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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ROSALIA ALZIRA DA ROSA

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Academic year: 2022

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ROSALIA ALZIRA DA ROSA

NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS E A IMPLEMENTAÇÃO DO DIREITO FUNDAMENTAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO: A UTILIZAÇÃO DO

CALENDÁRIO PROCESSUAL DISPOSTO NO ARTIGO 191 DO CPC/2015

Palhoça 2021

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ROSALIA ALZIRA DA ROSA

NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS E A IMPLEMENTAÇÃO DO DIREITO FUNDAMENTAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO: A UTILIZAÇÃO DO

CALENDÁRIO PROCESSUAL DISPOSTO NO ARTIGO 191 DO CPC/2015

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientadora: Prof. Sâmia Fortunato, Ma.

Palhoça 2021

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ROSALIA ALZIRA DA ROSA

NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS E A IMPLEMENTAÇÃO DO DIREITO FUNDAMENTAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO: A UTILIZAÇÃO DO

CALENDÁRIO PROCESSUAL DISPOSTO NO ARTIGO 191 DO CPC/2015

Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina.

Palhoça, 06 de dezembro de 2021.

______________________________________________________

Professora e orientadora: Prof. Sâmia Fortunato, Ma.

Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________

Prof. Gisele Rodrigues Martins, Ma.

Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________

Prof. Deisi Cristini Schweitzer, Ma.

Universidade do Sul de Santa Catarina

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TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE

NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS E A IMPLEMENTAÇÃO DO DIREITO FUNDAMENTAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO: A UTILIZAÇÃO DO

CALENDÁRIO PROCESSUAL DISPOSTO NO ARTIGO 191 DO CPC/2015

Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico e referencial conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Sul de Santa Catarina, a Coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de todo e qualquer reflexo acerca deste Trabalho de Conclusão de Curso.

Estou ciente de que poderei responder administrativa, civil e criminalmente em caso de plágio comprovado do trabalho monográfico.

Palhoça, 22 de novembro de 2021.

____________________________________

ROSALIA ALZIRA DA ROSA

(5)

Aos meus pais, Domingos e Alzira, pela vida de amor e constante dedicação para que eu pudesse alcançar o meu sonho.

Ao meu querido Vinícius de Souza (in memoriam), que por seu lindo exemplo de vida, me inspira a alcançar os meus objetivos, entre eles, a execução deste trabalho.

(6)

AGRADECIMENTOS

A concretização do presente trabalho, sem dúvida, ilustra a conquista de um grande sonho. Desde muito cedo, quando ainda criança, já me imaginava trilhando os caminhos da graduação e, para que isso fosse possível, há muito venho me dedicando aos estudos. Todo esse empenho, contudo, me fez renunciar a muitos momentos, justamente com o propósito de conduzir as minhas energias aquilo que, para mim, sempre foi prioridade: o conhecimento. Eis o maior e verdadeiro tesouro do homem, pois, de fato, é a conquista na qual nada e nem ninguém pode usurpar.

Ainda que eu sinta o engrandecimento que denota a conclusão do presente trabalho, tudo isso não deixa de ser reflexo das íntegras conexões que estabeleci ao longo da vida. Por isso, registro os meus sinceros agradecimentos:

Inicialmente, a Deus, que foi e sempre será o meu refúgio nesta jornada chamada vida.

Agradeço imensamente por ter me conduzido até aqui com saúde e ter me dado a sabedoria e resiliência necessárias para enfrentar todos os desafios que apareceram no caminho.

Aqueles que eu sinto muito orgulho de chamar de “meus pais”: Domingos da Rosa e Alzira da Rosa, as pessoas que me ensinam diariamente o verdadeiro significado do amor e dedicação ao próximo. Meu pai, o homem mais gentil e honesto que tive o prazer de conhecer.

Minha mãe, uma mulher ímpar, com o coração generoso e extremamente dedicada à família.

Eu os amo, com todas as minhas forças, além desta vida.

Aos meus irmãos mais velhos, Reginaldo e Rosita, os melhores presentes que os meus pais poderiam me dar. Foram eles que me inspiraram a chegar até aqui e, por isso, a minha eterna gratidão.

Ao meu avô materno, João Marques, que para mim é um grande exemplo de homem que dedicou sua vida ao trabalho árduo. Ele não teve as mesmas oportunidades que eu, mas foi o grande motivo de eu estar aqui hoje.

Aos meus sobrinhos, João Felipe, Maria Júlia e Luísa, motivos das minhas alegrias diárias. A eles, todo o meu carinho e amor.

Aos meus cunhados, Cleusa e Rony, que são como irmãos para mim. Agradeço por eles estarem ao meu lado, em todos os cenários imagináveis.

Aos meus tios, Inácio e Eliete. Tio Inácio que sempre vibrou com as minhas conquistas e Tia Eliete que nunca largou a minha mão, nem mesmo nos momentos mais difíceis. A eles, o meu muito obrigada.

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Às minhas amigas e parceiras de vida: Larissa Marques (que também é minha prima), por ter me proporcionado as melhores memórias da infância e permanecer até hoje ao meu lado;

Rebeca Poletti, que sempre se faz presente (inclusive, faz parte da minha família), me apoiando em todas as minhas decisões; Mariana Destri, que sempre está ao meu lado e me compreende como ninguém.

Aos meus “pais do coração” Vanderléa Silva e Anísio de Souza, por fazerem de mim parte das suas famílias e por todo carinho que sempre tiveram comigo.

À minha orientadora, professora e quem também tenho a honra de chamar de amiga, Dra. Sâmia Fortunado. Agradeço, com muito carinho, por ter me inspirado na escolha do tema abordado no presente trabalho, fornecido boa parte do material utilizado na concretização da pesquisa e, sobretudo, por sempre ter me acolhido e compartilhado os seus valiosos conhecimentos durante esses anos da graduação.

Aos colegas e amigos do escritório Zoldan & Rodrigues Advogados (Sâmia Fortunato, Fernando Rodrigues, Gabrielle Schweitzer, Douglas Nascimento, Ana Karoline Beppler e Luam Freitas). Em especial, destaco a minha gratidão ao Professor Fabiano Zoldan, com quem tive a oportunidade de aprender e trocar experiências ao longo dos últimos anos.

À Dra. Paula Farias, primeiro por ter a ousadia de me contratar como estagiária quando eu ainda estava na primeira semana do curso de Direito (isso foi primordial para que eu me tornasse a profissional que sou hoje). Porém, acima de tudo, agradeço por ter me ensinado a prática jurídica com tanta gentileza e também por ter me apresentado o ramo do Direito Imobiliário (área que até hoje eu dedico os meus esforços).

Aos membros Menezes Niebuhr Sociedade de Advogados, em especial à Dra. Luiza Rodrigues, que me inspira a ser cada vez melhor profissionalmente e à Dra. Gabriela Koerich que sempre se dispõe a me auxiliar em tudo que seja necessário.

Ao grupo de pesquisa Zeitgeist, em especial ao Professor Alexandre Botelho, que me incentivou e conduziu à pesquisa jurídica.

Aos meus colegas e amigos da da graduação, em especial à Rafaela Prim, à Daiany Silveira, à Julia Scalco, ao Luiz Guilherme Martins e ao Leonardo Fuck, pela parceria e contribuições ao longo desses cinco anos de curso.

E, por fim, à Universidade do Sul de Santa Catarina, aos professores do curso de Direito e demais servidores, por todo zelo e maestria com quem exercem suas respectivas funções.

(8)

“É missão do processualista auxiliar o Poder Judiciário e a ciência processual neste desafiador momento de transformação, revisitando velhos institutos e propondo a criação de novos, ou mesmo apresentando um olhar diferente sobre o contexto presente, tudo na linha de colaborar com a busca da tão sonhada efetividade processual”. (Elias Marques)

(9)

RESUMO

O presente trabalho de conclusão de curso tem por objetivo verificar a potencial contribuição dos negócios jurídicos processuais, em especial, a calendarização processual na implementação do direito fundamental à razoável duração do processo. Para tanto, a pesquisa utiliza o método de procedimento monográfico, de natureza qualitativa, com método de abordagem dedutivo.

Para chegar na resposta do questionamento, em um primeiro momento, são apresentadas as noções históricas e constitucionais necessárias à compreensão dos negócios jurídicos processuais. Após, explana-se os fundamentos introdutórios dos negócios jurídicos processuais:

a teoria dos fatos jurídicos, conceitos gerais do instrumento, a classificação e a relação com o princípio do autorregramento da vontade no processo. Por fim, é analisado a potencial contribuição dos negócios jurídicos processuais, em especial a calendarização disposta no artigo 191 do CPC/2015, na implementação do direito fundamental à razoável duração do processo.

A conclusão da presente pesquisa revela que os negócios jurídicos processuais, e especificamente a calendarização do processo, são ferramentas úteis à implementação da garantia constitucional, porém, encontra-se ressalva na aplicabilidade prática do calendário, sobretudo em razão da mentalidade dos operadores do direito que estão acostumados com o processo movido pelo impulso judicial e diante da burocrática dinâmica do Poder Judiciário, em especial, dos cartórios judiciais.

Palavras-chave: Negócios jurídicos processuais. Razoável duração do processo. Calendarização processual.

(10)

LISTA DE ABREVIATURAS E CIGLAS

CPC/2015 – Código de Processo Civil de 2015 CNJ – Conselho Nacional de Justiça

REsp – Recurso Especial

STJ – Superior Tribunal de Justiça

(11)

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 9

2 NOÇÕES HISTÓRICAS E CONSTITUCIONAIS NECESSÁRIAS À COMPREENSÃO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS ... 12

2.1 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E UNIVERSAL NECESSÁRIA AO ESTUDO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS: ENTRE A NATUREZA PÚBLICA E PRIVADA DO DIREITO PROCESSUAL... 12

2.2 OS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS NO CONTEXTO BRASILEIRO E O NOVO PARADIGMA INSTRUÍDO PELO CPC/2015 ... 14

2.3 PANORÂMA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS RELACIONADOS AOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS ... 18

2.3.1 O princípio constitucional da liberdade como fundamento aos negócios jurídicos processuais ... 19

2.3.2 Razoável duração e eficiência do processo: a problemática que envolve o sistema jurídico brasileiro ... 21

3 FUNDAMENTOS INTRODUTÓRIOS AOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS ... 26

3.1 TEORIA DOS FATOS JURÍDICOS E A CONCEITUAÇÃO GERAL DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS ... 28

3.1.1 Teoria dos fatos jurídicos e dos fatos jurídicos processuais ... 29

3.1.1.1 Fatos jurídicos, atos jurídicos e negócios jurídicos ... 29

3.1.1.2 Fato jurídico processual e ato jurídico processual ... 30

3.1.2 Conceituação geral dos negócios jurídicos processuais ... 31

3.2 CLASSIFICAÇÃO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS ... 35

3.2.1 Quanto ao momento do negócio ... 35

3.2.1.1 Negócios jurídicos prévios (ou pré-processuais) ... 35

3.2.1.2 Negócios jurídicos incidentais (sobre um processo já instaurado) ... 37

3.2.2 Quanto ao suporte legal adotado ... 38

3.2.2.1 Negócios jurídicos processuais típicos ... 38

3.2.2.2 Negócios jurídicos processuais atípicos e a cláusula geral de convencionalidade ... 38

3.2.3 Quanto ao número de declarações de vontade ... 40

3.2.3.1 Negócios jurídicos unilaterais ... 40

3.2.3.2 Negócios jurídicos bilaterais ... 41

(12)

3.2.3.3 Negócios jurídicos plurilaterais ... 41

3.3 PRINCÍPIO DO RESPEITO AO AUTORREGRAMENTO DA VONTADE NO PROCESSO ... 41

3.3.1 Noções gerais ... 42

3.3.2 Restrições impostas e o entendimento do Superior Tribunal de Justiça ... 43

4 A POTENCIAL CONTRIBUIÇÃO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS COM A IMPLEMENTAÇÃO DO DIREITO FUNDAMENTAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO: A PACTUAÇÃO DO CALENDÁRIO PREVISTO NO ART. 191 DO CPC/2015 ... 46

4.1 NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS E O DIREITO FUNDAMENTAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO ... 47

4.2 O CALENDÁRIO PROCESSUAL: NOÇÕES INTRODUTÓRIAS... 49

4.2.1 Noções gerais ... 50

4.2.1.1 A vinculação das partes e do juiz: §1º do artigo 191 do CPC/2015 ... 52

4.2.1.2 A dispensa de intimação das partes para a prática de ato processual ou a realização de audiência cujas datas estiverem sido designadas no calendário: §2º do artigo 191 do CPC/2015 ... 53

4.2.1.3 A divergência quanto à classificação do número de manifestação de vontade ... 54

4.2.2 A calendarização e a necessária observância da ordem cronológica de conclusão disposta no artigo 12 do CPC/2015 ... 54

4.3 MOMENTO DE DEFINIÇÃO DO CALENDÁRIO PROCESSUAL ... 56

4.4 A (IM)POSSIBILIDADE DA CALENDARIZAÇÃO POR IMPOSIÇÃO JUDICIAL E A POSSIBILIDADE DE RECUSA DAS PARTES E DOS ADVOGADOS ... 57

4.5 A PACTUAÇÃO DO CALENDÁRIO PROCESSUAL DISPOSTO NO ARTIGO 191 DO CPC/2015 E A IMPLEMENTAÇÃO DO DIREITO FUNDAMENTAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO ... 58

5 CONCLUSÃO ... 61

REFERÊNCIAS ... 63

ANEXOS ... 67

ANEXO A – MODELO PRÁTICO DE TERMO DE CALENDARIZAÇÃO ... 68

(13)

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho de conclusão de curso tem por objeto a análise dos Negócios Jurídicos Processuais na perspectiva do direito fundamental à razoável duração do processo, dando-se maior ênfase à possibilidade de pactuação do calendário processual disposto no artigo 191 do Código de Processo Civil.

A importância da pesquisa consiste em debater o cenário da superlotação do Sistema Judiciário, que vislumbra notória morosidade processual, fator que culmina no imenso desgaste emocional das partes e seus advogados, na descrença no trabalho jurisdicional brasileiro e na baixa efetividade na satisfação do direito pretendido. Diante disso, com a imaginação científica fornecida pela academia, faz-se imprescindível a tarefa de encontrar meios legais que auxiliem na agilização da capacidade jurisdicional no que tange à resolução de demandas, como é o caso da calendarização processual, que possui grande potencial de dar ao processo maior celeridade e eficiência, tornando-o mais democrático e acessível aos tutelados do direito pretendido.

A escolha do tema é fruto do interesse pessoal da pesquisadora que, durante os cinco anos da graduação no curso de Direito, teve a experiência de vivenciar a prática do Processo Civil por meio de estágios não obrigatórios em escritórios de advocacia e, ao longo desse tempo, teve a percepção do quanto a morosidade do processo prejudica a tão almejada efetivação do direito buscada pelo jurisdicionado. Assim, o intuito da pesquisadora com os estudos do presente trabalho é justamente encontrar subsídios que, de fato, contribuam com o acesso à justiça e, mais do que isso, que esse acesso seja efetivo e alcance não apenas o mundo do direito, mas a realidade fática (a vida real) daqueles que mais possuem interesse no processo: as partes.

Em vista dessa contextualização, eis o seguinte problema de pesquisa: os negócios jurídicos processuais, em especial a possibilidade de pactuação do calendário processual disposto no artigo 191 do Código de Processo Civil, consiste em uma ferramenta capaz de auxiliar na implementação do direito fundamental à razoável duração do processo?

Para a análise da problemática, foram estabelecidos os objetivos da pesquisa. Como objetivo geral, por suposto, é verificar a potencial contribuição dos negócios jurídicos processuais, em especial, a calendarização processual na implementação do direito fundamental à razoável duração do processo. Como objetivos específicos, pretende-se apresentar as noções constitucionais e históricas necessárias à compreensão dos negócios jurídicos processuais;

apresentar os fundamentos introdutórios aos negócios jurídicos processuais; e, por fim, verificar se os negócios jurídicos processuais, em especial a calendarização, são ferramentas úteis à implementação do direito fundamental à razoável duração do processo.

(14)

Para alcançar os objetivos delineados, foi então escolhido o método de abordagem dedutivo, pois o trabalho visará explanar uma ideia geral dos Negócios Jurídicos Processuais, com foco específico na sua contribuição com o direito fundamental à razoável duração do processo. No que concerne à natureza do método de pesquisa, será a qualitativa, uma vez que o trabalho terá como premissa o estudo e análise de obras jurídicas, sem a mensuração ou produção de dados estatísticos. Já quanto ao método de procedimento da pesquisa, adotou-se o monográfico, viabilizado pela técnica de pesquisa bibliográfica com a análise de fontes secundárias ao tema escolhido, fundamentadas principalmente na legislação, doutrinas jurídicas, jurisprudências relacionadas, além de periódicos e artigos científicos.

O presente trabalho foi estruturado em cinco seções: introdução, três capítulos de desenvolvimento e conclusão.

Em suma, o segundo capítulo deste trabalho aborda, a evolução do pensamento de caráter publicista e privatista do direito processual, a partir de uma sintética noção histórica e universal. A partir disso, aprofunda-se o estudo com a exposição panorâmica do instituto no contexto jurídico brasileiro. Na sequência, demonstrou-se uma perspectiva dos princípios constitucionais e processuais que fundamentam a utilização dos negócios jurídicos processuais, com maior ênfase na liberdade e na duração razoável do processo.

Por sua vez, o terceiro capítulo apresenta os fundamentos introdutórios necessários à compreensão dos negócios jurídicos processuais. Em um primeiro momento, apresentou-se uma breve explicação acerca da posição das convenções processuais na teoria dos fatos jurídicos e dos fatos jurídicos processuais. Após, classificou-se os negócios jurídicos processuais: quanto ao momento (negócios jurídicos ou incidentais); quanto ao suporte legal (negócios jurídicos típicos e atípicos); e quanto ao número de declarações de vontade (negócios jurídicos unilaterais, bilaterais e plurilaterais). Em seguida, abordou-se o princípio do respeito ao autorregramento da vontade no processo, mediante as noções gerais quanto ao assunto, bem como às restrições a ele impostas.

No quarto capítulo, por fim, abordou-se os negócios jurídicos processuais no contexto da implementação do direito fundamental à razoável do processo. Para tanto, analisou-se, com mais afinco, a possibilidade de as partes pactuarem o calendário processual previsto no artigo 191 do Código de Processo Civil. Especificamente discorreu-se sobre as noções introdutórias da calendarização; o momento de definição do calendário processual; a (im)possibilidade de calendarização por imposição judicial e a hipótese de recusa das partes e seus advogados; e a análise do calendário na ótica da concretização do direito fundamental à razoável duração do processo.

(15)

Por fim, encerra-se o trabalho com a conclusão, nas quais são apresentados pontos importantes sobre os desafios do operador do direito no atual cenário do processo jurisdicional e, com isso, promove-se a resposta ao problema de pesquisa.

(16)

2 NOÇÕES HISTÓRICAS E CONSTITUCIONAIS NECESSÁRIAS À COMPREENSÃO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS

No intuito de proporcionar um adequado entendimento acerca dos negócios jurídicos processuais, é imprescindível examinar a evolução do pensamento de caráter publicista e privatista no direito processual, a partir de uma sintética noção histórica e constitucional. Para tanto, inicialmente, apresenta-se uma breve análise histórica e universal dos negócios jurídicos processuais e, a partir disso, aprofunda-se o estudo com a exposição panorâmica do instituto no contexto jurídico brasileiro. Em seguida, demonstrar-se-á uma perspectiva dos princípios constitucionais e processuais que fundamentam a utilização dos negócios jurídicos processuais, dando-se maior ênfase à liberdade e a duração razoável do processo.

2.1 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E UNIVERSAL NECESSÁRIA AO ESTUDO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS: ENTRE A NATUREZA PÚBLICA E PRIVADA DO DIREITO PROCESSUAL

O assunto dos negócios jurídicos processuais não é novo no sistema jurídico. Destaca- se, primordialmente, os estudos realizados por Josef Kohler, no final do século XIX, em trabalho referência no assunto, intitulado Über processrechtliche Verträge und Creationen, que propunha uma visão contrária à ideologia publicista que ganhava força à época. Em suma, os estudos sugeriam a ascensão da autonomia das partes, podendo estas interferirem na forma de condução do processo. Nesse cenário, a relação jurídica processual seria dotada de caráter privado, ocorrendo somente entre as partes1.

Antônio Cabral acentua que Kohler definia o contrato não apenas como uma figura do direito civil, “mas que pode nascer e se desenvolver em qualquer ramo do direito, podendo verificar-se também no direito público, e assim no direito processual”2.

Em confronto com o pensamento de Kohler, acentua-se a chamada autonomia científica do processo civil e a visão publicista apresentada na obra de Oskar Bülow, publicada originalmente em 1868, a qual passou a ter grande projeção na Europa nos anos seguintes. Em sua obra, Bülow repudiava a ideia de se admitir liberdade na negociação processual, sob a

1 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018. p. 17.

22 CABRAL, Antônio do Passo. A Resolução nº 118 do Conselho Nacional do Ministério Público e as Convenções Processuais. In: CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coords). Negócios Processuais.

Salvador: JusPodivm, 2015. p. 542.

(17)

premissa de que o processo estaria afastado do direito material, outorgando, dessa maneira, autonomia ao direito processual, o que culminou no início de uma nova fase metodológica denominada “processualista”3.

De modo geral, na perspectiva histórica, o Direito Processual caminhou de forma pendular entre sistemas considerados privativas e publicistas. Esta oscilação foi pautada nas características político-sociais de cada momento histórico, pendendo para o publicismo quando o poder governamental era, de alguma maneira, centralizado em alguma entidade ou pessoa.4 Assim, em razão do paradigma instituído pelo Estado Social, o estudo da autonomia científica do processo corresponde com a hipertrofia dos poderes conferidos aos juízes e atrofia da vontade das partes5.

Com a criação do Estado Moderno e superação da fragmentação jurisdicional típica do feudalismo, o caráter publicista do direito processual atingiu o seu auge e, por conseguinte, a partir da segunda metade do século XIX, desencadeou-se um pensamento doutrinário no sentido de que o processo e a jurisdição não servem apenas às partes, porém, exercidas pelo Estado, desempenhando relevante função pública6. Tanto é assim que, ao se referir sobre o caráter publicista do processo, Francesco Carnelutti menciona que não era o processo que servia às partes, mas as partes que serviam ao processo ao dar ao Estado a oportunidade de aplicar o direito7.

Em que pese se reconheçam as virtudes proporcionadas pelos modelo publicista do processo, a ciência processual resultou em um “hiperpublicismo” danoso, autoritário, à revelia dos verdadeiros interessados: as partes. Como resultado desse cenário, os poderes do juiz foram majorados de maneira excessiva e todos os atos processuais relevantes passaram a ser voltados tão somente à figura judicial8.

3 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018. p. 21.

4 LUCCA, Rodrigo Remina. Liberdade, autonomia e convenções processuais. In: CABRAL, Antônio do Passo;

NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 1. 4. ed.

Salvador: JusPodivm, 2020. p. 21.

5 FARIA, Guilherme Henrique Lage. Negócios processuais no modelo constitucional de processo. 2. ed.

Salvador: JusPodivm M, 2019. p. 36.

6 LUCCA, Rodrigo Remina. Liberdade, autonomia e convenções processuais. In: CABRAL, Antônio do Passo;

NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 1. 4. ed.

Salvador: JusPodivm, 2020. p. 21- 22.

7 CARNELUTTI, Francesco. Sistema del Diritto Processuale Civile. v. 1. Padova: CEDAM, 1936. p. 233.

8 LUCCA, Rodrigo Remina. Liberdade, autonomia e convenções processuais. In: CABRAL, Antônio do Passo;

NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 1. 4. ed.

Salvador: J JusPodivm, 2020. p. 24.

(18)

A despeito dessa majoração do poder concedida ao Judiciário, leciona Rodrigo Ramina de Lucca:

O processo civil deixou de ser concebido como um instrumento de realização dos poderes do jurisdicionado e de efetivação do direito positivo, e passou a ser concebido como um instrumento do próprio Estado para realizar as suas políticas públicas.

Partiu-se dos corretos pressupostos de que o exercício jurisdicional é um fenômeno que importa a toda a sociedade e que serve à realização do direito objetivo, mas com a perniciosa consequência de reduzir a posição dos demais sujeitos processuais. O processo, de “coisa das partes”, transformou-se em “coisa do Estado”.9

A conjuntura calcada na predominância do publicismo sobre o privatismo se alterou apenas no final do século XX, momento em que o tema dos acordos processuais angariou novos rumos. Segundo Antônio do Passo Cabral “embora com abordagem diversa da alemã, foi na experiência dos tribunais franceses que os acordos processuais encontraram terreno fértil para prosperar”10.

Assim, foi na jurisprudência e na prática contratual do final do último século que o instituto das convenções processuais tem sido reinventado. É interessante notar que, tanto nos países com viés publicista voltados ao juiz ou naqueles mais focados na atividade das partes, a dedicação ao estudo do tema não ocorreu senão há poucos anos11.

Atendo-se o presente trabalho, todavia, aos negócios jurídicos processuais à luz do processo civil brasileiro, impende dar atenção à sua contextualização histórica no sistema jurídico pátrio.

2.2 OS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS NO CONTEXTO BRASILEIRO E O NOVO PARADIGMA INSTRUÍDO PELO CPC/2015

A legislação processual brasileira, em que pese tenha suas bases pautadas no sistema liberal, sofreu a influência europeia de instituição do publicismo, contribuindo para o protagonismo judicial no processo12. Em razão disso, tradicionalmente, a doutrina sempre se mostrou aversa na admissão dos negócios processuais, valendo-se, para tanto, de diversas justificativas: a existência apena de normas cogentes no processo; a fonte da regra processual

9 LUCCA, Rodrigo Remina. Liberdade, autonomia e convenções processuais. In: CABRAL, Antônio do Passo;

NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 1. 4. ed.

Salvador: JusPodivm, 2020. p. 24.

10 CABRAL, Antônio do Passo. Convenções Processuais. Salvador: JusPovm, 2016. p. 116.

11 CABRAL, Antônio do Passo. Convenções Processuais. Salvador: : JusPodivm, 2016. p. 127.

12 CUNHA, Leonardo Carneiro. Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro. In. CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2020, p. 52.

(19)

seria só a norma legislada; qualquer negócio necessitaria das prerrogativas judiciais; e, inexistência de espaço para os atos consensuais ou convencionalidade do direito público13.

O cenário se modifica com o pensamento precursor de José Carlos Barbosa Moreira, em obra publicada em 1984, na qual dedica um capítulo exclusivo para as “convenções das partes sobre matéria processual”. Em suas conclusões sobre o tema, o jurista ensina:

A vontade das partes pode ordenar-se a influir no modo de ser do processo, no conteúdo da relação processual, como acontece na eleição de foro, nas convenções sobre distribuição do ônus da prova, sobre suspensão do feito, sobre prorrogação de prazo, sobre adiamento da audiência: fala-se então, segundo a terminologia tedesca, em […] expressão que traduziremos por efeitos dispositivos. Mas também se concebe que as partes queiram apenas criar, para uma delas ou para ambas, a obrigação de assumir determinado comportamento, de praticar ou deixar de praticar certo ato processual (não recorrer, desistir de recurso interposto, não executar a sentença, desistir da ação de execução etc.): os autores de língua alemã usam aqui a denominação […] traduzível por efeitos obrigatórios14.

No âmbito legislativo, por sua vez, as primeiras autorizações que se enquadram ao conceito de negócio jurídico processual podem ser referenciadas no Regulamento n.

737/185015. Do mesmo modo, podem ser encontrados no Código de Processo Civil de 1973 alguns resquícios daquilo que se chama de negociação processual16.

A despeito da presença dos negócios jurídicos processuais típicos no Código de Processo Civil de 197317, o autor Leonardo Carneiro da Cunha elenca, dentre outros, os seguintes exemplos: acordo de eleição de foro (artigo 111); prorrogação da competência territorial por inércia do réu (artigo 114); desistência do recurso (artigos 158 e 500, III);

convenções sobre prazos dilatórios (artigo 181); convenção para suspensão do processo (artigos 265, II e 792); convenção sobre a distribuição do ônus da prova (artigo 333, parágrafo único);

renúncia ao direito de recorrer (artigo 502); desistência da execução ou das medidas executivas (artigo 569); acordo de partilha (artigo 1.031)18.

13 FARIA, Guilherme Henrique Lage. Negócios processuais no modelo constitucional de processo. 2. ed.

Salvador: JusPodivm, 2019, p. 47.

14 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Temas de Direito Processual: Convenções das partes sobre matéria processual. Terceira série. São Paulo: Saraiva, 1984, p. 97.

15 Que determina a ordem do juízo no processo comercial estendido às causas cíveis por força do Decreto n.

763/1890.

16 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018, p. 32.

17 Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 1973. [acesso em 2021 Ago. 30]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5869impressao.htm.

18 CUNHA, Leonardo Carneiro. Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro. In. CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2020, p. 60-61.

(20)

Ainda assim, muito embora o Código de Processo Civil de 1973 tivesse previsão expressa, nos termos do artigo 15819, no sentido de atribuir efeitos jurídicos imediatos aos atos das partes em suas declarações unilaterais e bilaterais de vontade, a doutrina nacional não desenvolveu estudo que sedimentasse e aprofundasse o tema da negociação típica e atípica20.

Antes mesmo da aprovação do Código de Processo Civil de 2015, foram diversos os doutrinadores que se posicionaram de forma adversa à existência e permissão dos negócios jurídicos processuais, entre eles: Cândido Rangel Dinamarco, Alexandre Freitas Câmara e Vicente Greco Filho – posicionamentos que, com a vigência do Código de Processo Civil de 2015, foram revisitados e atualizados21.

Cândido Rangel Dinamarco, anteriormente à vigência do Código de Processo Civil, ao se posicionar pela inexistência dos negócios processuais, menciona:

É forte a doutrina, na negativa da existência de negócios jurídicos processuais. Incluir- se-iam nessa categoria os acordos quanto à competência, os direcionados à modificação da distribuição do ônus da prova (CPC, art. 333, par.) ou mesmo a convenção arbitral (lei n. 9.307, de 23.9.96 – Lei da Arbitragem – art. 3º e art. 19, par.)? Deve prevalecer a resposta negativa, porque o processo em si mesmo não é um contrato ou negócio jurídico (supra, n. 387) e em seu âmbito inexiste o primado da autonomia da vontade: a lei permite a alteração de certos comandos jurídicos por ato voluntário das partes, mas não lhes deixa margem para o auto-regramento que é inerente aos negócios jurídicos. A escolha voluntária não vai além de se direcionar em um sentido ou em outro, sem liberdade para construir o conteúdo específico de cada um dos atos realizados.22

Por seu turno, em posição favorável, Pontes de Miranda reconhece a existência de negócios processuais sobre a desistência da ação ou do recurso, o de não utilizar o rito especial, ou de não usufruir da prerrogativa do processo executivo, o de não admitir prova documental, ou alguma outra, em certos casos23. Em consonância com o mesmo pensamento, destacam-se as doutrinas desenvolvida nos trabalhos de Fredie Didier Júnior., Paula Sarno Braga, Pedro Henrique Pedrosa Nogueira, Antônio do Passo Cabral, Laonardo Carneiro da Cunha, entre outros que serão citados no transcorrer deste trabalho.

19Art. 158. Os atos das partes, consistentes em declarações unilaterais ou bilaterais de vontade, produzem imediatamente a constituição, a modificação ou a extinção de direitos processuais. (Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 1973. [acesso em 2021 Ago. 30]. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l586).

20 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018, p. 33.

21 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018, p. 35-36.

22 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2004, v. II, p. 472.

23 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários ao Código de Processo Civil. Rio de Janeiro:

Forense, 1974, t. 3, p. 5.

(21)

A ideia do modelo cooperativo de processo e os estudos mais recentes acerca dos negócios processuais foram fortalecidos com a constitucionalização do direito, a consolidação da ideia de que princípio é norma e com a adoção de técnica legislativa de uso de termos indeterminados e de cláusulas gerais. Ao lado disso, a imagem do Estado Democrático de Direito se solidificou, exigindo a participação dos sujeitos que estão submetidos às decisões a serem tomadas acerca de situações que lhes digam respeito24.

Nesse cenário, a doutrina passou a defender a participação dos sujeitos processuais, inclusive das partes, na edificação da decisão dos casos que são colocados ao crivo judicial para que sejam solucionados. Alicerçou-se, dessa maneira, a ideia de que o Estado democrático não se satisfaz com a ocorrência de atos repentinos de qualquer de seus órgãos, sobretudo daqueles destinados à aplicação do direito. Nas palavras de Leonardo Carneiro da Cunha “[...] a efetiva participação dos sujeitos processuais é medida que consagra o princípio democrático inspirador da Constituição de 1988, cujos fundamentos são vetores hermenêuticos para aplicação das normas jurídicas”25.

Seguindo o caminho proposto pelos ditames constitucionais, o Código de Processo Civil de 2015 inaugura um modelo cooperativo de processo, mediante a valorização da vontade das partes e equilíbrio nas funções de cada sujeito processual. Com efeito, “todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva” (artigo 6º); “é assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório” (artigo 7º); “ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência” (artigo 8º); “não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida” (artigo 9º); e, finalmente “o juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício” (artigo 10)26.

24 CUNHA, Leonardo Carneiro. Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro. In. CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2020, p. 61.

25 CUNHA, Leonardo Carneiro. Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro. In. CABRAL, Antônio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (Coord). Coleção grandes temas do novo CPC: negócios processuais. v. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2020, p. 61-62.

26 Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 2015. [acesso em 2021 Ago. 30]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm.

(22)

Diante desse novo paradigma, introduzido primordialmente pelo espírito do Estado Democrático de Direito, o Código de Processo Civil prevê expressamente a adoção do negócios jurídicos processuais em seu artigo 19027. Ainda, entre as grandes novidades, apresenta a possibilidade do calendário processual, segundo dispõe o artigo 19128. Ambos os dispositivos serão abordados no presente trabalho.

Feitas essas breves digressões históricas, passa-se a discorrer sobre o panorama dos direitos fundamentais relacionados ao direito processual, sobretudo os que servem de arcabouço teórico para os negócios jurídicos processuais.

2.3 PANORÂMA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS RELACIONADOS AOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS

Como visto, a consolidação da ideia de negociação processual, na realidade brasileira, advém sobretudo da difusão do Estado Democrático de Direito, na medida em que se passa a valorizar a vontade das partes. Antes desse advento, conforme ilustrado, o instituto não tinha seus termos pacificados na doutrina pátria, existindo, inclusive, negações à sua existência no ordenamento jurídico.

Diante desse cenário pautado na democracia, as posições extremas, no sentido de favorecer as premissas privatistas ou publicistas do processo, não encontrariam respaldo e seriam facilmente repudiadas. Consequentemente, o reconhecimento dos limites com a garantia de liberdade do indivíduo frente ao Estado deram azo aos princípios democráticos de direito, presentes na Constituição Federal, os quais configuram limites ao exercício do poder29.

O Código de Processo Civil de 2015, por sua parte, nas palavras de Humberto Theodoro Júnior:

27 Art.190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo. Parágrafo único. De ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das convenções previstas neste artigo, recusando-lhes aplicação somente nos casos de nulidade ou de inserção abusiva em contrato de adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade. (Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 2015. [acesso em 2021 Ago. 31]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2015/lei/l13105.htm).

28 Art. 191. De comum acordo, o juiz e as partes podem fixar calendário para a prática dos atos processuais, quando for o caso.§ 1º O calendário vincula as partes e o juiz, e os prazos nele previstos somente serão modificados em casos excepcionais, devidamente justificados. § 2º Dispensa-se a intimação das partes para a prática de ato processual ou a realização de audiência cujas datas tiverem sido designadas no calendário. (Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 2015. [acesso em 2021 Ago 31]. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm).

29 FARIA, Guilherme Henrique Lage. Negócios processuais no modelo constitucional de processo. 2. ed.

Salvador: J JusPodivm, 2019. p. 204.

(23)

O Novo CPC acha-se estruturado e aparelhado para cumprir a missão de um processo justo capaz de realizar a tutela efetiva dos direitos materiais ameaçados ou lesados, sem apego ao formalismo anacrônico e de acordo com os princípios constitucionais democráticos que regem e asseguram o pleno acesso de todos ao Poder Judiciário.30

Eis o chamado “modelo constitucional de processo civil” que, segundo Alexandre Freitas Câmara, é a expressão que indica o conjunto de princípios constitucionais que disciplinam o processo civil que se desenvolve no Brasil. Como norte desse panorama constitucional de processo, destaca-se, inicialmente, o princípio do devido processo legal31.

Assim, segundo a analogia feita por Lara Dourado Mapurunga Pereira, a noção do devido processo legal pode ser equiparada à figura de um guarda-chuva, que abarca sob o seu manto todos os processos comandados na luz do Estado. É com base no devido processo legal que sobrevêm os demais princípios:

Constitucionalmente, pode-se listar o juiz natural (art. 5º, LIII), o contraditório e ampla defesa (art. 5º, LV), a inafastabilidade da jurisdição (art. 5º, XXXV), a inadmissibilidade das provas ilícitas (art. 5º, LVI), a publicidade (art. 5º LX), a motivação das decisões judiciais (art. 93, IX) e a razoável duração do processo (art.

5º, LXXXVIII). Todas essas normas estão também previstas no CPC, podendo se juntar a elas, ainda, o incentivo a solução consensual de conflitos (art. 3º), a primazia da decisão de mérito, a efetividade (art. 4º), a cooperação (art. 6º), a boa-fé (art. 5º), a paridade de tratamento das partes (art. 7º), a eficiência e o autorregramento da vontade (esse último, de forma implícita).

No que concerne aos negócios jurídicos processuais, todos os princípios citados se mostram de suma importância. Porém, no âmbito que se restringe esta pesquisa, dar-se-á maior ênfase à liberdade concedida às partes pela norma constitucional e, posteriormente, pretende- se apresentar os fundamentos e conceitos relevantes ao princípio da razoável duração do processo - o qual, por sua vez, está interligado ao princípio da eficiência.

2.3.1 O princípio constitucional da liberdade como fundamento aos negócios jurídicos processuais

A Constituição Federal, já no caput do art. 5º, assegura a todos, sem distinção de qualquer natureza, o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade32.

Já no preâmbulo do texto constitucional, consagra-se como um dos objetivos do Estado Democrático brasileiro assegurar a liberdade. Em que pese se discuta a essência normativa do

30 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil - Teoria geral do direito processual civil, processo de conhecimento e procedimento comum. 56. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 62.

31 Princípio que, segundo menciona Alexandre Freitas Câmara, deveria ser chamado de “devido processo constitucional”.

32 Constituição da República Federativa do Brasil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 1988.

[acesso em 2021 Ago. 31]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.

(24)

preâmbulo, há de se notar a importância que se reveste, mormente quanto à aplicação e interpretação do direito constitucional33. Daí o motivo de, ao elencar a liberdade ente os objetivos do Estado brasileiro, o legislador confere grande importância a este princípio na esfera constitucional.

Nas palavras de José Afonso da Silva “o conceito de liberdade humana deve ser expresso no sentido de um poder de atuação do homem em busca de sua realização pessoal, de sua felicidade”34. Sobre a liberdade, o autor ainda destaca:

[...] é poder de atuação sem deixar de ser resistência à opressão; não se dirige contra, mas em busca, em perseguição de alguma coisa, que é a felicidade pessoal, que é subjetiva e circunstancial, pondo a liberdade, pelo seu fim, em harmonia com a consciência de cada um, com o interesse do agente. Tudo que impedir aquela possibilidade de coordenação dos meios é contrário à liberdade. E aqui, aquele sentido histórico de liberdade se insere na sua acepção jurídico-positiva. Assim, por exemplo, deixar o povo na ignorância, na falta de escola, é negar-lhe a possibilidade de coordenação consciente daqueles meios; oprimir o homem, o povo, é retirar-lhe daquele possibilidade etc. Desse modo, também, na medida em que se desenvolve o conhecimento, se fornecem informações ao povo, mais se amplia a sua liberdade com abrir maiores possibilidades de coordenação de meios necessários à expansão da personalidade de cada um.35

Para Ana Paula de Barcellos, a liberdade, em sua forma global, pode ser retratada como o status fundamental pelo qual cada indivíduo se encontra livre para agir como melhor lhe convém. Portanto, a liberdade está relacionada com a autonomia individual, ou seja, com a faculdade de definir seus próprios projetos de vida e segui-los e, nessa perspectiva, conecta-se com a dignidade pessoal36.

Na concepção de Ferreira Filho, o princípio da liberdade “significa que o ser humano pode assumir a conduta que quiser, bem como não está obrigado a nada, salvo determinação legítima do poder político, expresso pelo instrumento que é a lei”37.

Ao transportar essa lógica constitucional no âmbito do direito processual civil, convém destacar que o direito fundamental à liberdade não é vislumbrado tão somente como proteção contra o Estado, mas deve ser também observado como direito a procedimentos que asseguram a própria liberdade38.

33 RODRIGUES, Luiza Silva. Embargos de divergência: o cumprimento da função precípuo dos tribunais superiores. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, 2017, p. 36

34 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 40. ed. São Paulo: Malheiros, 2017, p. 235.

35 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 40. ed. São Paulo: Malheiros, 2017, p. 235.

36 BARCELLOS, Ana Paula de. Curso de Direito Constitucional. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020, p. 213.

37 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. 41. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020, p. 245.

38 MEDINA, José Miguel Garcia. Curso de direito processual civil moderno. 5. ed. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2020, p. 41.

(25)

Com efeito, no intuito de tornar o processo jurisdicional um espaço propício para o exercício da liberdade, advém o princípio do respeito ao autorregramento da vontade das partes, que será tratado mais detalhadamente em capítulo posterior, porém, apenas para que se tenha uma noção geral, destaca-se o ensinamento de Fredie Didier Júnior, no sentido de que o princípio, em suma, visa “à obtenção de um ambiente processual em que o direito fundamental de autorregular-se possa ser exercido pelas partes sem restrições irrazoáveis ou injustificadas39. Assim, o princípio da liberdade é um dos fundamentos constitucionais que lastreiam, no processo civil brasileiro, a possibilidade da negociação processual. A previsão constitucional da liberdade não esgota o arcabouço que desse direito constitucional se pode extrair, motivo pelo qual a referência à liberdade no caput do artigo 5º da Carta Magna funciona como “uma cláusula de abertura material, um verdadeiro parâmetro para a identificação de outras cláusulas específicas atípicas”40.

Por esse norte, os negócios jurídicos processuais são ponderados como verdadeiros instrumentos de fortalecimento e tutela da autonomia privada no âmbito do direito processual, sendo obrigação do Estado observar a autonomia das partes, tanto no exercício do direito de ação, como nas matérias de defesa e no próprio procedimento41.

Destaca-se que o modelo cooperativo de processo é caracterizado justamente para articular os papéis processuais das partes e do juiz, com o intuito de harmonizar a tensão existente entre a liberdade individual e o exercício do poder pelo Estado42.

Desse modo, a minimização da autonomia privada e da liberdade das partes no curso do processo culminaria em clara violação ao princípio do devido processo legal, criando um processo jurisdicional à revelia da liberdade. Visto isso, é necessário pensar em um processo que siga um equilíbrio entre a feição publicista e privatista.

2.3.2 Razoável duração e eficiência do processo: a problemática que envolve o sistema jurídico brasileiro

O princípio da razoável duração do processo, também denominado princípio da celeridade processual, detém de status constitucional, podendo ser abstraído dos princípios do

39 DIDIER JÚNIOR, Fredie. Ensaios sobre negócios jurídicos processuais, Salvador: JusPodivm, 2018, p. 20.

40 BARREIROS, Lorena Miranda Santos. Convenções processuais e poder público. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 185.

41 COLOMBO, Juliana. Negócios Jurídicos Processuais na Perspectiva dos Direitos Fundamentais das Partes:

principiologia, fundamentos e aplicação da tutela executiva stricto sensu. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2018, p. 52.

42 DIDIER JÚNIOR., Fredie. Curso de direito processual civil. 17. ed. Salvador: JusPodivm, 2015, p. 133.

(26)

devido processo legal e do acesso à justiça43. Este direito, no entanto, só foi positivado pela Constituição Federal com a Emenda Constitucional n. 45 de 2004, estabelecendo-se, desde então, no artigo 5º, inciso LXXVIII que “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantem a celeridade de sua tramitação”44.

O mesmo princípio se faz presente na norma infraconstitucional, conforme disposto no artigo 4º do Código de Processo Civil, o qual menciona que “as partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa”45. Logo em seguida, o diploma processual prevê em seu artigo 6º “todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva”46.

A duração razoável do processo, isto é, a obrigatoriedade de que os processos sejam julgados em tempo hábil, fora positivada em nosso ordenamento, mormente, em virtude da excessiva demora dos julgadores em proferir suas decisões, ou seja, da incapacidade do Estado- Juiz pôr fim aos conflitos sociais e à demandas e eles levadas em tempo propício47.

Para que o direito à razoável duração do processo se concretize, faz-se necessário que os sujeitos do processo cumpram com as suas obrigações processuais, respeitando os prazos legais e, ademais, devem agir de forma cooperativa no inter processual48.

Por sua vez, é cediço que a celeridade processual está diretamente atrelada ao princípio da eficiência, pois, sem efetividade, no que tange ao resultado processual cotejado com o direito material ofendido, não se pode imaginar um processo justo. Insta ponderar que, segundo ensina Daniel Mitidiero “[...] é evidente que a tutela efetiva não é sinônimo tão-somente de tutela prestada rapidamente: agora, seguramente não é efetiva a tutela a destempo”49.

Do mesmo modo, com base nas conclusões de Humberto Theodoro Júnior, isso significa que, não sendo célere a resposta do juízo para a pacificação do litígio, a tutela jurisdicional não se faz efetiva. Ainda que se reconheça e proteja o direito violado, a longa espera do titular pelo

43 DOS SANTOS, Eduardo Rodrigues. Princípios processuais constitucionais. Salvador: JusPodivm, 2016, p.

181-182.

44 Constituição da República Federativa do Brasil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 1988.

[acesso em 2021 Set. 1]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.

45 Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 2015. [acesso em 2021 Set. 1]. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm.

46 Código de Processo Civil (Brasil). [Internet]. Brasília, DF: Presidência da República; 2015. [acesso em 2021 Set. 01]. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm

47 DOS SANTOS, Eduardo Rodrigues. Princípios processuais constitucionais. Salvador: JusPodivm, 2016, p.

182.

48 DOS SANTOS, Eduardo Rodrigues. Princípios processuais constitucionais. Salvador: JusPodivm, 2016, p.

182.

49 MITIDIERO, Daniel. Processo civil e estado constitucional. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007, p. 92.

(27)

provimento judicial, sem razão plausível, somente pode ser observado como uma “grande injustiça”50.

Nesse sentido, de acordo com o ideário de José Carlos Barbosa Moreira, o processo deve contar com as seguintes características:

a) o processo deve dispor de instrumentos de tutela adequados, na medida do possível, a todos os direitos (e outras posições jurídicas de vantagem) contemplados no ordenamento, quer resultem de expressa previsão normativa, quer se possam inferir do sistema; b) esses instrumentos devem ser praticamente utilizáveis, ao menos em princípio, sejam quais forem os supostos titulares dos direitos (e das outras posições jurídicas de vantagem) de cuja preservação ou reintegração se cogita, inclusive, quando indeterminado ou indeterminável o círculo dos eventuais sujeitos; c) impende assegurar condições propícias à exata e completa reconstituição dos fatos relevantes, a fim de que o convencimento do julgador corresponda, tanto quando puder, à realidade; d) em toda a extensão da possibilidade prática, o resultado do processo há de ser tal que assegure à parte vitoriosa o gozo pleno da específica e utilidade a que faz jus segundo o ordenamento; e) cumpre que se possa atingir semelhante resultado com o mínimo dispêndio de tempo e energias.51

Por esse motivo, infere-se que a morosidade processual deve ser combatida pelo Estado e que, de fato, é um dever fundamental assegurar a todos os jurisdicionados uma duração razoável do processo e um esforço efetivo a fim de garantir a celeridade da respectiva tramitação52.

No entanto, em que pese ser direito consagrado na ordem jurídica constitucional e infraconstitucional, é notório que o processo brasileiro é bastante moroso, o que não só prejudica o direito das partes, como enfraquece politicamente o Estado53.

Ao tratar sobre a morosidade do Estado em julgar os processos, Eduardo Rodrigues dos Santos pontua um conjunto de fatores que contribuem para a ocorrência do impasse, entre os quais, destaca-se:

i) a péssima estrutura da Administração Pública, principalmente do Poder Judiciário;

ii) a insuficiência de servidores e a péssima qualificação dos que existem; iii) a resistência a tecnologia (informatização do processo, que caminha a passos de tartaruga, por exemplo) e o apego ao papel; iv) a falta de punição para os magistrados, julgadores e servidores em geral pela desídia e falta de compromisso com seus deveres, de modo que, não e raro ver juízes que demoram mais de ano(s) para sentenciar um processo que já está com os autos conclusos, dando infinitos despachos procrastinatórios; v) o desrespeito dos juízes para com os precedentes e a jurisprudência dos Tribunais Superiores, bem como os decisionismos, pautados nas concepções pessoais dos magistrados e não nas leis democraticamente instituídas; vi) o péssimo comportamento das partes e de seus advogados, que muitas das vezes, esperando uma decisão contraria a seus interesses, agem com má-fé no sentido de

50 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil - Teoria geral do direito processual civil, processo de conhecimento e procedimento comum. 56. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 94.

51 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Notas sobre o problema da efetividade. Temas de Direito Processual – 3ª Série. São Paulo: Saraiva, 1984, p. 27-28.

52 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil - Teoria geral do direito processual civil, processo de conhecimento e procedimento comum. 56. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 94.

53 NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de direito processual civil. 9. ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 202.

(28)

procrastinar o máximo possível o processo, impetrando com petições descabidas e sem sentido, recursos inadmissíveis, tumultuando audiências, abandonando audiências etc.; vii) o demandismo que se alastrou pelo Brasil nas últimas décadas, pautado numa falsa esperança de que o Poder Judiciário poderia resolver todas as mazelas da sociedade, ou ainda, num animus beligerante ao invés de um animus de pacificação social, muitas vezes incentivado pela mídia, outras vezes incentivado por alguns péssimos advogados, sedentos por ganhar em qualquer causa, mesmo que não haja uma.54

Apenas para se ter um parâmetro, destaca-se que, segundo os últimos dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em análise do tempo médio de tramitação dos processos, em 2019, apenas no Tribunal de Justiça de Santa Catarina, o tempo médio de tramitação dos processos pendentes corresponde a longos cinco anos e dois meses55. Em 2020, os dados revelam que essa média diminuiu para 3 anos e 11 meses56.

Os dados de 2020, de modo geral, revelam que:

[...] o tempo médio do acervo (processos pendentes) é maior que o tempo da baixa, com poucos casos de inversão desse resultado. As maiores faixas de duração estão concentradas no tempo do processo pendente, em específico na fase de execução da Justiça Federal (8 anos e 7 meses) e da Justiça Estadual (6 anos e 11 meses).57

Não se pode olvidar, ainda, que a problemática não envolve tão somente o Estado. A morosidade do Poder Judiciário, ao contrário do que de início possa parecer, pode muito bem interessar umas das partes em controvérsia. Cumpre perceber que existem pessoas, sejam elas naturais ou jurídicas, que violam sistematicamente o direito alheio, utilizando a demora da prestação jurisdicional como um incentivo a tal comportamento. Em virtude disso, de forma deliberada, sobrecarregam o Poder Judiciário com demandas de seu interesse, sem qualquer providências para impedir que tais violações ocorram58.

Assim, diante desse cenário, verifica-se uma crise dos sistemas de justiças em todo mundo, e não apenas no Brasil, onde é visível a perda de funcionalidade do sistema, em virtude do exponencial crescimento da litigiosidade, da grande taxa de congestionamento e da morosidade na solução das demandas. Tudo isso, tem levado ao questionamento quanto à

54 DOS SANTOS, Eduardo Rodrigues. Princípios processuais constitucionais. Salvador: JusPodivm, 2016, p.

183.

55 JUSTIÇA EM NÚMEROS, 2020: ano-base 2019. Conselho Nacional de Justiça. Brasília: CNJ, 2020. [Acesso em 2021 Mai. 3]. Disponível em https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2020/08/WEB-V3-Justi%C3%A7a- em-N%C3%BAmeros-2020-atualizado-em-25-08-2020.pdf, p. 183.

56 JUSTIÇA EM NÚMEROS, 2021: ano-base 2020. Conselho Nacional de Justiça. Brasília: CNJ [Acesso em 2021 Out. 24]. Disponível em https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2021/10/relatorio-justica-em- numeros2021-081021.pdf, p. 205.

57 JUSTIÇA EM NÚMEROS, 2021: ano-base 2020. Conselho Nacional de Justiça. Brasília: CNJ [Acesso em 2021 Out. 24]. Disponível em https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2021/10/relatorio-justica-em- numeros2021-081021.pdf,, p. 200.

58 ALMEIDA, João Alberto; BRITO, Thiago Carlos de Souza. Tempo, duração razoável e celeridade do processo: ensaios sobre mitos e o tempo necessário para o julgamento. In. MOTTA, Carlos Alberto. Processo civil contemporâneo: homenagem aos 80 anos do professor Humberto Theodoro Júnior. Rio de Janeiro: Forense, 2018, p. 150.

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