QUANDO 8 – INVENTÁRIO BIBLIOGRÁFICO SOBRE AS PESQUISAS
3.1 OS MUSEUS DE HISTÓRIA NATURAL E SUA HISTÓRIA
Os museus surgiram como locais de distração. Segundo Veitenheimer-Mendes, Fábian e Silva (2009), no século III a.C foi utilizado pela primeira vez o termo Mouseion, Casa das Musas, local consagrado à erudição e à pesquisa.
Posteriormente, esses espaços se tornaram locais de grande acúmulo de objetos
oriundos de estudos; animais estranhos e materiais curiosos, os quais eram trazidos em grande parte das viagens a lugares exóticos. A partir desse uso, esses locais passaram a ser denominados gabinetes de curiosidades. Esses locais eram mantidos pela elite e então restritos: “como os nobres viajavam com grande frequência, os museus tornaram-se locais privilegiados socialmente” (VEITENHEIMER-MENDES;
FÁBIAN; SILVA, 2009, p. 193). Os museus eram, então, espaços de atração para convidados restritos, utilizados também para reuniões e trocas de ideias.
Segundo Marandino (2009), aos poucos os gabinetes de curiosidades perderam força, devido a transformação na forma de apresentar e retratar as coleções, as quais começaram a apresentar uma certa sistematização. Entre o século XVI e XIX ocorreu a substituição dos antigos gabinetes de curiosidades pelos museus científicos e pouco a pouco a compreensão sobre os museus também foi sendo transformada. A partir daí os museus passaram a não apenas armazenar materiais, mas também a preparar, identificar e sistematizá-los. Isso trouxe novos sentidos à função dos naturalistas, pois as coleções passaram a ser usadas como suporte de demonstração, de modo a se tornarem assim mais atrativas e informativas.
Os primeiros museus públicos, como instituição, surgiram nos séculos XVII e XVIII, consequência do crescente interesse pela cultura e pelas ciências, por uma necessidade de organizar o conhecimento existente. A essa preocupação, expressa particularmente pelos enciclopedistas franceses, somou-se a demanda da sociedade da época em partilhar esse conhecimento, o que implicava no acesso do público às coleções. Filósofos e cientistas sugeriam, já nessa época, a criação de museus voltados às ciências (GASPAR, 2006, p. 142).
Os museus foram aos poucos crescendo, multiplicando, diversificando-se e acontecimentos históricos influenciaram nesse processo. “A Revolução Industrial e o progresso científico deram origem aos museus de ciências e tecnologia, enquanto o impacto da teoria de Darwin influenciou fortemente na proliferação de museus de História Natural por todo o mundo” (GASPAR, 2006, p. 144). O autor salienta que as feiras industriais e exposições eram comuns e muitas delas acabaram dando origem a um grande número de museus, como por exemplo, o Museu de Artes Industriais de South Kensington em Londres 1857, o qual se originou devido ao grande volume de visitantes em feiras (mais tarde foi nomeado Museu de Ciências de Londres).
Mas foi o século XIX que ficou marcado pela diversificação dos museus.
Neste século começa a haver a abertura de inúmeros museus de temáticas diversificadas – de arte, de história e os museus de ciências naturais –, na Europa e nas Américas. São criados jardins zoológicos onde o interesse científico pelas espécies exóticas é alimentado pelas expedições através do mundo. Um novo conceito, que privilegia a conservação do ambiente natural, surge nos Estados Unidos com o primeiro parque natural – o Yellowstone Park(VEITENHEIMER-MENDES; FÁBIAN; SILVA, 2009, p. 194).
Nesse mesmo período entre os séculos XIX e XX houve uma mudança na concepção sobre os museus. Essa mudança refletiu em um direcionamento dos museus para educação, esse novo olhar ganhou força e os museus passaram a valorizar a visitação pública, preocupando-se em instruir e tornar a visita atrativa, além de divulgar o conhecimento científico (GASPAR, 2006; GRUSMAN; SIQUEIRA, 2007).
Foi somente a partir da segunda metade do século XX que o papel educativo dos museus passou a ser formalmente reconhecido, tendo em vista a definição dos contornos educacionais mais precisos dados as ações promovidas nessas instituições. Nesse momento, há uma grande ênfase no plano educativo. Essa postura é assumida especialmente pelos museus de temática científica, por meio da utilização de métodos dinâmicos e populares e da promoção da participação mais direta do público leigo como formas de favorecer a aquisição de conhecimento (CAZELLI; COSTA; MAHOMED, 2010, p. 582).
Com o passar do tempo essas atividades passaram a ser valorizadas e ampliadas. Com o fortalecimento desses espaços no país, instituições foram fundadas com o intuito de incentivar locais destinados às ciências, como museus de história natural, zoos, jardins botânicos e outros.
Na trajetória histórica dos museus não ficam evidentes apenas seus direcionamentos e diversidades. Pesquisadores apresentam uma classificação dos museus em gerações, onde as mudanças ocorridas se destacam e delimitam uma geração e outra. Segundo Carvalho e Pacca (2015), os museus podem ser classificados em três gerações. Como primeira geração identificam-se os museus direcionados a guardar objetos, amostras de animais e as grandes invenções. Estão entre eles os gabinetes de curiosidades e os primeiros museus de história natural.
A segunda geração inclui os museus em que a organização de coleções valiosas tinha destaque. Porém, a princípio ainda não eram destinados a pesquisas, passando a apresentar um direcionamento para os estudos mais tarde, na Renascença. Segundo Marandino (2008), esta geração direcionou-se aos avanços científicos, tecnológicos e industriais, compreendidos entre os séculos XIX e XX.
As duas primeiras gerações, que se destinavam a expor coleções, principalmente, poderiam ser associadas à ‘pedagogia tradicional’: os museus eram tidos como espaços detentores de conhecimento, mas pouco preocupados em incentivar a participação do público. Ainda na segunda geração, os equipamentos em exposição começaram a transformar-se em objetos de respostas programadas com interatividade limitada (CARVALHO;
PACCA, 2015, p. 168).
Para Cazelli et al. (1999, p. 6), a segunda geração teve como ênfase o avanço científico e o desenvolvimento do trabalho e destaca que “nesta geração estão os museus que contemplavam a tecnologia industrial, tendo finalidades de utilidade pública e de ensino mais explícitas que os museus de primeira geração.”
SegundoCarvalho e Pacca (2015), a passagem da segunda geração para a terceira foi caracterizada pelo surgimento de ações educativas e preocupações com a visitação do público. Assim “a partir da terceira geração, os museus passaram a se preocupar em informar o público, sendo marcados pela interatividade com os objetos em exposição” (CARVALHO; PACCA, 2015, p. 168). Para Cazelli et al. (1999) essa geração tem como foco a comunicação entre o visitante e a ciência e esta é marcada pela interatividade com seus aparatos. Essa geração “procura garantir o engajamento intelectual dos usuários por meio de uma interação física dinâmica, não restrita a simples toques” (CAZELLI et al., 1999, p. 8).
Acerca da história dos museus no Brasil, Marandino (2008) nos mostra que aconteceu apenas no século XIX o surgimento dos primeiros museus no Brasil, e que estes foram criados dentro dos moldes europeus e norte-americanos.
O primeiro museu a surgir no Brasil foi o Museu Real (Rio de Janeiro), criado em 6 de julho de 1808. Com uma coleção baseada nas ciências naturais, posteriormente tornou-se Museu Nacional. Foi esse o modelo que inspirou mais tarde a criação do Museu Paraense Emílio Goeldi (Belém, 1866), do Museu Paranaense (Curitiba, 1883) e do Museu Paulista (São Paulo, 1895) (MARANDINO, 2008, p. 8).
As pesquisas direcionadas à história dos museus no Brasil afirmam um importante dado, apresentando o século XX como o período de concentração dos trabalhos realizados nessas instituições e o aumento significativo desses espaços nacionalmente. Para Considera (2011, p. 3) “é bem verdade que o século XIX terminou com menos de vinte museus em todo o território nacional, enquanto o século XX encerrou com aproximadamente 2.700 museus”. Apesar de diversos trabalhos discutirem os museus e sua trajetória, segundo o autor, são relativamente poucos os
que se aprofundam na história dos museus brasileiros, sendo em geral presos a temas ou a períodos específicos.
3.2 MUSEUS DE HISTÓRIA NATURAL E MUSEU DE CIÊNCIAS: ENTRE