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OS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS NO CONTEXTO BRASILEIRO E O

A legislação processual brasileira, em que pese tenha suas bases pautadas no sistema liberal, sofreu a influência europeia de instituição do publicismo, contribuindo para o protagonismo judicial no processo12. Em razão disso, tradicionalmente, a doutrina sempre se mostrou aversa na admissão dos negócios processuais, valendo-se, para tanto, de diversas justificativas: a existência apena de normas cogentes no processo; a fonte da regra processual

9 LUCCA, Rodrigo Remina. Liberdade, autonomia e convenções processuais. In: CABRAL, Antônio do Passo;

NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 1. 4. ed.

Salvador: JusPodivm, 2020. p. 24.

10 CABRAL, Antônio do Passo. Convenções Processuais. Salvador: JusPovm, 2016. p. 116.

11 CABRAL, Antônio do Passo. Convenções Processuais. Salvador: : JusPodivm, 2016. p. 127.

12 CUNHA, Leonardo Carneiro. Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro. In. CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2020, p. 52.

seria só a norma legislada; qualquer negócio necessitaria das prerrogativas judiciais; e, inexistência de espaço para os atos consensuais ou convencionalidade do direito público13.

O cenário se modifica com o pensamento precursor de José Carlos Barbosa Moreira, em obra publicada em 1984, na qual dedica um capítulo exclusivo para as “convenções das partes sobre matéria processual”. Em suas conclusões sobre o tema, o jurista ensina:

A vontade das partes pode ordenar-se a influir no modo de ser do processo, no conteúdo da relação processual, como acontece na eleição de foro, nas convenções sobre distribuição do ônus da prova, sobre suspensão do feito, sobre prorrogação de prazo, sobre adiamento da audiência: fala-se então, segundo a terminologia tedesca, em […] expressão que traduziremos por efeitos dispositivos. Mas também se concebe que as partes queiram apenas criar, para uma delas ou para ambas, a obrigação de assumir determinado comportamento, de praticar ou deixar de praticar certo ato processual (não recorrer, desistir de recurso interposto, não executar a sentença, desistir da ação de execução etc.): os autores de língua alemã usam aqui a denominação […] traduzível por efeitos obrigatórios14.

No âmbito legislativo, por sua vez, as primeiras autorizações que se enquadram ao conceito de negócio jurídico processual podem ser referenciadas no Regulamento n.

737/185015. Do mesmo modo, podem ser encontrados no Código de Processo Civil de 1973 alguns resquícios daquilo que se chama de negociação processual16.

A despeito da presença dos negócios jurídicos processuais típicos no Código de Processo Civil de 197317, o autor Leonardo Carneiro da Cunha elenca, dentre outros, os seguintes exemplos: acordo de eleição de foro (artigo 111); prorrogação da competência territorial por inércia do réu (artigo 114); desistência do recurso (artigos 158 e 500, III);

convenções sobre prazos dilatórios (artigo 181); convenção para suspensão do processo (artigos 265, II e 792); convenção sobre a distribuição do ônus da prova (artigo 333, parágrafo único);

renúncia ao direito de recorrer (artigo 502); desistência da execução ou das medidas executivas (artigo 569); acordo de partilha (artigo 1.031)18.

13 FARIA, Guilherme Henrique Lage. Negócios processuais no modelo constitucional de processo. 2. ed.

Salvador: JusPodivm, 2019, p. 47.

14 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Temas de Direito Processual: Convenções das partes sobre matéria processual. Terceira série. São Paulo: Saraiva, 1984, p. 97.

15 Que determina a ordem do juízo no processo comercial estendido às causas cíveis por força do Decreto n.

763/1890.

16 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018, p. 32.

17 Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 1973. [acesso em 2021 Ago. 30]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5869impressao.htm.

18 CUNHA, Leonardo Carneiro. Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro. In. CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2020, p. 60-61.

Ainda assim, muito embora o Código de Processo Civil de 1973 tivesse previsão expressa, nos termos do artigo 15819, no sentido de atribuir efeitos jurídicos imediatos aos atos das partes em suas declarações unilaterais e bilaterais de vontade, a doutrina nacional não desenvolveu estudo que sedimentasse e aprofundasse o tema da negociação típica e atípica20.

Antes mesmo da aprovação do Código de Processo Civil de 2015, foram diversos os doutrinadores que se posicionaram de forma adversa à existência e permissão dos negócios jurídicos processuais, entre eles: Cândido Rangel Dinamarco, Alexandre Freitas Câmara e Vicente Greco Filho – posicionamentos que, com a vigência do Código de Processo Civil de 2015, foram revisitados e atualizados21.

Cândido Rangel Dinamarco, anteriormente à vigência do Código de Processo Civil, ao se posicionar pela inexistência dos negócios processuais, menciona:

É forte a doutrina, na negativa da existência de negócios jurídicos processuais. Incluir-se-iam nessa categoria os acordos quanto à competência, os direcionados à modificação da distribuição do ônus da prova (CPC, art. 333, par.) ou mesmo a convenção arbitral (lei n. 9.307, de 23.9.96 – Lei da Arbitragem – art. 3º e art. 19, par.)? Deve prevalecer a resposta negativa, porque o processo em si mesmo não é um contrato ou negócio jurídico (supra, n. 387) e em seu âmbito inexiste o primado da autonomia da vontade: a lei permite a alteração de certos comandos jurídicos por ato voluntário das partes, mas não lhes deixa margem para o auto-regramento que é inerente aos negócios jurídicos. A escolha voluntária não vai além de se direcionar em um sentido ou em outro, sem liberdade para construir o conteúdo específico de cada um dos atos realizados.22

Por seu turno, em posição favorável, Pontes de Miranda reconhece a existência de negócios processuais sobre a desistência da ação ou do recurso, o de não utilizar o rito especial, ou de não usufruir da prerrogativa do processo executivo, o de não admitir prova documental, ou alguma outra, em certos casos23. Em consonância com o mesmo pensamento, destacam-se as doutrinas desenvolvida nos trabalhos de Fredie Didier Júnior., Paula Sarno Braga, Pedro Henrique Pedrosa Nogueira, Antônio do Passo Cabral, Laonardo Carneiro da Cunha, entre outros que serão citados no transcorrer deste trabalho.

19Art. 158. Os atos das partes, consistentes em declarações unilaterais ou bilaterais de vontade, produzem imediatamente a constituição, a modificação ou a extinção de direitos processuais. (Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 1973. [acesso em 2021 Ago. 30]. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l586).

20 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018, p. 33.

21 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018, p. 35-36.

22 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2004, v. II, p. 472.

23 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários ao Código de Processo Civil. Rio de Janeiro:

Forense, 1974, t. 3, p. 5.

A ideia do modelo cooperativo de processo e os estudos mais recentes acerca dos negócios processuais foram fortalecidos com a constitucionalização do direito, a consolidação da ideia de que princípio é norma e com a adoção de técnica legislativa de uso de termos indeterminados e de cláusulas gerais. Ao lado disso, a imagem do Estado Democrático de Direito se solidificou, exigindo a participação dos sujeitos que estão submetidos às decisões a serem tomadas acerca de situações que lhes digam respeito24.

Nesse cenário, a doutrina passou a defender a participação dos sujeitos processuais, inclusive das partes, na edificação da decisão dos casos que são colocados ao crivo judicial para que sejam solucionados. Alicerçou-se, dessa maneira, a ideia de que o Estado democrático não se satisfaz com a ocorrência de atos repentinos de qualquer de seus órgãos, sobretudo daqueles destinados à aplicação do direito. Nas palavras de Leonardo Carneiro da Cunha “[...] a efetiva participação dos sujeitos processuais é medida que consagra o princípio democrático inspirador da Constituição de 1988, cujos fundamentos são vetores hermenêuticos para aplicação das normas jurídicas”25.

Seguindo o caminho proposto pelos ditames constitucionais, o Código de Processo Civil de 2015 inaugura um modelo cooperativo de processo, mediante a valorização da vontade das partes e equilíbrio nas funções de cada sujeito processual. Com efeito, “todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva” (artigo 6º); “é assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório” (artigo 7º); “ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência” (artigo 8º); “não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida” (artigo 9º); e, finalmente “o juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício” (artigo 10)26.

24 CUNHA, Leonardo Carneiro. Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro. In. CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2020, p. 61.

25 CUNHA, Leonardo Carneiro. Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro. In. CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2020, p. 61-62.

26 Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 2015. [acesso em 2021 Ago. 30]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm.

Diante desse novo paradigma, introduzido primordialmente pelo espírito do Estado Democrático de Direito, o Código de Processo Civil prevê expressamente a adoção do negócios jurídicos processuais em seu artigo 19027. Ainda, entre as grandes novidades, apresenta a possibilidade do calendário processual, segundo dispõe o artigo 19128. Ambos os dispositivos serão abordados no presente trabalho.

Feitas essas breves digressões históricas, passa-se a discorrer sobre o panorama dos direitos fundamentais relacionados ao direito processual, sobretudo os que servem de arcabouço teórico para os negócios jurídicos processuais.

2.3 PANORÂMA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS RELACIONADOS AOS