem-teto da Grande São Paulo de modo que possamos entender suas diferenças e semelhanças, esclarecemos que neste capítulo trataremos das semelhanças.
Falaremos mais especificamente das semelhanças existentes entre as bases sociais destes movimentos, entendendo que apesar de haver uma grande diversidade no interior das bases sociais, essas são por sua vez iguais nos três movimentos analisados. Ou seja, em todos os movimentos constatamos uma base internamente diversificada, porém ao compararmos uma com a outra esta diversidade se assemelha, dando então um caráter de similaridade entre Sem-Teto do Centro, Moradia do Centro e Trabalhadores Sem-Teto no que se referem às suas bases sociais.
3.1 População de rua e sem-teto: iguais e/ou diferentes?
Quem são os sem-teto?Muitos responderiam que os sem-teto são as pessoas que não têm moradia, as pessoas que vivem na rua, e por que não, são o que comumente chamamos de “moradores de rua”81. Aliás, esta (con) fusão entre a população em situação de rua e os sem-teto é
81 Há algum tempo, temos enfrentado dificuldades para encontrar o melhor termo para fazer referências às pessoas que não têm moradia e vivem nas ruas, pessoas que estão em condições extremamente degradantes para um ser humano. Várias são as expressões encontradas, a saber, “morador de rua”, “povo da rua”, “morador em situação de rua”, “pessoas nas ruas”, “povo de albergue”, “albergados”, “população em situação de rua” e outras mais.
Em abril de 2008, foi lançada uma pesquisa nacional sobre a “população em situação de rua” – este foi o termo utilizado. No mês seguinte, maio de 2008, aparece o debate sobre uma “Política Nacional para inclusão social da população em situação de rua”, em que diversos Ministérios participaram
constantemente feita e isso acontece na opinião pública, imprensa e, até mesmo, na academia.
Acreditamos que estas duas populações são diferentes e para podermos compreender bem quem são os sem-teto é fundamental fazer tal distinção. É importante ainda diferenciar estas duas populações já que muitos membros delas fazem questão disto: tanto os sem-teto não gostam de ser chamados de moradores de rua, como parte da população em situação de rua não gosta de ser relacionada com os sem-teto. Os motivos para essas negações são vários, dos argumentos menos politizados aos mais politicamente críticos. De um lado, há o preconceito que existe na maioria da sociedade (e com os sem- teto não é diferente) em relação às pessoas em situação de rua, acusando-as, indistintamente, de serem drogados, alcoólatras, vagabundos e até criminosos. Por outro lado, como observamos em uma conversa com uma pessoa em situação de rua dotada de extrema capacidade analítica e muito politizada, ela afirma não ser sem-teto, não fazer parte do movimento de moradia porque, além de sem-teto, ela assim como muitos outros “moradores de rua” são sem-emprego, sem-saúde, sem-escola, sem-família, enfim, seus problemas vão muito além da questão da moradia, questão esta que, na sua opinião, seria a única tratada pelos movimentos dos sem-teto.
Faz-se necessário irmos até a definição de população em situação de rua para então começarmos a ver em quais aspectos ela se diferencia dos sem-teto. Se para encontrar um termo, uma nomenclatura há uma grande dificuldade, imagine em se encontrar uma definição para esta população.
Grande parte da dificuldade acontece porque as pessoas em situação de rua são por demais heterogêneas, embora, obviamente, existam características comuns que as assemelham, por exemplo, a situação extrema de miséria econômica e a conseqüente obrigatoriedade em “estabelecer no espaço público da rua seu palco de relações privadas” (Governo Federal, 2008). Essas pessoas são todas muito pobres e por isso “algumas das (Desenvolvimento social e combate à fome, Cidades, Educação, Cultura, Saúde, Trabalho e Emprego e Justiça), mais a Secretaria Especial de Direitos Humanos e Defensoria Pública da União, além da fundamental participação de representantes do Movimento Nacional de População de Rua (MNPR), da Pastoral do Povo da Rua e do Colegiado Nacional dos Gestores Municipais da Assistência Social (CONGEMAS). Devido a esta participação de diferentes segmentos da sociedade: políticos, técnicos, especialistas e, inclusive, as próprias pessoas que se encontram na rua, acreditamos que na falta de uma nomenclatura consensual, o termo “população em situação de rua” é o melhor e será o que utilizaremos aqui.
instituições básicas da sociedade – propriedade privada, família, mercado – deixaram de propiciar as estratégias usuais de sobrevivência. Sem casa e sem lar, reiventam diariamente as soluções para a sua subsistência: alimentos, abrigo, dinheiro, bebida, remédios e segurança”. (FIPE, 2003: 6)
As pessoas em situação de rua possuem variadas características, tais como imigrantes, desempregados, egressos dos sistemas penitenciário e psiquiátrico, alcoólatras, drogados, “trecheiros”82, pessoas sozinhas sem laços familiares, casal, famílias, jovens e idosos, enfim a heterogeneidade é enorme. Existem aquelas pessoas que ainda lutam para sair da situação miserável em que se encontram, e existem aquelas que já vivem nesta situação por anos e, por isso, não têm mais condições de lutar, estão desprovidas de qualquer força, sonho ou ilusão.
Das diversas definições que encontramos sobre esta população, a definição apresentada no documento Política nacional para inclusão social da população em situação de rua (2008: 7-8) parece ser a mais indicada, embora não esteja livre de críticas: A população em situação de rua pode ser definida como um grupo populacional heterogêneo que tem em comum a pobreza, vínculos familiares quebrados ou interrompidos, vivência de um processo de desfiliação social pela ausência de trabalho assalariado e das proteções derivadas ou dependentes dessa forma de trabalho, sem moradia convencional regular e tendo a rua como espaço de moradia e sustento.
Estamos falando aqui de pessoas adultas - as pesquisas geralmente são com pessoas maiores de 18 anos -, logo, o que chamamos comumente de “meninos e meninas de rua“ seria outra população que poderia perfeitamente ser distinguida da população em situação de rua e dos sem-teto.
A heterogeneidade das pessoas em situação de rua passa também pelas diferentes faixas etárias da população: crianças, adolescente, adultos e idosos. Cada um dos grupos etários apresenta suas especificidades, que se expressam em escolhas distintas quanto aos locais de pernoite, soluções de sobrevivência,
82 “Trecheiros são pessoas que transitam de uma cidade a outra (na maioria das vezes, caminhando a pé pelas estradas, pedindo carona ou se deslocando com passes de viagem concedidos por entidades assistenciais)”. In: Política nacional para inclusão social da população em situação de rua. Governo Federal. Brasília-DF. Maio de 2008.
formas de socialização e muitos outros condicionantes da permanência na rua. (FIPE, 2003: 7)
Estamos tentando aqui demonstrar a dificuldade de se definir um tipo de população urbana e o cuidado que devemos ter com as generalizações. Por exemplo, uma pessoa pode ser “flanelinha” ou “vendedor de doces em semáforos”, atividades consideradas típicas da população em situação de rua, mas ela pode ser, na verdade, uma trabalhadora muito pobre que ainda possui uma moradia, embora essa possa ser bem precária.
Temos aqui três populações diferentes (pessoas em situação de rua, sem-teto, meninos e meninas de rua) que não devem ser confundidas. Apesar de todas elas terem como problema central a situação extrema de miséria econômica, elas possuem problemas diferenciados que exigem caracterizações distintas. Esse é um forte motivo para que o Estado, assim como as universidades e os demais centros de pesquisa tenham seus olhos mais voltados para essas populações. Pesquisas como Censo, IBGE e PNAD, que têm como unidade principal de análise o domicílio, excluem essas populações de suas pesquisa, já que eles estão na rua, em albergues ou ocupações. Dessa maneira, muito pouco se sabe sobre estas pessoas, desde seu perfil, suas necessidades até sua quantificação83.
Prosseguindo com a diferenciação entre os sem-teto e as pessoas em situação de rua, faz-se necessário uma definição para o sem-teto. Assim, acreditamos que os sem-teto são trabalhadores e trabalhadoras que não mais conseguem sobreviver com a venda da sua força de trabalho, não conseguem mais alimentar e criar seus filhos, nem ter condições
83 Dentre as três populações citadas, parece haver um número maior de informações sobre os meninos e meninas de rua. Na década de 2000, aparecem algumas pesquisas específicas sobre a população em situação de rua: pesquisa da cidade de São Paulo em 2003, e agora, em 2008, o governo federal faz uma pesquisa nacional sobre esta população. No entanto, há diversas críticas em relação a estas pesquisas já que a pesquisa nacional, devido a limites orçamentários, não contabilizou as cidades que têm pesquisas recentes como São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Isso leva alguns estudiosos a contestar a validade desta pesquisa. Quando comparamos alguns dados entre a pesquisa nacional e a realizada em São Paulo, grandes diferenças aparecem. No entanto, fica inviável fazer qualquer comparação já que a metodologia das duas pesquisas são diferentes.
No que se refere às pesquisas sobre os sem-teto, não temos quase nada, a não ser alguns dados dos próprios movimentos em que possuem certa noção do número de famílias cadastradas, alguns estudos de alguma ocupação separadamente, como é o caso da Ocupação na Rua do Ouvidor, do Moradia do Centro (MMC) em que a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAUUSP) organizou a pesquisa. Mas é certo que não temos dados oficiais sobre o perfil socioeconômico dos sem-teto, nem sua quantificação.
mínimas e dignas de moradia. Daí o (di) lema: “Se pagar o aluguel não come, se comer não paga o aluguel” (Movimento Sem-Teto do Centro).
Os sem-teto são pessoas que se encontram nas camadas mais pobres da sociedade. Nelas estão incluídos trabalhadores subcontratados, pessoas que possuem salários muito baixos e não têm estabilidade no emprego, aqueles que atuam na área informal e os desempregados. Alguns desses indivíduos dependem da boa vontade de parentes e amigos para terem onde morar. Muitos ainda são inquilinos, mas são constantemente ameaçados de despejo, ou moram em péssimas condições em cortiços e favelas. Existem ainda, alguns poucos casos, em que os sem-teto se encontram nas ruas e albergues.
Em que se diferem as pessoas em situação de rua e os sem-teto? Os sem-teto também não são pessoas pobres que não têm moradia?
As duas populações sofrem carência de moradia, no entanto, elas reagem de maneiras distintas frente a este problema. É verdade também que elas compartilham outros problemas, mas estes possuem formas e intensidades distintas dentro de uma ou outra população o que possibilita a diferenciação entre os sem-teto e as pessoas em situação de rua. Vejamos.
Pertencimento a grupos sociais com interesses comuns
Os sem-teto além de se encontrarem em uma situação miserável e viverem precariamente, eles se organizam em torno dos movimentos sociais reivindicatórios de moradia, nos ditos movimentos dos sem-teto. Sendo assim, os sem-teto só existem enquanto realidade empírica e categoria analítica a partir do momento em que levamos em consideração tanto suas condições objetivas quanto a sua construção enquanto agente político. Logo, uma pessoa pode viver em situação extremamente miserável e morar em um cortiço, por exemplo, no entanto, se ele não faz parte de um movimento reivindicatório de moradia, não o consideramos como um sem-teto.
Já a população de rua não precisa necessariamente se organizar em um movimento social para passar a existir enquanto realidade empírica e categoria analítica. Aliás, grande parte da população em situação de rua não se encontra envolvida com movimentos sociais. De acordo com a pesquisa nacional, META (2008), 95,5% da população de rua não participa de qualquer movimento social ou associação.
Levantamos algumas hipóteses sobre a baixa adesão da população em situação de rua em relação aos movimentos sociais. A primeira delas é a que devido à tamanha miséria da pessoa em situação de rua, ela não consegue se organizar para lutar por moradia, pois não teria condições físicas, econômicas e nem mesmo disposição para a luta.
Quando falamos em não ter condições físicas de participar da luta, estamos nos referindo ao fato de que parte da população de rua se encontra entregue ao alcoolismo e uso de drogas, ou ainda, possui problemas relacionados à saúde mental:
A vida na rua leva ao esquecimento da identidade, ao anonimato, à solidão e à vulnerabilidade quanto à dependência química, que acaba por se agravar por falta de atendimento público especializado para essas pessoas, principalmente em relação à saúde mental e ao envolvimento com álcool e outras drogas. (Dossiê Denúncia. Organização:
Fórum Centro Vivo. Disponível em:
http://dossie.centrovivo.org/Main/CapituloIIIParte1.
Acessado em janeiro de 2009).
No que se refere às condições econômicas, estamos nos referindo ao fato de que muitos dos movimentos dos sem-teto do centro cobram uma tarifa mensal de seus militantes, tarifa esta que a população em situação de rua não teria condição de pagar. Dos três movimentos analisados neste trabalho, apenas o Movimento dos Trabalhadores Sem- Teto não cobra taxas, no entanto, como vimos, ele atua nas regiões periféricas, dificultando assim o acesso a população de rua que se concentra majoritariamente na região central da cidade. Muitas das pessoas que vivem na rua não conhecem os movimentos dos sem-teto, nunca ouviram falar disso. E, portanto, dificilmente elas teriam condições de saber quais são os movimentos que cobram ou não as ditas mensalidades.
Isso, no entanto, não significa que todos aqueles que conhecem os movimentos reivindicativos de moradia queiram e façam parte deles. É aqui que aparece nossa segunda hipótese. Apesar do conhecimento a respeito dos movimentos dos sem-teto por parte das pessoas que vivem na rua, algumas destas não possuem interesse naqueles. Isso pôde ser visto através da conversa com Davi, pessoa em situação de rua:
Pesquisadora: Algo que sempre penso é o porquê de os moradores de rua não se organizarem em movimentos sociais. Por que não participam dos movimentos dos sem-teto?
(Davi me olha com um desprezo, pega a sua bolsa e, inesperadamente, retira três livros de dentro dela.)
Davi: Você já leu algum?
(Dou uma olhada e folheada, percebendo que são cartilhas de um dos movimentos dos sem-teto, respondo que não).
Davi: Pois é, eu leio tudo.
Pesquisadora: E você faz parte de algum movimento? Davi: Não
Pesquisadora: Por quê?
Davi: Porque estes movimentos só dizem que devemos lutar, que devemos fazer, que tem que esperar um pouco...Mas, por fim, não resolve nada. É só um pouco de comida que eles dão ou um lugar ali pra dormir, mas não resolve nada.
Aliás, é só mais confusão, briga e ainda tem um monte de normas a seguir...
Pesquisadora: Então você acredita que sozinho é mais fácil de mudar sua situação. Sozinho você pode procurar um emprego, conseguir uma casa...
Davi: Não... Não tem como mudar... Nada vai mudar! (Pesquisa de campo, novembro de 2005).
Verificamos assim que mesmo o indivíduo sabendo da existência do tal movimento social, não quer participar, não acredita que a organização de um movimento possa levar a uma transformação de sua situação social real. Os movimentos dos sem-teto seriam assim apenas mais uma ilusão que, na verdade, só resultam em mais problemas, ora envolvimento com brigas, ora cumprir algumas normas como, por exemplo, a não ingestão de bebidas alcoólicas dentro dos prédios ocupados. Ficamos com a sensação de que o que marca o discurso de uma parte da população em situação de rua é uma imensa descrença. Descrença em tudo: no governo, nos movimentos sociais, nas pessoas e, até mesmo, neles próprios, adotando, em grande parte dos casos, o discurso de individualização e de culpas e fracassos pessoais.
Por outro lado, existe parte da população em situação de rua que ainda não perdeu as esperanças em mudar de vida e que por isso se organiza em movimentos para lutar por seus direitos: estes variam desde o direito a freqüentar albergues, ser tratados com mais humanidade pela sociedade e pelas gestões públicas, até aos direitos sociais, como saúde, moradia, educação, emprego, etc. A Pastoral do Povo da Rua, dirigida por pessoas ligadas ao setor progressista da Igreja Católica, realiza um importante trabalho ao organizar a população de rua para reivindicar seus direitos.
É verdade ainda que, a partir de 2004, após um terrível massacre de algumas pessoas em situação de rua, que ocorreu em São Paulo e em algumas outras grandes cidades, deu-se início à organização do Movimento Nacional da População de Rua. Tivemos a oportunidade de ter uma conversa com um dos coordenadores deste movimento, no ano de 2008, e foi possível ver que este movimento ainda estava em seu embrião, ele não possuía uma sede, não havia um cadastramento das pessoas, uma quantificação de seus militantes.
De acordo com André, um dos coordenadores do movimento da população de rua, a luta que esse movimento busca travar é por políticas públicas e não só pela moradia. Objetiva-se assim formar um cidadão de direitos, que lute por tudo que ele não tem: saúde, educação, moradia e lazer. No entanto, André lembra que a pessoa em situação de rua precisa primeiramente de trabalho e não moradia, já que se um indivíduo tem trabalho ele tem uma morada, não importando onde ele more, mas ele tem um teto.
O referido coordenador critica fortemente os movimentos dos sem-teto, dizendo que estes estancam a luta apenas na moradia. Daí viria a necessidade de se fundar um outro movimento que lute por diversos direitos da população. No entanto, a partir de nossas observações, percebemos que ainda não há um movimento da população em situação de rua organizado e forte como os movimentos dos sem-teto.
Dessa maneira, a primeira e grande diferença entre um sem-teto e uma pessoa em situação de rua é que o sem-teto se define a partir de sua participação em movimentos sociais e especificamente em movimentos reivindicatórios de moradia, ou seja, são aquelas pessoas miseráveis que ao perceberem que outras pessoas se encontram na mesma situação entendem que há necessidade de união e organização para se travar uma luta em torno daquilo que eles têm em comum: a carência de moradia.
A partir de uma outra perspectiva, Frúgoli Jr; Aquino; Costa (2006: 15-16) chegam mais ou menos a essa idéia:
Os grupos aqui enfocados – os sem-teto e a população de rua – representam duas construções identitárias significativas no interior das camadas populares, e embora aparentemente tais identidades se construam em relação ao mesmo tema – a falta de moradia (razão pela qual são, várias vezes, confundidos em matérias da grande imprensa) -, são grupos, como se pode ver, efetivamente marcados por peculiaridades em seus modos de composição e organização
interna, usos do território, projetos políticos e ações cotidianas.
No caso dos sem-teto, uma identidade forjada a partir de práticas eminentemente políticas, a casa própria é assumida como horizonte a ser obtido através de ações coletivas, e várias de suas mobilizações contam, como vimos, com a participação de moradores ou ex-moradores de cortiços (também situados nas regiões mais centrais da metrópole), que almejam superar a dependência de tal modalidade espoliativa de habitação alugada, cuja única vantagem é a proximidade do trabalho e de inúmeros serviços e equipamentos urbanos (Kowarick, 2005). (...)
No caso da população de rua, marcada por forte diversidade interna, muitas vezes as demandas de “direito à rua” prevalecem sobre o direito à moradia, com vários tipos de uso dos espaços públicos que subvertem os significados correntes sobre o público e o privado. Se com relação aos sem-teto observa-se uma construção identitária