Os fundamentos mais recentes que determinaram o traçar dos existentes elementos geopolíticos e geoestratégicos caracterizadores do actual sistema mundial decorrem de três acontecimentos que marcaram o período dos últimos dezassete anos: o fim da Guerra Fria, os ataques do onze de Setembro e as duas expedições lideradas pela superpotência contra o Iraque com a missão de depor o respectivo regime despótico. Estes eventos produziram profundas mutações em todo o ambiente internacional e
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levaram ao aparecimento de importantes alterações na estrutura e configuração das fontes do poder ao nível global.
A conjugação de duas ameaças entretanto surgidas, o terrorismo à escala planetária e a proliferação de armas de destruição massiva, geraram novos actores especialistas em acções assimétricas que não hesitam em desafiar a dimensão politico- militar dos Estados, confrontando estes com novos riscos que obrigam a alterar as regras de comportamento estratégico, a reequacionar doutrinas e dispositivos de segurança e de defesa nacionais e ao repensar dos sistemas de segurança colectiva, por se verificar que os riscos e ameaças não são oriundos apenas das ambições dos governos mas também de outros actores não estaduais. Esta constatação veio forçar a reanálise de conceitos anteriores face às mudanças entretanto operadas e à adopção de estratégias e procedimentos inovadores para lhes fazer frente, nomeadamente porque a dissuasão nem sempre resulta na maioria dos casos e ainda por o novo e difuso adversário poder atacar inopinadamente, essencialmente porque os preparativos da agressão deixaram de denunciar o atacante e o seu perfil de ataque226.
Como o comprova a leitura e a interpretação dos acontecimentos ocorridos nos últimos dois decénios, a lenta cedência de parcelas de soberania e de poder que o Estado tradicional tem sido obrigado a conceder face às contingências da globalização deve-se em grande parte à emergência e à acção de novos actores das relações internacionais considerados como secundários, de que constituem exemplos as organizações e instituições internacionais, as centrais partidárias, os movimentos políticos transnacionais e as grandes empresas multinacionais. Com o adensar da conjuntura emergiu entretanto e em paralelo o reverso negativo dos processos globalizantes que têm vindo a condicionar a normal manobra política e de projecção geoestratégica dos estados, avultando a acção permanente e insidiosa dos cartéis criminosos e do terrorismo de cariz violento e indiscriminado articulado em rede e em íntima correspondência com as centrais do crime organizado, a par da proliferação armamentista em que é notório o descontrolo sobre a detenção das armas de destruição massiva, mormente em Estados anteriormente territórios da URSS227.
São problemas que afectam toda a humanidade e contra os quais o Estado actual, enquanto tal e actuando isoladamente, não dispõe de adequadas capacidades de
226 Cfr. Marwan Bishara, «A Era dos Conflitos Assimétricos», in Le Monde Diplomatique, N.º 571, Outubro
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resposta, por a ameaça se apresentar como latente e de fraca visibilidade, não se manifestar segundo as normais regras dos conflitos inter-estaduais e se plasmar dentro dos novos desafios de ordem global que as unidades políticas têm de enfrentar. Na procura da resolução de tal desiderato os países têm recorrido a acordos de cooperação, a coligações de “boa vontade”, a tratados específicos multilaterais e a modalidades de união sob a forma de Grandes Espaços como a União Europeia, a Aliança Atlântica ou o Mercosul228.
Por seu turno e em conjugação com a introdução de novas tecnologias, a globalização tem desenvolvido e formatado complexos sistemas de relações que transformaram o sistema mundial, proporcionando o desenvolvimento de maiores capacidades nas áreas da defesa; mas também tem originado, pelos “espaços vazios” entretanto criados, oportunidades de alto risco pelos interstícios dos quais adversários mais versáteis e flexíveis conseguem penetrar e ganhar acesso a informação crítica de grande sensibilidade quanto aos padrões militares de segurança, destarte ampliando as suas ligações em rede disseminadas pelo mundo. Esta bivalência parece constituir um paradoxo, como já enunciado, pois quanto mais globalizado se encontrar um dado país mais vulnerabilidades parece apresentar face ao terrorismo transnacional, dada a capacidade deste em poder movimentar-se em todas as direcções possibilitando-lhe planear em permanência ataques contra alvos compensadores onde exista densa circulação de pessoas, produtos e de capitais, ao mesmo tempo que as novas tecnologias de informação e de comunicação lhes asseguram acurada Intelligence, amplo conhecimento, considerável cobertura mediática e o impacto visual e chocante que objectivam.
Uma outra tendência resultante da marcha da globalização materializa-se nos consideráveis fluxos de informação que atingem todas as comunidades, o que veio contribuir para o agravar de sentimentos de injustiça por parte de cidadãos dos países que são marginalizados e deixados de fora das promessas e esperanças de possíveis benefícios e fomentar o alargar da fractura civilizacional ao promover a reprodução das sementes nocivas do campo ideológico fundamentalista de que o terrorismo se alimenta. Da análise dos estudos de situação, constata-se que as condições mais propícias à proliferação desta multifacetada ameaça à escala planetária se situa nos países de configuração populacional multicultural onde exista discriminação social ou religiosa,
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fracturas de classes, baixa literacia e uma amálgama explosiva de grupos étnicos divididos por antagonismos históricos, factores e situações que funcionam como catalisadores para o estabelecimento de áreas de aliciamento e de recrutamento de elementos marginais radicais facilmente transformáveis em terroristas.
Na busca interpretativa desta perturbadora realidade têm surgido modelos de estudo e de análise que procuram de forma racional isolar e conter o fenómeno pela introdução de múltiplas variáveis que permitam determinar a sua influência nos presentes factores geopolíticos e geoestratégicos.
Nesta conjuntura de múltiplos contornos e de acordo com os dados mais actualizados, sobressai como proeminente a importância da Eurásia e a existência de uma Tríade Geoestratégica no interior da qual se identificam dois triangulos euroasiáticos englobando as quatro maiores potências em estreita associação com o espaço económico europeu: o primeiro integrando o triângulo Estados Unidos, Rússia e a União Europeia e o segundo incluindo os Estados Unidos, a China e o Japão229. Ainda dentro das condições que definem a actual hegemonia dos Estados Unidos e em sintonia com o pensamento expresso, verifica-se a existência de actores geoestratégicos considerados como mais preponderantes e determinantes, materializados naqueles Estados que detêm a capacidade e a vontade nacional para exercer poder ou influência para além das suas fronteiras com o objectivo de alterar em elevado grau o actual estado de relações e de posicionamentos geopolíticos. Em estreita correlação com estes situam- se os denominados pivôs geopolíticos, aqueles estados cuja importância advém, não tanto do seu poder e motivação mas antes do seu posicionamento geográfico em regiões sensíveis e das consequências da sua condição de potencial vulnerabilidade face ao comportamento de outros actores de alcance intercontinental230. Muitos destes tentam tirar partido da geografia por esta lhes conferir uma posição específica e determinante ao condicionar o acesso a áreas de grande valor geopolítico, ou por negar recursos específicos considerados vitais a um actor importante231.
Nesta aproximação obrigatoriamente restrita aos novos intervenientes que têm vindo a influenciar o comportamento dos principais actores das relações internacionais e com isso a provocar por todo o planeta a alteração dos dados geoestratégicos, o âmbito
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Zbigniew Brzezinski, The Geostrategic Triad, Center for Strategic and International Studies, Washington D.C., 2001.
230 Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard, Basic Books, New York, pp. 40-41. 231
Estados que poderão sempre exercer um poder funcional específico como o Panamá, Azerbeijão, Turquia, Venezuela e o Irão, entre outros.
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da investigação inclui necessariamente o impacto provocado pelas ameaças transnacionais não tradicionais, numa conjuntura conflitual de forçada convivência contra natura com os outros principais e tradicionais actores anteriormente analisados.