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OS NARRADORES DIZEM O BAIRRO E DIZEM A CIDADE

A nossa experiência com a Educação Patrimonial Popular Intergeracional tem sido um caminho metodológico facilitador da expansão de uma Pedagogia da Cidade, que por sua vez, tem colaborado na construção de mapas mentais citadinos por parte das novas gerações que não testemunharam os acontecimentos do passado experienciados pelos moradores mais velhos.

O bairro das Malvinas tem sido foco de nossa pesquisa em Educação Patrimonial com mais profundidade desde o ano de 2011. É um bairro campinense que se destaca pela sua densidade demográfica, possui mais de 80.000 habitantes, dentro de uma cidade com 400.000 habitantes, se destaca também pela riqueza da sua historicidade e do seu patrimônio

172 cultural. Os narradores dessa história,

ao contarem o processo de ocupação desse bairro, afirmam a sua alteridade, porque foram vistos e perseguidos pelos políticos locais na década de 80 do século XX, como os

“outros” desordeiros e ameaçadores da ordem, mas teimaram em determinar a geometria dos pobres no delineamento de seus traçados urbanos referentes às moradias da cidade.

O tópico virou topológico, em 1983 a cidade de Campina Grande contava com uma obra da iniciativa do governador Wilson Braga, intitulada Conjunto Álvaro Gaudêncio, obra planejada para moradores populares urbanos que compraram a chave de suas casas com baixo custo.

Finalizada a construção das casas, a infraestrutura necessária para uma moradia digna dos populares não foi materializada pelo gestor estadual. Os pobres migrantes do campo para a cidade de Campina Grande que estavam desabrigados e que moravam em casas alugadas, mas eram expulsos dessas casas por não conseguirem pagar o aluguel em dia, souberam dessa realidade de casas construídas e não habitadas e decidiram “invadir” a área.

Para a narradora “delinquente”

D. Rivonise, uma grande pedagoga da cidade, o espaço não foi invadido, o

espaço foi ocupado, percebemos que a leitura do texto citadino dos populares vai na contramão da leitura oficial, classificatória e excludente. Ela nos contou que estava vivendo um momento difícil com a família, tinha que viver se mudando direto, porque não conseguia pagar aos alugueis em dia. As suas narrativas nos conduziram a uma viagem a “outras”

cidades e a “outros” citadinos. Ao tomar conhecimento das casas desocupadas do Conjunto Álvaro Gaudêncio, a narradora decidiu ocupar, já que não tinha casa para momento extremamente político.

Época de eleições, eu fui junto. Fui comunicada da ocupação. A defasagem de moradia era grande em Campina, todo mundo foi pelo desejo de possuir sua própria casa. Foi feita uma relação do movimento com a guerra que tava acontecendo nas Malvinas. O governador colocou o cerco policial, quem tava dentro não podia sair, quem tava fora, não podia entrar. A ocupação aconteceu no dia 26 de março de 1983, era Semana Santa, no domingo da Páscoa, a gente fez uma Via Sacra, quebramos o cerco policial, torando os arames. A gente dizia aos policiais que ia comprar pão, leite e água, eles não queriam deixar. A mulher tem mais coragem de desafiar um homem, do que outro homem, eu

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chegava junto dos policiais e dizia, você não tem mãe não, se fosse sua mãe que tivesse aqui, você ia deixar ela ficar com sede e fome.

A gente tentava sensibilizar os policiais, a gente foi criando corpo, criando corpo, já vem com alma.

Campina ficou despoliciada, o governador botou todos os policiais lá. Eu disse a um deles, eu vou mostrar como eu passo.

Ele disse que eu era a mais atrevida de todas as mulheres que tavam ali. Eu dizia, não fizemos nada errado, ocupamos uma área que tava abandonada. Será que o senhor não tem um parente seu aqui...quando se trata de parente, a gente amolece, deixa eu entrar, faça de conta que sou sua mãe. O policial respirou fundo e disse:

tenho que manter a ordem. Eu respondi, se não deixar eu passar, garanto que vai ter desordem, as mulheres com crianças chorando de fome vão quebrar esse cerco.

Ele me deixou passar, eu disse: é bom o senhor ver quantas pessoas tão esperando eu passar com essa comida, era muito pacote. Lá estava sem energia, tinha pouco candeeiro, a gente tava ali porque a importância da casa era muito grande. O cerco policial durou 30 dias3.

A narrativa de D. Rivonise expressa um potencial combativo e criativo pulsantes. Ela ressaltou em sua entrevista a participação numérica e qualitativa das mulheres populares, elas foram as grandes protagonistas dessa história de redesenho do texto cidade, rompendo com os paradigmas geométricos burgueses. A força do enfrentamento, conforme o relato da militante estava atrelada ao desejo e à necessidade de uma moradia para si e sua família. O autoritarismo do gestor estadual é flagrante, é tanto que a narradora

comentou que a cidade ficou despoliciada, todos os policiais migraram para o cerco do Conjunto Álvaro Gaudêncio para os “donos do poder” e Malvinas para os ocupantes.

A alteridade dos ocupantes se confirmou também, na denominação do território, intitulando-o de bairro das Malvinas, em contraposição à denominação oficial “Conjunto Álvaro Gaudêncio”. Este era oficial, mas era vazio, não tinha moradores, aquele era a desordem, mas expressava a existência de famílias populares ávidas por moradia. Malvinas é o nome topológico do bairro e Álvaro Gaudêncio é o nome tópico. E para dar vitalidade à nossa Pedagogia da Cidade popular, ressaltamos que a cartografia que venceu diante desses embates entre o poder vertical e os micropoderes horizontais foi a cartografia dos sujeitos ordinários e não dos homens ilustres.

Dando continuidade a essa trama de luta, bem como a recuperação das memórias coletivas dos moradores do bairro das Malvinas, entrevistamos Iara Rodrigues, filha de uma companheira de luta de D. Rivonise, ao

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As Malvinas marcou a minha vida e a minha formação como ser...isso percebo melhor hoje relembrando os tempos da ocupação das casas e desse tempo de lutas e sofrimentos, tudo isso pra conquistar a moradia um dos direitos garantidos na Constituição Brasileira. No inicio as casas eram todas iguais no das casas tinha escrito na parte da frente “ESSA CASA É MINHA”... ou muitas vezes tinha a frase

“OCUPADA” escrita com carvão...naqueles momentos nós moradores vivemos cenas de guerra, pelos enfrentamentos com a policia e em reivindicações com os governantes da época, foi muito sofrimento e também alegrias e conquistas. Relembro dos momentos de pegar água, de frente a Igreja católica São Francisco foi construída uma cisterna d´água, o carro pipa chegava e enchia a cisterna e as bacias, baldes e latas de água dos moradores, eram filas e filas, dava muita confusão, brigas, tinha momentos de muita alegria pela água ter chegado, uma festa, uma mistura de sentimentos... A luta continua... pois foram muitas reivindicações, e das prestações das casas foi a mais recorrida pelos moradores, muitas comissões, muitas reuniões, passeatas, muitas solicitações aos governantes para isentar das tais cobranças dos moradores. As reuniões nas quadras era a solução pois nos primeiros momentos das Malvinas não existia associação de moradores, as reuniões eram feitas nas ruas sob a luz dos candeeiros e lamparinas por causa da falta de energia. Passaram muitas lideranças, Elpídio Feitosa, Clovis Barbosa, nessa época da ocupação...o centrar em sua formação deu-se também nas Malvinas, o PT também esteve dentro dessas lutas e organização popular. Participação de muitos

moradores que me vem na mente, Lindalva, Geneceuda, Carlinhos, Padua, Rita, Marcos, as freiras Heloisa, Ana, Zélia, Ritinha, Sr.

Silvino, Dona Maria, Sr. José, Dona Mocinha, Carlos da Radio Lagar Fm, Adijelson Cavalcanti que criou o hino das Malvinas, Edier Sabino, entre tantos outros... A igreja católica esteve muito presente nessa luta, na época eu e minha mãe fazíamos parte da Igreja São Francisco, as irmãs do sagrado coração de Jesus contribuíram e muito para organização da comunidade pra enfrentamento de toda demanda de problemas que tínhamos, desde a participação religiosa a participação política, tínhamos muita formação, éramos um grupo de catequistas que dávamos formação pra crianças, era muito bom, tínhamos muito compromisso de reza e de participação política. As missas no pé de juá...as celebrações da vida, da nossa história das Malvinas, era vivida e muito celebrada. Algo que lembro com muita alegria foi o mutirão de construção da Igreja católica São Francisco, eram domingos e domingos de festa e partilha, pois tudo era dividido, as tarefas, as mulheres cozinhavam, faziam os lanches, cafés e almoços para os homens que trabalhavam na construção, a gente organizava tudo, as pessoas que participavam das tarefas, a uma povo, a consciência do que se quer...e a força de uma comunidade que enfrenta com passeatas, documentos, pressão política e reivindica seus direitos negados ,sua dignidade renegada... aprendi sobre pequenas ações de força imensa...

as pessoas são fortes quando se unem, quando conversam, dialogam, discutem e discordam também, a paciência de criar processos de contribuições diversas uns com os outros..4

175 O depoimento de Iara confirma

a representação do bairro como um espaço pedagógico de produção e circulação de saberes como a vida em comunidade, o aprendizado da luta, das experiências lúdicas e religiosas de sociabilidade, criando assim um novo espaço fisicamente e simbolicamente. A capacidade criativa dos moradores do bairro das Malvinas foi registrada por meio de um mapeamento cultural que fizemos na comunidade viabilizada pela atuação do Programa PET-EDUCAÇÃO do qual sou autora e fui tutora durante 06 anos. Nessa comunidade nos deparamos com muitas riquezas, encontramos artistas como:

cordelistas, músicos, oleiras, restauradoras de móveis antigos, dançarinos, costureiras e rezadeiras que por meio das suas artes de fazer constroem uma Pedagogia da cidade fundamentada no patrimônio cultural local.