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A PRIMEIRA REPÚBLICA

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A PRIMEIRA REPÚBLICA ( 1889 - 1930 )

3.1. OS ANOS DE CONSOLIDAÇÃO

C om o episódio, a passagem do Im pério p ara a República foi quase u m pas­

seio. Em com pensação, os anos posteriores ao 15 de novem b ro se caracteriza­

ram p o r u m a grande óncerteza rD s vários grupos que disputavam o p o d er ti­

n h a m in teresses diversos e divergiam em suas concepções de com o organizar a República. Os representantes políticos da classe d o m in an te das principais p r o ­ víncias - São Paulo, M inas Gerais e Rio G rande do Sul - defendiam a idéia da

*iep«blie£. federativa, "tyje asseguraria u m grau considerável de a u to n o m ia às unidades_u£gianais.

D istin g u iam -se p o ré m em outros aspectos da organização do poder. O PRP e os p olíticos m in eiro s sustentavam o m odelo liberaD O s republicanos gaúchos eram positivistas^N ão são claras as razões pelas quais, sob o com ando de Júlio de Castilhos, o Rio G rande do Sul se to rn o u a principal região de influência do positivism o. É possível que p ara isso ten h a concorrido a tradição m ilitar n a q u e­

la área e o fato de que os republicanos eram aí u m a m inoria, em busca de u m a d o u trin a capaz de lhes dar forte coesão. Eles teriam de se im p o r a u m a corrente política tradicional, representada no Im pério pelo Partido Liberal.

O u tro setor a ser considerado é 6 m ilita ^ Ò s m ilitares tiveram bastante in ; fluência nos prim eiros anos da República. O m arechal D eodoro da Fonseca tor-

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nou-se chefe do G overno Provisório e algum as dezenas de oficiais foram eleitos p a ra o Congresso C o n stituinte. Mas n a o k o n s titu ía m u m grupo hom ogêneo.

Havia rivalidades entre o Exército e a M arinha: en q u an to o Exército tin h a sido o artífice do novo r egim e, a M arin h a era vista com o ligada à M onarquia.

Existiam ainda d iferenças pessoais e de concepções, separando os p a rtid á ­ rios de D eodoro da Fonseca e de Floriano Peixoto. E m to rn o do velho m arechal reuniam -se veteranos da G uerra do_£araguai. M uitos desses oficiais não haviam freqüentado a Escola M ilitar e distanciavam -se das idéias positivistas. T inham 1 ajudado a d erru b ar a M onarquia “p a ra salvar a h o n ra do Exército” e nac pos­

suíam u m a visão elaborada da República, a não ser a de que o Exército deveria ter u m papel m aio r do que o desem penhado n o Im pério.

E m b o ra F lo rian o n ão fo sse p ositivista e tivesse p a rtic ip a d o ta m b é m da G u erra do Paraguai, os oficiais que se re u n ia m à sua volta p o ssu íam o u tras características. E ram os jovens que haviam freqüentado a Escola M ilitar e rece­

bido a influência do positivism o. C oncebiam sua inserção na sociedade com o soldados-cidadãos, com a m issão de dar u m sentido aos ru m o s do país. A Re­

pública deveria ter ordem e tam b ém progresso. Progresso significava a m o der- nização da sociedade através da am pliação dos co n h e cim en to s técnicos, do industrialism o. da expansão das com unicações.

A pesar da p ro fu n d a riv alid ade existente en tre os g ru p o s no in te rio r do Exército, eles_se aproxim avam em u m p o n to fundam ental. N ão expressavam os interesses de u m a classe social com o era o caso dos defensores da República li­

beral. E ram sim, antes de m ais nada, os porta-vozes de u m a in stitu ição que era p a rte do aparelho do Estado. Pela n atu reza de suas funções, pelo tipo de cu ltu ra desenvolvida no in terio r da instituição, os oficiais do Exército, positivistas ou não, situavam -se com o adversários do liberalism o. Para eles, a República deve­

ria ser dotada de u m Poder Executivo forte oiy.passar p o r u m a fase m ais ou m e ­ nos prolongada de ditadura. A a u to n o m ia das províncias tin h a u m sen tid o sus- peilfi, não só p o r servir aos interesses dos grandes proprietários rurais com o p o r envolver o risco de fragm entar o p aís.

Os partid ário s da República liberal apressaram -se em garan tir a convocação de u m a Assembléia C onstituinte, tem erosos do p ro longam em ento de u m a se^

m id itad u ra sob o com ando pessoal de Deodoro'. O novo regim e fora recebido com desconfianças n a E uropa e era necessário d ar u m a form a constitucional ao país p ara garan tir o reconhecim ento da República e a obtenção de créditos no exterior.

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A p rim e ira C onstituição rep u b lica n a, p ro m u lg ad a em fevereiro de 1891, inspirou-se n o m odelo n o rte-am erican o , consagrando a República federativa liberal. Qs_ E stadcJ)- designação dada daí p ara a frente às antigas jprovíncias - ficaram im plicitam ente autorizados a exercer atribuições diversas, com o as de contrair em préstim os no exterior e organizar forças m ilitares p ró p rias: as for­

ças públicas estaduais. As atribuições eram do interesse dos grandes F.stados e, sobretudo, de São PauloJA possibilidade de co n trair em préstim os no exterior seria vital p a ra que o governo paulista pudesse p ô r em._prática o« planos de v a­

lorização do café.

U m a atribuição expressa im p o rta n te p ara os Estados exportadores - e p o r­

ta n to p a ra São Paulo - foi a de_decreta r im postos sobre a exportação de suas m ercadorias. Desse m odo, garantiam u m a im p o rta n te fonte de renda que p o s­

sibilitava o exercício da autonom ia. Os Estados ficaram tam b ém com a facul- d ade de organizar u m a iustiça própria.

O governo federal (U nião) não ficou destituído dejxtderes^ A idéia de u m ultrafederalism o, sustentada pelos positivistas gaúchos, foi com batida tan to p e ­ los m ilitares qu an to pelos paulistas. O esfacelam ento d o p o d er cen tral era u m risco que, p o r razões diversas, esses setores não q u eriam correr. A U nião ficou com os im postos de im p o rta ç ã o , com o direito de criar b a n c os em issores de m o ed a, d e organizar as Forças A rm adas nacionais etc. Ficou ainda com a facul­

dade de in terv ir nos Estados p a ra restabelecer a ordem , p a ra m a n te r a form a republicana federativa

AcÇo n stituiçâp1 in a u g u ro u o sistem a presidencialista de governo. O Poder Executivo, que antes coubera ao Im p e rador, seria exercido p o r u m presidente da R epública, eleito p o r u m p erío d o de g ú atro ãnõsT^C o m o no Im pério, o Le­

gislativo foi dividido em C âm ara de D ep u tad os e Senado, m as os senadores dei­

xaram de ser v italícios. Os d eputados seriam eleitos em cada E stado, em n ú m e ­ ro p ro p o rcio n al ao de seus habitantes, p o r u m período de três anos) A eleição dos senadores se dava p ara u m período de nove anos, em n ú m ero fixo: três se- nadores representando cada Estado e três r epresentando o D istrito Federal, isto é, a capital da República.

Fixou-se o sistem a do voto direto e universal, suprim in d o -se o censo eco­

nôm ico. Foram considerados eleitores todos os cidadãos brasileiros m aiores de 21 anos, excluídas certas categorias, com o os analfabetos, os m endigos, o s pra- ças m ilitares. A C onstituição n ão fez referência às m ulheres, m as considerou-se im p licita m e n te que elas estavam im p ed id as de votar. E xcepcionalm ente, os

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prim eiros presidente e vice-presidente da R epública seriam eleitos p elo voto in ­ direto ria Assembléia C onstituinte, tran sfo rm ad a em Congresso ordinário.

O texto constitucional consagrou o direito d o s brasileiros e estrangeiros re ­ sidentes no país à liberdade, à segurança individual e à propriedade. E xtinguiu a pen a de m o rte, aliás rara m en te aplicada n o Im pério. Estado e Igreja passa­

ra m a ser in s titu ições separadas. D eixou assim de existir u m a religião oficial n o Brasil. Im p o rta n te s funções até então m ono p o lizad as pela Igreja C atólica foram a tribuídas ao Estado. A R epública só reconheceria o casam gnto civil e os cem itérios p assaram às m ãos da adm inistração m unicipal. Neles seria livre o culto de todas as crenças religiosas. U m a lei veio co m pletar em\1893 esses p re ­ ceitos constitucionais, criando o registro civil p a ra o nascim ento e a m o rte das pessoas. As m edidas refletiam a convicção laica dos dirigentes republicanos, a necessidade de aplainar os conflitos entre o Estado e a Igreja e o objetivo de facilitar a integração dos im igrantes alem ães, que eram em sua m aio ria lu te ra ­ nos. O u tra m ed id a d estinada a in teg rar os im igrantes foi a cham ada grande n a ­ tu ralização . P o r ela, to rn a ra m -s e cid a d ão s b rasileiro s os estran g eiro s que, achando-se no Brasil a 15 de novem bro de 1889, não declararam d en tro de seis m eses após e n tra r em v ig o r a C o n stitu iç ã o o desejo de co n serv ar a n a c io ­ nalidade de origem .

«► *■ *

R ecebida com restriçõ es n a In g laterra, a p r o clam ação da R epública foi saudada com entusiasm o n a A rgentina e aproxim ou o Brasil dos E stados U ni- dos. A m u d an ça de regim e se deu qu an d o estava em curso, em W ashington, a I C onferência In te rn a c io n al A m ericana, convocada p o r iniciativa dos Estados U nidos. O representante brasileiro à conferência foi su b stitu íd o p o r Salvador de M endonça, republicano histórico, que coincidiu com m uitos dos p o n to s de vista norte-am ericanos.

O n ítid o deslocam ento do eixo d a diplom acia brasileira de L ondres p ara W ashington se deu com a en tra d a do barão do Rio Branco p ara o M inistério das Relações Exteriores, onde perm aneceu p o r longos anos, entre 1902 e 1912, atravessando várias sucessões presidenciais. A política de Rio B ranco não rep re­

sen to u u m a lin h am en to au to m ático com os Estados U nidos, m as u m a forte aproxim ação, com o objetivo de alcançar p a ra o Brasil a posição de p rim eira potência sul-am ericana.

Os tem pos de euforia nas relações. B rasil/A rgentina haviam passado, e os dois países en traram em aberta com petição n a esfera m ilitar. O Brasil tra to u de

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captar a sim patia de nações m e n o res, com o o U ruguai e o Paraguai, e de apro- xim ar-se do Chile p a ra lim itar a influência argentina. M esm o assim, sobretudo n o s ú ltim o s anos de sua gestão, Rio B ranco te n to u sem êxito im p la n ta r u m acordo estável entre A rgentina, Brasil e Chile, conhecido com o ABC.

No período de Rio Branco, o Brasil definiu questões de lim ites com vários países da A m érica do Sul, entre eles o U ruguai, o Peru e a C olôm bia. U m confli­

to arm ado opôs brasileiros e bolivianos na disputa pelo'Acr§3)na região am azô- nica, subitam ente valorizado pela exploração da borracha. A área, considerada territó rio boliviano, era ocupada, em grande parte, p o r m ig rantes brasileiros.

U m a solução negociada resultou no Tratado de P etrópolis (I9Ü7}) pelo qual a Bolívia reconheceu a soberania brasileira no Acre, recebendo em troca u m a in ­ denização de 2,5 m ilhões de libras esterlinas.

* * *

O prim eiro ano da R epública foi m arcado p o r u m a febre de negócios e de especulação financeira, com o conseqüência de fortes em issões e facilidade de crédito. De fato, o m eio circulante era incom patível com as novas realidades do trabalho assalariado e do ingresso em m assa de im igrantes. Form aram -se m ui- tas em presas, algum as reais e outras fantásdcas. A especulação cresceu nas Bol­

sas de Valores e o custo de vida subiu fortem ente. N o início de 1891 veio a crise, com a d erru b ad a do preço das ações, a falência de estabelecim entos bancários e empresas. O valor da_ m oeda brasileira, cotado em relação à libra inglesa, com e­

çou a despencar. É possível que p ara isso ten h a concorrido u m refluxo na apli­

cação de capitais britânicos n a A m érica Latina, após u m a grave crise financeira n a A rgentina (1890).

Em plena crise, o Congresso elegeu D eodoro da Fonseca p a ra a Presidência da República e Floriano Peixoto p a ra a V ice-Presidência. Deadxn», en tro u em ch o q u e com o Congresso ao pretender reforçar o Poder Executivo, ten d o com o m odelo o extinto Poder M oderador. Fechou o Congresso, p ro m eten d o p ara o futuro novas eleições e u m a revisão da C onstituição visando fortalecer o Poder Executivo e reduzir a au to n o m ia dos Estados. O êxito dos planos de D eodoro dependia da u nidade das Forças A rm adas, o que não ocorria. A nte a r eação dos florianistas, da oposição civil e de setores da M arinha, D eo d o io acabou re n u n ­ ciando (23-11-1891). Subia ao p o d er o vice-presidente Floriano Peixoto.

O m arechal Floriano encarnava u m a visão da R epública n ã o id e n tific a d a >

com as forças econôm icas dom inantes. Pensava co n stru ir u m governo estável,

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centralizado, ^ag am egj£.parjnna 1 ista. baseado sobretudo no Exército e n a m o ­ cidade das escolas civis e m ilitares. Essa visão c h o cava-se com a da cham ada “re- pública dos fazendeiros” liberaL c-descentralizada. que via com suspeitas o re­

forço do Exército e as m anifestações da população u rb an a do Rio de Janeiro.

Mas, ao contrário do que se pod eria prever, houve n a presidência de Floria- no u m acordo tático entre o p residente e o PRR As razões básicas p ara isso fo­

ram os riscos reais e às vezes im aginários que corria o regim e republicano. A elite p o lítica de São Paulo via na figura de Floriano a possibilidade m ais segura de garan tir a sobrevivência da República. Este, p o r sua vez, percebia que sem o PRP não teria base política p ara governar.

* * >f

U m a das regiões politicam ente m ais instáveis do país nos prim eiros anos da República era o Rio G rande do Sul. E ntre a proclam ação da R epública e a eleição de Júlio de C astilhos p a ra a presidência do Estado, em novem b ro de 1893, dezessete governos se sucederam no com ando do Estado. O punham -se, de u m lado, os republicanos históricos adeptos do positivism o, organizados no P artido R epublicano R io-gra n d en se (PRR) e, de outro, os liberais. Em m arço de 1892 estes fu n d aram o Partido Fjderalista, aclam ando com o seu líder Silvei­

ra M artins, prestigiosa figura do Partido Liberal n o Im pério.

As bases sociais dos federalistas encontravam -se p rin cip a lm en te en tre os estancieiros da C am panha, região localizada no sul do Estado, n a linha de fro n ­ teira com o U ruguai. Eles constituíam a elite política trad icio nal, com raízes no Im pério. Os republicanos baseavam -se n a população do tífOíal e da Serra, onde se encontravam m uitos im igrantes. Form avam u m a elite m ais recente, que ir­

rom pia na política disposta a m o n o p o lizar o poder.

A guerra civil entre os dois grupos, conhecida com o Revolução Federalista, com eçou em fevereiro de 1893 e só term in o u m ais de dois anos e m eie-depois, já n a p residência de Priidpnte__deLMoraes. A luta foi implacável, dela resultando milhâXÊS-de.niQrtos. M uitos deles não m o rre ram em com bate: foram degolados após terem caído prisioneiros.

Desde o início do confronto, Floriano teve o apoio financeiro de São Paulo e de sua bem organizada m ilícia estadual. Ao m esm o tem po, a influência d o s m ilitares no g o v e r n o jo ije c lin a n d o . N o M in istério da Fazenda estava R odri- gues Alves, de u m a fam ília paulista do Vale do Paraíba, antigo conselheiro do Im pério convertido à República. A presidência da C âm ara e a do Senado e n ­ contravam -se tam b ém em m ãos do PRP.

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O acordo tático entre Floriano e a elite política de São Paulo te rm in o u p o r ocasião da escolha de seu sucessor. D ispondo de poucas bases de apoio, entre as quais se encontravam os ruidosos m as pouco eficazes jacobinos, Floriano não teve condições de d esignar seu candidato a sucessor. Prevaleceu o n o m e do p a u ­ lista P ru dente de M oraes, eleito a l 2 de m arço de J8 9 1 X ) m arechal dem o n stro u sua contrariedade não com parecendo à posse. Segundo as crônicas, preferiu fi­

car em sua casa m odesta, cuidando das rosas de seu jardim .

A sucessão presidencial m arco u o^fim^la presença de figuras do Exército na Presidência da-República, com exceção do m arechal H erm es da Fonseca, eleito p ara o p erío d o 1910-1914. Além disso, a atividade política dos m ilitares com o u m to d o declinou. O Clube M ilitar, que coordenava essas atividades, ficou fe­

chado entre 1896 e 1901.

No governo de P rudente de M o raes, to rn o u -se aguda a oposição já existen­

te n a época de Floriano entre a elite política dos grandes E stados e o republica­

nism o jacohjno. co n cen trad o no Rio de Janeiro. O s jac o b in os form avam u m co n tin g en te de m em b ro s da baixa classe m é d ia, alguns op e rá rios e m ilitares atingidos pela carestia e as m ás condições de vida. Suas m otivações não eram apenas m ateriais. A creditavam em u m a república forte, capaz de com bater as am eaças m o n arq u istas, que p a ra eles estavam em to d a p arte. A dversários da República liberal, assum iam tam b ém a velha tradição p atriótica e antilusitana.

Os “galegos”, em cujas m ãos estava grande p arte do com ércio carioca, eram alvo de violentos ataques. Os jacobinos ap o iaram F loriano e o tra n sfo rm ara m em u m a ban d eira depois de sua m orte, ocorrida em ju n h o de 1895.

* * *

U m acontecim ento m u ito distante do Rio de Janeiro, m as com conseqüên­

cias n a política da República, assinalou os anos do governo de P rudente de M o­

raes. N o sertão n o rte da Bahia form ara-se, em Í8 9 |2 £ m u m a fazenda ab an d o ­ nada, u m a povoação conhecida com o arraial de C anudos. Seu líder era A ntônio Vicente M endes Maciel, m ais conhecido com o A ntônio Conselheiro. O C onse­

lheiro nascera no Ceará, filho de u m com erciante que pretendia fazer dele u m padre. D epois de ter problem as financeiros e com plicações dom ésticas, exerceu várias profissões, com o professor e v en d ed o r am b u lan te, até se converter em beato - u m m isto de sacerdote e chefe de jagunços.

Levou u m a vida n ô m ad e pelo sertão, congregando o povo para co n stru ir e reconstruir igrejas, erguer m u ro s de cem itério e seguir o cam inho de u m a vida

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ascética. Fixou-se depois em C anudos, a train d o a população sertaneja, em n ú ­ m ero que alcançou de 20 m il a 30 m il habitantes.

A p reg ação do C onselheiro co n co rria com a da Igreja; u m in cid en te sem m aio r im portância, em to rn o do corte de m adeira, levou o governador da Bahia à decisão de dar u m a lição nos “fanáticos”. S urpreendentem ente, a força baiana foi derrotada. O governador apelou então p ara as tropas federais. A d erro ta de duas expedições m uniciadas com canhões e m e tralhadoras, em u m a das quais m o rreu seu co m an d an te, provocou u m a o n d a de protestos e de violência no Rio de Janeiro.

Os jacobinos viam o dedo oculto dos políticos m onarquistas em u m episó­

dio ligado às condições de vida do sertão e ao universo m ental dos sertanejos.

Essa fantasia era alim entada pelo fato de o C onselheiro p reg ar a volta da M o- n arauia. A República - segundo ele - só p o d ia ser coisa de ateus e m açons, com o com provavam a in tro d u ç ã o do casam ento civil e u m a su p o sta interdição da C om panhia de Jesus.

U m a expedição sob o com ando do general A rtu r Oscar, constituída de 8 m il h o m en s e d o ta d a de eq u ip am en to m o d e rn o , a rraso u o a rraial em agosto de 1897, após u m m ês e m eio de luta. Seus defensores m o rre ra m em com bate e, qu an d o prisioneiros, foram degolados. Para os oficiais positivistas e os políticos republicanos, fbi u m a lu ta da civilização co n tra a barbárie. N a verdade, havia

“b arb árie” em am bos os lados e m ais entre aqueles hom ens in struídos que ti­

n h am sido incapazes de pelo m enos ten tar entender a gente sertaneja.

* * *

A consolidação da República liberal-oligarquica foi com pletada com a su ­ cessão de P rudente p o r o u tro paulista, C am pos Sales (1898-1902). O m o v im en ­ to jacobino esfacelou-se depois de alguns de seus m em bros terem -se envolvido em u m a tentativa de assassinar P rudente de M oraes. Os m ilitares voltaram em sua m aioria p a ra os quartéis. . ---

A elite p olítica dos gran d es Estados, ^ão Paulo à frente, tin h a triunfado. Fal­

tava p o rém criar in stru m en to s p ara que a República oligárquica pudesse assen­

tar-se em u m sistem a político estável. O grande papel atribuído aos Estados p r o ­ vocou em alguns deles lutas de grupos rivais. O governo federal aí intervinha, usando de seus controvertidos poderes estabelecidos n a C onstituição. Isso to r­

nava incerto o controle do p o d e r em alguns Estados e reduzia as possibilidades de u m acerto d u ra d o u ro entre a U nião e os Estados. Acrescente-se o fato de que o Poder Executivo encontrava dificuldades em im p o r-se a q Eégislativo com o

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pretendia, em bora a C onstituição dissesse que “os poderes eram harm ônicos e independentes entre si”.

A p a rtir dessas questões, C am pos Sales concebeu u m a rran jo conhecido com o política dos governadores. P o r m eio de u m a alteração artificiosa do Regi­

m en to In te rn o da C am ara dos D ep u tad o s, assegurou-se que a representação p arlam e n tar de cada estado corresponderia ao g ru p o regional d o m in an te. Ao m esm o tem po, garantiu-se m aior subordinação da C âm ara ao Poder Executi­

vo. O propósito da política dos governadores, só em p arte alcançado, foi o de elim inar as disputas faccionais nos Estados e. ao m esm o tem po, reforçar o Po­

der Executivo, considerado p o r C am pos Sales o “p o d er p o r excelência”.

N o plano financeiro, a grave situação que v in h a dos tem pos da M onarquia to rn o u -se dram ática. O governo republicano h erd ara do Im pério u m a div id a externa que consum ia anualm ente grande p arte do saldo da balança comercial.

O q uadro tendeu a se agravar n o curso da década de 1890, com o au m en to do déficit público. M uitas despesas relacionavam -se com os custos das operações m ilitares naquele incerto período. O apelo ao crédito externo foi utilizado com freqüência e a dívida cresceu em cerca d^30°/t) entre 1890 e 1897, gerando n o ­ vos com prom issos de pagam ento.

Por o u tro lado, a extensão das plantaçoes-d^ safe n© início da década resul­

taram em g randes colheitas em 189õ e 189Z. A am pliação da oferta do p ro d u to no m ercado internacional provocou acentuada queda de preços e u m a redução do ingresso de divisas. N o fim de seu governo, q u an d o se to rn o u clara a im p o s­

sibilidade de co n tin u ar o serviço da dívida, ír u d e n te de M oraes iniciou conver­

sações p a ra chegar a u m acordo com os credores infernacionais. H ouve en ten ­ d im en to s n o Rio de Janeiro com o L o n d o n an d River Plate Bank, en q u a n to C am pos Sales - presidente eleito m as ainda não em possado - foi a Londres p ara se entender com a Casa Rothschild. Os R othschild desem penhavam desde a In ­ dependência o papel de agente financeiro do Brasil na Europa.

Afinal, já n o governo de C am pos Sales, foi acertado u m pen o so fu n d in g loan, em ju n h o de 1898, com o u m esquem a p a ra dar folga e g aran tir p o r m eio de u m novo em préstim o o p agam ento dos juros e do m o n ta n te de em présti­

m os anteriores. O Brasil deu em garantia aos credores as rendas da Alfândega do Rio de Janeiro e ficou proibido de co n trair novos em préstim os até ju n h o de 1901. C om prom eteu-se ainda a c u m p rir u m duro p ro g ram a de deflação, inci­

n eran d o p arte do papel-m oeda em circulação. O país escapava assim da insol­

vência. Mas, nos anos seguintes, pagaria u m pesado trib u to p o r essas m edidas e

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outras que se seguiram no governo de C am pos Sales, gerando a queda da ativi­

dade econôm ica e a quebra de bancos e o u tras em presas.

3.2. AS OLIGARQUIAS E OS CORONÉIS

A República concretizou a a u to n o m ia estadual, d an d o plena expressão aos interesses de cada região. Isto se refletiu, n o plano da política, n a form ação dos p artid o s republicanos restritos a cada Estado. As tentativas de organizar p a rti­

dos nacionais foram transitórias o u fracassaram . C ontrolados p o r u m a elite re­

duzida, os p artid o s republicanos decidiam os destinos da política nacional e fe­

chavam os acordos p ara a indicação de candidatos à Presidência da República.

O que representavam as diversas oligarquias estaduais? O que significava falar em n o m e de São Paulo, Rio G rande do Sul ou M inas Gerais, p ara ficar nos exem plos m ais expressivos? Se havia u m traço com um n a form a pela qual essas oligarquias m onopolizavam o p o d e r político, havia tam bém diferenças nas suas relações com a sociedade. Em São Paulo a elite política oligárquica esteve mais próxim a dos interesses dom inantes, ligados à econom ia cafeeira e, com o correr do tem po, tam b ém à indústria. O que não qu er dizer que ela fosse u m simples p reposto de grupos. A oligarquia paulista soube organizar o Estado de São P au­

lo com eficiência, ten d o em vista os interesses m ais gerais da classe dom inante.

Tanto a oligarquia gaúcha q u a n to a m ineira, que controlavam respectiva­

m en te o PRR e o PRM , tiveram b astan te au to n o m ia em suas relações com a sociedade. O PRR im pôs-se com o u m a m á q u in a política forte, in sp irad a em u m a versão au to ritá ria do positivism o, arb itra n d o os interesses de estancieiros e im igrantes em ascensão. A oligarquia m in eira não foi tam b ém “p a u m a n d a ­ d o ” de cafeicultores o u criadores de gado. Tendo de levar em conta esses setores da sociedade, co n stitu iu u m a m áq u in a de políticos profissionais que, em g ra n ­ de m edida, originava dela p ró p ria a fonte do poder, n o m ean d o funcionários, legalizando a posse de terras, d e cid in d o sobre in v estim en to s em educação, tra n sp o rte s etc.

À p rim eira vista, pareceria que o do m ín io das oligarquias p o d eria ser q ue­

b rado pela m assa da população p o r m eio do voto. E ntretanto, o voto não era obrigatório e o povo, em regra, encarava a política com o u m jogo entre os g ran ­ des ou u m a troca de favores. Seu desinteresse crescia qu an d o nas eleições para presidente os p artid o s estaduais se acertavam , lançando candidaturas únicas, ou q u an d o os candidatos de oposição não tin h am qualquer possibilidade de êxito.

A porcentagem de votantes oscilou entre u m m ín im o de 1,4% da população

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total do país (eleição de Afonso Pena em 1906) e u m m áxim o de 5,7% (eleição de Júlio Prestes em 1930).

O u tro aspecto a ser ressaltad o é o de qu e os re su lta d o s eleito rais n ão espelhavam a realidade. O voto não era secreto e a m aioria dos eleitores estava sujeita à pressão dos chefes políticos, a quem tratava tam b ém de agradar. A fra u ­ de eleitoral constituía prática corrente, através da falsificação de atas, do voto dos m o rto s, dos estrangeiros etc. Essas distorções n ão eram aliás novidade, re ­ presentando o p ro longam ento de u m q uadro que vinha da M onarquia.

Apesar de tu d o , com parativam ente, o com parecim ento eleitoral cresceu em relação ao Im pério. C o n fro n tan d o -se as eleições p a ra a ú ltim a legislatura do p arlam en to im perial (1886) com a p rim e ira eleição p ara a Presidência da Re­

pública em que v otaram eleitores de todos os Estados (1898), verificam os que a participação eleitoral au m e n to u em 400% . Além disso, n e m todas as eleições para presidente da República foram u m a sim ples ratificação de u m nom e. H o u ­ ve bastante d isputa nas eleições de 1910, 1922 e 1930, qu an d o se elegeram, res­

pectivam ente, H erm es da Fonseca, A rtu r Bernardes e Júlio Prestes.

* * *

É c o m u m d e n o m in a r a P rim eira R epública “república dos coronéis”, em u m a referência aos coronéis da antiga G uarda N acional, que eram em sua m aio ­ ria p ro p rietário s rurais, com u m a base local de poder. O coronelism o represen­

to u u m a varian te de u m a relação sociopolítica m ais geral - o clientelism o - , existente ta n to no cam po q u a n to nas cidades. Essa relação resultava da desi­

gualdade social, da im possibilidade de os cidadãos efetivarem seus direitos, da precariedade o u inexistência de serviços assistenciais do Estado, da inexistên­

cia de u m a carreira n o serviço público. Todas essas características v in h am dos tem pos da Colônia, m as a R epública criou condições p a ra que os chefes p o líti­

cos locais concentrassem m aio r som a de poder. Isso resu lto u p rin cip alm en te da am pliação da p arte dos im postos a trib u íd a aos m unicípios e da eleição dos prefeitos.

D o p o n to de vista eleitoral, o “coronel” controlava os votantes em sua área de influência. Trocava votos, em candidatos p o r ele indicados, p o r favores tão variados com o u m p ar de sapatos, u m a vaga no hospital ou u m em prego de p ro ­ fessora. M as os “coronéis” não m o n o p o lizaram a cena política n a P rim eira Re­

pública. O u tro s grupos, expressando diversos interesses urbanos, tiveram um papel significativo n a condução da política. Além disso, apesar de serem im p o r­

tantes p ara a sustentação da base do sistem a oligárquico, os “coronéis” depen-

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diam de outras instâncias p ara m an ter o seu poder. E ntre essas instâncias desta­

cava-se, nos grandes Estados, o governo estadual, que não correspondia a u m aju n tam en to de “coronéis”. Estes forneciam votos aos chefes políticos do respec­

tivo Estado, m as d ependiam deles p ara p ro p o rcio n ar m u ito s dos benefícios es­

perados pelos eleitores, sobretudo q u an d o os benefícios eram coletivos.

O coronelism o teve m arcas distintas, de acordo com a realidade sociopolí- tica de cada região do país. U m exem plo extrem o de p o d er dos “coronéis” se enco n tra em áreas do in terio r do N ordeste, em to rn o do rio São Francisco, onde surgiram verdadeiras “nações de coronéis”, com suas forças m ilitares próprias.

Em contraste, nos Estados m ais im p o rtan tes os “coronéis” d ependiam de estru ­ turas m ais am plas, ou seja, a m áq u in a do governo e o P artido Republicano.

3.3. RELAÇÕES ENTRE A UNIÃO E OS ESTADOS

A Prim eira República é conhecida, n o senso com um , com o a época do “café com leite”. A frase exprim e a idéia de que u m a aliança entre São Paulo (café) e M inas G erais (leite) co m an d o u , n o p erío d o , a po lítica nacional. A realidade, p o rém , é m ais diversificada. Para entendê-la, devem os olhar de p e rto as rela­

ções entre a U nião e pelo m enos três Estados - São Paulo, M inas Gerais e Rio G rande do Sul - , bastante diversos entre si.

Sem p re ten d er esfacelar o governo federal, São Paulo tra to u de assegurar sua au to n o m ia, g aran tid a pelas rendas de u m a econom ia em expansão e p o r u m a p o d ero sa força m ilitar. M as os paulistas n ão p o d ia m se d ar ao luxo de co n tar apenas consigo m esm os. Para ficar no exem plo m ais relevante, cabia à U nião o papel fu n d am en tal de definir a política m o n etária e cam bial, que além de decidir os ru m o s financeiros do país tin h a reflexos n a sorte dos negócios cafeeiros.

N a esfera federal, os políticos paulistas concentraram -se nesses assuntos e nas iniciativas p ara obter o apoio do governo aos planos de valorização do café.

Desse m odo, em b o ra a econom ia de São Paulo se ten h a diversificado n o curso da P rim eira República, sua elite política agiu p rin cip alm en te n o interesse da burguesia do café, de onde se originavam , aliás, m u ito s de seus m em bros.

A política de valorização do café constitui u m dos exem plos m ais nítidos do papel de São Paulo n a Federação e das relações entre os vários Estados. A p a rtir da década de 1890, a p ro d u ção cafeeira de São Paulo cresceu en o rm em en ­ te, gerando problem as p a ra a re n d a da cafeicultura. Esses problem as tin h a m duas fontes básicas: a grande oferta do p ro d u to fazia o preço baixar n o m erca­

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do internacional; a valorização da m o ed a brasileira, a p a rtir do governo C am ­ pos Sales, im pedia a com pensação da queda de preços internacionais p o r u m a receita m aio r em m o ed a nacional.

Para g aran tir a ren d a da cafeicultura, surgiram em São Paulo, no com eço do século, vários planos de intervenção governam ental no m ercado cafeeiro.

Afinal, chegou-se em fevereiro de 1906 a u m acordo, cham ado de C onvênio de Taubaté, p o r ter sido celebrado nessa cidade paulista. A ssinaram o acordo os Estados de São Paulo, M inas Gerais e Rio de Janeiro.

O dois p o n to s básicos do convênio eram os seguintes: negociação de u m em p réstim o de 15 m ilhões de libras esterlinas p a ra custear a intervenção do Estado n o m ercado, através da com p ra do p ro d u to p o r u m preço conveniente à cafeicultura; criação de u m m ecanism o destinado a estabilizar o câm bio, im ­ p ed in d o a valorização da m o ed a brasileira. O governo deveria co m p rar com os recursos externos as safras abu n d an tes, fazendo estoques da m ercad o ria p ara vendê-la no m ercado in tern acio n al no m o m e n to o p o rtu n o . O plano se basea­

va assim n a idéia correta da alternância entre boas e m ás colheitas e n a expec­

tativa de que as com pras governam entais red u ziriam a oferta de café, fazendo subir os preços.

As resistências opostas pelo governo federal ao p lan o e as reticências dos dem ais Estados integrantes do C onvênio levaram o Estado de São Paulo a agir p o r co n ta p ró p ria , associando-se a u m g ru p o de im p o rta d o re s dos E stados U nidos liderados p o r H e rm an n Sielcken. O financiam ento desse g ru p o e em ­ préstim os bancários possibilitou a retirada do café do m ercado. E ntretanto, era im possível m an ter a situação p o r m u ito tem po sem a obtenção de u m financia­

m en to a longo prazo, de m aio r vulto.

N o segundo sem estre de 1908, o presidente Afonso Pena obteve do C o n ­ gresso autorização p ara que. a U nião fosse fiadora de u m em préstim o de até 15 m ilhões de libras que São Paulo pretendia contrair. A p a rtir daí, o Estado de São Paulo p ôde prosseguir a operação valorizadora, entregando o controle da o p e­

ração aos banqueiros internacionais. Os prim eiros resultados do esquem a sur­

giram em 1909. Os preços internacionais do café com eçaram a subir e se m a n ­ tiveram em alta até 1912, graças à retração da oferta provocada pela estocagem e à dim inuição do volum e das safras. Em ju n h o de 1913, o em préstim o foi pago.

H ouve duas outras operações valorizadoras, sob responsabilidade da U nião até 1924, q u a n d o o presidente A rtu r Bernardes, preocu p ad o com o orçam ento federal, a b a n d o n o u a defesa do café e o Estado de São Paulo assum iu d ire ta ­ m ente a defesa p erm an en te do produto.

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Este breve relato ilu stra o tip o de relações existente e n tre São P aulo e a União. Os paulistas tiveram m eios de garantir sua au to n o m ia e até certo p o n to levar seus planos econôm icos adiante m esm o sem contar com o apoio do go­

verno federal. M as a política cam bial da U nião repercutia em sentido desfavo­

rável na cafeicultura paulista qu an d o eram tom adas m edidas de valorização do câm bio. Além disso, a garantia do governo federal p o d ia ser im prescindível ou, pelo m enos, p o d ia facilitar a obtenção de em préstim os no exterior.

* * *

A p o stu ra dos políticos m ineiros era diferente. Eles representavam u m Es­

tad o econom icam ente fragm entado entre o café, o gado e, de certo m odo, a in ­ d ústria, sem ter u m pólo dom inante. Além disso, M inas não tin h a o potencial econôm ico de São Paulo e dependia dos benefícios da União. Esse q uadro levou a elite política m in eira a g u ard ar certa distância dos interesses específicos do

“café” e do “leite”, acum u lan d o p o d e r com o políticos profissionais. Os m ineiros exerciam forte influência n a C âm ara dos D eputados, o nde tin h a m u m a b an ca­

da de 37 m em bros, e n q u an to os paulistas eram apenas 22. Essa prop o rção foi estabelecida de acordo com o censo de 1890. D epois do censo realizado em 1920, d em o n stran d o o grande crescim ento populacional de São Paulo, os p a u ­ listas ten taram inutilm ente obter u m a revisão da proporcionalidade.

Os políticos de M inas co ntrolaram o acesso a m uitos cargos políticos fede­

rais e tiveram êxito em u m de seus objetivos prioritários: a construção de ferro­

vias em territó rio m ineiro, que atendia aos interesses gerais de seu Estado. Nos anos 20, quase 40% das novas construções de estradas de ferro federais aí se con­

centraram . Ao m esm o tem po, buscaram a proteção aos p ro d u to s de M inas co n ­ sum idos no m ercado in tern o e apoiaram , de acordo com as circunstâncias, a valorização do café.

* * *

A presença dos gaúchos n a política nacional teve a peculiaridade de rela- cionar-se com a presença m ilitar. A aproxim ação n ão significa que houvesse identidade entre os m ilitares e o PRR. E ntre 1894 e 1910, os gaúchos - assim com o a cúpula do Exército - estiveram quase ausentes da adm inistração fede­

ral. Aí reapareceram q u an d o da eleição do m arechal H erm es da Fonseca.

H á várias razões p ara a afinidade apontada. D esde os tem pos do Im pério, o Rio G rande do Sul concentrava os m aiores efetivos do Exército, v arian d o n a P rim eira República entre u m terço e u m q u a rto dos efetivos nacionais. A III

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Região M ilitar, criada em 1919, co nstituiu u m a p o n te p ara a alta a d m in istra ­ ção, pois vários de seus com andantes foram p ara o M inistério da G uerra. A im ­ p o rtân cia do setor m ilitar incentivou os gaúchos de certo nível social a seguir a carreira das arm as, co n trib u in d o com o m aio r n ú m ero de m inistros da G uerra e de presidentes do Clube M ilitar n a P rim eira República.

Por o u tro lado, a in term iten te lu ta arm ad a n a região favoreceu o contato entre os oficiais e os p artidos políticos. Da Revolução Federalista, p o r exemplo, nasceram os laços de vários oficiais com o PRR.

C ertos traço s ideológicos e peculiaridades políticas c o n co rreram tam b ém p ara a aproxim ação. O positivism o, cuja im p o rtân cia difusa se m anteve no in te ­ rio r do Exército, foi o principal traço ideológico. Além disso, a política econôm i­

ca e financeira defendida pelos republicanos gaúchos ten d eu a coincidir com a visão do grupo militar. O PRR defendia u m a política conservadora de gastos do governo federal e a estabilização dos preços. A inflação criaria problem as p ara o m ercado de carne-seca. C om o o p ro d u to era consum ido p rin cip alm en te pelas classes populares do N ordeste e do D istrito Federal, qualquer redução do p oder aquisitivo dessas classes resultava em restrição da d em anda. Essa perspectiva, apesar da diferença de m otivações, estabelecia u m a p o n te com os m ilitares, que viam com bons olhos a adoção de u m a política financeira conservadora.

U m bloco das oligarquias do N ordeste pod eria ter sido influente n a política nacional. Mas u m a coalizão de Estados da região era m u ito dificultada p o r exis­

tirem interesses conflitantes. Por exem plo, com o os recursos obtidos pelo im ­ posto de exportação em cada Estado eram escassos, os Estados com petiam uns com os outros pelos favores do governo federal; envolviam -se tam b ém em in ­ term ináveis disputas acerca do direito de cobrar im postos interestaduais sobre m ercadorias que circulavam de u m Estado para outro.

A união das oligarquias paulista e m in eira foi u m elem ento fund am en tal da história política da P rim eira República. A união foi feita com a p re p o n d e ­ rância de u m a ou de o u tra das duas forças. C om o tem po, surgiram as discus­

sões e u m grande desacerto final.

Apesar da influência m ilitar, São Paulo saiu à frente nos prim eiros anos da República. Os paulistas alcançaram seus objetivos n a C o n stitu in te com o apoio dos m ineiros e p re p araram o cam inho p ara as presidências civis. Foram eleitos seguidam ente três presidentes paulistas - P rudente de M oraes, C am pos Sales e Rodrigues Alves - entre 1894 e 1902, fato que n u n ca m ais se repetiria. A p re ­ p o n d erân cia política de São Paulo nesses anos se explica não apenas p o r sua im p o rtân cia econôm ica m as tam b ém pela coesão p artid ária de sua elite. A g ra n ­

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de m aioria da elite paulista a b a n d o n o u rap id am en te suas antigas divergências e cerrou fileiras em to rn o do PRP.

A situação foi diversa em M inas Gerais, o nde as divergências de grupos só se acalm aram com a cham ada segunda fundação do PRM , em 1897. D aí p ara a frente, a presença m in eira n a política nacional cresceu cada vez mais.

U m acordo entre São Paulo e M inas Gerais p erd u ro u , a p a rtir de C am pos Sales, até 1909. N aquele ano, abriu-se a dissidência en tre os dois Estados que facilitou a volta provisória dos m ilitares e a volta perm an en te do Rio G rande do Sul à cena política nacional. A cam panha p a ra a Presidência da República de 1909-1910 foi a p rim eira d isputa eleitoral efetiva da vida republicana. O m a re ­ chal H erm es da Fonseca, sobrinho de D eodoro, saiu candidato com o apoio do Rio G rande, de M inas e dos m ilitares. São Paulo, n a oposição, lançou a candi­

d a tu ra de Rui Barbosa, em aliança com a Bahia.

Rui p ro cu ro u atrair o voto da classe m édia u rbana, defendendo os p rin c í­

pios dem ocráticos e o voto secreto. D eu à cam panha u m to m de reação co n tra a intervenção do Exército n a política. A tacou os chefes m ilitares e co n trap ô s a Força Pública estadual ao Exército com o m odelo a ser seguido. E m bora a base política m ais im p o rta n te de Rui Barbosa fosse naquela altura a oligarquia de São Paulo, sua cam panha se apresentou com o a luta da inteligência pelas liberdades públicas, pela cultura, pelas tradições liberais, co n tra o Brasil inculto, oligárqui- co e autoritário. A vitória de H erm es p ro d u ziu grandes desilusões n a restrita in ­ telectualidade da época.

A estrela do Rio G rande do Sul com eçou a d ar sinais de vida p o r ocasião dos enten d im en to s que levaram à c an d id atu ra do m ineiro Afonso Pena (1906).

A p a rtir do governo H erm es, ela passou a brilh ar com o estrela de terceira g ran ­ deza n a constelação do “café com leite”. Esse fato levou São Paulo e M inas a evi­

ta r novas dissensões. U m pacto não-escrito foi concluído em 1913, n a cidade m in eira de O uro Fino, pelo qual m ineiros e paulistas tratariam de se revezar na Presidência da República. E n tretan to , a presença gaúcha n a política nacional não desapareceu. M esm o sem d ar as cartas nas sucessões do presidente da Re­

pública, a oligarquia gaúcha ascendeu após 1910, com grande presença nos m i­

nistérios, enq u an to a de São Paulo ten d eu a se en trin ch eirar em seu Estado.

Por fim , o n ã o -c u m p rim e n to das regras do jogo p o r p arte do presidente W ashington Luís, indicando p ara sua sucessão o paulista Júlio Prestes (1929), foi u m fator central da ru p tu ra política ocorrida em 1930.

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A análise dos aco rd o s e n tre as várias o lig arq u ias in d ica q ue o governo federal não foi u m sim ples clube dos fazendeiros de café. O P oder C entral se definiu com o articulador de u m a integração nacional que, m esm o frágil, nem p o r isso era inexistente. T inha de garan tir um a certa estabilidade no país, con­

ciliar interesses diversos, atrair investim entos estrangeiros, cuidar da questão da dívida externa.

Mas os negócios do café foram o eixo da econom ia do período. Ao longo da P rim eira República, o café m anteve de longe o prim eiro lugar n a p a u ta das ex­

portações brasileiras, com u m a m édia em to rn o de 60% do valor total. N o fim do período, representava em m édia 72,5% das exportações. D ependiam dele o crescim ento e o em prego nas áreas m ais desenvolvidas do país. Fornecia ta m ­ bém a m aio r p arte das divisas necessárias para as im portações e o atendim ento dos com prom issos no exterior, especialm ente os da dívida externa.

N a form ulação de sua política, o governo federal não p o d ia ig n o rar o peso do setor cafeeiro, qualquer que fosse a origem regional do presidente da R epú­

blica. Mas o aspecto m ais significativo encontra-se no fato de que governantes supostam ente ligados aos interesses do café n em sem pre agiram com o seus de­

fensores. C uriosam ente, três presidentes provenientes de São Paulo - C am pos Sales, R odrigues Alves e W ashington Luís - desagradaram o setor cafeeiro ou se chocaram com ele. Esse co m p o rtam en to na aparência estranho se deve p rin c i­

palm ente ao fato de que o presidente da República tin h a de ter u m a p reo cu p a­

ção pelo que acreditava ser os interesses gerais do país. Esses interesses passa­

vam pela estabilização das finanças e pelo acordo com os credores externos, notad am en te os R othschild - principais agentes financeiros do Brasil no exterior.

3.4. AS MUDANÇAS SOCIOECONÔMICAS

A im igração em m assa foi u m dos traços m ais im p o rta n tes das m udanças socioeconôm icas ocorridas no Brasil a p a rtir das últim as décadas do século XIX.

O Brasil foi u m dos países receptores dos m ilhões de europeus e asiáticos que vieram p a ra as A m éricas em busca de o p o rtu n id a d e de tra b a lh o e ascensão social. Ao lado dele figuram en tre ou tro s os Estados U nidos, a A rgentina e o C anadá.

Cerca de 3,8 m ilhões de estrangeiros e n trara m no Brasil entre 1887 e 1930.

O período 1887-1914 c oncentrou o m aio r n ú m ero de im igrantes, com a cifra aproxim ada de 2,74 m ilhões, cerca de 72% do total. Essa concentração se expli­

ca, além de ou tro s fatores, pela forte dem anda de força de trab alh o naqueles

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anos p ara a lavoura de café. A P rim eira G uerra M undial reduziu m u ito o fluxo de im igrantes. Após o fim do conflito constatam os u m a nova corrente im ig ra­

tória, que se prolonga até 1930.

A p a rtir de 1930, a crise m u n d ial iniciada em 1929, assim com o as m u d a n ­ ças políticas n o Brasil e n a Europa, fizeram com que o ingresso de im igrantes com o força de trabalho deixasse de ser significativo. O japoneses co n stitu íram a única exceção, pois, to m an d o -se períodos de tem p o de dez anos, foi entre 1931 e 1940 que eles en tra ram no país em m aio r núm ero.

As regiões C entro-Sul, Sul e Leste foram as que receberam im igrantes m a ­ ciçam ente. Em 1920, 93,4% da p o p ulação estrangeira vivia nessas regiões. O Estado de São Paulo se destacou n o conjunto, concentrando sozinho a m aioria de todos os residentes estrangeiros n o país (52,4% ). Essa preferência se explica pelas facilidades concedidas pelo Estado (passagens, alojam ento) e pelas o p o r­

tunidades de trabalho abertas p o r u m a econom ia em expansão.

C onsiderando-se o período 1887-1930, os italianos form aram o grupo m ais num eroso, com 35,5% do total, v indo a seguir os portugueses (29% ) e os espa­

nhóis (14,6% ). G rupos relativam ente pouco num erosos em term os globais fo ­ ram qualitativam ente im portantes.

O caso m ais expressivo é o dos japoneses, que vieram sobretudo para o Es­

tado de São Paulo. Em 1920,87,3% dos japoneses m oravam nesse Estado. A p ri­

m eira leva chegou a Santos em 1908, com destino às fazendas de café. Apesar da dificuldade em fixar os japoneses nas fazendas, a ad m in istração paulista, até 1925, concedeu, em vários anos, subsídios à im igração japonesa. N o curso da Prim eira G uerra M undial, com a in terru p ção do fluxo europeu, havia o tem o r de que “faltassem braços p ara a lavoura”. A p a rtir de 1925, o governo japonês passou a financiar as viagens. Os japoneses, p o r essa época, já n ão eram enca­

m inhados p ara as fazendas de café. Eles se fixaram n o cam po, p o r m ais tem p o do que qualquer o u tra etnia, m as com o pequenos proprietários, ten d o u m p a ­ pel expressivo n a diversificação das atividades agrícolas.

O utros grupos m in o ritário s im p o rtan tes foram os sírio-libaneses e os ju ­ deus, os quais tiveram algum as características sem elhantes. Ao contrário dos ja ­ poneses, dos italianos e dos espanhóis, am bos se co n cen traram desde sua che­

gada principalm ente nas cidades. A m bos co n stitu íram tam b ém u m a im igração espontânea, n ão-subsidiada, pois o auxílio governam ental só era fornecido a quem fosse encam inhado às fazendas.

Os italianos vieram principalm ente para São Paulo e p ara o Rio G rande do Sul. Em 1920, 71,4% dos italianos existentes no Brasil viviam no Estado de São

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Paulo e representavam 9% de sua população total. A origem regional se alterou no curso dos anos. E n quanto os italianos do n o rte p red o m in aram até a virada do século, os do sul - sobretudo calabreses e napolitanos - passaram a chegar em m aio r n ú m ero a p a rtir do século XX.

Os italianos foram a principal etnia que forneceu m ão -d e-o b ra p a ra a la­

v oura de café. E ntre 1887 e 1900, 73% dos im igrantes que e n tra ra m no Estado de São Paulo eram italianos, em bora nem todos se ten h a m fixado na agricultura.

A pobreza dessa gente se revela, entre outros dados, pelo fato de que os subsídios oferecidos pelo governo paulista representaram u m a forte atração. Problem as nesse esquem a rep ercu tiram diretam ente no volum e do fluxo de im igrantes.

As m ás condições de recepção dos recém -chegados levaram o governo ita­

liano a to m a r m edidas c o n tra o re c ru tam en to de im igrantes. Isso aconteceu, provisoriam ente, entre m arço de 1889 e julho de 1891. Em m arço de 1902, um a decisão das autoridades italianas conhecida com o “decreto P rin etti” - n o m e do m inistro das Relações Exteriores da Itália - p roibiu a im igração subsidiada para o Brasil. Daí p a ra a frente, quem quisesse em igrar p ara o Brasil p o d eria co n ti­

n u a r a fazê-lo livrem ente, m as sem obter passagens e outras pequenas facilida­

des. A m edida resultou de crescentes queixas dos italianos residentes no Brasil a seus cônsules sobre a precariedade de sua condição de vida, agravada pela crise do café. E possível que a m elh o ra do q u ad ro socioeconôm ico n a Itália ten h a tam b ém concorrido p ara ela.

O fluxo da im igração italiana n ão se in terro m p eu . E ntretanto, o “decreto P rin etti”, a crise do café e a situação no país de origem co n trib u íram p a ra redu- zi-lo. C onsiderando as entradas e saídas de im igrantes, sem distinção de nacio­

nalidade, pelo p o rto de Santos, verificam os que, em vários anos, o n ú m ero dos que saíram foi m aio r do que as entradas naquele p o rto . Por exemplo, em plena crise do café, em 1900, e n tra ra m cerca de 21 m il im igrantes e saíram 22 mil.

Logo após o “decreto P rin etti”, em 1903, en tra ram 16 500 im igrantes e saíram 36 400. O ano seguinte tam b ém registrou saldo negativo.

D u ran te o p erío d o 1901-1930, a proveniência étnica dos im igrantes p ara São Paulo se to rn o u b em m ais equilibrada. A p ro p o rção de italianos caiu p a ra 26% , seguidos pelos portugueses (23% ) e pelos espanhóis (22% ). A im igração p o rtu g u esa concentrou-se n o D istrito Federal e em São Paulo. A capital da Re­

pública co n tin h a o m aio r contingente de portugueses, m esm o q u an d o a com ­ paração é feita com Estados. U m a característica da im igração p o rtu g u esa foi sua m aio r concentração nas cidades. Em 1920 havia 65 m il p ortugueses na ci­

dade de São Paulo, representando 11 % da população total; os n ú m ero s subiam

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a 172 m il n o Rio de Janeiro, co rresp o n d en d o a 15% da população. Esses dados n ão significam que im igrantes portugueses não se te n h am destinado à lavoura do café e à ag ricultura em geral. M as eles ficaram m ais conhecidos p o r seu p a ­ pel no p eq u en o e grande com ércio, assim com o n a in d ú stria, so bretudo n o Rio de Janeiro.

O m aio r fluxo de im igrantes espanhóis concentrou-se entre 1887 e 1914.

M as houve u m a diferença. E n q u an to os italianos p re d o m in a ra m largam ente sobre os espanhóis de 1887 a 1903, estes os sup eraram entre 1906 e 1920. Após os japoneses, foram os im igrantes espanhóis os que p roporcionalm ente m ais se co n centraram n o Estado de São Paulo. Assim, em 1920, 78% dos espanhóis aí residiam . E m alguns aspectos, a im igração espanhola tem traços sem elhantes aos da japonesa. C om o ocorreu com os japoneses, vieram p a ra o Brasil sobre­

tu d o famílias com vários filhos e não hom ens solteiros. Os espanhóis aproxi­

m aram -se tam b ém dos japoneses pelo longo tem p o de p erm anência nas ativi­

dades agrícolas e pela preferência p o r viver nas pequenas cidades do in terio r e não na capital de São Paulo.

A m obilidade social ascendente dos im igrantes nas cidades é fora de d ú v i­

da, com o atesta seu êxito em atividades com erciais e in d u striais em Estados com o São Paulo, Rio G rande do Sul, Paraná, Santa C atarina. O caso do cam po é m ais com plicado. Tom em os o exem plo do E stado de São Paulo. N os p rim ei­

ros anos da im igração em m assa, os im igrantes fo ram subm etidos a u m a du ra existência, resultante das condições gerais de tra ta m e n to dos trab alh ad o res no país, o n d e eles quase equivaliam aos escravos. A testa esse q u ad ro o grande n ú ­ m ero de reto rn ad o s, as queixas dos cônsules, as m edidas tom ad as pelo gover­

no italiano.

C om o correr do tem po, m uitos im igrantes escalaram posições na socieda­

de. U ns pou co s to rn aram -se grandes fazendeiros. A m aio ria passou à c o n d i­

ção de peq u en o s e m édios p ro p rietário s, ab rin d o cam in h o p a ra que seus des­

cendentes viessem a ser figuras centrais da a g ro in d ú stria pau lista. O censo agrícola de São Paulo realizado em 1934 revelou q ue 30,2% das terras esta­

v am em m ão s de estran g eiro s, cab en d o aos italian o s 12,2%, aos espanhóis 5,2% , aos japoneses 5,1% , aos p ortugueses 4,3% e o restante a o u tras n a cio ­ nalidades. Esses n ú m ero s exprim em apenas p arte d a ascensão dos im igrantes, pois os p ro p rietá rio s de terras descendentes de estrangeiros fo ram logicam en­

te considerados brasileiros.

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No curso das últim as décadas do século XIX até 1930, o Brasil co n tin u o u a ser u m país p red o m in an tem en te agrícola. Segundo o censo de 1920, de 9,1 m i­

lhões de pessoas em atividade, 6,3 m ilhões (69,7%) se dedicavam à agricultura, 1,2 m ilhão (13,8%) à in d ú stria e 1,5 m ilhão (16,5% ) aos serviços.

A ru b ric a “serviços” engloba atividades u rb a n a s de baixa p ro d u tiv id ad e, com o os serviços dom ésticos rem unerados. O dado m ais revelador é o do cres­

cim ento do n ú m ero de pessoas em atividade n a área industrial, que pelo censo de 1872 não ultrapassava 7% da população ativa. Ressalvemos, p orém , que m u i­

tas “in d ú strias” não passavam de pequenas oficinas.

O pred o m ín io das atividades agroexportadoras, d u ran te a P rim eira R epú­

blica, não foi absoluto. N ão só a p rodução agrícola p ara o m ercado in tern o teve significação com o a in d ú stria foi-se im p lan tan d o com força crescente. O Esta­

do de São Paulo esteve à frente de u m processo de desenvolvim ento capitalista caracterizado pela diversificação agrícola, a urbanização e o su rto industrial. O café co n tin u o u a ser o eixo da econom ia e constituiu a base inicial desse proces­

so. U m p o n to im p o rta n te que assegurou a produção cafeeira se en co n tra na fór­

m ula en co n trad a p ara resolver o p roblem a do fluxo de m ão -d e-o b ra e estabili­

zar as relações de trabalho. O prim eiro aspecto foi resolvido pela im igração; o segundo, pelo colonato.

O colonato veio substituir a experiência fracassada da parceria. Os colonos, o u seja, a fam ília de trabalhadores im igrantes, se responsabilizavam pelo trato do cafezal e pela colheita, recebendo basicam ente dois pagam entos em d in h ei­

ro: u m anual, pelo tra to de tantos m il pés de café, e o u tro p o r ocasião da colhei­

ta. Este últim o pagam ento variava de acordo com o resultado da tarefa, em te r­

m os de q u a n tid a d e colhida. O fazendeiro fornecia m o rad ia e cedia pequenas parcelas de te rra onde os colonos p o d iam p ro d u zir gêneros alim entícios. O co­

lonato era d istinto da parceria p orque, entre outras características, não existia divisão de lucros da venda do café. N ão constituía, p o r o u tro lado, um a form a p u ra de trabalho assalariado, pois envolvia outros tipos de retribuição.

No caso das plantações novas, que eram objeto dos cham ados contratos de form ação, os colonos plantavam o café e cuidavam da p lan ta d u ran te u m p e ­ río d o de q u atro a seis anos, pois era em geral no q u arto ano que os cafeeiros com eçavam a produzir. Os form adores praticam ente não recebiam salários, p o ­ dendo p o ré m dedicar-se à p ro d u ção de gêneros alim entícios, entre as filas de cafezais novos. C om o esse tip o de relação de trab alh o tin h a a preferência dos colonos, infere-se que a p rodução de gêneros abrangia não apenas o consum o dos trabalhadores m as tam b ém a venda p ara os m ercados locais.

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O colonato estabilizou as relações de trabalho, m as não elim inou os p r o ­ blem as entre colonos e fazendeiros. O correram constantes atritos individuais e m esm o greves. Além disso, os colonos não eram escravos e realizavam u m a in ­ tensa m obilidade espacial, deslocando-se de u m a fazenda p ara o utra, ou para os centros u rb an o s, em busca de m elhores o p o rtu n id ad e s. P orém , com o u m todo, de u m lado, a oferta de m ã o -d e-o b ra im igrante e, de outro, certas possibi­

lidades de ganho abertas pelo colonato g aran tiram a p rodução cafeeira e a rela­

tiva estabilidade das relações de trabalho n a cafeicultura.

Ao m esm o tem po que a produção cafeeira tendeu a aum entar, ocorreu em São Paulo u m a diversificação agrícola que se liga à ascensão dos im igrantes. Es­

tim ulada pela dem anda das cidades em crescim ento, a p rodução de arroz, fei­

jão e m ilho expandiu-se. N o com eço do século XX, São Paulo im p o rtav a parte desses p ro d u to s de outros Estados, destacando-se o arroz do Rio G rande do Sul.

Por volta da P rim eira G uerra M undial, o Estado se to rn a ra auto-suficiente nes­

ses itens, com eçando a exportar. C o m p aran d o -se as m édias de 1901-1906 com as de 1925-1930, constatam os que a p rodução de arroz cresceu quase sete vezes, a de feijão três vezes e a de m ilho duas vezes.

O algodão tam bém se im plantou. Em to rn o de 1919, São Paulo se to rn o u o m aior Estado p ro d u to r do país, com aproxim adam ente u m terço do total. Fica­

va assim assegurado o fornecim ento de m atéria-p rim a p ara a in d ú stria têxtil.

Além disso, o plantio com binado de café e algodão, com m aio r ênfase no café, chegou a ser providencial p ara os fazendeiros. Q uando, em 1918, a geada de­

vastou as plantações de café, m uitos deles se salvaram da ru ín a graças à p ro d u ­ ção algodoeira.

* * *

Todas as cidades cresceram , e o salto m ais espetacular se deu na capital do Estado de São Paulo. A razão principal desse salto se en co n tra n o afluxo de im i­

grantes espontâneos e de ou tro s que tra ta ra m de sair das atividades agrícolas. A cidade oferecia u m cam po aberto ao artesanato, ao com ércio de rua, às fabri- quetas de fu n d o de quintal, aos construtores au to d en o m in ad o s “m estres italia­

n o s”, aos profissionais liberais. C om o opção m ais precária, era possível em pre- gar-se nas fábricas nascentes o u no serviço dom éstico. A capital paulista era tam b ém o grande centro d istrib u id o r dos p ro d u to s im p o rtad o s, o elo entre a produção cafeeira e o p o rto de Santos e a sede do governo. Aí se encontravam a sede dos m aiores bancos e os principais em pregos burocráticos.

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A p a rtir de 1886, São Paulo com eçou a crescer em ritm o acelerado. A g ran ­ de arrancada se deu entre 1890 e 1900, período em que a população paulistana passou de 64 m il habitantes para 239 m il, registrando u m a elevação de 268%

em dez anos, a u m a taxa geom étrica de 14% de crescim ento anual.

Em 1890, São Paulo era a qu in ta cidade brasileira, abaixo do Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Belém. N o início do século chegaria ao segundo lugar, em b o ­ ra ain d a m u ito distante dos 688 m il h a b itan tes da capital da República. Em com paração com o Rio de Janeiro, São Paulo continuava a ser apenas a capital de u m a grande província.

* * *

O crescim ento industrial deve ser visto em um a perspectiva geográfica mais am pla, abrangendo várias regiões, especialm ente o Rio de Janeiro e São Paulo.

As poucas fábricas que surgiram n o Brasil em m eados do século XIX desti­

navam -se p rin cip alm en te a p ro d u z ir tecidos de algodão de baixa qualidade, consum idos pela população p obre e pelos escravos. A Bahia foi o prim eiro n ú ­ cleo das atividades do ram o, reu n in d o cinco das nove fábricas existentes no país em 1866. Por volta de 1885, a p rodução industrial se deslocara p ara o C entro- Sul. C o nsiderando-se o n ú m ero de u nidades fabris, M inas Gerais assum ira o prim eiro lugar, m as o D istrito Federal concentrava as fábricas mais im p o rta n ­ tes. Excluindo-se a agroindústria do açúcar, em 1889 ele detinha 57% do capital industrial brasileiro. A instalação de fábricas na capital da República deveu-se a vários fatores. D entre eles, a concentração de capitais, u m m ercado de consu­

m o de proporções razoáveis e a energia a vapor, que veio substituir antigas fa- briquetas m ovidas pela força hidráulica.

O crescim ento in d u stria l p au lista data do p e río d o p o ste rio r à Abolição, em bora se esboçasse desde a década de 1870. O riginou-se de pelo m enos duas fontes inter-relacionadas: o setor cafeeiro e os im igrantes. A últim a fonte diz res­

peito não apenas a São Paulo m as tam bém a outras áreas de im igração, notada- m ente o Rio G rande do Sul.

Os negócios do café lançaram as bases p ara o prim eiro su rto da indústria p o r várias razões: em prim eiro lugar, ao estim ular as transações em m oeda e o crescim ento da renda, criou u m m ercado p a ra p ro d u to s m an u fatu rad o s; em segundo, ao prom over o investim ento em estradas de ferro, am pliou e integrou esse m ercado; em terceiro, ao desenvolver o com ércio de exportação e im p o rta ­ ção, co n trib u iu para a criação de u m sistem a de distribuição de p rodutos m a ­ nufaturados; em quarto, ao prom over a im igração, assegurou a oferta de m ão-

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de-obra. Por últim o, o café fornecia, através das exportações, os recursos para se im p o rta r m aq u in aria industrial.

Os im igrantes surgem nas duas pontas da indústria, com o donos de em p re­

sas e operários. Além disso, vários deles foram técnicos especializados. A h istó ­ ria dos trabalhadores estrangeiros é p a rte da história dos im igrantes que vie­

ram “fazer a A m érica” e viram seus sonhos se desfazerem na nova terra. Tiveram papel fund am en tal na in d ú stria m an u fatu reira da capital de São Paulo, onde, em 1893, 70% de seus integrantes eram estrangeiros. Os nú m ero s com relação ao Rio de Janeiro são m enos expressivos, m as m esm o assim correspondiam , em 1890, a 39% do total.

O cam inho dos im igrantes p ara a condição de industrial variou. Alguns p ar­

tiram quase do nada, beneficiando-se das o p o rtu n id ad es abertas pelo capitalis­

m o em form ação em São Paulo e no Rio G rande do Sul. O utros vislum braram op o rtu n id ad es n a in d ú stria p o r serem, a princípio, im portadores. Essa posição facilitava contatos p ara im p o rta r m aq u in aria e era u m a fonte de conhecim ento sobre onde se encontravam as possibilidades de investim ento m ais lucrativo no país. Os dois m aiores industriais italianos de São Paulo com eçaram com o im ­ portadores.

C onsiderando-se o valor da produção industrial, em 1907 o D istrito Fede­

ral surgia n a frente dos Estados com 33% da produção, seguido de São Paulo com 17% e o Rio G rande do Sul com 15%. Em 1920, o Estado de São Paulo pas­

sara p ara o p rim eiro lugar com 32% da produção, o D istrito Federal caíra para 21%, vindo em terceiro o Rio G rande do Sul com 11%. Estam os com parando Estados com u m a cidade. Em term os de cidades, os dados são im precisos. De qualquer form a, é certo que São Paulo superou o Rio de Janeiro em algum m o ­ m ento entre 1920 e 1938.

Os principais ram os industriais da época foram o têxtil em prim eiro lugar e a seguir a alim entação, incluindo bebidas e vestuário. A in d ú stria têxtil, sobre­

tu d o a de tecidos de algodão, foi a verdadeiram ente fabril pela concentração do capital nela investido e pelo n ú m ero de operários. Várias delas chegaram a ter m ais de m il trabalhadores. Já p o r volta da P rim eira G uerra M undial, 80% dos tecidos consu m id o s no país eram nacionais, in d ican d o u m a m e lh o ra de sua qualidade. Apesar desse relativo avanço n a produção industrial, havia p rofunda carência de u m a in d ú stria de base (cim ento, ferro, aço, m áquinas e equ ip am en ­ tos). Desse m odo, grande p arte do surto industrial dependia de im portações.

É c om um a referência à P rim eira G uerra M undial com o u m período de in ­ centivo às indústrias, dada a interrupção da concorrência de p ro d u to s im p o rta ­

Referências

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