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OS MOVIMENTOS SOCIAIS

No documento A PRIMEIRA REPÚBLICA (páginas 28-33)

Ao longo da P rim eira R epública os m o vim entos sociais de trabalhadores ganharam certo ím peto, ta n to no cam po qu an to nas cidades. N o prim eiro caso eles p o d em ser divididos em três grandes grupos: l e - os que com binaram con­

teúdo religioso com carência social; 2- os que com binaram conteúdo religioso com reivindicação social; 32 os que expressaram reivindicações sociais sem co n ­ teú d o religioso.

C anudos, cuja história já foi brevem ente relatada, é u m exemplo do p rim ei­

ro grupo. O m ovim ento do C ontestado constituiu u m exem plo do segundo. O C ontestado era u m a região lim ítrofe entre o P araná e Santa C atarina cuja posse vinha sendo reivindicada p o r am bos os Estados. O m ovim ento aí surgido em 1911 não tin h a p o rém p o r objeto essa disputa. Nasceu reu n in d o seguidores de um “coronel” tido com o am igo dos pobres e pessoas de diversas origens atingi­

das pelas m udanças que v in h am ocorren d o na área. E ntre elas, trabalhadores rurais expulsos da te rra pela construção de u m a ferrovia e u m a em presa m a ­ deireira e gente que tin h a sido recrutada n a construção da ferrovia e ficado d e­

sem pregada no fim de seus contratos.

Os rebeldes se agruparam em to rn o de José M aria, u m a figura que m o rreu nos prim eiros choques com a m ilícia estadual e foi santificada. Estabeleceram vários acam pam entos, organizados n a base da igualdade e fraternidade entre os m em bros. R eivindicaram a posse da terra en q u an to esperavam a ressurreição de José M aria. Fustigados p o r tropas estaduais e do Exército, os rebeldes foram liquidados em 1915.

O terceiro grupo de m ovim entos sociais no cam po tem com o exemplo mais expressivo as greves p o r salários e m elhores condições de trabalho ocorridas nas fazendas de café de São Paulo. H ouve centenas de greves localizadas que deixa­

ram u m registro escasso. A m ais im p o rta n te ocorreu em 1913, reu n in d o m ilha­

res de colonos da região de Ribeirão Preto p o r ocasião da safra. Os colonos p re ­ te n d ia m a revisão de seus c o n tra to s de tra b a lh o e p a ra lisa ra m as grandes fazendas. H ouve intervenção da polícia e do cônsul da Itália, que p ro cu ro u ser­

vir com o interm ediário nas negociações. Afinal, os objetivos dos colonos não foram alcançados.

O crescim ento das cidades e a diversificação de suas atividades foram os re­

quisitos m ínim os de constituição de u m m ovim ento da classe trabalhadora. As cidades co n cen traram fábricas e serviços, reu n in d o centenas de trabalhadores que participavam de u m a condição com um . Sob este ú ltim o aspecto, não havia m uita diferença com relação às grandes fazendas de café. Mas nos centros u rb a ­ nos a liberdade de circulação era m u ito m aior, assim com o era m aior a circula­

ção das idéias, p o r significativas que fossem as diferenças de instrução e a a u ­ sência de veículos de am pla divulgação.

M esm o assim o m ovim ento da classe trab a lh ad o ra u rbana, no curso da P ri­

m eira República, foi lim itado e só excepcionalm ente alcançou êxitos. As p r in ­ cipais razões desse fato se en c o n tram no significado relativo da in d ú stria, sob o aspecto econôm ico, e da classe operária, sob o aspecto sociopolítico. As

gre-ves só tin h a m forte repercussão q u a n d o eram gerais o u q u an d o atingiam se- tores-chave do sistem a agroexportador, com o as ferrovias e os po rto s. P or sua vez, o jogo político oligárquico p o d ia ser feito sem necessidade de agradar a m assa o p e rária nascente. Os o p erário s se div id iam p o r rivalidades étnicas e estavam p o u co prop en so s a organizar-se, pois a sim ples sindicalização já os colocava na “lista negra” dos industriais. A lém disso, m u ito s deles eram im i­

grantes que ainda n ão tin h a m ab an d o n ad o as esperanças de “fazer a A m érica”

e voltar p a ra a Europa.

N a capital da República, q u an d o do su rg im en to dos p rim eiro s p a rtid o s operários, no fim do século XIX, p red o m in aram u m vago socialism o e u m sin­

dicalismo pragm ático, tendente a buscar o atendim ento de reivindicações im e­

diatas, com o aum ento de salário, lim itação da jo rn ad a de trabalho, salubridade, ou de m édio alcance, com o o reconhecim ento dos sindicatos pelos p atrões e pelo Estado.

C ontrastando com esse quadro, em São Paulo p red o m in o u o anarquism o, ou m elhor, u m a versão dele: o anarco-sindicalism o. N a prática, ten d o em vista a distância entre seu program a e a realidade social brasileira, os anarquistas, ape­

sar de assum irem u m a ideologia revolucionária, foram levados a co ncentrar es­

forços nas m esm as reivindicações sustentadas p o r seus adversários. Isso não im ­ p ed iu que as duas tendências se guerreassem , debilitando o já frágil m ovim ento operário.

As diferenças ideológicas e de m étodo de ação entre o m ovim ento operário do Rio de Janeiro e o de São Paulo se devem a u m conjunto de fatores. Eles d i­

zem respeito às características das duas cidades e à com posição da classe tra b a ­ lhadora.

Em fins do século XIX, a capital da República tin h a u m a estru tu ra social m u ito m ais com plexa do que a existente em São Paulo. Ali se concentravam se­

tores sociais m enos dependentes das classes agrárias, onde se incluíam a classe m édia profissional e burocrática, m ilitares de carreira, alunos da Escola Militar, estudantes das escolas superiores. A presença dos jovens m ilitares e a m en o r dependência da classe m édia com relação às classes agrárias favoreceu até certo p o n to u m a política de colaboração de classes. Os m ovim entos de protesto no Rio de Janeiro até 1917 tiveram u m conteúdo mais p o p u lar do que especifica­

m ente operário. U m exemplo disso, além do jacobinism o, foi a “revolta da vaci­

na” ocorrida em 1904, no governo de R odrigues Alves, co n tra a intro d u ção da vacina co n tra a varíola.

D o ângulo da com posição da classe trabalhadora, devem os lem brar que ela se concentrava principalm ente em setores vitais dos serviços (ferroviários, m a­

rítim os, doqueiros), tratados com certa consideração pelo governo. H avia ta m ­ bém no Rio de Janeiro u m m aio r contingente de trabalhadores nacionais, im ­ buídos de u m a tradição paternalista nas relações com os patrões e o governo.

Apesar do crescim ento, São Paulo tin h a ainda u m a estru tu ra social m enos diversificada. A classe m édia girava em to rn o da burguesia do café e não havia grupos m ilitares inquietos, dispostos a se aliar com “os de baixo”. A m aio r p re ­ sença de operários estrangeiros, sem raízes n a nova terra, favorecia a influência difusa do anarquism o: os patrões e o governo, principalm ente este últim o, eram o “o u tro ”, o inim igo.

Desde o início da Prim eira República surgiram expressões da organização e m obilização dos trabalhadores: p artid o s operários, aliás com poucos operários, que logo desapareceram , sindicatos, greves. Os anarquistas te n ta ra m m esm o organizar a classe o perária no nível nacional, com a criação da Confederação O perária Brasileira em 1906. Mas o m ovim ento era esparso e raram en te des­

pertava a atenção e a preocupação da elite. O btinham -se direitos pressionando os patrões, sem que eles fossem assegurados em lei. Passado o m o m en to de pres­

são, os direitos se perdiam .

Esse quadro foi in terro m p id o entre 1917 e 1920, qu an d o u m ciclo de greves de grandes proporções surgiu nas principais cidades do país, especialm ente no Rio de Janeiro e em São Paulo. N a raiz desse ciclo estavam dois fatores: p rim e i­

ro, o agravam ento da carestia, em conseqüência das perturbações causadas pela Prim eira G uerra M undial e pela especulação com gêneros alim entícios; segun­

do, a existência de um a vaga revolucionária n a Europa, aberta com a Revolução de Fevereiro, seguida da Revolução de O u tu b ro de 1917, n a Rússia czarista. O m ovim ento operário passou a ser objeto de preocupações e gan h o u a p rim eira página dos jornais.

Os trabalhadores não p retendiam revolucionar a sociedade, m as m elhorar suas condições de vida e conquistar u m m ínim o de direitos. O que não quer d i­

zer que m uitos não fossem em balados pelo sonho de u m a sociedade igualitária.

D entre as três greves gerais do período, a de ju n h o /ju lh o de 1917 em São Paulo perm aneceu m ais forte na m em ó ria histórica. A tal p o n to que a atenção tende a se concentrar nela, esquecendo-se o quadro m ais am plo das mobilizações.

A o n d a grevista arrefeceu a p a rtir de 1920, seja pela dificuldade de alcançar êxitos, seja pela repressão. Esta se abateu p rin cip a lm en te sobre os dirigentes

operários estrangeiros, que tin h a m papel im p o rta n te com o organizadores. M u i­

tos deles foram expulsos do país.

Seria exagerado dizer que, antes da o nda grevista de 1917-1920, o Estado se ten h a desinteressado inteiram ente de regular as relações de trabalho ou a sindi- calização operária. Foi, entretanto, só no curso da vaga de greves que se cogitou consistentem ente de se aprovar u m a legislação. As principais propostas surgi­

ra m no Congresso Nacional, reunidas em u m projeto de Código de Trabalho que previa a jo rn ad a de oito horas, o lim ite ao trabalho de m ulheres e m enores, a licença para as m ulheres grávidas. O projeto foi bom b ard ead o pelos in d u stri­

ais e pela m aioria dos congressistas. Restou apenas a lei que regulava a in d en i­

zação p o r acidentes de trabalho, aprovada em 1919.

N a década de 1920, en q u an to o m o v im en to o p erário arrefecia, su rg iram claros indícios de u m a ação do Estado no sentido de intervir nas relações de tr a ­ balho m ediante u m a legislação concessiva de direitos m ínim os aos trab alh ad o ­ res. D uas leis foram im p o rtan tes nesse sentido: a lei concedendo quinze dias de férias aos trabalhadores do com ércio e da in d ú stria (1925) e a que lim itava o trabalho dos m enores. E ntretanto, a lei de férias dependia de regulam entação e até 1930 não foi aplicada n a área da indústria, p o r pressão dos industriais.

No com eço dos anos 20, surgiu u m a crise no in terio r do anarquism o. Os poucos resultados obtidos pelas greves, apesar de seu ím peto, abriram cam inho p ara as dúvidas sobre as concepções dessa corrente. Ao m esm o tem po, no pla­

no internacional, chegavam ao Brasil notícias da ru p tu ra entre os anarquistas e os com unistas, que tin h a m triu n fad o n a Rússia.

A Revolução de O u tu b ro de 1917 parecia anu n ciar a “a u ro ra de novos te m ­ pos”, e os agrupam entos de esquerda que lhes faziam restrições, aparentem ente,

“iam contra a m archa da H istória”. Nasceu assim, em m arço de 1922, o Partido C om unista do Brasil, cujos fundadores, em sua m aioria, p ro v in h am do an a r­

quism o. Essa origem foi excepcional n a A m érica Latina, onde praticam ente to ­ dos os p artidos com unistas resultaram de cisões do Partido Socialista. O PCB esteve n a ilegalidade em quase to d a a sua história. Até 1930, foi u m p artid o de q u ad ro s p re d o m in a n te m e n te operários, cujo n ú m ero n u n c a ultrap asso u m il m em bros. S ubordinou-se à estratégia da III Internacional, com sede em M os­

cou, que pregava p ara os países coloniais e sem icoloniais a revolução dem ocrá­

tico-burguesa, etapa prelim inar da revolução socialista.

No documento A PRIMEIRA REPÚBLICA (páginas 28-33)

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